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9 de junho de 2020

Diabolical summer


Autores: Thierry Smolderen, Alexandre Clérisse
Género: Banda Desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 168
Editora: IDW (Kindle)
 Ano: 2016
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Esta banda desenhada francesa, Prémio BD Fnac em 2017, e minha estreia na obra deste dois artistas que colaboram frequentemente, foi uma agradável surpresa.

1967, Côte d’Azur. Antoine é um rapaz discreto de 15 anos que divide as férias grandes entre partidas de ténis e namoricos. Quando conhece o espevitado Erik, os dois rapazes iniciam uma amizade improvável, o que não agrada ao pai de Antoine.

Pouco tempo depois, o jovem vê-se envolvido num rodopio de situações dramáticas. Quando o pai desaparece, o Verão de 1967 torna-se o Verão de todas as descobertas e emoções. Acidentes, espiões e uma conspiração ao mais alto nível. Um Verão diabólico, sem dúvida…

A história de Diabolical summer é complexa e sofisticada, mas são as ilustrações de Clérisse que ficam na retina. O festival kitsch dos anos 60, as cores psicadélicas, o charme retro da década perfeitamente captado, fazendo gosto ao olho na dissecação de cada vinheta.

Quando acabamos o livro é isso que fica. Uma boa história magistralmente ilustrada. Very groovy, baby!

*****
(muito bom)

22 de abril de 2020

A Peste



Autor: Albert Camus
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 320
Editora: Vintage (ebook)
Ano: 2012

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Publicada em 1947, A Peste é considerada uma das obras mais notáveis de Albert Camus, Nobel da Literatura de 1957.
 

O livro tem sido muito mencionado desde que o mundo entrou em "quarentena covid" e parece ter-se tornado leitura obrigatória.

A acção d'A Peste passa-se em Orão, na Algéria sob domínio francês, onde
as vidas dos habitantes são controladas «pelos seus hábitos, as rotinas de trabalho, idas a restaurantes e cinemas, casos amorosos superficiais». 

Quando de um dia para o outro, começam a ver-se alguns ratos mortos pelas ruas, a vida continua sem sobressaltos. Quando os ratos começam a morrer às centenas, o que obriga à recolha visível e cremação dos cadáveres, o facto é noticiado ainda sem grande alarido. Quando começam a surgir as primeiras mortes entre a população, as autoridades estão reticentes em adoptar medidas extremas.
  
«Everybody knows that pestilences have a way of recurring in the world; yet somehow we find it hard to believe in ones that crash down on our heads from a blue sky. There have been as many plagues as wars in history; yet always plagues and wars take people equally by surprise.»

Leva algum tempo mas, gradualmente, o público começa a ver a epidemia como um desastre colectivo. A peste traz «justiça imparcial», com vítimas de todos os estratos sociais. Finalmente decreta-se a quarentena. Aqueles que tentam escapar da cidade são alvejados.

Devido ao elevado número de mortes, os funerais começam a ser feitos sem cerimónia. Eventualmente, torna-se necessário enterrar as vítimas em valas comuns. Quando não há mais espaço no cemitério, as autoridades começam a cremar os corpos.

Vários meses se passam até se voltar à normalidade. 

Até lá, a população tem de lidar com o isolamento, a privação, o desaparecimento de entes queridos, a mortalidade iminente. Há saques, contrabando, escapes hedonistas. Há esperança, amizade, superação, numa história que é densa e fortemente filosófica. Os temas são actuais e a semelhança com o que se passa presentemente é arrepiante. É uma grande narrativa.

Não é um livro perfeito. Pessoalmente, creio que é demasiado longo; teria lucrado com o corte de alguns capítulos. Há muita repetição e algumas situações parecem acessórias, sendo inicialmente muito desenvolvidas e concluídas sumariamente. Há somente um par de personagens femininas (e são secundárias).

No final, relembra-se que uma pandemia está sempre iminente - apenas adormecida -, e o ser humano nada pode fazer para o impedir. É um facto que não podemos negar, somos disso testemunhas; o mundo não será o mesmo depois disto.
*****
(muito bom)

2 de abril de 2020

Persépolis


Autor: Marjane Satrapi
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 352 (integral)
Editora: Vintage Digital (e-book)
Ano: 2008
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Marjane Satrapi (pseudónimo de Marjane Ebihamis) é de origem iraniana e nesta série de banda desenhada muito aclamada, conta a sua história.

É uma criança quando o regime de Reza Pahlavi cai; o xá fora posto no poder pelos norte-americanos, que queriam acesso livre ao petróleo iraniano. O povo iraniano, ao tentar libertar-se de cinquenta anos de tirania, abriu a porta ao regime islâmico, não lucrando com a troca.


A primeira parte de Persépolis é narrada por uma criança que tenta entender o mundo dos adultos e fazer sentido das coisas que lhe são contadas. Estamos no início da década de 80 e as universidades estão a ser encerradas; o uso do véu torna-se obrigatório para as mulheres. Os pais da precoce Marjane protestam contra o regime mas a repressão é violenta. Assustados, mandam a filha para a Áustria para prosseguir os estudos.

É assim que Marjane começa a frequentar o liceu francês em Viena, sem falar uma palavra de alemão. Os amigos são miúdos rebeldes que lhe dão a conhecer as drogas e a sexualidade livre. Dividida entre duas culturas completamente diferentes, luta por ter algum equilíbrio. 

Quando após quatro anos, Marjane regressa a Teerão, a guerra com o Iraque terminou mas a cidade está em ruínas e o governo continua repressivo. A jovem cai numa depressão grave mas com o apoio da família consegue ultrapassá-la e voltar a concentrar-se na sua educação.

O que eu mais gosto nos desenhos de Marjane Satrapi é a mistura do trágico com o burlesco, nunca se furtando à auto-crítica, aos eventos históricos e ao juízo à sociedade islâmica iraniana, onde a liberdade de expressão não existe, onde tudo é proibido (maquilhagem, música, festas, demonstrações de afecto). Os iranianos tentam criar, em casa, um espaço de liberdade e identidade, mas muitos são influenciados pelos valores tradicionais e são eles mesmos a repreender outros que não sigam a ideologia do regime. 

Persépolis narra gráfica e habilmente os sentimentos e emoções de uma mulher rebelde que recusa viver em submissão, ilustrando de uma forma poderosa o cenário histórico-político iraniano. É uma história arrebatadora, que merece ser lida.

O livro, banido de várias escolas norte-americanas - onde foi incluído como leitura obrigatória, gerando mil controvérsias -, ganhou vários prémios, foi adaptado ao cinema, premiado em Cannes e nomeado aos Óscares. A autora abandonou o Irão em 1994 para não mais voltar. Obteve a nacionalidade francesa e reside em Paris, vivendo da realização, da escrita e da ilustração.

*****
(muito bom)

23 de fevereiro de 2020

Miss Pas Touche


Autor: Kerascoët
Género: Banda desenhada
Idioma: Francês
Páginas: 216
Editora: Dargaud
Ano: 2015

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Paris nos anos 30. Depois da euforia com o fim da primeira guerra mundial, a capital francesa está novamente em crise com um cenário de desemprego, inflação e racionamento - cada lar limitado a 300g de pão por dia, por exemplo. 

Blanche e Agathe são duas irmãs que sobrevivem sendo criadas internas numa casa de uma velha aristocrata. O salário é baixo mas é melhor que nada, e não dormem na rua. Blanche, fiel ao seu nome, é tímida e ajuizada, e prefere ficar em casa a sair. Já Agathe é um espírito mais livre e gosta de  sonhar acordada; é adepta dos arrais parisienses, conhecidos por guinguettes, onde vai com uma amiga. Os dias repetem-se sem sobressaltos. 

Até à noite em que Agathe é assassinada em frente à irmã, que não consegue distinguir as feições dos assassinos. Despedida e sem onde morar, de luto pela irmã, Blanche decide fazer a sua própria investigação assim que arranjar outro trabalho. Acaba a trabalhar no bordel mais conceituado da cidade, frequentado pela nata da sociedade e onde a discrição é chave.

Rebaptizada Miss Pas Touche (Menina não-me-toques), e firme nas suas resoluções - proteger a sua virgindade e descobrir os assassinos de Agathe - Blanche inicia a sua actividade como "dominatrix", insultando e zurzindo os clientes com um gosto e ferocidade que lhe aumentam a reputação e a utilidade para o negócio.
 
O meu livro é a edição integral, que reúne os 4 volumes que saíram entre 2006 e 2009:

Volume 1 : La Vierge du bordel (a virgem do bordel);
Volume 2 : Du sang sur les mains (sangue nas mãos);
Volume 3 : Le prince charmant (o príncipe encantado);
Volume 4 : Jusqu'à ce que la mort nous sépare (até que a morte nos separe);

Os temas são adultos mas a violência não é explícita no traço nem no texto. As personagens são "coloridas", muito expressivas, e as principais são bem dimensionadas. Há alguma previsibilidade nos últimos dois volumes, sendo que os dois primeiros são os mais consistentes. O tema da amizade e dos laços afectivos tem destaque e há vários temas (homossexualidade, classes sociais, igualdade de género) que são explorados à luz da época de uma forma muito bem sucedida.

Para mim, foi  uma excelente iniciação ao trabalho de Kerascoët, uma dupla de ilustradores franceses, e gotaria de ler mais deles no futuro.

****
(bom)
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