3 de novembro de 2010

Drácula, o regresso

Autor: Freda Warrington
Género: Fantástico, Terror
Idioma: Português
Editora: Edições Século XXI
Páginas: 243
Preço: € 14,37
ISBN: 978-97-2829319-2
Avaliação: ***** (muito bom) 

Drácula – O Regresso, no original Dracula the Undead, foi editado exactamente 100 anos após a publicação do clássico mundialmente conhecido de Bram Stoker; Drácula foi o livro que revolucionou a forma como vemos os vampiros e o pioneiro de um género que moveria milhões de autores e leitores a nível mundial.
É inegável e bastante óbvio o fascínio que estas criaturas da noite inspiram no homem médio; prova disso é a consagração de escritores como Anne Rice e actores como Bela Lugosi e Christopher Lee, que deram ao mundo personagens ricas e algo estereotipadas do vampiro, um ser sedutor, bem falante e imortal, que eterniza a beleza e o hedonismo.
«Nunca saberá o que é amar a vida como eu amo – amá-la tão apaixonadamente que estamos preparados até para ludibriar a morte. Amá-la é tão intenso, na verdade, que não podemos morrer – ou permanecermos mortos!» (Conde Drácula)
Depois da obra de Bram Stoker, muitos (milhares) foram os livros que exploram (e continuam a fazê-lo) o filão de ouro que é o vampirismo (ocorre-me o fenómeno mais recente, Crepúsculo). Li muitos deles e exceptuando um punhado de autores, o saldo não é nada bom. Tornou-se um lugar comum retratar os vampiros como criaturas sensuais e sequiosas, sem qualquer resquício de humanidade (passe a ilusória contradição) ou valores, movidos apenas pelo desejo de beber sangue.

E é exactamente nesse ponto que Freda Warrington, a autora de Drácula – O Regresso, evita cair – nem poderia, visto que escrever um livro e apelidá-lo da «sequela da obra de Bram Stoker» é uma responsabilidade titânica que só poderia redundar num sucesso absoluto ou num desolador e mencionadíssimo fiasco.

A própria escritora referiu que foi um desafio que aceitou com entusiasmo mas algum receio. No worries, pois Freda ganhou a batalha. Além de ter alcançado o objectivo (escreveu uma história fiel ao espírito da obra de Stoker), produziu um livro soberbo e ainda foi reconhecida: ganhou o prémio 'Children of the Night 1997' para melhor romance gótico, atribuído pela prestigiada Dracula Society. Mais, ganhou em mim uma fã fidelíssima (embora isso já não a deva entusiasmar tanto). Mas deixemo-nos de entretantos e passemos ao livro em si.

Passaram-se 7 anos desde que uma estaca perfurou o coração do infame e odiado Conde Drácula, 7 anos que não apagaram da memória dos sobreviventes a imagem do vampiro e a magnitude do seu terrífico poder.

Jonathan e Mina Harker têm agora uma criança, Quincey, e vivem em paz, tanto quanto possível. Como catarse, encetam, juntamente com os companheiros de luta (Van Helsing, entre outros), uma viagem à Transilvânia. Não encontram qualquer vestígio da presença de Drácula, embora o seu nome ainda resida no consciente colectivo e seja figura de proa no folclore da região, pelo que a jornada se revela um sucesso. Tudo parece bem. Porém, algures nos confins da terra, a força do espírito do Conde aguarda uma oportunidade de voltar a ser carne e sangue. E esse ensejo acaba por chegar pela delicada mão de um alguém insuspeito.

Drácula volta a erguer-se e a andar entre os incautos vivos. E a sua obsessão amorosa por Mina Harker prossegue como se nada tivesse mudado, assim como permanece intocável o seu ódio por aqueles que o destruíram e que tudo farão para o devolver ao Inferno. Drácula – O Regresso é uma obra extremamente bem escrita, que respeita escrupulosamente toda a atmosfera presente no livro de Stoker e que retoma as personagens sem lhes descurar a essência.

Os diálogos são ricos e todo o fio da acção é credível e inteligente. Há a introdução de novas personagens que surgem perfeitamente enquadradas e adequadas ao enredo. Continua a sentir-se a aura de sensualidade tão característica da literatura vampiresca e a carnalidade é sempre de bom gosto e nunca gratuita.

«Não posso iludir-me! Eu caí porque o horror docemente doloroso não era nada comparado com a suprema agonia do prazer.» (Mina Harker)

É um livro belíssimo que não posso deixar de recomendar. Claro que sou suspeita: um dos meus filmes favoritos é a adaptação do clássico por Francis Ford Coppola e o romance de Bram Stoker é uma obra-prima a que não sou indiferente, mas creio que mesmo para o leitor comum, este será um livro a registar e a ter em atenção. Pessoalmente, senti-me arrebatada. Quem nunca se questionou sobre a imortalidade, seja do amor, da alma ou da vida?

«Toda a minha vontade de viver estava contida em ti, no teu sangue, carne e alma. E tu rejeitaste-me. És uma amante mais cruel do que eu alguma vez fui! Dado que um de nós deve morrer, que a sobrevivente sejas tu. Por muito que eu tenha amado a minha existência, amo ainda mais a tua.» (Conde Drácula)

24 de outubro de 2010

Comer Orar Amar

Autor: Elizabeth Gilbert
Género: Romance
Idioma: Português
Editora: 11 x 17
Páginas: 512
Preço: € 10
ISBN: 978-97-2251893-2
Avaliação: *** (mediano) 

Aos 30 e poucos anos anos, Liz Gilbert (a autora do livro) tem uma vida cheia: casada e a tentar ter um filho, viaja pelo mundo, escreve os seus artigos de viagem, tem amigos leais, o dinheiro não é problema... Porém, dá por si, uma madrugada, prostrada no chão da casa de banho, a soluçar e a suplicar por ajuda divina. A razão? Esta não é a vida que quer. Não quer ter um filho, não quer estar casada, não quer continuar no lar que ela e o marido construíram.

Segue-se um penoso divórcio, um romance pós-divórcio pouco saudável e uma quase-depressão que a leva por caminhos menos coloridos. Aos 34, sentindo-se velha e derrotada e sem gosto pela vida (ela, Liz, que sempre teve tanto gosto pela vida!), chega à conclusão que a sua única hipótese (e forma de renascer) é tirar 1 ano para si, longe do que conhece; decide dividir o seu itinerário centrado no I (eu em inglês): 4 meses em Itália para aprender a língua e entregar-se aos prazeres da mesa, 4 meses na Índia num ashram para se entregar de corpo e alma à devoção iogue, 4 meses na Indonésia onde pretende praticar o equilíbrio que as duas viagens anteriores (espera) lhe trouxerem. Um aparte: esta viagem tinha-lhe sido vaticinada por um curandeiro balinês há um ou dois anos atrás. Siga.


Uma coisa positiva sobre o livro: é bastante sensorial. A forma como a autora descreve tudo o que a rodeia e o entrelaça com humor e ditos espirituosos - e até algumas informações de algibeira -, tornam o livro fresco e fácil de ler, mas... não mais credível.


Claro está que a personalidade de Gilbert poderá não ser para todos (toda a gente parece adorá-la assim que a conhece, não há grande profundidade no seu relato, algumas questões ficam no ar, como a razão do seu casamento ser horrível), e algumas vezes dei por mim a pensar se algumas situações aconteceram mesmo como a autora conta (como os problemas de sono do sobrinho - a muitos milhões de kms - desaparecerem por ela lhe dedicar uma oração todas as manhãs quando esteve na Índia), mas prossegui a leitura sem julgamentos.

Porém, não posso deixar de notar que apesar da autora focar e discorrer amiúde sobre os seus relacionamentos falhados, a sua forma de ser dependente e obcecada, não se poupando sobre a sua culpa em diversas situações, o relato da sua relação espiritual com Deus - que despoleta a ruptura do seu casamento no início do livro - e sobretudo a evolução da mesma é bastante parca, arrematada em meia dúzia de parágrafos. Fiquei com a sensação que a ideia era chegar a Bali (Indonésia) o mais rápido possível, onde novas aventuras (e um novo amor) a esperavam. 

O livro lê-se bem e é leve, sem dúvida. Aliás, parece-me cor-de-rosa demais para alguém que esteve à beira do abismo, completamente perdida, e confia decisões importantes a profecias e ditos de curandeiros, deixando uma vida (ainda que divorciada e sem filhos) estruturada para trás. 

O que me incomoda é que acredito que a autora omitiu várias coisas desta sua jornada espiritual de uma mulher «em busca de tudo»; falta-lhe realismo e autenticidade, porque a vida não é só coisas lindas e maravilhosas. Mais, que mulher se pode dar ao luxo de, em plena crise existencial, pegar numa mala e ir percorrer o mundo? Aqui com uma nuance: não sem antes convencer o editor que o livro que vai resultar dessa viagem vai ser um best-seller e compensar a avantajado adiantamento que ele lhe deu, financiando essa mesma viagem.

É fantástico, a acreditar em vários artigos e entrevistas que li, que tantas pessoas apregoem aos sete ventos que este livro é a última coca-cola no deserto, que lhes abriu os olhos, que tiveram a epifania enquanto e quando o leram. Bom para elas, parabéns. Para mim foi apenas mais uma leitura, razoável q.b., sendo que a nível literário, já li muito melhor e... por aqui me fico.
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