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26 de novembro de 2013

O aloendro branco



Autor: Janet Fitch
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora: Editorial Presença

Páginas: 455
ISBN: 972-23-2363-5
Título original: White Oleander
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A história d'O Aloendro Branco é forte, tocante e inesquecível, com uma galeria de personagens femininas carismáticas e muito fortes.

A nossa narradora é Astrid Magnussen, uma adolescente cuja vida gira à volta da mãe, Ingrid, uma mulher de temperamento artístico e caprichoso, com tanto de peculiar como de egoísta. 

Ingrid e Astrid vivem no seu próprio mundo, onde Ingrid dita as regras: é rainha e senhora. Agressiva e apologista dos valores vikings, que apelida orgulhosamente de antepassados, Ingrid despreza os "sentimentos menores", como a compaixão e o amor, fazendo crer a Astrid, através de uma visão romântica típica do seu espírito de poetisa, que apenas precisam uma da outra para sobreviver.

Até ao dia em que Ingrid, habituada a relações fugazes e dominadas por ela, se apaixona por um homem e inicia uma relação séria. Quando ele decide acabar, Ingrid só pensa no seu orgulho ferido e encara-o como um alvo a abater. Premeditada e friamente, envenena-o com o belo e delicado aloendro que cresce no jardim da casa onde vive com a filha. Quando é presa, julgada e condenada a prisão perpétua, Ingrid encara a situação como inevitável mas justificada. O futuro de Astrid, com 12 anos e a vida virada do avesso, é a última coisa a passar-lhe pela cabeça.

«Nunca tenhas esperança de encontrar pessoas que te compreendam (...). Pessoas inteligentes, sensíveis, são excepção, uma rara excepção. Se estiveres à espera de encontrar pessoas que te compreendam, a desilusão tornar-te-à cada vez mais sanguinária. O melhor que podes fazer é compreender-te a ti própria, saber o que queres, e fazer com que a manada não se interponha no caminho.»


Entregue aos cuidados do Estado e das assistentes sociais, Astrid passa por várias famílias de acolhimento, sobrevivendo a agressões, negligência e inúmeros actos de violência. A mãe, da prisão, exerce sobre Astrid todo o tipo de pressões psicológicas, esforçando-se por manter a influência sobre a filha e tentar que permaneça intocável aos que a rodeiam.

Mas Astrid está decidida a ser uma pessoa melhor, a conhecer o afecto que a mãe sempre lhe negou e a auto descobrir-se. Sobrevive cada dia graças à sua crescente sensibilidade, inteligência e talento artístico, refugiando-se no desenho e na pintura.

Pela sua vida vão passando várias mulheres: mulheres que Astrid ama ou odeia, mas todas lhe ensinam algo e deixam a sua marca na vida da jovem. Sem poder, a mãe sociopata vai adaptando o seu discurso para atrair a filha, mas Astrid vai percebendo cada vez melhor a mãe e as suas motivações, percebendo que dos pais recebemos benções mas também maldições, e o que Ingrid lhe incutiu nos anos que partilharam - força, gosto pelo conhecimento, independência, coragem -, é o que as vai afastar, pois são as características que permitem à nossa narradora sobreviver num mundo cruel que não se sente pena de orfãs.

«O passado é uma chatice (...) Não acumules passado, Astrid. Não veneres nada. Queima tudo. O artista é como a fénix que renasce das cinzas.» 

O Aloendro Branco é impossível de pousar, o mais recente page turner que me passou pelas mãos, onde as 400 e muitas páginas formam uma história magnética, com momentos líricos memoráveis e uma narradora de essência rara.

NOTA: Devido ao sucesso do livro, Hollywood fez a adaptação do mesmo ao grande ecrã, que resultou num filme interessante que já comentei no bué de fitas (e cuja capa, acima, é a usada para comercializar o título em Portugal). 

avaliação: ***** (muito bom)

17 de novembro de 2013

O adeus a Doris Lessing aos 94 anos


Morreu a escritora Doris Lessing, laureada com o Nobel da Literatura em 2007.

Nascida no Irão em 1919, escreveu mais de 50 romances, com temas tão diversos como a política, o pós-colonialismo africano e a ficção científica. A academia sueca apelidou-a de ser «uma épica da experiência feminina que, com cepticismo, fogo e poder visionário, sujeitou uma civilização ao escrutínio».

Irreverente, Doris Lessing comentaria em 2008, ao New York Times, que não ligava a prémios, nem mesmo ao Nobel, declarando que não se identificou com a forma como a descreveram e à sua obra: «Imagino o sueco responsável pela frase a pensar para si próprio: "O que é que raio havemos de dizer desta? Ainda por cima não gosta que lhe chamem feminista." E então escrevinharam aquilo.». 

Foto: Eamonn McCabe
Comunista desencantada, incorporou vários acontecimentos da sua vida nos seus livros, como as experiências em África, desde as memórias de infância até às questões sociais e políticas pelas quais se interessou desde muito nova. O modo como os seus romances e contos descrevem as injustiças raciais e expõem os podres da presença colonial britânica em África fizeram com que fosse oficialmente proibida, em 1956, de entrar na Rodésia do Sul, hoje Zimbabwe.

O escritor sul-africano J.M. Coetzee chamou-lhe «uma das maiores romancistas visionárias do nosso tempo». O seu último livro, Alfred & Emily saiu em 2008.

Leiam a notícia na BBC News e no Público.

14 de julho de 2013

Não gosto do meu pescoço



Autor: Nora Ephron
Género:
Contemporâneo
Idioma: Português
Editora: Casa das Letras
Páginas: 184
ISBN:  978-9-72-461717-6
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Nora Ephron, falecida em 2012, tornou-se famosa por escrever e realizar êxitos de bilheteira como Você tem uma Mensagem, Casei com uma Feiticeira e Sintonia de Amor. No campo das letras, distinguiu-se pelos seus artigos femininos  na revista Esquire e pelos livros espirituosos sobre a condição feminina, de que Não gosto do meu pescoço - e outros humores, achaques e amores da vida das mulheres é um exemplo.

Nora é bastante cândida e divertida na forma como fala das várias atribulações da vida de uma mulher madura: o envelhecimento, a saída dos filhos de casa, as operações plásticas, a morte dos amigos. Num tom ligeiro, dá como exemplo o pescoço e como este revela, implacavelmente, a idade de uma mulher.

«O pescoço denuncia-nos. Os nossos rostos contam mentiras e os nossos pescoços contam a verdade. Temos de serrar uma sequóia para lhe averiguar a idade, o que não seria necessário de as sequóias tivessem pescoço

A autora teve uma vida bastante cheia, com 3 casamentos, filmes de sucesso e alguns prémios. O livro conta alguns dos pontos de viragem da vida de Nora Ephron sem ser uma biografia. A mensagem é directa: o tempo passa, acontecem coisas boas e acontecem coisas más, mas o que escolhemos reter é uma escolha individual.
 

Apesar de se falar de morte e doença, também se fala de filhos e carreira, de beleza e relacionamentos. A escrita é leve e o tom bem-humorado, sarcástico, apurado. O livro chega ao fim rapidamente, mas com menos de 200 páginas, outra coisa não seria de esperar.

«De vez em quando leio um livro sobre o envelhecimento e seja quem for o autor diz sempre que é magnífico ser velho. É magnífico ser sensato, sábio e sagaz; é magnífico estar naquela fase da vida em que se compreende o que é realmente importante. Não suporto pessoas que dizem coisas deste tipo. Em que é que estão a pensar? Não têm pescoço?!»

Mesmo não apreciando particularmente a filmografia de Nora Ephron, achei Não gosto do meu pescoço - e outros humores, achaques e amores da vida das mulheres um livro bastante razoável apesar de ligeirinho. É um bom presente para uma mulher mais velha; foca os assuntos certos sem deprimir e sem ser professoral.
 
   
avaliação: *** (mediano)

2 de junho de 2013

Louca por compras



Autor: Sophie Kinsella
Género:
Ficção
Idioma: Português
Editora: Livros d'Hoje
Páginas: 336
ISBN:  978-9-72-203747-1
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Rebecca (Becky) Bloomwood é uma rapariga bem-disposta que trabalha como jornalista na revista financeira Successful Savings, direccionada para o público comum, onde escreve artigos sobre como maximizar o salário, investir as poupanças e as melhores opções em poupanças-reforma.

Becky não faz o seu trabalho com grande afinco, pois além de o achar extremamente enfadonho, o conteúdo não lhe faz grande sentido porque... não pratica o que escreve. Aliás, a sua prática pessoal é desastrosa, ao ponto de já dever centenas de libras nos vários cartões de crédito que possui, o que não admira, pois gasta muito mais do que aquilo que aufere.

Como não o fazer, se o pulso lhe acelera quando passa pelas montras luminosas de uma loja, se se sente cheia de vida ao pagar uma saia, um perfume, uma agenda em pele, se não há sensação melhor que estrear algo novo?

Cada capítulo começa com uma nova carta de um banco a avisar de que há (mais) um valor pago em falta, pagamentos que Becky tenta (criativamente) adiar. Apesar de endividada até à medula, continua a receber cartões de crédito com plafonds consideráveis, ou seja, juntando ao facto de Miss Bloomwood não ter qualquer auto-controlo sobre as suas finanças e ser louca por compras, os "maus" ainda lhe alimentam o vício.

Mas Becky quer mudar e a mudança passa por poupar nos gastos ou ganhar mais dinheiro. E assim, seguimos as várias tentativas de Becky na tentativa de poupar dinheiro (fracasso completo) ou arranjar um emprego que pague melhor (idem), o que não deixa de ser divertido tendo em conta o tom ligeiro e silly do livro.

A protagonista é bem intencionada mas a negação do seu problema («se não abrir as cartas dos credores, as dívidas não existem!») e a forma como racionaliza o vício gastador (gastar duzentas libras em ingredientes e num wok especial para fazer caril para levar o seu almoço para o trabalho... e não ter de o comprar a 5 libras a dose é de bradar aos céus!) torna-se irritante e surreal. Felizmente, a autora encarrila a história antes de se tornar cansativa e lá arranja forma de Becky ter a sua vida resolvida a algumas páginas do final.   


É literatura light e rosa que cumpre o esperado: sorrisos, escape momentâneo e muita previsibilidade... ah! e um final feliz. Literatura tipo algodão-doce, sem dúvida.
avaliação: *** (mediano)

8 de janeiro de 2013

Mentiras e condomínios



Autor:
 Filipa Múrias
Género:
 Romance
Editora: Oficina do Livro
ISBN:  978-9-72-857964-7
Páginas: 180
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Faço questão de ler todos os géneros literários. Privilegio alguns porque tenho preferências mas não descrimino. Compro a maioria dos meus livros mas também recorro à biblioteca municipal, onde se encontram títulos mais antigos. Foi lá que encontrei o colorido Mentiras e Condomínios. A sinopse não era aliciante mas adoro enredos femininos e começar 2013 com um autor português foi excelente... mas não sinónimo de uma leitura memorável.

Caetana volta a Portugal depois de um divórcio tempestuoso e sete anos a viver o american lifestyle. De volta à casa dos pais em Cascais, pretende recuperar a serenidade e a estabilidade emocionais perdidas com as escolhas passadas. O reencontro com as duas melhores amigas e um emprego como assistente de realização parecem um começo auspicioso, mas Caetana é apanhada num mundo de aparências e muita ambição.

O livro divide-se em capítulos curtos, de 5 a 10 páginas, com muito diálogo e descrições breves. O tom é leve. A protagonista, Caetana, está a meio de uma crise existencial onde questiona tudo o que fez até então, nomeadamente a nível de amor e carreira. Não chega a cair na choraminguice mas a forma superficial como é descrita não desperta grande simpatia no leitor, o que se estende à restante galeria de personagens. Acho que essa é a razão principal porque não gostei do livro: parece ter sido escrito à pressa, não desenvolvendo verdadeiramente as personagens e as situações.


Para quem gosta de literatura light, Mentiras e Condomínios é um título a experimentar; eu achei que poderia ter sido melhor explorado e uma leitura mais proveitosa.

avaliação: ** fraco

24 de maio de 2012

As Serviçais


Autor: Kathryn Stockett
Género:
Romance

Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 464
Preço: € 17
ISBN:  978-9-89-637254-5
Título original: The help

Avaliação: ***** (muito bom)


Finalmente li As Serviçais; já o tinha há mais de um ano na estante à espera, mas outros livros passavam-lhe à frente. Excelente leitura, valeu bem a pena a espera.

O cenário é Jackson, Mississippi, onde, na década de 60, ainda não chegou a modernidade. Quer dizer, o vestuário, os penteados e a maquilhagem em voga são seguidos e copiados, mas os direitos humanos ficaram pelo caminho. Em Jackson, ser negro é ser menos que ser branco, é não ter voz; caso alguém discorde do curso "natural" das coisas, não há quem hesite em recorrer à violência, saldando-se casas incendiadas, membros partidos e até homicídios.
Os activistas que ali vivem, independentemente da cor da pele, são compreensivelmente discretos e em número reduzido.

Ao longo das 400 e muitas páginas, temos 3 narradoras: as criadas Minny e Aibeleen e a aspirante a escritora Skeeter. Juntas decidem tentar mudar mentalidades, contando o outro lado da história: o lado dos oprimidos. Skeeter tem noção que o seu valor como ser humano se deve à educação que recebeu da criada da família, Constantine. Aibee e Minny pertencem a gerações distintas mas são as melhores amigas e amparam-se em tudo, servindo senhoras diferentes.

«A Minny é praticamente a melhor cozinheira de Hinds County, talvez de todo o Mississípi. A festa de beneficência da Liga Júnior é todos os outonos e pedem-lhe que faça dez bolos de caramelo para leiloar. Devia ser a criada mais procurada de todo o estado. O problema é que a Minny tem boca. É sempre respondona. Um dia é com o gerente branco do armazém Jitney Jungle, no dia seguinte é com o marido e todos os dias é com a senhora branca para quem trabalha. Se está com a senhora Walters há tanto tempo é por ela ser surda como uma porta.»

Aibee é uma mulher mais velha, sensata e sensível. É uma mulher maternal, que se dedica intensamente ao seu trabalho e às crianças brancas de que cuida. Já Minny é uma espalha-brasas, constantemente enrascada por ser respondona e inoportuna, o que traz problemas acrescidos quando se é negra. Skeeter é branca mas atinge o limite quando é ostracizada por não alinhar pela opinião comum. Este trio complementa-se e, pela sua voz, conhecemos uma realidade que hoje é impensável.

O livro tem momentos comoventes e alterna entre acontecimentos felizes e negros, inerentes à condição humana, numa
história inesquecível cheia de humor, esperança e tristeza, mas com muita força. A autora contou numa entrevista que o livro foi rejeitado 60 (!) vezes antes de ser editado; ainda bem que alguém lhe reconheceu potencial pois é uma história inspiradora e inspirada.

Há um excerto do livro disponível aqui. O realizador Tate Taylor adaptou-o ao cinema em 2011 e eu já botei faladura sobre ele no bué de fitas)
.

16 de março de 2012

Blasfémia


Autor: Asia Bibi (Anne-Isabelle Tollet)
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Alêtheia Editores
Páginas: 142
Preço: € 10
ISBN:  978-9-89-622417-2
Título original: Blasphème

Avaliação: **** (bom)


Blasfémia chegou até mim no seguimento da iniciativa de leitura conjunta da Paula T, no blog viajar pela leitura.

O objectivo é fazer circular o livro e, assim, dar a conhecer a história de Asia Noreen Bibi, uma cristã num Paquistão populado por milhões de muçulmanos. Asia esforça-se por sobreviver diariamente, fazendo limpezas e trabalhando nos campos, tudo o que possa render dinheiro para comprar alimentos para os filhos. O marido trabalha numa fábrica de tijolos e, juntos, vivem o dia a dia como podem, tentando não enfurecer os vizinhos, que não lhes perdoam por não serem devotos a Alá.

Asia encontra-se presa vai fazer 3 anos, acusada de blasfémia e condenada à morte por enforcamento. O crime? Ter bebido água. Num dia de trabalho no campo com outras muçulmanas, Asia teve sede, tirou água de um poço e bebeu-a. Quando encheu de novo o copo e o ofereceu à mulher a seu lado, assinou a sua sentença de morte.

Asia é cristã e o copo pertencia às companheiras muçulmanas. Ao mergulhar de novo o copo na água depo
is de ter bebido, "sujou" a água; o gesto foi um insulto religioso. A notícia espalhou-se e Asia foi espancada e escoltada pela polícia local. Ficou um ano na cadeia a aguardar julgamento e foi sentenciada à morte, onde aguarda, até hoje, a execução.

«Asia Noreen Bibi, em virtude do artigo 295.º-C do código paquistanês, o tribunal condena-vos à pena capital por enforcamento e a uma multa de 300.000 rupias.» (o valor representa cerca de 2500 euros, uma quantia milionária no Paquistão.)

O
Papa Bento XVI manifestou falou publicamente o seu apoio a Asia e dois políticos do seu país defenderam a sua causa, sendo que um deles, ministro das minorias, chegou a encontrar-se com Hillary Clinton para apelar à libertação da mãe de família. Ambos os políticos foram, entretanto, assassinados por mártires islâmicos, por defenderem os impuros que não professam o Islão.

Hoje, somente o marido e o advogado conseguem vê-la, em condições muito difíceis e apenas através de uma câmara, instalada na cela de Asia. Esta vive em condições sub-humanas, sendo que vários anónimos (com receio de represálias) a ajudam a passar palavra cá para fora. Sempre que as condições de segurança o permitiram, cada capítulo do manuscrito foi-lhe apresentado. O texto deste livro contém o seu total acordo e apoio à sua publicação. Asia Bibi quer ser ouvida e deseja que conheçam a sua história; este é um relato extraordinário na primeira pessoa, que choca quem vive num país minimamente civilizado
.

18 de dezembro de 2011

A boda mexicana

Autor: Sandra Sabanero
Género: Ficção
Idioma: Português
Editora: DIFEL
Páginas: 409
Preço: € 9 (alfarrabista)
ISBN:  978-9-72-290728-6
Título original: La boda mexicana

Avaliação: **** (bom)

A Boda Mexicana é um retrato muito vívido e nítido da vida no México rural, em meados do século XX.

Durante 400 páginas, somos transportados a um país de fortes tradições e costumes profundamente enraizados, onde os papéis de cada um estão predestinados desde o nascimento. A história tem como narradora principal Esperanza Villanueva, que no dia do seu casamento, partilha recordações com a mãe, folheando um albúm de família.

Pela sua voz, somos levados a uma viagem do passado para o presente, acompanhando a evolução de mentalidades no México. Nitidamente virado para as figuras femininas da família, as evocações realizadas têm como figura central as mulheres da família Villanueva, mulheres de garra e muito força interior que experienciam a vida de forma diferente.

No meio de muito suor e lágrimas, inúmeras gravidezes e maus tratos físicos e psicológicos, estas mulheres vão experimentado uma existência mais ou menos madrasta, muitas vezes dependentes de factores alheios às próprias: o alcoolismo do marido, a rebeldia e ingratidão dos filhos, a má-língua do bairro, o pesado trabalho doméstico, traições, etc.

Com uma narrativa à flor da pele e um estilo directo, Sandra Sabanero dá vida a todas essas (e muitas mais) vozes femininas, cuja ânsia de superar todas as dificuldades e obstáculos transforma uma história aparentemente banal num retrato realista e de grande impacto emocional, onde não ficamos indiferentes à cor e alegria de um povo (mexicano) que chora com tanto sentimento como ri, que não se abate nunca e tem ganas de sonhar um pouquinho mais alto… se não por si, pelos que ama.

A descrição das festas de casamento e religiosas (e são bastantes) são tão suculentas que damos por nós a salivar por um punhado de amêndoas torradas, uma fatia de bolo de mel ou um guloso taco picante.


Um livro muito agradável. Gostei.

3 de outubro de 2011

Rainhas trágicas

Autor: Juliette Benzoni
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Edições 70
Páginas: 325
Preço: € 19
ISBN:  978-9-72-441222-1
Título original: Reines tragiques

Avaliação: **** (bom)

Julliete Benzoni é uma autora bastante publicada em Portugal, com várias sagas e trilogias disponíveis no mercado, das quais tenho uma, a trilogia Segredo de Estado.

Longe de ser uma má autora, os seus livros têm um tom previsível e cor-de-rosa, o que é bom se for apenas uma obra ficcional e não tão bom se tivermos em conta que são romances referenciados como históricos.

Isso não me impediu de comprar Rainhas Trágicas, que alterna breves biografias de figuras conhecidas com a de figuras mais obscuras, contadas em tom novelesco. Em comum, estas mulheres têm o facto de terem sido rainhas (de título oficial ou de alcova), terem sido detentoras de grande beleza e o seu final ter sido trágico (e até prematuro).

Nomes famosos como Catarina Howard (a 5ª mulher de Henrique VIII), Maria Tudor (a Católica), Agripina (mãe do odiado Nero) e Leonor de Aquitânia (mãe do mítico Ricardo Coração de Leão) são apenas quatro das muitas mulheres cuja vida nos é relatada, sendo o leitor transportado para cortes, leitos e multidões em fúria ou em aclamação, desde o Antigo Egipto ao início do século 20.

Apesar da autora pautar por uma escrita leve, o livro beneficiou disso, aligeirando um volume com tendência a ser maçudo, tornando-o apetecível, cujas trezentas e poucas páginas se lêem ligeiras. Recomendo.

Segue o índice, com as 18 soberanas, que vêm a sua vida relatada numa série de feitos heróicos «que conjuga amor, ambição e ódio, a par do crime, da loucura e da razão de Estado.»

I – Nitócris, a Cinderela do Nilo.
II – Lu, a camponesa de Kiang-Su.
III – Agripina, uma cliente de Locusta.
IV – Teofania, a Imperatriz das tabernas.
V – Fredegunda contra Brunilde, as rainhas rivais.
VI – Leonor de Aquitânia, duas vezes rainha.
VII – Isabel de Angolema, a rainha vassala.
VIII – Margarida, Branca e Joana de Borgonha, as rainhas malditas.
IX – Isabel, a loba de França.
X – Branca de Bourbon, a rainha assassinada.
XI – Catarina Cornaro, rainha de Chipre.
XII – Joana, a Louca.
XIII – Catarina Howard, a quinta vítima de Henrique VIII.
XIV – Maria Tudor, a «Saguinária».
XV – Cristina da Suécia, a assassina de Fontainbleau.
XVI – Carolina Matilde da Dinamarca, a prisioneira de Kroenberg.
XVII – Maria Josefina de Sabóia, uma rainha francesa desconhecida.
XVIII – Draga, rainha da Sérvia: a vítima da Mão Negra.

17 de setembro de 2011

Queimada viva

Autor: Souad
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Edições ASA
Páginas: 192
Preço: € 11
ISBN:  978-9-72-4136686-8
Título original: Burned alive



Avaliação: **** (bom)

Queimada viva é o testemunho de uma sobrevivente que, ao contrário de muitas mulheres na sua situação, conseguiu escapar à morte pelo fogo, encomendada pelos próprios pais.

É uma história de coragem mas também uma minúscula gota no oceano, pois, de entre milhares com a mesma sorte, conseguiu escapar ao Inferno e recomeçar uma vida.

Souad é uma palestina nascida numa família pobre. Não sabe nada do mundo, das pessoas que o habitam nem do que se estende para além da pequena aldeia onde reside. Pouco depois de deixar as fraldas já faz tarefas pesadas e conduz o rebanho da família. Elas e as irmãs revezam-se para fazer as refeições, tratar da lida da casa, cuidar dos irmãos mais pequenos e assegurar o cumprimento das tarefas de manufactura para alimentar o pequeno negócio da família.

Para o pai, Souad vale menos do que um animal. É espancada diariamente, não tem direito a conforto, leva uma vida escrava sem saber que há outras existências para além daquela que tem.

«Se o teu pai te disser “não saias deste canto a vida inteira”, tu ficas nesse canto toda a vida. Se o teu pai te puser uma azeitona no prato e te disser “hoje não comes mais nada”, tu não comes mais nada. (…) Essa forma de não-existência é cultivada ininterruptamente.»
À semelhança de muitas outras jovens, sonha em casar, na ilusão que terá uma vida melhor, quando na verdade só muda de carcereiro, porque o marido segue a mesma cartilha de abuso e violência.

«É uma coisa curiosa o destino das mulheres árabes, pelo menos na minha aldeia. Aceitam-no naturalmente. Nem nos passa pela cabeça revoltarmo-nos. (…) Apenas porque não temos outro sítio onde viver senão em casa do pai ou do marido. Viver sozinha é inconcebível.»

Saída da adolescência, Souad vive uma paixão pueril por um vizinho, a quem espia e com quem fantasia vir a casar. O rapaz apercebe-se e, entre encontros, têm relações antes do casamento. Souad engravida e quando o facto se torna visível, a sua família é desonrada.

Para "lavar" a honra, são os próprios pais a encomendar a morte da filha, pedindo a um cunhado que faça o previsto e habitual naquele caso: Souad é regada com gasolina e ateada com fogo. Tem uma gravidez em estado avançado.

Milagrosamente, mãe e bebé conseguem sobreviver, mas não sem antes conhecer os horrores de uma sociedade sem afecto nem carinho para com as suas mulheres: no hospital é deixada a um canto, com a carne queimada a apodrecer e sem os cuidados mínimos; a sua própria mãe tenta envenená-la.

Vale-lhe a SURGIR, uma ONG que a tira do país e lhe dá uma vida nova, mas sempre no maior secretismo, pois Souad é um alvo a abater pelos seus familiares, que não poderão erguer a cabeça enquanto a pecadora estiver viva.

A nossa narradora já é uma mulher de meia-idade quando escreve o livro e foram precisos anos para ter direito a um pouco de felicidade. Vive incógnita e com outro nome, sempre com medo que algum membro da família venha cobrar a dívida que ficou por saldar. Ficaram ainda as inúmeras cicatrizes físicas e psicológicas, impossíveis de sarar.

No final, ecoa o grito de revolta: todos os anos, milhares de mulheres são assassinadas, sem contar os imensos desaparecimentos e “suicídios” reportados que não são conotados como «crimes de honra», com os autores (todos homens) a serem considerados heróis nas suas aldeias, sem qualquer tipo de punição além de uma advertência verbal pelas autoridades do sítio.

A autora espera poder ajudar a parar este massacre com o seu testemunho e apela a quem de direito. Aconselho Queimada viva, embora não seja uma leitura de entretenimento. É um caso real e merece o respeito devido pela civilização ocidental, que sabe muito pouco destas barbaridades.

7 de junho de 2011

As Senhoras de Missalonghi

Autor: Colleen McCullough
Género: Ficção
Idioma: Português
Editora: Dom Quixote
Páginas: 152
Preço: € 8 (alfarrabista)
ISBN:  978-9-72-200624-8
Título original: The ladies of Missalonghi




Avaliação: *** (mediano)


Colleen McCullough é uma autora mundialmente (re)conhecida pelo seu romance Pássaros Feridos e pela colecção sobre a Roma Antiga, grandes volumes literários repletos de história, pormenores e (imeeeensa) pesquisa.

Da sua autoria, ainda só li um livro, A Canção de Tróia; adorei. Procurei outros títulos e, como nem só de leituras-calhamaço vive o ser humano, investi num mais magrinho.

Acontece que As Senhoras de Missalonghi é pequeno em mais do que um aspecto: tem menos de 200 páginas, não há grande desenvolvimento das personagens e o final é... assim a dar para o bacoco.

O livro retrata uma pequena cidade dominada por uma família - os Hurlingford -, em que os homens são executivos poderosos e as mulheres exercitam fortemente o social e o ritual do cházinho na casa da prima, da tia e da irmãzinha.

Existem as pobres e as ricas, e a acção incide sobre uma gata borralheira, a solteira trintona Missy Wright, que vive com a mãe e uma tia numa quinta na periferia da cidade – são elas as senhoras de Missalonghi. Pobres mas honradas, fazem por esticar o parco rendimento, à conta de uma horta caseira e trabalhos de costura, serviços muito mal pagos pelos familiares (Deus as livre de venderem a sua mercadoria a estranhos, não fica nada bem, ainda que os ditos primos e primas as explorem vergonhosamente)
.

Missy anseia por vestidos bonitos e um amor igual aos romances cor-de-rosa que requisita na biblioteca municipal. Inveja as primas abastadas e sonha com uma família com filhos e um marido apaixonado. Mas sendo pobre, ninguém lhe pega. Para piorar, é uma ovelha-negra: uma morena escura num clã de louras de pele alva.

«Visto-me de castanho porque sou pobre, mas sou respeitável. O castanho nunca mostra a sujidade, nunca está nem deixa de estar na moda, nunca fica ruço, e nunca é ordinário, nem vulgar, nem maltrapilho.»

Até ao dia em que chega à cidade John Smith, um ex-presidiário (dizem), que paga tudo em ouro e que desperta a atenção da pacata Missy. O resto desenrola-se mais ou menos como um romance de cordel, com ela a correr atrás dele com juras de amor.

«Era o problema da cama. Transformava estranhos em íntimos, mais rapidamente do que dez anos de chá corteses, servidos em salas de estar.»

O resto da história desenrola-se quase como num romance de cordel, sem surpresas nem sobressaltos, deixando um travo de tolice.

NOTA: li algures que este livro foi polémico pois surgiram suspeitas de plágio – algumas descrições seriam muito semelhantes a um romance juvenil dos anos 80, The Blue Castle de L.M. Montgomery.

26 de maio de 2011

Flor do deserto

Autor: Waris Dirie
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Edições ASA
Páginas: 200
Preço: € 14
ISBN:  978-9-89-230952-1 
Título original: Desert flower




Avaliação: **** (bom)

Flor do Deserto levanta muitas questões e toca em pontos sensíveis: a liberdade de escolha individual e a liberdade de pôr e dispor do próprio corpo.

A nossa narradora é a autora do livro, Waris Dirie, que nos conta como passou dos desertos da Somália para o mundo da moda internacional, depois de uma infância dura na vastidão do deserto e de uma adolescência a trabalhar em casa de parentes, sem qualquer remuneração em troca.


Com uma linguagem directa, Flor do Deserto tem a sua mais-valia na descrição crua, ao pôr a nu uma cultura e religião muito diferentes da nossa realidade.

Waris (que significa flor do deserto) é uma mulher admirável, de espírito hercúleo, que passou privações e torturas aterrorizadoras, tendo sido a mais marcante a excisão (mutilação genital feminina - MGF) a que foi sujeita aos cinco anos, um ritual há muito estabelecido na Somália e outros países africanos de ideologia muçulmana. Consiste em cortar o clítoris ou em remover totalmente o mesmo e os lábios vaginais, cosendo-se em seguida os tecidos que sobram; fica apenas um minúsculo orifício pelo qual a mulher urina e menstrua.


Neste caso, a mulher "costurada" só é "aberta" para o marido (as estimativas da UNICEF  indicam que existem no mundo entre 70 a 140 milhões de mulheres às quais foi removido o clitóris, a maior parte sem qualquer esterilização e recorrendo a lâminas, pedaços de vidro e até à dentada; tudo vale para “preparar” uma menina para ser uma mulher). O pretexto? Assegurar a castidade e a preservação da virgindade até ao casamento, melhorar a fertilidade da mulher. Consequência? Elimina o prazer sexual feminino.

Quanto a mim, só posso dizer que li tudo isto completamente horrorizada; ainda hoje me custa a acreditar que tantas crianças sejam sujeitas a esta mutilação (muitas morrem em consequência de infecções e hemorragias). Há alguns anos, Waris abandonou as passarelles para se dedicar exclusivamente ao combate contra a MGF.

«É difícil saber o que me teria acontecido se não tivesse sido mutilada. Faz parte de mim, não conheço outra realidade(…) Não sabia o que ia acontecer [a total remoção dos órgãos genitais], mas estava contente porque me ia tornar mulher.»


É esta mentalidade que quer combater, razão pela qual aceitou ser embaixadora da ONU, para tentar erradicar este costume bárbaro. Verdadeiramente deliciosas são as lembranças de Waris, de quando pastoreava cabras no deserto e ajudava a mãe na lida da “tenda”, em pleno deserto. Desde cedo uma personalidade forte, Waris conseguiu sobreviver à conta da astúcia e do desembaraço natos.

Só pelas primeiras 100 páginas, o livro vale a pena. Esta flor é um cacto, de tão resistente.

16 de abril de 2011

A tenda vermelha

Autor: Anita Diamant
Género: Romance
Idioma: Português
Editora: Difel
Páginas: 368
Preço: € 15
ISBN:  978-9-72-290622-7
Título original: The red tent



Avaliação: **** (bom)

A Tenda Vermelha foi uma surpresa. Com um ritmo fluído e uma história comovente, Anita Diamant construiu um livro aconselhável a todas as mulheres.

É uma epopeia histórico-bíblica, narrada por mulheres e tendo-as como protagonistas. Começamos por ser apresentados ao clã do ganacioso Labão, cujas 4 filhas - a possante Lea, a deslumbrante Raquel, a supersticiosa Zilpah e a tímida Billah - são dadas em casamento a Jacob (mais tarde conhecido como Isra'El).

A partir daqui, partilhamos o quotidiano destas quatro forças da natureza, que incorporam a alma da comunidade nas suas diferenças. Pouco depois de iniciarmos a leitura conhecemos Dina, a nossa narradora principal - nascida biologicamente de Lea e Jacob -, mas tratada como uma filha pelas 4 mulheres, que a acarinham e partilham tudo o que sabem, especialmente quando estão na tenda vermelha, o espaço onde as mulheres recolhem nos dias do mês em que estão menstruadas.

Esta tenda é um local vedado aos homens, onde as mulheres são donas e senhoras, e cedo se percebe que toda a família depende delas, da sua força, da sua astúcia e da sua desenvoltura. Através de Dina, descobrimos a aventura de nascer e crescer mulher, a origem de alguns mistérios antigos, o dom de ser parteira, os triunfos e tragédias relacionados com o seu clã, como relatado no Livro do Génesis (com algumas romanceações), numa leitura que nunca se torna aborrecida ou demasiado religiosa.

«E só aparentemente 'A Tenda Vermelha' é um livro antigo. Na realidade trata-se de um hino à condição da mulher, no que ela tem de mais intimo e mais profundo. E também à sua capacidade, não só através da maternidade, de criar novos mundos e de desafiar velhas tradições.»

23 de janeiro de 2011

A princesa virgem

Autor: Robin Maxwell
Género:
Romance histórico

Idioma: Português
Editora: Planeta Editora
Páginas: 278
Preço: € 12
ISBN:  978-9-72-731159-0
Título original: Virgin: prelude to the throne

Avaliação:
**** (bom)

Inglaterra, 1547.

N'A Princesa Virgem, seguimos de perto a infância e adolescência de Isabel I, de seu cognome ‘Rainha Virgem’. Já todos ouvimos falar de Henrique VIII, esse monarca inglês tão obstinado e determinado que, na sua juventude, desafiou a toda-poderosa Roma e criou uma nova religião – o anglicanismo –; foi envelhecendo e gradualmente decaindo, tanto moral como psicologicamente.

Quando morreu, deixou para trás um trio de filhos de diferentes esposas: Eduardo, de Jane Seymour; Maria, de Catarina de Aragão e Isabel, de Ana Bolena. O rei inglês que lhe sucedeu foi o rapaz mas foi Isabel (a última na linha de sucessão) que teve o reinado mais longo e significativo.

«The King is dead. Long live the King.»

Este livro conta a ascensão de Isabel, com todas as jogadas políticas e intrigas de corredores e alcova por detrás da mesma. Inicialmente banida para uma obscura casa de campo (depois da sua mãe, Ana Bolena, ter sido decapitada), Isabel é chamada para a corte por Catarina Parr, a última mulher de Henry VIII, casada entretanto com o (mega) ambicioso Thomas Seymour.

Enquanto Eduardo reina (ao estilo fantoche) aconselhado pelo irmão de Thomas Seymour, este seduz Isabel na expectativa de a levar ao trono e ser o seu consorte no governo de Inglaterra. Obviamente que todos estes esquemas não são mais que fruto da imaginação da autora, já que há uma lacuna na História no que se refere a muitas figuras. Aliás, esse é o ponto negativo do livro, que tem um travinho a romance de cordel. E isto porque Robin Maxwell se deixa “viajar” demais, misturando descrições apimentadas numa narrativa que se quer com alguma credibilidade.

Nunca esquecendo que isto é ficção e há que prender o leitor, o livro vai além do meramente satisfatório e é uma boa leitura, porque nos oferece um prisma diferente da Inglaterra do século XVI, tendo algumas passagens realmente interessantes, que nos permitem conhecer melhor o funcionamento do aparelho de Estado inglês da época.

Além disso, torna-se de leitura compulsiva e em três dias está acabado e de volta à estante.

8 de janeiro de 2011

O diário secreto de Ana Bolena

Autor: Robin Maxwell
Género:
Romance Histórico

Idioma: Português
Editora: Planeta Editora
Páginas: 320
Preço: € 12
ISBN:  978-9-72-731131-6 
Título original: The secret diary of Anne Boleyn

Avaliação: **** (bom)

A leitura d’O Diário Secreto de Ana Bolena foi motivado pelo meu interesse pelo reinado dos Tudor, juntamente com a minha antipatia pela figura de Henrique VIII, um monarca influenciável, que criou cisões com papas e monarcas, mandou executar ex-mulheres e ex-amantes, esbanjou dinheiro em diversões infantis, empanturrou-se enquanto o povo passava fome. O que esperar de um absolutista?

A acção do livro centra-se em duas figuras: a de Ana Bolena e a da sua filha, Elizabeth, posteriormente conhecida como a Rainha Virgem. Num ambiente de muita intriga e imensa superstição, seguimos os acontecimentos que despertaram a atenção de Henry VIII para com Ana Bolena e o desenrolar trágico do seu caso de amor.

Paralelamente, assistimos ao definir da personalidade de Elizabeth que, ao ler o diário da mãe, percebe melhor as suas motivações e escolhas, sendo que esta leitura revela-se determinante na forma como Elizabeth encarará os homens, os seus deveres de monarca e a sua postura como mulher.

O livro de Robin Maxwell é uma versão bastante lisonjeira de Ana Bolena, que foge à demonização desta, presente em tantos outros livros sobre o tema, o que o torna uma leitura refrescante.

12 de novembro de 2010

Meu amo e senhor

Autor: Tehmina Durrani
Género: Biografia, Memórias
Idioma: Português
Editora: Edições Asa
Páginas: 320
Preço: € 15
ISBN: 978-9-72-411611-2

Avaliação: ** (fraco) 

Meu Amo e Senhor é o testemunho de Tehmina Durrani sobre parte da sua vida, focando com alguma insistência a sua relação (e casamento) com Mustafa Khar, senhor feudal e político proeminente no Paquistão, que a maltratou de forma continuada.

O livro não se lê muito bem, não só pelo conteúdo pesado – a autora não se coíbe de ser gráfica nas descrições de alguns abusos de que foi vítima por parte do companheiro – mas também pela forma pouco fluída como está escrito.

Tehmina realça o facto de que o livro é um meio de desmascarar a hipocrisia e decadência da elite que governa o Paquistão (o livro é de 1991) e de expôr a natureza violenta do seu marido.


Somos então confrontados com páginas em que a autora recorda episódios espaçados no tempo, num ritmo confuso, ao mesmo tempo que descreve a convivência com o marido; aqui os adjectivos são muito pouco lisonjeiros, com Tehmina a denunciar o adultério do marido com a irmã  e os maus-tratos constantes às mãos do "Leão do Punjabe". E seguem-se mais agressões, maus-tratos, violência, opressão.

Paralelamente, o leitor comum debate-se, enquanto a sua mente ocidental tenta perceber a razão pela qual a autora perdoa e volta sempre para os braços de um marido que não hesita em trancar-se num quarto e desancá-la com o que tiver à mão... às vezes somente porque sim. E desfia o rosário, pondo-nos ao corrente dos seus planos de reconciliação com Mustafa, pois manter as aparências é crucial...

É reconhecível na autora um elitismo tacanho e uma vontade férrea para defender a imagem de membro da classe alta, que nos faz desligar como leitores. A páginas tantas, deixamos de nos importar, porque torna-se irritante e uma perda de tempo. A uma agressão, seguem-se as pazes, depois mais uns tabefes... e o ciclo não varia.


Não posso recomendar este livro nem elogiá-lo, e a sua finalidade permanece indefinida para mim. O que me chocou mais (e já li uma boa dúzia deste género de livros) é que a mensagem resumida salda-se num retrocesso na liberdade feminina, enbandeirado por um fraco modelo de mãe e mulher. Como lição de vida, sabe a muito pouco.


Não recomendo.
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