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26 de maio de 2011

Flor do deserto

Autor: Waris Dirie
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Edições ASA
Páginas: 200
Preço: € 14
ISBN:  978-9-89-230952-1 
Título original: Desert flower




Avaliação: **** (bom)

Flor do Deserto levanta muitas questões e toca em pontos sensíveis: a liberdade de escolha individual e a liberdade de pôr e dispor do próprio corpo.

A nossa narradora é a autora do livro, Waris Dirie, que nos conta como passou dos desertos da Somália para o mundo da moda internacional, depois de uma infância dura na vastidão do deserto e de uma adolescência a trabalhar em casa de parentes, sem qualquer remuneração em troca.


Com uma linguagem directa, Flor do Deserto tem a sua mais-valia na descrição crua, ao pôr a nu uma cultura e religião muito diferentes da nossa realidade.

Waris (que significa flor do deserto) é uma mulher admirável, de espírito hercúleo, que passou privações e torturas aterrorizadoras, tendo sido a mais marcante a excisão (mutilação genital feminina - MGF) a que foi sujeita aos cinco anos, um ritual há muito estabelecido na Somália e outros países africanos de ideologia muçulmana. Consiste em cortar o clítoris ou em remover totalmente o mesmo e os lábios vaginais, cosendo-se em seguida os tecidos que sobram; fica apenas um minúsculo orifício pelo qual a mulher urina e menstrua.


Neste caso, a mulher "costurada" só é "aberta" para o marido (as estimativas da UNICEF  indicam que existem no mundo entre 70 a 140 milhões de mulheres às quais foi removido o clitóris, a maior parte sem qualquer esterilização e recorrendo a lâminas, pedaços de vidro e até à dentada; tudo vale para “preparar” uma menina para ser uma mulher). O pretexto? Assegurar a castidade e a preservação da virgindade até ao casamento, melhorar a fertilidade da mulher. Consequência? Elimina o prazer sexual feminino.

Quanto a mim, só posso dizer que li tudo isto completamente horrorizada; ainda hoje me custa a acreditar que tantas crianças sejam sujeitas a esta mutilação (muitas morrem em consequência de infecções e hemorragias). Há alguns anos, Waris abandonou as passarelles para se dedicar exclusivamente ao combate contra a MGF.

«É difícil saber o que me teria acontecido se não tivesse sido mutilada. Faz parte de mim, não conheço outra realidade(…) Não sabia o que ia acontecer [a total remoção dos órgãos genitais], mas estava contente porque me ia tornar mulher.»


É esta mentalidade que quer combater, razão pela qual aceitou ser embaixadora da ONU, para tentar erradicar este costume bárbaro. Verdadeiramente deliciosas são as lembranças de Waris, de quando pastoreava cabras no deserto e ajudava a mãe na lida da “tenda”, em pleno deserto. Desde cedo uma personalidade forte, Waris conseguiu sobreviver à conta da astúcia e do desembaraço natos.

Só pelas primeiras 100 páginas, o livro vale a pena. Esta flor é um cacto, de tão resistente.

21 de novembro de 2010

Jack, o Estripador - retrato de um assassino

Autor:  Patricia Cornwell
Género: Não Ficção
Idioma: Português
Editora: Editorial Presença
Páginas: 356
Preço: € 17,65
ISBN:  978-9-72-233121-0

Avaliação: *** (mediano)

Jack, o Estripador é uma figura incontornável, alvo de inúmeros livros, filmes e videojogos; grande parte do fascínio que exerce prende-se largamente com o mistério que envolve a sua verdadeira identidade. 


Os suspeitos daquele que pode ter sido o assassino de Whitechapel são mais do que muitos, reduzidos a uma lista oficial de 30 indivíduos (lista detalhada aqui), entre os quais se contam o Príncipe Alberto e o escritor Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas. Há inúmeras teorias, algumas com nomes sonantes como os referidos e uns poucos com pessoas anónimas que, ao terem o seu passado esmiuçado, encaixam-se numa ou outra circunstância oportuna para serem incriminados, ficando assim na memória colectiva. Escritores, detectives, médicos, cineastas, muitos foram aqueles que apresentaram a sua versão dos crimes perpetrados na era vitoriana; a escritora Patricia Cornwell decide revelar-nos a sua teoria neste livro.

Cornwell é uma consagrada autora de policiais, melhor conhecida pela sua personagem Kay Scarpetta, uma investigadora forense que deslinda crimes através de autópsias e análises clínicas meticulosas com recurso à tecnologia - uma espécie de Dr.ª Temperance Brennan, da série televisiva Ossos.

Não sendo de ficção, este livro encontra-se entre os títulos policiais, junto aos outros livros da escritora; a sinopse prometia o nome verdadeiro de Jack, com todas as provas reunidas pela autora exploradas minuciosamente. Como o tema me interessa e já tinha lido (e até jogado em PC) títulos do género, não hesitei em ler.


A primeira metade do livro é quase impossível de pousar, com um ritmo ficcional viciante. Cornwell crê piamente que Jack, O Estripador foi o respeitado pintor britânico Walter Richard Sickert e recorre a correspondência diversa, obras artísticas e testemunhos de familiares e amigos para construir e fundamentar a sua teoria.

Escrito 114 anos depois dos acontecimentos que mergulharam Whitechapel num clima de terror, Jack, O Estripador – retrato de um assassino tem como base um conjunto de provas circunstanciais reunidas pela autora que, juntas e enquadradas, não provam nada.
Creio que Cornwell teve uma atitude ousada (onde por vezes se descortina alguma arrogância e prepotência) ao apontar o pintor como o sangrento Jack, em grande parte porque não é capaz de apresentar uma prova irrefutável do que afirma (o que também será quase impossível). O seu retrato psicológico d'O Estripador recorre às técnicas actuais e baseia-se numa visão apurada do modo de vida, de actuar e pensar da Londres do final do século 19.

Cornwell mistura opiniões pessoais com apreciações pouco isentas. O livro é uma compilação de conjecturas de acções que Sickert poderia ter praticado, da forma como encarava as mulheres e até da sua eventual impotência. Uma das alegações é a de que Walter R. Sickert - que privou com Óscar Wilde, que foi pupilo de Whistler e que é considerado um dos mestres pintores do século 19 - tem quadros repletos de violência e muitos deles representam cenas ligadas aos crimes; tal tem uma explicação plausível: o artista vivia obcecado com os crimes d'O Estripador e transmitiu esse fascínio para a sua pintura. Não é inédito no mundo das artes.

Fiz alguma pesquisa  na net e está registado de forma rigorosa que Sickert tinha comportamentos e um temperamento que denotavam uma tendência para a sociopatia, mas daí a ser dado como certo de que foi o impiedoso e calculista Jack
parece-me ir uma grande diferença. Por mais que Cornwell se agarre a uma análise de ADN de Sickert que, na melhor das hipóteses, é «um indicador minimamente razoável» de que ele e Jack poderiam ser a mesma pessoa, afirmá-lo peremptoriamente é calunioso.

De positivo temos o facto do livro estar bem escrito e ser notório o extenso trabalho de pesquisa de Cornwell, embora isso não torne o seu conteúdo menos especulativo. As descrições extremamente realistas das ruas escuras de Whitechapel, da vida madrasta das prostitutas e indigentes do East End e da falta de condições com que a polícia londrina patrulhava as ruas são arrepiantes; a facilidade com que alguém poderia cometer um crime e nunca ser apanhado – sem impressões digitais, sem sequências de ADN, sem análises de fibras e cabelos, todas usadas no deslindar dos crimes actuais, basta atentar no CSI - é angustiante. Seria fácil para um psicopata inteligente e meticuloso como se revelou Jack, O Estripador ter feito o que fez e nunca ser descoberto.

Quem foi esta figura? Homem, mulher? Quais os seus motivos? Estas e outras perguntas continuam por esclarecer, mas, justiça seja feita, de todos os livros que já li sobre o assunto, este é um dos melhores, juntamente com O Diário de Jack, O Estripador, de Shirley Harrison. No entanto, apenas e só do ponto de vista ficcional, já que rotulá-lo de não ficção é enganar o leitor.

É um livro que interessará aos fãs de policiais e mistérios. Quanto a Cornwell, creio que deve ter mais cautela a aventurar-se fora do registo que a notabilizou.
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