12 de novembro de 2010

Meu amo e senhor

Autor: Tehmina Durrani
Género: Biografia, Memórias
Idioma: Português
Editora: Edições Asa
Páginas: 320
Preço: € 15
ISBN: 978-9-72-411611-2

Avaliação: ** (fraco) 

Meu Amo e Senhor é o testemunho de Tehmina Durrani sobre parte da sua vida, focando com alguma insistência a sua relação (e casamento) com Mustafa Khar, senhor feudal e político proeminente no Paquistão, que a maltratou de forma continuada.

O livro não se lê muito bem, não só pelo conteúdo pesado – a autora não se coíbe de ser gráfica nas descrições de alguns abusos de que foi vítima por parte do companheiro – mas também pela forma pouco fluída como está escrito.

Tehmina realça o facto de que o livro é um meio de desmascarar a hipocrisia e decadência da elite que governa o Paquistão (o livro é de 1991) e de expôr a natureza violenta do seu marido.


Somos então confrontados com páginas em que a autora recorda episódios espaçados no tempo, num ritmo confuso, ao mesmo tempo que descreve a convivência com o marido; aqui os adjectivos são muito pouco lisonjeiros, com Tehmina a denunciar o adultério do marido com a irmã  e os maus-tratos constantes às mãos do "Leão do Punjabe". E seguem-se mais agressões, maus-tratos, violência, opressão.

Paralelamente, o leitor comum debate-se, enquanto a sua mente ocidental tenta perceber a razão pela qual a autora perdoa e volta sempre para os braços de um marido que não hesita em trancar-se num quarto e desancá-la com o que tiver à mão... às vezes somente porque sim. E desfia o rosário, pondo-nos ao corrente dos seus planos de reconciliação com Mustafa, pois manter as aparências é crucial...

É reconhecível na autora um elitismo tacanho e uma vontade férrea para defender a imagem de membro da classe alta, que nos faz desligar como leitores. A páginas tantas, deixamos de nos importar, porque torna-se irritante e uma perda de tempo. A uma agressão, seguem-se as pazes, depois mais uns tabefes... e o ciclo não varia.


Não posso recomendar este livro nem elogiá-lo, e a sua finalidade permanece indefinida para mim. O que me chocou mais (e já li uma boa dúzia deste género de livros) é que a mensagem resumida salda-se num retrocesso na liberdade feminina, enbandeirado por um fraco modelo de mãe e mulher. Como lição de vida, sabe a muito pouco.


Não recomendo.

3 de novembro de 2010

Drácula, o regresso

Autor: Freda Warrington
Género: Fantástico, Terror
Idioma: Português
Editora: Edições Século XXI
Páginas: 243
Preço: € 14,37
ISBN: 978-97-2829319-2
Avaliação: ***** (muito bom) 

Drácula – O Regresso, no original Dracula the Undead, foi editado exactamente 100 anos após a publicação do clássico mundialmente conhecido de Bram Stoker; Drácula foi o livro que revolucionou a forma como vemos os vampiros e o pioneiro de um género que moveria milhões de autores e leitores a nível mundial.
É inegável e bastante óbvio o fascínio que estas criaturas da noite inspiram no homem médio; prova disso é a consagração de escritores como Anne Rice e actores como Bela Lugosi e Christopher Lee, que deram ao mundo personagens ricas e algo estereotipadas do vampiro, um ser sedutor, bem falante e imortal, que eterniza a beleza e o hedonismo.
«Nunca saberá o que é amar a vida como eu amo – amá-la tão apaixonadamente que estamos preparados até para ludibriar a morte. Amá-la é tão intenso, na verdade, que não podemos morrer – ou permanecermos mortos!» (Conde Drácula)
Depois da obra de Bram Stoker, muitos (milhares) foram os livros que exploram (e continuam a fazê-lo) o filão de ouro que é o vampirismo (ocorre-me o fenómeno mais recente, Crepúsculo). Li muitos deles e exceptuando um punhado de autores, o saldo não é nada bom. Tornou-se um lugar comum retratar os vampiros como criaturas sensuais e sequiosas, sem qualquer resquício de humanidade (passe a ilusória contradição) ou valores, movidos apenas pelo desejo de beber sangue.

E é exactamente nesse ponto que Freda Warrington, a autora de Drácula – O Regresso, evita cair – nem poderia, visto que escrever um livro e apelidá-lo da «sequela da obra de Bram Stoker» é uma responsabilidade titânica que só poderia redundar num sucesso absoluto ou num desolador e mencionadíssimo fiasco.

A própria escritora referiu que foi um desafio que aceitou com entusiasmo mas algum receio. No worries, pois Freda ganhou a batalha. Além de ter alcançado o objectivo (escreveu uma história fiel ao espírito da obra de Stoker), produziu um livro soberbo e ainda foi reconhecida: ganhou o prémio 'Children of the Night 1997' para melhor romance gótico, atribuído pela prestigiada Dracula Society. Mais, ganhou em mim uma fã fidelíssima (embora isso já não a deva entusiasmar tanto). Mas deixemo-nos de entretantos e passemos ao livro em si.

Passaram-se 7 anos desde que uma estaca perfurou o coração do infame e odiado Conde Drácula, 7 anos que não apagaram da memória dos sobreviventes a imagem do vampiro e a magnitude do seu terrífico poder.

Jonathan e Mina Harker têm agora uma criança, Quincey, e vivem em paz, tanto quanto possível. Como catarse, encetam, juntamente com os companheiros de luta (Van Helsing, entre outros), uma viagem à Transilvânia. Não encontram qualquer vestígio da presença de Drácula, embora o seu nome ainda resida no consciente colectivo e seja figura de proa no folclore da região, pelo que a jornada se revela um sucesso. Tudo parece bem. Porém, algures nos confins da terra, a força do espírito do Conde aguarda uma oportunidade de voltar a ser carne e sangue. E esse ensejo acaba por chegar pela delicada mão de um alguém insuspeito.

Drácula volta a erguer-se e a andar entre os incautos vivos. E a sua obsessão amorosa por Mina Harker prossegue como se nada tivesse mudado, assim como permanece intocável o seu ódio por aqueles que o destruíram e que tudo farão para o devolver ao Inferno. Drácula – O Regresso é uma obra extremamente bem escrita, que respeita escrupulosamente toda a atmosfera presente no livro de Stoker e que retoma as personagens sem lhes descurar a essência.

Os diálogos são ricos e todo o fio da acção é credível e inteligente. Há a introdução de novas personagens que surgem perfeitamente enquadradas e adequadas ao enredo. Continua a sentir-se a aura de sensualidade tão característica da literatura vampiresca e a carnalidade é sempre de bom gosto e nunca gratuita.

«Não posso iludir-me! Eu caí porque o horror docemente doloroso não era nada comparado com a suprema agonia do prazer.» (Mina Harker)

É um livro belíssimo que não posso deixar de recomendar. Claro que sou suspeita: um dos meus filmes favoritos é a adaptação do clássico por Francis Ford Coppola e o romance de Bram Stoker é uma obra-prima a que não sou indiferente, mas creio que mesmo para o leitor comum, este será um livro a registar e a ter em atenção. Pessoalmente, senti-me arrebatada. Quem nunca se questionou sobre a imortalidade, seja do amor, da alma ou da vida?

«Toda a minha vontade de viver estava contida em ti, no teu sangue, carne e alma. E tu rejeitaste-me. És uma amante mais cruel do que eu alguma vez fui! Dado que um de nós deve morrer, que a sobrevivente sejas tu. Por muito que eu tenha amado a minha existência, amo ainda mais a tua.» (Conde Drácula)
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