17 de junho de 2011

Frankenstein

Autor: Mary Shelley
Género:
Gótico

Idioma: Português
Editora: Leya
Páginas: 240
Preço: € 6
ISBN:  978-9-89-653019-8
Título original: Frankenstein; or the modern Prometheus

Avaliação: ***** (muito bom)

Mary Shelley escreveu Frankenstein em 1818, na sequência de um desafio lançado num serão, onde estavam Lorde Byron, Percy Shelley e John Polidori. 

A autora tinha 21 anos e o repto, lançado por Byron, foi que cada um dos presentes escrevesse uma história tão negra que fizesse tremer o mais imperturbável dos homens.

Curiosamente, não foram as figuras mais sonantes que se destacaram; o obscuro e discreto secretário de Byron, John Polidori, apresentou O Vampiro, e Mary, na altura companheira do poeta Shelley, escreveu Frankenstein. Ambos os livros são hoje clássicos incontornáveis da literatura e servem de tema a ensaios e de inspiração ao género de terror/fantástico.

Publicado anonimamente, Frankenstein começou por ser apresentado sob a forma de conto e só mais tarde desenvolvido por Mary, incentivada por Percy Shelley.

A história é comummente conhecida: Victor Frankenstein é um médico-cientista brilhante e auto-didacta que, a partir de pedaços de cadáveres, dá vida ao Monstro, uma criatura hedionda, de força e resistência sobre-humanas, mas que possui uma alma.

Com o avançar da história, percebemos que Frankenstein e o Monstro formam partes diferentes de um mesmo todo: ambos procuram a felicidade, ambos necessitam de amigo e de uma companheira para amar. E nenhum deles é feliz.

Victor é rico, atraente, o Monstro é horrível, um eremita à força. Os dois têm uma inteligência brilhante e a sua felicidade torna-se inalcançável com a inexistência do outro: Victor
Frankenstein abandona e ostraciza a sua criação e recusa-se a fazer uma companheira para o Monstro, e este, como vingança, elimina os entes queridos do seu criador, transformando-lhe a vida num inferno, revoltado pelo cientista não o compreender e acarinhar, amaldiçoando-lhe a existência.

Mary Shelley guia-nos (subtilmente) ao longo da história e damos por nós a desprezar Frankenstein pelo seu egoísmo irresponsável e a apiedarmo-nos do Monstro, que aprende a ler e a instruir-se sozinho, repudiado pela sua aparência de ogre. 

Há uma forte crítica social a uma sociedade pronta a julgar o carácter de alguém baseado somente na aparência, num livro que questiona o que é válido e correcto. Numa era como a nossa, onde a clonagem é um assunto de ontem e os avanços científicos sucedem-se em catadupa, Frankenstein surpreende pela pertinência e actualidade; Mary Shelley criou personagens ímpares e magnéticos, que tornam a leitura muito envolvente.

Esta edição de bolso está a um preço anti-crise, um pretexto extra para ler este clássico intemporal.

10 de junho de 2011

A criada

Autor: Isabel Marie
Género:
Literatura

Idioma: Português
Editora: Terramar
Páginas: 140
Preço: € 6
ISBN:  978-9-89-710175-7
Título original: La bonne




Avaliação: **** (bom)

A Criada é um livro fininho, de cento e poucas páginas, que se lê enquanto o diabo esfrega um olho. De linguagem acessível e parágrafos curtos, conta uma história contemporânea, sem entrelinhas.

A narradora é Sarah, uma jovem de 23 anos, recém-licenciada em Filosofia e
hedonista assumida. Habituada a viver o presente ao sabor do que acontece, leccionar numa escola parece-lhe inconcebível. Nómada urbana (aloja-se em pensões e quartos de particulares), faz questão de viver em Paris, pela riqueza de eventos e culturas, e apenas procura o sexo oposto para gratificação sexual.

Candidata-se à função de empregada doméstica de um casal de classe média-alta, Laura e Bernardo, decidida a não revelar a sua identidade. Uma vez aceite, "Clara" (Sarah), passa a desempenhar um papel de catalisador entre os cônjuges, dando-lhes carinho, conforto e atenção. À medida que o tempo passa, Clara/Sarah vai-se envolvendo cada vez mais com o casal, mantendo um registo pormenorizado sobre a relação que tem com ambos: sexual com Bernardo e platónica com Laura.

A leitura d'A Criada é tão fluída (e breve) que rapidamente chegamos ao final, deparando-nos com um final com tanto de credível como de actual. Há algo magnético nas personagens cinzentas e lineares do livro, tão comuns, perdidos num quotidiano insípido e automatizado (mas inconscientemente à espera de algo que lhes dê alento).


Em jeito de nota de rodapé, a autora, nascida em Barcelona, foi uma psicanalista, deportada em criança pelo regime de Franco. Este seu romance esteve nomeado para vários prémios. Isabel Marie enforcou-se em 1996.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...