13 de setembro de 2011

Equador

Autor: Miguel Sousa Tavares
Género: Romance Histórico
Idioma: Português
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 528
Preço: € 25
ISBN:  978-9-89-555013-5

Avaliação:
*****
(muito bom)


Equador é um livro que não perde magia na releitura. Ao longo de mais de 500 páginas, Miguel Sousa Tavares (MST) delineia com mestria a história de Luís Bernardo Valença, um homem forte, de mente e ideais românticos.

A acção inicia-se em clima de decadência monárquica, em 1905, num Portugal muito rural.

Luís Bernardo é um bon vivant, amigo do seu conhaque e charuto habano, galante e provador de belas senhoras, fiel ao seu amigo e aborrecido de morte com a existência que leva. Como qualquer pessoa aventureira que sonha com algo mais do que a monotonia que a instabilidade financeira e moral providenciam, ambiciona mais da vida do que o que tem, apesar de não saber o que será a “tal coisa” que o fará sentir-se vivo.

Até que, fruto das suas declarações em público e artigos de opinião na imprensa – é um abolicionista convicto -, é convidado para o cargo de governador de S. Tomé e Príncipe pelo próprio El-Rei, a fim de se certificar que a mão-de-obra nas ilhas não é escrava e que as condições de trabalho nas roças são tomenses nada têm de esclavagista.

A sua missão primordial é provar aos Ingleses que os negros não são explorados e que o cacau que exportam é resultado de uma exploração digna e correcta dos recursos humanos. Mas tal feito não será fácil e Luís Bernardo vê-se a braços com uma tarefa hérculea, sem saber em quem confiar.

Não quero revelar muito mais da história. A descoberta de S. Tomé como um paraíso na terra orientado por demónios capitalistas e sem escrúpulos, com quem o nosso herói terá que se bater, é arrebatadora e a leitura torna-se viciante. É desgastante e emocionante seguir o percurso de Luís Bernardo, assistir aos seus duelos com os roceiros e testemunhar os salamaleques políticos.

Há mestria na forma como a autor traça o fio da acção e suspende o leitor no final de cada capítulo, ao longo de um volume considerável que vemos decrescer sem darmos pela passagem do tempo. Tornamo-nos reféns da beleza das paisagens e da intensidade com que o protagonista vive e respira o que o rodeia.

O final surpreendeu-me mas afigura-se-me o único possível de fechar o romance com chave d’ouro e sem hipótese de desiludir o leitor, depois de tantas dezenas de páginas passadas.
«O que não havia em Portugal era uma tradição de cidadania, um desejo de liberdade, um gosto de pensar e agir pela própria cabeça: o desgraçado do trabalhador do campo dizia e fazia o que o patrão lhe mandava, este repetia o que o cacique local lhe transmitia e este, por sua vez, prestava contas e vassalagem aos próceres do partido em Lisboa. Podia mexer-se no cume da pirâmide, que tudo o resto, até à base, permaneceria inamovível.»

6 de setembro de 2011

Brancos Estúpidos - e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação



Autor: Michael Moore
Género:
Humor
Idioma: Português
Editora: Temas e Debates
Páginas: 304
Preço: € 17
ISBN:  978-9-72-759626-3
Título original: Stupid white men... and other sorry excuses for the state of the nation!

Avaliação: **** (bom)

Brancos Estúpidos . e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação é um livro que a brincar vai dizendo umas verdades. É uma crítica assumida em tom de paródia às administrações americanas pré-Obama: as de Bush filho e Clinton.

Foi um best-seller em 6 países europeus, foi traduzido em 15 línguas e fez grande sucesso nos EUA, com sucessivas edições. O autor é Michael Moore, escritor e cineasta controverso, famoso por não ter papas na língua.

Aqui, Moore aponta baterias a um sem número de grupos, que critica sem descanso. Começando pelo plano político, onde nos explica detalhadamente os meandros da política norte-americana, inclusive a fraude das eleições que puseram W. Bush no poder, ou «o ladrão-mor e o usurpador da Sala Oval», como é apelidado pelo autor, disserta ainda sobre as políticas internas e externas mais desastrosas dos últimos anos, abrangendo as medidas sociais e económicas.

«Deve ter sido a melhor coisa a que assisti na cidade de Washington – um pretendente ao trono americano obrigado a meter o rabo entre as pernas e a fugir de milhares de cidadãos americanos armados apenas com a verdade e os ingredientes para uma boa omeleta.»
(escreve o autor acerca do episódio em que W. Bush, depois de “vencer” as eleições se dirigia ao Capitólio e era vaiado e o seu carro bombardeado com ovos por um grupo americanos indignados.)

George W. Bush é o “presidente”, porque Moore não lhe reconhece a legitimidade, e é chamado de tudo, desde palerma a incompetente, com o seu cadastro dissecado: a detenção por conduzir bêbado, as experiências com marijuana em adolescente, o facto de nunca ter tido de trabalhar ou de se esforçar para obter fosse o que fosse, abrigado pelo apelido que ostenta, a sua dependência alcoólica. Moore faz ainda uma lista das decisões desastrosas de W., que cortou financiamentos e subsídios a escolas e políticas sociais em curso, projectos-lei ambientais, cuidados médicos e pensões, decisões que ainda hoje se fazem sentir.

Através do ritmo fluído e despachado da narrativa, constata-se que os states não são o paraíso que se julga, passando os seus habitantes por dificuldades idênticas às nossas: incompetência judicial, as penas pequenas dos criminosos, os salários baixos, as políticas educacionais e a fraca assistência aos carenciados.

Pela “pena” de Moore, analisei melhor a política norte-americana, conheci as fraquezas das medidas de Clinton (um presidente que não fez grande coisa aparte o contributo inquestionável em questões internacionais) e alguns maus passes feitos por Bush Pai e por Reagan.

O autor chama os americanos de idiotas por terem dedicado em exclusivo a sua atenção, nos anos 90, à nódoa de esperma num vestido azul de uma certa estagiária e aos encontros amorosos de Hugh Grant com uma trabalhadora do sexo quando havia tanta coisa para questionar e debater, e expõe as debilidades de uma nação que é tida como «a mais estúpida do Mundo».

Numa crítica cerrada aos poderosos e à América corporativista, alguns capítulos de
Brancos Estúpidos . e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação dedicam-se a enumerar o que está errado na sociedade americana, com especial destaque para o racismo e a forma como a mentalidade reinante é limitada e centrada no seu próprio umbigo. Todas as considerações de Moore são escritas em tom provocatório mas camufladas de humor, o que, creio, foi feito para "safar" o escritor de processos judiciais sérios.

Uma leitura diferente, não-ficcional, que aumentou o meu conhecimento em muitas áreas. Vale o que vale pois não é imparcial, mas gosto de ler perspectivas diferentes sobre os assuntos e esta é divertida.
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