Mostrar mensagens com a etiqueta crime. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crime. Mostrar todas as mensagens

23 de novembro de 2014

Encontro em Bagdad / A Ratoeira


Autor: Agatha Christie
Género:
Policial
Idioma: Português

Páginas: 338
Editora:
Livros do Brasil

Colecção: Vampiro Gigante
Ano:
1982
ISBN: 978-972-3803549
Título original: They came to Bagdad / The mousetrap
---

Alguns anos da minha adolescência foram passados a ler Agatha Christie, na altura editada pela Livros do Brasil na colecção Vampiro Gigante.

Passadas tantas décadas, a Dama do Crime continua a reinar. Os seus livros têm reedições frequentes, adaptações televisivas e teatrais e até videojogos. As obras da inglesa são intemporais, valem por si só e são um prazer de (re)encontrar. É muito raro eu reler seja o que for, mas abro uma excepção para a galeria de personagens de Agatha Christie (Poirot é o meu detective favorito).

Neste livro, a autora mostra como é versátil. Nenhuma das histórias tem os seus detectives de serviço mas mantêm a qualidade habitual.

Encontro em Bagdad é uma história de intriga internacional, centrada na jovem Victoria Jones, com tanto de imaginativa como de ingénua. Farta de ser uma estenógrafa medíocre (que lhe garante empregos a condizer com a qualidade do seu trabalho), viaja para um país desconhecido para seguir um rapaz com quem trocou meia dúzia de palavras um dia, no parque. Chegada ao Iraque, vê-se envolvida numa situação de vida e morte para o qual não está preparada e que envolve espiões e uma trama política elaborada.

A Ratoeira é um clássico whodunit, onde um grupo de estranhos está fechado num hotel durante uma tempestade, quando uma das hóspedes é assassinada. Esta história, adaptada ao teatro, está há 62 anos em cena; no final de cada espectáculo, é pedido ao público que não revele a identidade do assassino, mas qualquer fã que se preze sabe ao que vai. Uma história cheia de suspense onde o talento da escritora brilha alto.

Agatha Christie foi um portento, com as suas obras recriadas por inúmeros escritores. Não há maior elogio a um autor.

****
(bom)

22 de junho de 2014

Este país não é para velhos


Autor: Cormac McCarthy
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 220
Editora:
Impresa

Ano:
2010
ISBN:  978-972-792204-8
Título original: No country for old men
Tradução: Paulo Faria
---

Já tinha este livro na estante há alguns anos, quando saiu com a revistão Visão, há uns Verões idos. O preço foi de rir, absolutamente insano para a qualidade do livro, mas isso eu não sabia. Tive sorte em dose dupla, aliás, pois a minha estreia na escrita de Cormac McCarthy não podia ter sido melhor. Tenho de ler mais deste autor, é uma certeza.

Texas, 1980.
 

As notícias sobre tiroteios e cadáveres nas ruas tornaram-se habituais, o tráfico de droga é comum, um negócio maioritariamente dominado pelos mexicanos.

Durante uma caçada em Rio Grande, Llewelyn Moss, soldador e veterano da guerra do Vietname, depara-se com o cenário de um negócio de droga que correu mal. Para trás ficaram corpos mortos, muitos quilos de droga e 2 milhões de dólares.


Apesar de viver uma vida honesta, Moss não resiste: fica com o dinheiro. No entanto, a sua compaixão fá-lo cometer um erro que revela a sua identidade à escumalha traficante e não tarda a ter um grupo de pessoas nos calcanhares: a polícia, o cartel e um psicopata chamado Anton Chigurh, a personificação moderna do mal e um dos antagonistas mais arrepiantes de todos os livros que já li; perto dele, ou se está morto ou se está moribundo. Chigurh tem uma lógica distorcida e é implacável perante o objectivo. Mata naturalmente, sem remorso, sem emoção.

Na peúgada de ambos, encontra-se o xerife Ed Tom Bell, desgastado pela forma como a sociedade tem evoluído e como os valores tradicionais se têm perdido. Ultrapassado, é através dos seus monólogos que entendemos a inevitabilidade das coisas e o que acontece quando nos recusamos a reconhecer que o homem é a pior criatura à face da terra, persistindo numa ingenuidade forçada de que a decência prevalecerá.  

É esta trupe que acompanhamos ao longo de umas intensas 220 páginas, em que nos maravilhamos com a escrita experiente do autor. Tudo faz sentido, os diálogos sem travessões obrigam a uma leitura mais atenta e a um absorver mais impactante do que a personagem está a dizer. Há uma harmonia admirável na escrita de McCarthy, ainda mais meritória quando a acção está cheia de maldade e violência, descrita de uma forma tão talentosa que nunca soa sensacionalista nem acessória, no que considero ser uma tradução muito bem conseguida do excelente texto orginal.

Este país não é para velhos é um livro brutal: em qualidade, em textura, em personagens masculinas. Um thriller fantástico, com pitadas mestras de filosofia e gore.

«Na semana passada, lá na Califórnia, apanharam um casal que alugava quartos a idosos e depois matava-os e enterrava-os no quintal. (...) Os vizinhos foram alertados quando um homem fugiu de casa completamente despido, trazendo apenas uma coleira de cão ao pescoço. (...) Todo aquele berreiro e o casal a fazer buracos no quintal não pôs ninguém de sobreaviso.» 

A sua adaptação ao cinema pelos Coen é muito boa, mas prefiro o livro, apesar de tudo; as pessoas são mais autênticas e menos heróicas, mais próximas da realidade que da ficção; os Coen estiveram excelentes, mas McCarthy esteve ainda melhor.

*****
(muito bom)

11 de junho de 2014

Objectos Cortantes


Autor: Gillian Flynn
Género:
Policial
Idioma: Português

Páginas: 256
Editora:
Gótica
Colecção: Nocturnos
Ano:
2002
ISBN:  978-972-792204-8
Título original: Sharp Objects
---

Gillian Flynn é uma das minhas autoras favoritas. Li todos os seus livros (escreveu três, até agora), gostei muito de todos eles e reli recentemente o seu romance de estreia, vencedor de vários prémios, este Objectos Cortantes.

Gillian Flynn tem o condão de escrever sobre mulheres fortes e inteligentes, com tanto de perturbantes como de perturbadas. Coloca-as no centro da acção, a falar connosco e a fazer-nos sentir tudo o que estão a experienciar. Há sempre violência, manipulação e mentira.

Camille Preaker é uma jornalista num jornal diário de pouca visibilidade. Não sonha em ganhar o Pulitzer e sabe que faz o mínimo necessário. Quando o editor a manda investigar e fazer uma peça sobre o assassinato de duas raparigas em Wind Gap, a cidade onde Camille cresceu, ela tenta resistir, mas acaba por aceitar enfrentar os fantasmas que a assombram há anos: a morte prematura da irmã, a relação distante com a mãe, o passado de excessos e auto-abuso.

Em Wind Gap, revê ex-amigos, conhecidos e ex-colegas, mulheres com quem já nada tem em comum e homens que lhe piscam o olho evocando libertinagens passadas. Revê uma mãe fria, um padrasto inacessível e conhece uma meia irmã que vive uma vida dupla. No meio disto, acaba por se involver mais do que devia no caso das raparigas assassinadas e por ter algumas revelações traumáticas.

Gillian Flynn escreve de forma atenta e perspicaz e Camille é uma narradora sem papas na língua, cruel consigo mesma e com os outros. Não nos esconde nada nem é perfeita (nem o tenta parecer). As personagens são credíveis, algumas abomináveis, mas não conseguimos não querer saber. Há distúrbios psicológicos para todos os gostos e a história não se esquece com facilidade, tanto que já a li há anos mas ainda me lembrava dos traços de algumas personalidades.


Objectos Cortantes tem tudo o que um thriller deve ter (e mais uns pózinhos) e é impossível de largar.

Um livro muito bom, como todos os da autora, que também escreveu Em Parte Incerta e Lugares Escuros, ambos em vias de adaptação ao cinema.

*****
(muito bom)

13 de abril de 2014

Anúncio de um crime

Autor: Agatha Christie
Género:
Policial
Idioma: Português
Editora:
Edições Asa

Colecção: Obras de Agatha Christie
ISBN: 978-972-4129242
Título original: A murder is announced
---

Na gazeta da pacata localidade rural de Chipping Cleghorn, é publicado um curioso anúncio, entre as diversas vendas de cães, bijuteria e roupa usada.
 
Anuncia-se um assassinato, a ter lugar em Little Paddocks, sexta-feira 29 de Outubro, pelas 18.30. Amigos, aceitem este convite, será o único.
 
Algumas pessoas não resistem à curiosidade e aparecem em Little Paddocks à hora marcada, tornando-se simultaneamente testemunhas e suspeitas da tentativa de homício de Leticia Blacklock e da morte de um desconhecido abatido a tiro.
 
Gosto dos mistérios onde Miss Marple entra, pois é uma personagem castiça e aparentemente inofensiva, que no final, deixa toda a gente de queixo caído com a sua argúcia.  
 
Anúncio de um crime tem uma boa história, cheia de reviravoltas e revelações, mas peca por empastelar e repetir alguns factos, o que acaba por se tornar aborrecido; afinal, quantas vezes temos de ler quem estava de pé, sentado ou encostado à lareira e quem viu o quê, ao ponto de o sabermos de cor ainda o livro não chegou a meio?
 
Apesar disso, é um bom policial, com um final surpreendente e um criminoso extremamente inteligente, apenas descoberto graças à infalível velhota de St Mary Mead.

Como sempre, (re)ler Christie é um prazer.

****
(bom)

6 de abril de 2014

A casa torta

Autor: Agatha Christie
Género:
Policial
Idioma: Português
Editora:
Edições Asa

Colecção: Obras de Agatha Christie
ISBN: 978-972-4127811
Título original: Crooked house
---

O octogenário Aristide Leonides é um imigrante grego que enriqueceu à custa de muito trabalho e alguns negócios duvidosos. Dono de uma grande fortuna, é envenenado na sua mansão, onde vivia com toda a família (a segunda esposa cinquenta anos mais jovem, dois filhos, duas noras, três netos e a cunhada). Qualquer um poderia tê-lo morto e um deles fê-lo. O motivo evidente? Dinheiro, sob a forma de herança. 

O nosso narrador é Charles Hayward, cujo pai é o comissário da Scotland Yard responsável pelo caso, mas que se vê envolvido por causa de Sophia, uma das netas de Aristide Leonides, com quem quer casar. As razões do coração levam Charles a tentar solucionar o mistério quanto antes e usa a sua proximidade à família para tentar descobrir qual dos impiedosos Leonides assassinou o patriarca da família e porquê.

Devorei os livros d'A Dama do Crime na minha adolescência e é bom relê-los. Adoro policiais e os livros de Agatha são intemporais, já para não mencionar que Poirot é o meu detective favorito, embora esteja ausente deste livro.

A história é boa, a identidade do assassino não é a mais surpreendente mas o final é forte.

Tido como um dos favoritos de Agatha Christie, A casa torta não é, porém, um dos meus preferidos, apesar de ter a qualidade habitual a que a Dama do Crime nos habituou.

****
(bom)

2 de março de 2014

Novas adaptações marcam 125.º aniversário do nascimento de Agatha Christie

A BBC1 anunciou a encomenda de 6 episódios da série Partners in Crime, versão televisiva das aventuras da dupla de detectives Tommy and Tuppence, criada por Agatha Christie.
 
Thomas e a esposa Prudence são dois detectives amadores, surgidos em 1922, que protagonizam 4 romances e 15 contos da autora, os últimos dos quais foram publicados em livro em 1929, com o título de Unidos pelo Crime (Partners in Crime), daí o nome da série.

Fonte: Edições ASA
Na literatura, o casal inicia as suas aventuras aos vinte anos de idade. Com o avançar dos livros, vão envelhecendo; na última aventura, o casal está na faixa dos setenta anos. O actor David Walliams interpretará Tommy. A actriz que dará vida a Prudence, conhecida como Tuppence, ainda não foi escolhida.

Partners in Crime é uma das produções encomendadas pela BBC para celebrar os 125 anos de nascimento de Christie, em 2015.

O canal anunciou ainda a encomenda de três episódios da mini-série As dez figuras negras / And then there were none.

Fonte: Edições ASA
Considerada a obra prima de Christie (concordo), a versão televisiva será exibida no Natal de 2015.

Na história, dez pessoas, cada uma responsável pela morte de alguém (sem que tenham sido condenadas por isso), encontram-se isoladas numa ilha, onde vão morrendo, uma a uma, encenando o poema 'Ten Little Indians'. O elenco ainda não foi divulgado.

O canal prepara também vários documentários sobre a vida e obra da escritora, que serão exibidos pelos canais BBC1 e BBC2.

Fonte: BBC

19 de janeiro de 2014

Sopro do mal



Autor: Donato Carrisi
Género:
Policial
Idioma: Português

Páginas: 448
Editora:
Porto Editora
ISBN:  978-972-004278-1
Título original: Il suggeritore
Tradução: Joana Fabião
---

Gosto bastante de policiais e já li muitos, de qualidade variável entre si. Não discrimino autores: ingleses, americanos, portugueses, suecos, espanhóis, leio o que me pareça interessante.

Desta vez, li o primeiro livro daquele que é considerado «um escritor tão bom como os grandes mestres do thriller americano», Sopro do mal, do italiano Donato Carrisi, que arrebatou vários prémios em Itália.

Deus é silencioso, o Diabo sussurra...

A protagonista é Mila Vasquez, uma investigadora especialista em descobrir crianças desaparecidas, que é chamada a colaborar com uma experiente equipa, que investiga um complexo caso de cinco raparigas desaparecidas. Os corpos não foram descobertos, apenas os braços esquerdos de cada uma delas, enterrados num local isolado. Mas há um sexto braço, de uma jovem por identificar, uma vítima que ainda poderá estar viva e que urge salvar o mais depressa possível. 
 
E assim começa um carrossel criminal de mais de quatrocentas páginas, com muitas voltas e (algumas) revelações de pasmar. A liderar a equipa está o carismático criminologista Goran Gavila, que dispõe de um grupo de investigação soberbo que luta contra o tempo e contra um adversário com uma mente com tanto de brilhante como de diabólica.

O início do livro é arrebatador e rapidamente nos envolve. Dá gosto perceber uma história imprevisível e original q.b., com personagens complexas e muito interessantes. Mesmo quando, por vezes, Mila Vasquez se torna pouco empática, de tão invulgar que é, há outras personagens que dão sal à narrativa.

Sopro do mal (excerto aqui) é uma estreia promissora (o escritor já escreveu mais dois livros entretanto, embora só um deles esteja editado em português, O Tribunal das Almas), um livro de tirar o fôlego e viciante mas que não é perfeito.

Em primeiro lugar, o livro não tem uma localização precisa (nem é revelada), mas presumo que seja Itália, embora algumas descrições não apontem sempre para isso, como as referências a pubs (tipicamente inglesa) e a hierarquia dos detectives (não é a usada na Itália). Em segundo lugar, a mistura de nomes germânicos, americanos e espanhóis também não ajuda a imaginar as personagens com muito detalhe. Talvez o autor procurasse dar um aspecto de universalidade ao livro, mas as técnicas de investigação diferem de país para país e se Donato Carrisi é especialista em Criminologia e Ciências do Comportamento, era de esperar que se focasse na italian kind of way.

A compensar isso, temos cenas grotescas, muito mistério e intriga, em cenários tão diferentes como um antigo orfanato, uma urbanização luxuosa e a mansão de um multimilionário às portas da morte. As revelações são inteligentes e aparecem na altura certa, abrindo o apetite para o que se segue. A atmosfera do livro é hipnotizante.

Sopro do mal é muito bom e Donato Carrisi é um autor a reter.

*****
(muito bom)

8 de janeiro de 2014

As investigações de Poirot


Autor: Agatha Christie
Género:
Contos/Policial
Idioma: Português

Páginas: 176
Editora:
Edições ASA

Colecção: Obras de Agatha Christie
ISBN:  978-97-2414356-9
Título original: Poirot investigates
---

Sou uma fã de Agatha Christie desde a adolescência. O belga Hercule Poirot, com as suas fantásticas «célulazinhas cinzentas», é o meu detective favorito e crescer a ler os seus casos (e os insultos velados q.b. ao Hastings) sempre foi um deleite.

Este ano, a minha segunda leitura foi um retorno à Dama do Crime, com est'As investigações de Poirot, 11 contos com Poirot e Hastings como protagonistas. Escrito em 1924, foi um dos primeiros livros de Christie.

Há variedade no tipo de crimes, não há apenas homicídios: raptos, roubos, espionagem; em todos eles, a inteligência do hercúleo detective é procurada por alguém, os factos são apurados, ele senta-se a analisar e, et bien, tira a solução da cartola em menos de nada. 

Esta dinâmica resulta melhor em alguns contos do que em outros, sendo que alguns são demasiado breves para atingir a qualidade potencial e outros parecem demasiado complexos para uma solução tão rápida.

No global, é um livro razoável mas longe da genialidade costumeira, que pode ser comprovada em livros mais longos. Além disso, prefiro os contos de Christie sem Poirot, ele brilha é nos romances, onde a sua genialidade pode ser atestada em pleno.

Segue a lista dos contos. Destaquei os meus favoritos, a saber:

1- A aventura de «A Estrela Ocidental»
2- A tragédia de Marsdon Manor
3- A aventura do apartamento barato
4- O mistério do pavilhão de caça
5- O roubo das obrigações de um milhão de dólares
6- A aventura do túmulo egípcio
7- O roubo de jóias no Grand Metropolitan
8- O rapto do primeiro-ministro
9- O desaparecimento de Mr. Davenheim
10- A aventura do aristocrata italiano
11- O caso do testamento desaparecido


*** 
(razoável/mediano)

20 de novembro de 2013

O último capítulo



Autor: Edmund Power
Género:
Ficção
Idioma: Português

Páginas: 241
Editora:
Saída de Emergência
ISBN:  978-97-2883981-9
Título original: The last chapter
---

Brendan Stokes quer ser um escritor rico e famoso.

Vindo de pouca coisa, tem a certeza que assim que conseguir ser publicado, terá tudo o que merece: dinheiro, conforto, mulheres. Das editoras, as cartas de rejeição vão-se acumulando, e a mais recente é acutilante até dizer chega, recomendando-o a deixar de massacrar a língua inglesa com os seus devaneios de pseudo-escritor e deixar o ofício para quem tenha um pingo de talento.

Brendan não desiste, nem mesmo quando a mulher lhe atira à cara que basta de sonhos e vá de ter um emprego a sério, que sozinha a sustentar filho e marido não dá. Os dias passam, as queixas e discussões escalam e o aspirante a escritor começa a pensar em alternativas - voltar para a fábrica onde já trabalhou, estudar, pedir ajuda aos pais -, mas nenhuma lhe agrada.

Até que uma manhã, alertado por um cheiro intenso que invade um andar do prédio, descobre o seu vizinho de baixo, um homem com hábitos de eremita, morto. Brendan não se coíbe de revistar o resto de casa e encontra a solução dos seus problemas: um manuscrito amarelado, que contém uma história magnética e apaixonante.

O resto é fácil de imaginar: Brendan faz umas perguntas para assegurar que o manuscrito nunca foi referido a ninguém e, confiante, envia-o como se fosse seu. Quando as ofertas começam a chegar, os pedidos de entrevistas, o contrato chorudo, parece que finalmente está a ter o que merece.
Mas para manter a fachada, Brendan contou muitas mentiras e continua a contá-las, e já são tantas que é difícil acertar com tudo. Quando a mulher, os amigos e a polícia não desistem de fazer perguntas, a única saída de Brendan é eliminar quem sabe demais e manter a fachada e a mentira.

Para variar, a acção do livro passa-se na Irlanda (o autor é também irlandês), com bastantes referências geográficas e culturais. O protagonista está longe de ser perfeito, mas não deixa de ser interessante seguir a suas acções e a forma como raciocina. Esse é o maior trunfo do livro: a personagem central (e narrador) é um biltre egoísta mas bastante bem construída e queremos ler o que vai fazer cada vez que comete (mais) uma argolada.

O último capítulo não é perfeito, tem várias falhas no enredo e a acção parece, por vezes, demasiado arranjadinha, mas é um bom livro dentro do género e o tema é bastante interessante. 


avaliação: **** (bom)

21 de outubro de 2013

Lugares Escuros


Autor: Gillian Flynn
Género:
Thriller
Idioma: Português
Editora: Bertrand Editora
ISBN:  978-97-2252716-3
Título original: Dark Places
---

Gillian Flynn é um nome a reter. Esta talentosa escritora norte-americana escreveu 3 livros até à data, todos eles êxitos de vendas. Eu li os 3 e gostei de todos, sendo que este Lugares Escuros (o último que li) é absolutamente viciante e impossível de pousar (Em Parte Incerta e Objectos Cortantes também são bons mas este é o melhor).

Vamos, então, ao livro: Libby tinha 7 anos quando a sua família foi assassinada; conseguiu fugir mas ficou marcada para sempre, no corpo e na mente; o seu testemunho foi fundamental para a condenação do irmão, Ben, como o assassino, naquele que ficou conhecido como "Sacrifício a Satanás de Kinnakee".


25 anos volvidos, temos uma Libby que não consegue "funcionar" na nossa sociedade, a (sobre)viver de donativos e fundos de apoio, os quais, apesar de generosos, não são ilimitados. É numa situação de quase penúria que Libby se encontra quando é contactada pelo Kill Club, um grupo de pessoas obcecadas com crimes mediáticos com desfechos polémicos. Os membros do Kill Club estão dispostos a pagar bom dinheiro para que Libby localize e fale com os intervenientes sobrevivos, que podem lançar luz sobre o que se passou, numa tentativa de reconstituir a madrugada fatídica de 2 de Janeiro de 1985 e, quiçá, rectificar o seu testemunho e ajudar à libertação do irmão.

O que começa com uma forma rápida de fazer algum dinheiro para as despesas imediatas torna-se uma viagem alucinante, onde Libby vai descobrir acontecimentos que a sua mente infantil não conseguia compreender e levar à descoberta do que realmente aconteceu na noite em que perdeu a mãe e os irmãos.

Lugares Escuros está extremamente bem escrito, é cativante e adorei as divisões por capítulos e protagonistas, em que os narradores são alguns dos Day: Libby, Ben e Patty. Como thriller, é arrepiante e com reviravoltas impressionantes, como mistério, é surpreendente; a galeria de personagens é soberba. Recomendo.

A editora disponibilizou um excerto para abrir o apetite a quem ainda não leu Lugares Escuros (e não adiará por muito mais tempo, digo eu)

avaliação: ***** (muito bom)

19 de agosto de 2013

Em Parte Incerta




Autor: Gillian Flynn
Género:
Thriller
Idioma: Português
Editora: Bertrand Editora
Páginas: 520
ISBN:  978-9-72-252557-2
---

Acha mesmo que conhece a pessoa que dorme ao seu lado?

É esta frase provocadora que ilustra a capa de Em Parte Incerta, o novo livro de Gillian Flynn, uma escritora americana cujo romance de estreia, Objectos Cortantes, foi bastante bem recebido pela crítica (este é o terceiro romance da autora).

Eu li Objectos Cortantes pouco depois de ter saído e gostei (tem uma protagonista forte e fala sobre auto-mutilação), e este Em Parte Incerta também é um mimo. É desafiante, é envolvente e surpreende, ah pois! Os protagonistas e narradores, Nick e Amy, não se permitem ter qualquer segredo para com o leitor e há algumas passagens que chegam a ser constrangedoras, o que valoriza bastante a narrativa.
 
Mas vamos à história: na manhã que marca o 5.º aniversário do seu casamento, Amy Dunne desaparece, deixando vários indícios a apontar para o marido, Nick. O livro (mais de 500 páginas) divide-se em capítulos contados pelo casal, os dele após o desaparecimento dela e os dela antes de desaparecer. O marido foca-se nos interrogatórios, na organização popular para promover buscas e divulgação da gone girl e na forma como reage ao que acontece(u); Amy foca-se na sua vida, na sua carreira e na relação com Nick, pré e durante o casamento.

Os capítulos iniciais precisaram de persistência q.b. da minha parte, porque chegam a ser aborrecidos e repetitivos, mas são cruciais para a história, para percebermos as personagens e o que as motiva.

Assim, passados os capítulos mais maçudos, Em Parte Incerta ganha interesse e segue-se um festival de virar páginas, num thriller (não policial) viciante e enigmático.

O que menos gostei? Os capítulos finais e algumas pontas soltas, uma surpresa numa narrativa tão meticulosa desde o início. Li uma entrevista a Gillian Flynn em que a autora confessa que a 80 e pouco por cento do livro bloqueou e não sabia como terminar o livro; valeu-lhe algumas dicas da equipa editorial... não vou dizer que foi um flop total, mas a qualidade e coerência ressentiram-se.

Porém, o saldo final é para lá de positivo, o livro está muito bem escrito e a galeria literária dos mega psychos ganhou uma adição de peso.
  
   
avaliação: **** (bom)

27 de julho de 2013

Morte em Pemberley



Autor: P.D. James
Género:
Policial
Idioma: Português
Editora: Porto Editora
Páginas: 304
ISBN:  978-9-72-004422-8
---

Mais uma fã de Jane Austen deste lado. Depois de devorar Orgulho e Preconceito, fiquei fã de Mr. Darcy e Lizzy; não descansei até ter visto o filme e a série da BBC, também excelentes.

O "bichinho" continua cá e ando sempre atenta, como qualquer janeite que se preze, a qualquer ficção que derive desse clássico fantástico. Assim, quando vi este novo livro de P.D. James, não descansei enquanto não o li. Não havia forma de não correr bem, ainda mais porque gosto de policiais e suspense (adoro o Poirot e a Miss Marple, hello!). Só poderia correr mal se o livro não fosse bom, o que já aconteceu com A independência de uma mulher.

Morte em Pemberley leva-nos de volta à magnificência e riqueza de Pemberley, seis anos depois do final de Orgulho e Preconceito (OeP). Fitzwilliam e Lizzy são super felizes, têm 2 filhos lindos e vivem rodeados de amigos, gargalhadas e afecto.
 
Mas... e ou não fosse P.D. James a grande senhora do crime dos tempos modernos, o perigo espreita e ensombra a vida perfeita dos Darcy. Uma morte em Pemberley vai lançar dúvidas sobre a respeitabilidade e a virtude da família e dar azo a que alguns abutres se alinhem para destruir a felicidade dos nossos protagonistas. Surgem velhos conhecidos e cenários familiares e é bom reencontrar personagens de quem gostamos e cujas adversidades acompanhámos e por quem torcemos (Lizzy, Jane, Darcy) ou cujo exílio desejámos (Wickham, Lidia, Lady Catherine de Bourgh).

O início do livro tem o tom clássico da obra de Jane Austen e augura uma boa história; fiquei entusiasmada. Durou pouco. A história tornou-se aborrecida e repetitiva, apesar do tom, das descrições e da voz narrativa soarem a 1803 e 1804; as personagens não têm o brilho nem o carisma da obra original e não parecem as mesmas. O crime também está longe de ser brilhante e a conclusão do livro é tão... cinzenta.

Até hoje, nunca tinha lido nada de P.D. James mas acredito que este livro simplesmente não é a sua praia ou a autora não teria o sucesso que tem; certamente que lerei uns policiais dela, mas esta incursão pelo mundo de Austen é para esquecer. Não sou uma purista e adorava ter lido um bom livro e reviver alguma da excitação e deleite que tive ao ler OeP, o livro é que não tem estaleca nem substância para atingir esse patamar.


A Porto Editora disponibilizou um excerto e podem ler o início do livro aqui. Se são fãs de Austen e de OeP, provavelmente vão querer ler na mesma Morte em Pemberley, mas fica o aviso: é muito fraquinho.
 
   
avaliação: ** (fraco)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...