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28 de abril de 2019

Vox



 Autor: Christina Dalcher
Género: Distopia, Thriller
Idioma: Português
Páginas: 304
Editora: TopSeller
Ano: 2019
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«E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?»

Descobri este livro por acaso, quando vi a autora a ser entrevistada num programa de divulgação cultural. A estória pareceu-me interessante e apenas quando pesquisei o livro no Google me apercebi que a) o livro já saíra há uns meses e, b) houvera uma grande publicidade à volta do mesmo.


A acção de Vox passa-se na América actual, depois de uma facção ultra-conservadora ter subido ao poder, numa eleição legítima. O novo partido, e o novo presidente dos EUA, defendem valores tradicionais, onde os papéis de homens e mulheres se baseiam naqueles vigentes várias décadas atrás, com enfoque numa prática social restritiva aos direitos das mulheres (não podem trabalhar, devendo dedicar-se exclusivamente à lida da casa e à educação dos filhos) e assente na ideologia cristã (o homem representa a figura de Deus na família, é a cabeça do casal; é ele que tem o primado da razão e a última palavra). 

Outras medidas foram implementadas, sendo a principal que todas as mulheres (menores incluídas) estão obrigadas a usarem uma pulseira-contador que limita a sua quota diária de palavras a cem - cada palavra extra acciona um choque eléctrico que aumenta de intensidade proporcionalmente ao excesso falado.

No centro do livro está a Dra. Jean McClellan, uma neurocientista doutorada em Linguística, reduzida a uma vida em casa, sem direito a salário (nem a uma conta bancária), a correspondência ou a um passaporte. Mãe de quatro filhos, uma rapariga e três rapazes, vê a filha a crescer condicionada pelas políticas vigentes. Mas quando um evento inesperado requer o seu conhecimento, Jean vê-se de volta à vida activa, com a hipótese de mudar o estado das coisas.

E estão lançadas as fundações para esta mistura de distopia e thriller, que começa muito bem mas descarrila.

O início de Vox é muito interessante, contendo todos os detalhes da ascensão ao poder da extrema-direita e a forma como as mulheres foram despromovidas a cidadãos de segunda classe - e o impacto na vida diária da população. A forma como a história se desenrola após é menos conseguida e pouco aliciante. 

Vox é claramente um livro publicado devido ao sucesso da série inspirada por A história de uma serva de Margaret Atwood, um livro bastante superior a este. Tal é normal e até esperado, mas o facto é que Vox assenta numa premissa que vende e é procurada por leitores, mas fica aquém do que promete e mesmo como thriller, já li melhor - mas o início do livro é bastante bom e levanta questões que tornam alguns cenários (arrepiantemente) possíveis nos dias de hoje - e isso leva-nos a pensar e a discussões bastante relevantes.



****
(bom)

10 de julho de 2018

The girl before



 Autor: J.P. Delaney
Género: Thriller
Idioma: Inglês
Páginas: 354
Editora: Random House LLC (Kindle)
Ano: 2017
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The girl before é um thriller envolvente passado numa casa muito especial e contado numa narrativa paralela de passado e presente. A deslumbrante e insegura Emma, ​​a inquilina passada, está tentar recuperar de um assalto recente que a forçou a uma mudança urgente de casa; a racional e metódica Jane, a inquilina actual, luta por ultrapassar o trauma de um nado-morto trabalhando como voluntária numa organização que apoia mulheres na mesma situação. Tanto Emma como Jane, bastante diferentes entre si, anseiam por um novo começo em One Folgate Street, uma casa ultra-minimalista com um sistema domótico topo de gama.

A casa está disponível por um preço acessível se o inquilino concordar com um conjunto de regras restrito - não são permitidas crianças, animais de estimação, livros, tapetes, cortinas, etc. - e em ser monitorizado pelo computador que regula a habitação - e se "adapta" ao inquilino. Edward Monkford, o arquiteto, selecciona criteriosamente os candidatos, e o contrato de arrendamento é rígido e claro na exclusão daqueles que não cumprem as cláusulas
(mais de 200). Curiosamente, o arquitecto envolve-se sexualmente com Emma e Jane, revelando-se um narcisista que as relembra frequentemente que a relação durará enquanto for perfeita... Fragilizadas pelos acontecimentos recentes e a anos-luz do equilíbrio emocional, ambas cedem facilmente à figura, numa relação cuja entrega começa e acaba no acto sexual.

 
"Everything that's yours was once hers."


Atmosférico e perverso q.b., The girl before é uma leitura viciante. Uma das coisas que mais me agradou foi a forma como a acção avança rapidamente. As histórias paralelas de Emma e Jane convergem rapidamente à medida que Jane vai descobrindo mais sobre Emma e o que poderá ter levado ao seu homicídio (ou suicídio), ao mesmo tempo que tenta ultrapassar a sua perda. As reviravoltas são interessantes e o final está bem conseguido.

Um bom thriller cujos direitos já foram comprados por Hollywood.

J.P. Delaney é o pseudónimo do autor Tony Strong, cujo trabalho desconheço; leria outro livro dele.
  


****
(bom)

22 de junho de 2015

Laços de Família

Autor: Marilynne Robinson
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 232
Editora:
Difel

Ano:
2007

ISBN:
978-972-2908511
Tradução: Isabel Veríssimo
Título original: Housekeeping 
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Lançado em 1981, Laços de Família foi considerado uma pérola rara. Nomeado para o Pullitzer (nesse ano, ganhou Coelho Enriquece, de John Updike), ficou-se pelo PEN/Hemingway Award e deixou a autora, Marilynne Robinson, debaixo de olho (curiosamente,  Robinson apenas publicaria o segundo romance, Gilead, 24 anos depois, em 2004).

Anos 50. Ruthie (a narradora) e a irmã, Lucille, são levadas pela mãe (uma mulher solitária e calada) a uma pequena cidade do Idaho, Fingerbone, onde vive a avó materna. Entregues as meninas, a mãe afasta-se de prego a fundo em direcção ao lago da cidade, suicidando-se na mesma massa de água onde o seu pai se afogara anos antes.

As duas crianças ficam entregues a uma avó inexpressiva, passando para duas tias "taralhocas" com a morte daquela e finalmente para outra tia (excêntrica até ao tutano) quando as duas solteironas decidem que criar duas crianças dá demasiado trabalho.

Rapidamente nos apercebemos que a família é atormentada pela doença mental, o suicídio e a inquietude. A autora é mestra em envolver-nos na vida doméstica e no crescimento das crianças, mas há toda uma atmosfera estranha que não torna a história credível (os actos das personagens não fazem grande sentido e a indiferença dos habitantes de Fingerbone é absurda). Há muitas respostas que ficam por dar, as personagens masculinas são irrelevantes e as mulheres da história pautam-se por uma passividade aflitiva.

Há três palavras que, para mim, resumem a história e o ambiente de Laços de Família: sublime, entediante e melancólico.
A história tem momentos evocativos e de grande beleza poética, escritos com uma elegância que se reconhece rara, mas a repetição de alguns cenários torna-se maçadora ao ponto de querermos que desate. Quanto à melancolia, é ambivalente, pois dá uma riqueza ao texto que acaba por aborrecer quando a história não avança. Ainda agora, depois de ter repensado os capítulos/as cenas mais relevantes, não consigo ver a apregoada genialidade deste livro; não foi nada gratificante seguir a infância e adolescência de Ruthie e Lucille.
 
Perdeu-se ainda algo na tradução do título: Housekeeping converteu-se em Laços de Família, quebrando o elo com a história e a forma como cada personagem é afectada pela atenção (excessiva ou falta dela) aos cuidados domésticos e à lida da casa.
 
Acredito que o livro seja superior à percepção que tive dele, mas só posso comentar aquilo que me fez sentir, num deambular demasiado longo que uma edição mais apurada teria resolvido.
 
Não vou desistir do que me trouxe ao nome da autora: a leitura de Gilead, considerada a sua melhor obra. Comecei por este romance porque foi o primeiro e queria lê-los por ordem cronológica, mas não tão cedo; cada vez que penso em Laços de Família, apetece-me bocejar.

***
(mediano/razoável)

8 de fevereiro de 2015

Hotel du Lac


Autor: Anita Brookner
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 200
Editora:
Bertrand Editora

Ano:
2011
ISBN: 978-972-2522694
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Edith Hope é uma escritora que se instala num selectivo hotel suiço depois de um acontecimento marcante. Forçada ao exílio pelos amigos mais próximos, que esperam que ela volte depois de "recuperar o juízo", Edith passa os dias em calmo isolamento, trabalhando num livro.

O hotel está na sua época baixa, antes de encerrar durante os meses de Inverno, e os hóspedes são poucos. Quando não está a escrever, Edith dá passeios solitários entre o hotel e a vila mais próxima, contempla o lago e observa a rotina dos restantes hóspedes.

Vamos então percebendo que o hotel é o cenário das mais variadas dinâmicas, onde cada um interpreta o seu papel, desde as snobs Pusey à reservada Madame de Bonneuil, passando pela extravagante Monica (e a sua cadela Kiki) e pelo mundano senhor Neville.

Pouco a pouco, vamos percebendo o que aconteceu a Edith e por que é que ela é como é: uma mulher apagada, tímida, que tem sempre em conta a opinião dos outros. E ressalvo o pouco a pouco porque Hotel du Lac tem um ritmo indolente e bucólico.

Apesar de bem escrito, a história é relativamente banal, embora demoremos a perceber isso. Este livro ganhou o Booker Prize em 1984 e eu esperava um livro melhor. Achei-o demasiado vagaroso e as personagens pouco nítidas, como se toda a acção fosse como um sonho. Vago, vago, vago.

De vez em quando, a narradora surpreende-nos com um comentário mais perspicaz, antes de se diluir na mediocridade por que pauta os seus dias no hotel. Acredito que o intento seria esse e tem a sua mestria na forma como está feito (por Anita Brookner), mas quando penso neste livro, apetece-me bocejar. Nem o facto de as personagens secundárias se irem revelando torna a história mais interessante, pois é tudo muito insonso.

Hotel du Lac é subtil, tão subtil que o seu efeito passa rapidamente e acredito que o esquecerei rapidamente. Edith Hope não é uma personagem marcante, e a sua viagem de auto-descoberta não o chega a ser, na minha opinião e não querendo desvendar nada, pois tudo o que ela fazia (antes do exílio no hotel) é o que a define como pessoa e o final é apenas a confirmação de que sempre foi, o que mostra que uma viagem de auto-descoberta pode não levar a lado algum senão ao ponto de partida.

***
(mediano/razoável)

30 de dezembro de 2014

A cor do hibisco



Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 270
Editora:
Edições Asa

Ano:
2010
ISBN: 978-989-2308531
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No Natal passado, entre outros, foi-me dado este livro, que tem estado na estante à espera que lhe pegue. Quando vi na livraria o romance Americanah, da mesma autora, hesitei na compra, porque nunca tinha lido nada de Chimamanda. Decidi ler este primeiro antes de fazer o investimento.
 
A cor do hibisco passa-se na Nigéria, de onde a autora é originária. A história é narrada do ponto de vista de Kambili, de 14 anos, cujo pai é um respeitado membro da comunidade e um católico praticante fervoroso. Fora de portas, tudo aparenta ser idílico, mas no seio familiar, Kambili, o irmão Jaja e a mãe Beatrice sofrem na pele o controlo e fanatismo do chefe de família. Eugene, o pai, é um homem de negócios inteligente, cuja riqueza providencia um conforto raro na Nigéria, e pratica o bem com generosos donativos e abrindo as portas a quem precise; em casa, é um pai exigente e um marido intransigente, com domínio total sobre a mulher e os filhos.
 
Mas a Nigéria passa por tempos políticos agitados e o jornal que Eugene patrocina é uma das vozes discordantes do regime, levando a pressões constantes e até ameaças. Numa dessas ocasiões, Kambili e Jaja vão passar uns dias com a tia e descobrem um convívio mais salutar, que não têm em casa. É a partir daí que tudo muda, tornando a violência paterna intolerável, e abrindo as portas a uma diferente forma de ver e de estar no mundo para Kambili e para Jaja.
 
A autora escreve com uma leveza e musicalidade invulgares (li no original, em inglês) e gostei da inclusão de algumas expressões em igbo (dialecto sul nigeriano). Há cenas violentas escritas com uma elegância que equilibra o tom e o conteúdo. Chimamanda sabe o que faz! Fiquei muito impressionada e pretendo ler outros livros dela, incluindo o Americanah que cobiço há meses.

Uma autora a descobrir (tem quase toda a obra traduzida cá) e A cor do hibisco um bom livro para começar.

****
(bom)

31 de agosto de 2014

I remember nothing: and other reflections

Autor: Nora Ephron
Género:
Humor
Idioma: Inglês

Páginas: 137
Editora: Knopf (Kindle edition)
Ano: 2010
ISBN:  978-0-307-59560-7
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Nora Ephron, falecida em 2012, tornou-se famosa por êxitos de bilheteira como Você tem uma Mensagem, When Harry Met Sally e Sintonia de Amor. No campo das letras, distinguiu-se pelos seus artigos femininos  na revista Esquire e pelos livros espirituosos sobre a condição feminina, de que Não gosto do meu pescoço - e outros humores, achaques e amores da vida das mulheres e este I remember nothing: and other reflections são um exemplo.

Gosto da frontalidade e do humor de Nora. Este livro alterna capítulos longos com outros de 3 páginas, onde a autora descreve a sua evolução como jornalista numa época em que as mulheres eram relegadas para tarefas menores, como é ter um rolo de carne com o seu nome (num restaurante de um amigo), como lidar com um fracasso de bilheteira ou como o fenómeno do e-mail passou de benção a maldição, sempre num tom divertido e passando de um assunto sério para um trivial com desprendimento.

O livro foi publicado 2 anos antes da morte da autora, e é engraçado como Nora aflora o assunto da morte constantemente sem o referir directamente, focando-se antes no avançar da idade, na dificuldade em reconhecermos que estamos velhos e perceber como a memória (e outras coisas) começa a falhar.

O livro que li dela antes deste falava mais directamente de morte e de doença, mas conseguia ser mais leve. Nora não se referia à família como aqui (o alcoolismo da mãe, que morreu ao 57, e o corte de relações com uma das irmãs, por motivos de herança) e é possível perceber que tem alguns assuntos pendentes mas dá para perceber que o livro não funciona como terapia, embora o tom seja confessional.
 
Continuo a não ser grande apreciador da filmografia de Nora Ephron, mas acho-a uma mulher interessante e adoro o seu sentido de humor; o seu legado é positivo em todos os aspectos e sei que leria todos os seus livros futuros.

***
(mediano/razoável)

11 de junho de 2014

Objectos Cortantes


Autor: Gillian Flynn
Género:
Policial
Idioma: Português

Páginas: 256
Editora:
Gótica
Colecção: Nocturnos
Ano:
2002
ISBN:  978-972-792204-8
Título original: Sharp Objects
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Gillian Flynn é uma das minhas autoras favoritas. Li todos os seus livros (escreveu três, até agora), gostei muito de todos eles e reli recentemente o seu romance de estreia, vencedor de vários prémios, este Objectos Cortantes.

Gillian Flynn tem o condão de escrever sobre mulheres fortes e inteligentes, com tanto de perturbantes como de perturbadas. Coloca-as no centro da acção, a falar connosco e a fazer-nos sentir tudo o que estão a experienciar. Há sempre violência, manipulação e mentira.

Camille Preaker é uma jornalista num jornal diário de pouca visibilidade. Não sonha em ganhar o Pulitzer e sabe que faz o mínimo necessário. Quando o editor a manda investigar e fazer uma peça sobre o assassinato de duas raparigas em Wind Gap, a cidade onde Camille cresceu, ela tenta resistir, mas acaba por aceitar enfrentar os fantasmas que a assombram há anos: a morte prematura da irmã, a relação distante com a mãe, o passado de excessos e auto-abuso.

Em Wind Gap, revê ex-amigos, conhecidos e ex-colegas, mulheres com quem já nada tem em comum e homens que lhe piscam o olho evocando libertinagens passadas. Revê uma mãe fria, um padrasto inacessível e conhece uma meia irmã que vive uma vida dupla. No meio disto, acaba por se involver mais do que devia no caso das raparigas assassinadas e por ter algumas revelações traumáticas.

Gillian Flynn escreve de forma atenta e perspicaz e Camille é uma narradora sem papas na língua, cruel consigo mesma e com os outros. Não nos esconde nada nem é perfeita (nem o tenta parecer). As personagens são credíveis, algumas abomináveis, mas não conseguimos não querer saber. Há distúrbios psicológicos para todos os gostos e a história não se esquece com facilidade, tanto que já a li há anos mas ainda me lembrava dos traços de algumas personalidades.


Objectos Cortantes tem tudo o que um thriller deve ter (e mais uns pózinhos) e é impossível de largar.

Um livro muito bom, como todos os da autora, que também escreveu Em Parte Incerta e Lugares Escuros, ambos em vias de adaptação ao cinema.

*****
(muito bom)

18 de maio de 2014

Histórias de Mulheres


Autor: Rosa Montero
Género:
Biografia
Idioma: Português

Páginas: 239
Editora:
Edições Asa

Ano:
2002
ISBN:  972-41-3139-4
Título original: Historias de mujeres
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
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Histórias de Mulheres não é um romance mas lê-se como um.

Leio poucas biografias porque não é um género que me interesse particularmente. Este livro, que já reli três vezes (!) é uma excepção, não só pelos nomes escolhidos mas pelos comentários lúcidos e às vezes poéticos da autora. É um livro muito bem escrito.

Rosa Montero tem uma consagrada carreira jornalística e ficou famosa, no país vizinho, pelas suas entrevistas. Trabalha no jornal espanhol El País desde 1977 e já editou 26 livros, 9 dos quais publicados em Portugal. Dela, ainda só li este.

Em Histórias de Mulheres, Rosa Montero traça o perfil de quinze mulheres que se destacaram e acabaram por marcar ou representar uma época, rompendo tradições, entre personagens mais conhecidas – Agatha Christie, Frida Kahlo, Emily Brontë, Simone de Beauvoir – e mais obscuras, como Laura Riding e Mary Wollstonecraft.

Numa narrativa perspicaz, a autora resume a vida de mulheres singulares, demonizadas por subverterem o seu papel. De épocas e nacionalidades distintas, todas têm em comum o desgaste de uma sociedade machista numa luta pela liberdade, pelo direito à diferença e pelo reconhecimento. 

«Quero dizer que metade da humanidade, a parte feminina, viveu durante milénios, uma existência frequentemente clandestina e em grande parte esquecida, mas sempre muito mais rica do que o molde social a que estava presa, sempre acima dos preconceitos e dos estereótipos.»


Umas biografias são verdadeiramente inspiradoras, com episódios de coragem e sacrifício artístico, enquanto outras são tristes. Alguns destes nomes estavam votados ao esquecimento, como o de Camille Claudel e María Lejárraga, e Montero deu-lhes voz novamente, o que me fez pesquisar a sua obra; isso fala por si.



Histórias de Mulheres é um livro recomendadíssimo, muito bom mesmo.

*****
(muito bom)

4 de maio de 2014

A persistência da memória


Autor: Daniel Oliveira
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora:
Oficina do Livro

ISBN: 978-989-7411076
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A persistência da memória marca a estreia de Daniel Oliveira nos romances.

Gosto do programa Alta Definição e tento ler autores portugueses sempre que possível, por isso quando uma colega de trabalho me emprestou o livro, não hesitei.

Camila Vaz é uma apresentadora de televisão com uma vida desafogada. O seu traço mais distinto é a memória, pois Camila tem o síndrome de memória superior, o que lhe confere a capacidade de se recordar ao pormenor de todos os acontecimentos da sua vida, tenham sido bons ou não.

Só o Rio de Janeiro me faria esquecer os pedaços de mim que não vieram. Deixei em Lisboa aquela Camila que não quero ser. Todas as outras que sou vieram comigo.

Pela voz da narradora, vamos passeando pela cosmopolita Nova Iorque e pelo escaldante Rio de Janeiro, assistimos a cenas de cama e de cumplicidade com amantes diversos e a episódios traumáticos envolvendo familiares e estranhos.

Os capítulos iniciais são promissores. Acho destemido o autor que tenta escrever pela voz do sexo oposto e estava receptiva. Não me identifiquei com a protagonista nem revi mulheres que conheço na mesma, mas entendi a mulher que Camila é.
 
Sempre me senti uma máquina de viver, cuja consequência foi criar tantas sensações quantas estivesse disposta a fruir.
 
Apesar de estar bem escrito e conter algumas reflexões bastante lúcidas e profundas, é um livro que acaba por se perder na mensagem. Gostei das notas sobre Fernando Pessoa e Salvador Dalí, embora a maioria estivesse presente na metade do livro que achei mais fraca. 

É bom ler em português, mesmo quando as expectativas saem goradas. A persistência da memória é uma estreia ambiciosa da qual esperava mais direcção e menos divagação.

***
(mediano/razoável)

10 de março de 2014

A praia do destino



Autor: Anita Shreve
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 416
Editora:
Edições Asa
ISBN:  978-972-413946-3
Título original: Fortune's Rocks
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Orgulho-me de ser eclética, o que se estende às artes, especialmente na música e na literatura. Leio livros de todos os géneros e não discrimino temas, embora tenha preferências.

A praia do destino foi uma oferta do meu amigo J., um livro que está na estante há anos e no qual decidi pegar depois da minha última leitura, As virgens suicidas, um livro sombrio e pesado que pedia uma leitura seguinte mais leve e positiva.

A acção passa-se no despertar de uma nova era, em 1900. Olympia Biddeford é uma jovem de 15 anos com uma educação apurada, convicta das suas opiniões. Filha única, tem no pai o seu maior impulsionador intelectual, que a instiga a ler autores inteligentes e desafiantes. Na casa dos Biddeford, os jantares e convívios são frequentes, e a família divide o tempo entre Boston e Fortune's Rock, onde passa os Verões.

No Verão em que completa 16 anos, Olympia apaixona-se perdidamente, um amor que vai desafiar as convenções da época: o seu eleito é John Haskell, um médico e pai de família, casado e vinte e cinco anos mais velho. A história de amor entre ambos é tão intensa que nenhum mede realmente as consequências até ao dia em que são descobertos e ambas as famílias veêm o seu mundo virado ao contrário, com Olympia a ter de lutar contra preconceitos e a ruína familiar.

A história é simples o suficiente para não criar grande expectativa, mas o que se destaca e me fez continuar a ler foi o estilo da autora, elegante e directo, sem nunca cair no exagero. As personagens estão longe de serem perfeitas (Olympia é menor quando se envolve voluntariamente com Haskell) e são credíveis ao ponto de ter pensado em dar um par de estalos à protagonista, uma narradora sincera e frontal com algumas escolhas questionáveis e o egoísmo próprio da idade.

A autora consegue manter o interesse do leitor com arte e introduz reviravoltas interessantes, abordando problemas sociais e culturais da época, mas mantendo o enfoque da acção na protagonista, uma jovem privilegiada que nunca chega a passar necessidades dignas desse nome mas cuja força interior é um exemplo.
 
Uma boa leitura, claramente feminina.

****
(bom)

30 de dezembro de 2013

... adeusinho, ó 2013!


Olá, leitores do bué de livros!

Esperam que tenham tido o melhor Natal possível, com presentes q.b. (uns quantos livros, espero) e muita saúde e alegria. Por aqui, o Natal foi bom e tive alguns livros no sapatinho.

2013 foi um ano fértil em leituras, com uma média de 2 a 3 livros por mês, uma melhoria face a 2012. Isto não reflecte os livros técnicos (ossos do ofício e uma curiosidade natural por vários assuntos) que também li, principalmente no ipad.

Assim sendo, e à semelhança do que fiz há um ano atrás, decidi eleger o melhor das minhas leituras, mas desta vez decidi deixar de lado as piores, pois ando a sentir-me bué de democrática e cada gosto (ai tão plural que é) é de cada um.

O importante é ler (principalmente depois desta notícia, que coloca os Portugueses com os níveis mais baixos de leitura e consumo cultural em toda a Europa), o que ainda me espanta, pois recorro à biblioteca municipal e às promoções para alimentar o "bichinho" da leitura, já para não falar que tenho a sorte de ler em inglês e leio muito (e em conta) no meu kindle. Mas adoro ler e, como é uma prioridade, arranjo forma de a satisfazer. Mais uma vez, tolerância.

Mas adiante com o top...

Do melhor que li em 2013, recomendo sem reservas os seguintes títulos, curiosamente todos de senhoras escritoras (clicando em cada imagem acedem à minha opinião sobre o livro):

Lugares escuros
Em parte incerta
O aloendro branco
Sangue felino

Este ano, acabei de ler a saga Sangue Fresco e aconselho; apesar dos primeiros livros serem muito mais excitantes que os últimos, a Sookie tornou-se uma personagem viciante, cujas aventuras urgia seguir. No global, os 13 livros são uma delícia.

Foi ainda um prazer descobrir autores como Ondjaki e Kafka, que continuarei a seguir.

E é tudo.

 Um excelente 2014 a todos e boas leituras!

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