Mostrar mensagens com a etiqueta drama. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta drama. Mostrar todas as mensagens

22 de abril de 2020

A Peste



Autor: Albert Camus
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 320
Editora: Vintage (ebook)
Ano: 2012

---
Publicada em 1947, A Peste é considerada uma das obras mais notáveis de Albert Camus, Nobel da Literatura de 1957.
 

O livro tem sido muito mencionado desde que o mundo entrou em "quarentena covid" e parece ter-se tornado leitura obrigatória.

A acção d'A Peste passa-se em Orão, na Algéria sob domínio francês, onde
as vidas dos habitantes são controladas «pelos seus hábitos, as rotinas de trabalho, idas a restaurantes e cinemas, casos amorosos superficiais». 

Quando de um dia para o outro, começam a ver-se alguns ratos mortos pelas ruas, a vida continua sem sobressaltos. Quando os ratos começam a morrer às centenas, o que obriga à recolha visível e cremação dos cadáveres, o facto é noticiado ainda sem grande alarido. Quando começam a surgir as primeiras mortes entre a população, as autoridades estão reticentes em adoptar medidas extremas.
  
«Everybody knows that pestilences have a way of recurring in the world; yet somehow we find it hard to believe in ones that crash down on our heads from a blue sky. There have been as many plagues as wars in history; yet always plagues and wars take people equally by surprise.»

Leva algum tempo mas, gradualmente, o público começa a ver a epidemia como um desastre colectivo. A peste traz «justiça imparcial», com vítimas de todos os estratos sociais. Finalmente decreta-se a quarentena. Aqueles que tentam escapar da cidade são alvejados.

Devido ao elevado número de mortes, os funerais começam a ser feitos sem cerimónia. Eventualmente, torna-se necessário enterrar as vítimas em valas comuns. Quando não há mais espaço no cemitério, as autoridades começam a cremar os corpos.

Vários meses se passam até se voltar à normalidade. 

Até lá, a população tem de lidar com o isolamento, a privação, o desaparecimento de entes queridos, a mortalidade iminente. Há saques, contrabando, escapes hedonistas. Há esperança, amizade, superação, numa história que é densa e fortemente filosófica. Os temas são actuais e a semelhança com o que se passa presentemente é arrepiante. É uma grande narrativa.

Não é um livro perfeito. Pessoalmente, creio que é demasiado longo; teria lucrado com o corte de alguns capítulos. Há muita repetição e algumas situações parecem acessórias, sendo inicialmente muito desenvolvidas e concluídas sumariamente. Há somente um par de personagens femininas (e são secundárias).

No final, relembra-se que uma pandemia está sempre iminente - apenas adormecida -, e o ser humano nada pode fazer para o impedir. É um facto que não podemos negar, somos disso testemunhas; o mundo não será o mesmo depois disto.
*****
(muito bom)

30 de dezembro de 2014

A cor do hibisco



Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 270
Editora:
Edições Asa

Ano:
2010
ISBN: 978-989-2308531
---

No Natal passado, entre outros, foi-me dado este livro, que tem estado na estante à espera que lhe pegue. Quando vi na livraria o romance Americanah, da mesma autora, hesitei na compra, porque nunca tinha lido nada de Chimamanda. Decidi ler este primeiro antes de fazer o investimento.
 
A cor do hibisco passa-se na Nigéria, de onde a autora é originária. A história é narrada do ponto de vista de Kambili, de 14 anos, cujo pai é um respeitado membro da comunidade e um católico praticante fervoroso. Fora de portas, tudo aparenta ser idílico, mas no seio familiar, Kambili, o irmão Jaja e a mãe Beatrice sofrem na pele o controlo e fanatismo do chefe de família. Eugene, o pai, é um homem de negócios inteligente, cuja riqueza providencia um conforto raro na Nigéria, e pratica o bem com generosos donativos e abrindo as portas a quem precise; em casa, é um pai exigente e um marido intransigente, com domínio total sobre a mulher e os filhos.
 
Mas a Nigéria passa por tempos políticos agitados e o jornal que Eugene patrocina é uma das vozes discordantes do regime, levando a pressões constantes e até ameaças. Numa dessas ocasiões, Kambili e Jaja vão passar uns dias com a tia e descobrem um convívio mais salutar, que não têm em casa. É a partir daí que tudo muda, tornando a violência paterna intolerável, e abrindo as portas a uma diferente forma de ver e de estar no mundo para Kambili e para Jaja.
 
A autora escreve com uma leveza e musicalidade invulgares (li no original, em inglês) e gostei da inclusão de algumas expressões em igbo (dialecto sul nigeriano). Há cenas violentas escritas com uma elegância que equilibra o tom e o conteúdo. Chimamanda sabe o que faz! Fiquei muito impressionada e pretendo ler outros livros dela, incluindo o Americanah que cobiço há meses.

Uma autora a descobrir (tem quase toda a obra traduzida cá) e A cor do hibisco um bom livro para começar.

****
(bom)

12 de outubro de 2014

Sempre o diabo


Autor: Donald Ray Pollock
Género:
Literatura
Idioma: Português

Páginas: 312
Editora:
Quetzal

Ano:
2014
ISBN: 978-989-7221545
Título original: The devil all the time
Tradução: Maria do Carmo Figueira
---

Estamos na América rural, bem a sul, onde se mede a decência das pessoas pela frequência com que frequentam a igreja e pelo cuidado com que mantêm as aparências. 

Willard Russell é um veterano atormentado pela carnificina da guerra, que vive para a mulher, educando o filho Arvin com dureza e pouco afecto. Carl e Sandy são um casal de assassinos em série, cuja ideia de umas férias bem passadas é dar boleia a rapazes  bem-parecidos antes de os matar, fotografando-os na sua agonia. Lee é um polícia sujo, a quem todos olham com desprezo mas sem desafio. Roy é um pregador que come aranhas para provar a sua fé, enquanto o primo deficiente o mira com olhares pouco religiosos.

Sempre o Diabo é um livro sujo, com personagens reprováveis e uma cena violenta a cada duas páginas. Adorei-o. A acção é passada na América pós-guerra até à explosão do flower power e da guerra do Vietname, providenciando às acções das personagens um cenário ainda mais miserável.

Donald Ray Pollock consegue, de uma forma notável, retratar a violência omnipresente sem ser gratuitamente e dar uma humanidade tal às personagens que as torna magnéticas. A resignação, o desespero e até a ingenuidade malévola se tornam compreensíveis, e ao lermos os pedaços de vida patéticos destes trastes/insanos/inadaptados, do mais mal-intencionado ao mais pueril, é impossível não sentir neles a crueldade da vida, a forma como a escuridão pode povoar a alma humana e envenená-la.

Um livro brutal, em todos os sentidos (ler excerto), que recomendo muito.

*****
(muito bom)

3 de janeiro de 2014

O violino de Auschwitz





Autor: Maria Àngels Anglada
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 144
Editora:
Dom Quixote
ISBN:  978-97-2204487-5
Título original: El violí d'Auschwitz
---

Não costumo ler livros sobre o Holocausto. Já vi vários filmes e documentários, mas livros só me lembro do Diário de Anne Frank, lido há muitos anos atrás.

Deparei-me com O violino de Auschwitz há uns dias e não reconheci o nome da autora. Maria Àngels Anglada (1930-1999) foi uma romancista e poeta catalã, galardoada com vários prémios, e este é um dos seus romances mais famosos.

O livro segue a provação de Daniel, um jovem construtor de violinos (ou luthier) preso num campo de concentração, e o seu dia-a-dia rodeado de violência e ódio. Originalmente, Daniel faz todo o tipo de trabalhos que os guardas do campo (imprevisíveis na sua crueldade) lhe mandam fazer, mas uma noite, o comandante do campo - «uma besta sádica» que aprecia música -, encomenda-lhe a construção de um violino que rivalize com um Stradivarius.

Daniel vê uma oportunidade de escape mental, dedicando-se de corpo (faminto) e alma (exausta) à tarefa, vindo a descobrir mais tarde que a sua morte prematura depende de uma aposta feita acerca da sua habilidade: se conseguir construir um violino extraordinário, vive; senão, será entregue ao "médico" do campo para experiências, à semelhança de muitos outros prisioneiros, a grande maioria falecidos em grande agonia.

O livro peca por ser demasiado breve e, assim, não permitir ir mais além no conhecimento e apego às personagens, mas tem frases sublimes (aqui reconhece-se a poetisa na autora) e a alternância, em analepse, dos capítulos da vida no campo com a actualidade, está muito bem conseguida.

Os capítulos iniciam-se com passagens reais de relatórios ou documentos administrativos dos campos de concentração, deixando claro a forma como os judeus eram encarados: números.

Daniel é marcante na sua fome, no seu cansaço vigilante e na sua dedicação ao mister que ama. O seu terror é palpável e é doloroso perceber que a sua vida vale muito pouco e que a morte é iminente e pode chegar a qualquer momento. Em redor, a sobrevivência é feroz e os carcereiros absolutamente impiedosos.

O violino de Auschwitz é um livro sobre um horror que supera a ficção. 


**** (bom)

26 de novembro de 2013

O aloendro branco



Autor: Janet Fitch
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora: Editorial Presença

Páginas: 455
ISBN: 972-23-2363-5
Título original: White Oleander
---

A história d'O Aloendro Branco é forte, tocante e inesquecível, com uma galeria de personagens femininas carismáticas e muito fortes.

A nossa narradora é Astrid Magnussen, uma adolescente cuja vida gira à volta da mãe, Ingrid, uma mulher de temperamento artístico e caprichoso, com tanto de peculiar como de egoísta. 

Ingrid e Astrid vivem no seu próprio mundo, onde Ingrid dita as regras: é rainha e senhora. Agressiva e apologista dos valores vikings, que apelida orgulhosamente de antepassados, Ingrid despreza os "sentimentos menores", como a compaixão e o amor, fazendo crer a Astrid, através de uma visão romântica típica do seu espírito de poetisa, que apenas precisam uma da outra para sobreviver.

Até ao dia em que Ingrid, habituada a relações fugazes e dominadas por ela, se apaixona por um homem e inicia uma relação séria. Quando ele decide acabar, Ingrid só pensa no seu orgulho ferido e encara-o como um alvo a abater. Premeditada e friamente, envenena-o com o belo e delicado aloendro que cresce no jardim da casa onde vive com a filha. Quando é presa, julgada e condenada a prisão perpétua, Ingrid encara a situação como inevitável mas justificada. O futuro de Astrid, com 12 anos e a vida virada do avesso, é a última coisa a passar-lhe pela cabeça.

«Nunca tenhas esperança de encontrar pessoas que te compreendam (...). Pessoas inteligentes, sensíveis, são excepção, uma rara excepção. Se estiveres à espera de encontrar pessoas que te compreendam, a desilusão tornar-te-à cada vez mais sanguinária. O melhor que podes fazer é compreender-te a ti própria, saber o que queres, e fazer com que a manada não se interponha no caminho.»


Entregue aos cuidados do Estado e das assistentes sociais, Astrid passa por várias famílias de acolhimento, sobrevivendo a agressões, negligência e inúmeros actos de violência. A mãe, da prisão, exerce sobre Astrid todo o tipo de pressões psicológicas, esforçando-se por manter a influência sobre a filha e tentar que permaneça intocável aos que a rodeiam.

Mas Astrid está decidida a ser uma pessoa melhor, a conhecer o afecto que a mãe sempre lhe negou e a auto descobrir-se. Sobrevive cada dia graças à sua crescente sensibilidade, inteligência e talento artístico, refugiando-se no desenho e na pintura.

Pela sua vida vão passando várias mulheres: mulheres que Astrid ama ou odeia, mas todas lhe ensinam algo e deixam a sua marca na vida da jovem. Sem poder, a mãe sociopata vai adaptando o seu discurso para atrair a filha, mas Astrid vai percebendo cada vez melhor a mãe e as suas motivações, percebendo que dos pais recebemos benções mas também maldições, e o que Ingrid lhe incutiu nos anos que partilharam - força, gosto pelo conhecimento, independência, coragem -, é o que as vai afastar, pois são as características que permitem à nossa narradora sobreviver num mundo cruel que não se sente pena de orfãs.

«O passado é uma chatice (...) Não acumules passado, Astrid. Não veneres nada. Queima tudo. O artista é como a fénix que renasce das cinzas.» 

O Aloendro Branco é impossível de pousar, o mais recente page turner que me passou pelas mãos, onde as 400 e muitas páginas formam uma história magnética, com momentos líricos memoráveis e uma narradora de essência rara.

NOTA: Devido ao sucesso do livro, Hollywood fez a adaptação do mesmo ao grande ecrã, que resultou num filme interessante que já comentei no bué de fitas (e cuja capa, acima, é a usada para comercializar o título em Portugal). 

avaliação: ***** (muito bom)

21 de abril de 2012

Visto do céu

Autor: Alice Sebold
Género: Romance
Idioma: Português
Editora: Casa das Letras
Páginas: 264
Preço: € 15
ISBN:  978-9-72-461947-7
Título original: The lovely bones

Avaliação: ***** (muito bom)

O meu apelido era Salmon e o nome próprio Susie. Tinha 14 anos quando fui assassinada, no dia 6 de Dezembro de 1973. (...) Quando as pessoas ainda pensavam que coisas dessas não aconteciam.
Visto do céu foi o romance de estreia de Alice Sebold e resultou num sucesso literário; ganhou os prémios maiores do meio literário e uma adaptação ao cinema pela mão de Peter Jackson (mais conhecido pela trilogia cinematográfica d'O Senhor dos Anéis).

Logo nas primeiras páginas, a nossa narradora, Susie, revela-nos que foi violentamente assassinada, quem a matou e quais os efeitos da sua morte na comunidade e seio familiar, numa década de 70 imersa em flower power e pouco habituada a homicídios infanto-juvenis. Revoltada com o seu destino, Susie continua a seguir os acontecimentos da família e amigos, a partir do seu céu.
Pelos seus olhos e voz, vemos os pais a tentar lidar com a morte da primogénita, o crescimento dos seus 2 irmãos mais novos e até os movimentos do seu assassino.

Poderosíssimo na forma como aborda os temas de perda, amor e morte e uma escrita hipnotizante, é um livro de leitura, muitas vezes, melancólica e até incómoda, deixando-nos desconfortáveis na descrição da execução homicida e perante as diferentes manifestações da fragilidade humana.

O curioso é que a história me envolveu completamente apesar de eu não acreditar na vida além da morte nem em aparições fantasmagóricas; o livro é tão bom como isso, com a sua prosa simultaneamente crua e delicada, personagens complexas e descrições realistas. Susie é uma narradora deliciosa e, acima de tudo, genuína na sua inocência e frescura adolescentes
, o que torna o relato mais doloroso de ler, pois desde o início que sabemos que a sua morte é definitiva e por mais acontecimentos paranormais que aconteçam, isso nunca se irá alterar. Susie Salmon está morta, não vai casar, ter filhos nem viver a história de amor que deixou em suspenso na terra. E isso é triste. Mesmo assim, Alice Sebold conseguiu imprimir esperança numa narrativa muitas vezes sombria, o que é um feito assinalável. 

Podem ler o primeiro capitulo do livro aqui. Peter Jackson adaptou-o ao cinema em 2009 (escrevi a minha opinião do filme no blog bué de fitas)
.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...