25 de dezembro de 2019

Permanent record


Autor: Edward Snowden
Género: Biografia, Política
Idioma: Inglês
Duração: 11h e 31min
Editora: Pan MacMillan (Audible)
Ano: 2019

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Permanent record saiu há uns meses, em Setembro. 

O livro em si não precisava de publicidade mas a instauração de um processo contra o autor por violação dos acordos de confidencialidade quando era contratado dos serviços de inteligência norte-americanos, pouco tempo depois da publicação criou um efeito contrário - o efeito streisand -, referido por Snowden aquando de uma entrevista ao Daily Show, criando ainda mais élan

Quando livro saiu, já muito tinha sido escrito e discutido sobre as acções de Snowden, que vive na capital russa desde Junho de 2013. Mas esta é a versão de Snowden, começando pela sua infância nos subúrbios, passando por uma adolescência atribulada com o divórcio dos pais e muitas faltas à escola até à percepção de uma facilidade acima da média em informática, fruto de ser um utilizador intensivo da internet, até à entrada no mundo do trabalho, primeiro como militar e depois como contratado de empresas-fachada para os serviços de inteligência.
 

O livro surge depois de vários documentários e um filme de Oliver Stone, depois de várias entrevistas dadas por Snowden e inúmeros artigos jornalísticos e posts de celebridades e/ou de anónimos, numa amálgama de informação relativa à revelação dos detalhes dos programas de vigilância do governo dos Estados Unidos, onde vários validam a teoria de "big brother is watching" e outros se recusam a acreditar.

Dito isto, a narrativa é bastante credível. Mesmo que haja dúvidas sobre as motivações de Snowden, poucos acreditarão hoje em dia que não existam condições para a existência da chamada vigilância em massa das massas, e que os governos (não apenas o norte-americano) não aproveitem a oportunidade para o fazer - e a tentação existirá, podemos dizer com segurança. 
 
Só este facto é suficiente para nos chamar a atenção e suscitar o debate. É a nossa privacidade, mesmo que não tenhamos "nada a esconder". Qualquer oposição governamental/institucional deverá ser vista com desconfiança e contestada; numa altura em que os políticos têm uma credibilidade quase nula, cabe ao cidadão estar  informado e usar a globalização a seu favor, em vez de permitir que lhe digam o que pensar. 
 
Leitura recomendada.
 
****
(bom)

25 de novembro de 2019

The man who mistook his wife for a hat


Autor: Oliver Sacks
Género: Humor
Idioma: Inglês
Páginas: 242
Editora: Picador UK
Ano: 2007

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Ao longo da sua carreira, o neurologista Oliver Sacks deparou-se com muitos casos clínicos tirados do manual e para os quais estariam prescritos diagnósticos certeiros e tratamentos comprovados. Estes muitos casos não perdiam complexidade por serem frequentes mas dificilmente fariam um profissional da área coçar a cabeça em desorientação. 

O que Sacks relata neste livro foram os casos que o fizeram coçar a cabeça em 25 anos de carreira já somados quando o livro foi editado nos anos 80. 

O livro divide-se em quatro partes: a primeira lida com as perdas/défices da função neurológica, decorrentes de acidentes ou velhice (lesões raras que resultavam em associar pessoas a objectos - ver o título do livro - ou a formas abstractas, o fenómeno de "membros fantasma", a cegueira selectiva e perdas de memória extremas associadas ao álcool e à má nutrição); na segunda parte fala-se de excessos como o síndrome de Taurette (caracterizado por tiques físicos e vocais - um síndrome explorado em alguns filmes de comédia) - e de neurossífilis, que causa alterações na personalidade; a terceira parte relata os estados de "transporte", ditos oníricos e ausências, manifestados em alucinações e numa hiper-memória; e a quarta parte fala do «mundo dos simples», i.e., autistas e deficientes intelectuais.
 

Numa vasta galeria de personagens, destaca-se a forma carinhosa como o neurologista encara os seus pacientes, numa mistura de fascínio e curiosidade, mas também respeito. O autor, falecido em 2015, exerceu em vários hospitais de renome dos EUA e do Reino Unido, mas também em sanatórios, tendo visto pacientes de todas as idades e estratos sociais.

A linguagem do livro é técnica q.b., acessível ao leitor médio. Há várias menções a estudos de outros profissionais da neurologia e a devida reverência aos médicos que primeiramente identificaram as condições narradas (A. Luria, Purdon Martin, Tourette). 

Sacks confessa em várias pequenas notas que o cérebro humano, com os seus 60% de gordura e triliões de conexões neurais, é realmente fascinante, e que nem os profissionais da área conseguem desvendar muitos dos seus segredos. Graças a eles e ao seu extenso trabalho, vemos alguns deles desvelados.
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(bom)
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