5 de maio de 2019

Call me by your name




Autor: André Aciman
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 268
Editora: Farrar, Straus and Giroux (Kindle)
Ano: 2008
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Mais de dois anos após a saída do filme homónimo, que colocou o romance de Aciman no "mapa", finalmente leio o livro.

A relação de Elio e Oliver nas versões literária e cinematográfica fez correr muita tinta, inspirando inúmeros artigos, posts, opiniões e críticas especializadas. Muito se escreveu e analisou, com mais ou menos paixão, um sinal claro de que os temas abordados pelo autor "mexem" com o público.

A acção passa-se num Verão no norte de Itália, nos anos 80. Elio (o narrador) tem 17 anos, estuda música e é precoce, precocidade essa que se reflecte no seu discurso, no seu humor e nos seus gostos. O comportamento é temperamental, indicativo da sua idade, mas a maior parte do tempo é dedicado à música e à leitura, num qualquer canto sossegado da casa.

A casa de férias da família está sempre cheia de rostos familiares de amigos e vizinhos, mas há uma cara nova todos os Verões: um estudante de doutoramento supervisionado pelo pai de Elio, um homem afável e comunicativo. Nesse ano, o estudante é um americano de 24 anos, Oliver, que se vai tornar a obsessão do narrador.
« Perhaps we were friends first and lovers second. But then perhaps this is what lovers are. »

Pelos olhos e voz de Elio, vamos assistindo ao florescer do romance entre os dois -
a atracção velada, os avanços e recuos, os mal-entendidos -, à sua consumação (a primeira vez de Elio) e ao passar veloz dos meses, com o fim do Verão a parecer ditar o fim do romance, uma relação que vai marcar o protagonista para sempre.
« I wanted him dead too, so that if I couldn't stop thinking about him and worrying about when would be the next time I'd see him, at least his death would put an end to it. (...) If I didn't kill him, then I'd cripple him for life, so that he'd be with us in a wheelchair and never go back to the States. If he were in a wheelchair, I would always know where he was, and he'd be easy to find. I would feel superior to him and become his master, now that he was crippled.

Then it hit me that I could have killed myself instead, or hurt myself badly enough and let him know why I'd done it. If I hurt my face, I'd want him to look at me and wonder why, why might anyone do this to himself, until, years and years later--yes, Later!--he'd finally piece the puzzle together and beat his head against the wall. »


Apesar de Elio ser precoce, é muito jovem; os seus desabafos e pensamentos relembram-nos isso. Apesar de ter lido sobre o amor e a exaltação dos sentidos em obras maiores, aquilo que experiencia com Oliver atinge-o com uma intensidade extrema - bem (d)escrita por Aciman, num lirismo cru que resulta bem numas vezes e noutras deixa algo a desejar ao romance e ao bom gosto.
« We had never taken a shower together. We had never even been in the same bathroom together. "Don't flush," I'd said, "I want to look." What I saw brought out strains of compassion, for him, for his body, for his life, which suddenly seemed so frail and vulnerable. (...) "I want you to see mine," I said. He did more. He stepped out [of the shower], kissed me on the mouth, and, pressing and massaging my tummy with the flat of his hand, watched the whole thing happen. »

A parte final do livro é para mim a melhor, passadas mais de 200 páginas de suspiros, hormonas aos saltos e impulsos adolescentes. As palavras do pai de Elio, a conversa que Elio e Oliver têm ao telefone, algumas considerações (mais) lúcidas que vêm com a idade são a melhor parte do livro para mim. Esperava mais - mais profundidade, mais frescura e irreverência nas passagens de Elio - mas não fiquei totalmente desapontada. No fim ficou alguma tristeza pelo jovem com tanto potencial que duas décadas passadas, ainda olha aquele Verão em que perdeu a virgindade com um homem mais velho como o evento mais importante da sua vida.

« Twenty years was yesterday, and yesterday was just earlier this morning, and morning seemed light-years away. »

Gostei de algumas passagens mas o saldo é mediano
. 


***
(mediano/razoável)

28 de abril de 2019

Vox



 Autor: Christina Dalcher
Género: Distopia, Thriller
Idioma: Português
Páginas: 304
Editora: TopSeller
Ano: 2019
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«E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?»

Descobri este livro por acaso, quando vi a autora a ser entrevistada num programa de divulgação cultural. A estória pareceu-me interessante e apenas quando pesquisei o livro no Google me apercebi que a) o livro já saíra há uns meses e, b) houvera uma grande publicidade à volta do mesmo.


A acção de Vox passa-se na América actual, depois de uma facção ultra-conservadora ter subido ao poder, numa eleição legítima. O novo partido, e o novo presidente dos EUA, defendem valores tradicionais, onde os papéis de homens e mulheres se baseiam naqueles vigentes várias décadas atrás, com enfoque numa prática social restritiva aos direitos das mulheres (não podem trabalhar, devendo dedicar-se exclusivamente à lida da casa e à educação dos filhos) e assente na ideologia cristã (o homem representa a figura de Deus na família, é a cabeça do casal; é ele que tem o primado da razão e a última palavra). 

Outras medidas foram implementadas, sendo a principal que todas as mulheres (menores incluídas) estão obrigadas a usarem uma pulseira-contador que limita a sua quota diária de palavras a cem - cada palavra extra acciona um choque eléctrico que aumenta de intensidade proporcionalmente ao excesso falado.

No centro do livro está a Dra. Jean McClellan, uma neurocientista doutorada em Linguística, reduzida a uma vida em casa, sem direito a salário (nem a uma conta bancária), a correspondência ou a um passaporte. Mãe de quatro filhos, uma rapariga e três rapazes, vê a filha a crescer condicionada pelas políticas vigentes. Mas quando um evento inesperado requer o seu conhecimento, Jean vê-se de volta à vida activa, com a hipótese de mudar o estado das coisas.

E estão lançadas as fundações para esta mistura de distopia e thriller, que começa muito bem mas descarrila.

O início de Vox é muito interessante, contendo todos os detalhes da ascensão ao poder da extrema-direita e a forma como as mulheres foram despromovidas a cidadãos de segunda classe - e o impacto na vida diária da população. A forma como a história se desenrola após é menos conseguida e pouco aliciante. 

Vox é claramente um livro publicado devido ao sucesso da série inspirada por A história de uma serva de Margaret Atwood, um livro bastante superior a este. Tal é normal e até esperado, mas o facto é que Vox assenta numa premissa que vende e é procurada por leitores, mas fica aquém do que promete e mesmo como thriller, já li melhor - mas o início do livro é bastante bom e levanta questões que tornam alguns cenários (arrepiantemente) possíveis nos dias de hoje - e isso leva-nos a pensar e a discussões bastante relevantes.



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(bom)
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