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22 de abril de 2020

A Peste



Autor: Albert Camus
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 320
Editora: Vintage (ebook)
Ano: 2012

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Publicada em 1947, A Peste é considerada uma das obras mais notáveis de Albert Camus, Nobel da Literatura de 1957.
 

O livro tem sido muito mencionado desde que o mundo entrou em "quarentena covid" e parece ter-se tornado leitura obrigatória.

A acção d'A Peste passa-se em Orão, na Algéria sob domínio francês, onde
as vidas dos habitantes são controladas «pelos seus hábitos, as rotinas de trabalho, idas a restaurantes e cinemas, casos amorosos superficiais». 

Quando de um dia para o outro, começam a ver-se alguns ratos mortos pelas ruas, a vida continua sem sobressaltos. Quando os ratos começam a morrer às centenas, o que obriga à recolha visível e cremação dos cadáveres, o facto é noticiado ainda sem grande alarido. Quando começam a surgir as primeiras mortes entre a população, as autoridades estão reticentes em adoptar medidas extremas.
  
«Everybody knows that pestilences have a way of recurring in the world; yet somehow we find it hard to believe in ones that crash down on our heads from a blue sky. There have been as many plagues as wars in history; yet always plagues and wars take people equally by surprise.»

Leva algum tempo mas, gradualmente, o público começa a ver a epidemia como um desastre colectivo. A peste traz «justiça imparcial», com vítimas de todos os estratos sociais. Finalmente decreta-se a quarentena. Aqueles que tentam escapar da cidade são alvejados.

Devido ao elevado número de mortes, os funerais começam a ser feitos sem cerimónia. Eventualmente, torna-se necessário enterrar as vítimas em valas comuns. Quando não há mais espaço no cemitério, as autoridades começam a cremar os corpos.

Vários meses se passam até se voltar à normalidade. 

Até lá, a população tem de lidar com o isolamento, a privação, o desaparecimento de entes queridos, a mortalidade iminente. Há saques, contrabando, escapes hedonistas. Há esperança, amizade, superação, numa história que é densa e fortemente filosófica. Os temas são actuais e a semelhança com o que se passa presentemente é arrepiante. É uma grande narrativa.

Não é um livro perfeito. Pessoalmente, creio que é demasiado longo; teria lucrado com o corte de alguns capítulos. Há muita repetição e algumas situações parecem acessórias, sendo inicialmente muito desenvolvidas e concluídas sumariamente. Há somente um par de personagens femininas (e são secundárias).

No final, relembra-se que uma pandemia está sempre iminente - apenas adormecida -, e o ser humano nada pode fazer para o impedir. É um facto que não podemos negar, somos disso testemunhas; o mundo não será o mesmo depois disto.
*****
(muito bom)

28 de abril de 2019

Vox



 Autor: Christina Dalcher
Género: Distopia, Thriller
Idioma: Português
Páginas: 304
Editora: TopSeller
Ano: 2019
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«E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?»

Descobri este livro por acaso, quando vi a autora a ser entrevistada num programa de divulgação cultural. A estória pareceu-me interessante e apenas quando pesquisei o livro no Google me apercebi que a) o livro já saíra há uns meses e, b) houvera uma grande publicidade à volta do mesmo.


A acção de Vox passa-se na América actual, depois de uma facção ultra-conservadora ter subido ao poder, numa eleição legítima. O novo partido, e o novo presidente dos EUA, defendem valores tradicionais, onde os papéis de homens e mulheres se baseiam naqueles vigentes várias décadas atrás, com enfoque numa prática social restritiva aos direitos das mulheres (não podem trabalhar, devendo dedicar-se exclusivamente à lida da casa e à educação dos filhos) e assente na ideologia cristã (o homem representa a figura de Deus na família, é a cabeça do casal; é ele que tem o primado da razão e a última palavra). 

Outras medidas foram implementadas, sendo a principal que todas as mulheres (menores incluídas) estão obrigadas a usarem uma pulseira-contador que limita a sua quota diária de palavras a cem - cada palavra extra acciona um choque eléctrico que aumenta de intensidade proporcionalmente ao excesso falado.

No centro do livro está a Dra. Jean McClellan, uma neurocientista doutorada em Linguística, reduzida a uma vida em casa, sem direito a salário (nem a uma conta bancária), a correspondência ou a um passaporte. Mãe de quatro filhos, uma rapariga e três rapazes, vê a filha a crescer condicionada pelas políticas vigentes. Mas quando um evento inesperado requer o seu conhecimento, Jean vê-se de volta à vida activa, com a hipótese de mudar o estado das coisas.

E estão lançadas as fundações para esta mistura de distopia e thriller, que começa muito bem mas descarrila.

O início de Vox é muito interessante, contendo todos os detalhes da ascensão ao poder da extrema-direita e a forma como as mulheres foram despromovidas a cidadãos de segunda classe - e o impacto na vida diária da população. A forma como a história se desenrola após é menos conseguida e pouco aliciante. 

Vox é claramente um livro publicado devido ao sucesso da série inspirada por A história de uma serva de Margaret Atwood, um livro bastante superior a este. Tal é normal e até esperado, mas o facto é que Vox assenta numa premissa que vende e é procurada por leitores, mas fica aquém do que promete e mesmo como thriller, já li melhor - mas o início do livro é bastante bom e levanta questões que tornam alguns cenários (arrepiantemente) possíveis nos dias de hoje - e isso leva-nos a pensar e a discussões bastante relevantes.



****
(bom)

10 de julho de 2018

The girl before



 Autor: J.P. Delaney
Género: Thriller
Idioma: Inglês
Páginas: 354
Editora: Random House LLC (Kindle)
Ano: 2017
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The girl before é um thriller envolvente passado numa casa muito especial e contado numa narrativa paralela de passado e presente. A deslumbrante e insegura Emma, ​​a inquilina passada, está tentar recuperar de um assalto recente que a forçou a uma mudança urgente de casa; a racional e metódica Jane, a inquilina actual, luta por ultrapassar o trauma de um nado-morto trabalhando como voluntária numa organização que apoia mulheres na mesma situação. Tanto Emma como Jane, bastante diferentes entre si, anseiam por um novo começo em One Folgate Street, uma casa ultra-minimalista com um sistema domótico topo de gama.

A casa está disponível por um preço acessível se o inquilino concordar com um conjunto de regras restrito - não são permitidas crianças, animais de estimação, livros, tapetes, cortinas, etc. - e em ser monitorizado pelo computador que regula a habitação - e se "adapta" ao inquilino. Edward Monkford, o arquiteto, selecciona criteriosamente os candidatos, e o contrato de arrendamento é rígido e claro na exclusão daqueles que não cumprem as cláusulas
(mais de 200). Curiosamente, o arquitecto envolve-se sexualmente com Emma e Jane, revelando-se um narcisista que as relembra frequentemente que a relação durará enquanto for perfeita... Fragilizadas pelos acontecimentos recentes e a anos-luz do equilíbrio emocional, ambas cedem facilmente à figura, numa relação cuja entrega começa e acaba no acto sexual.

 
"Everything that's yours was once hers."


Atmosférico e perverso q.b., The girl before é uma leitura viciante. Uma das coisas que mais me agradou foi a forma como a acção avança rapidamente. As histórias paralelas de Emma e Jane convergem rapidamente à medida que Jane vai descobrindo mais sobre Emma e o que poderá ter levado ao seu homicídio (ou suicídio), ao mesmo tempo que tenta ultrapassar a sua perda. As reviravoltas são interessantes e o final está bem conseguido.

Um bom thriller cujos direitos já foram comprados por Hollywood.

J.P. Delaney é o pseudónimo do autor Tony Strong, cujo trabalho desconheço; leria outro livro dele.
  


****
(bom)

28 de março de 2014

A frágil doçura do bolo de limão

Autor: Aimee Bender
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora:
Marcador

Colecção: Marcador Literatura
ISBN: 978-989-847070768
Título original: The particular sadness of lemon cake
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A frágil doçura do bolo de limão ilustra a vida de uma família de classe média na soalheira Califórnia, pela voz da filha mais nova.

Rose Edelstein, uma criança alegre e sensível, descobre, na véspera do seu nono aniversário, que tem um dom extraordinário: consegue saborear no bolo de limão e chocolate, que a mãe fez, todos os sentimentos e emoções que a envolvem, saboreando na mistura o amor maternal mas também o sentimento de vazio e desespero.

Curiosa e astuta, rapidamente descobre que a sua habilidade envolve toda a comida que saboreia: através dela, percebe o que move e sente a pessoa que cozinhou. Para uma cabeça tão jovem, a revelação é assustadora e Rose altera a sua forma de ser, escudando-se do que a rodeia recorrendo a fast food e alimentos processados, ao mesmo tempo que a idade da inocência acaba e Rose é confrontada com a forma como o mundo dos adultos funciona.

Um Dorito não te exige nada, o que é uma dádiva maravilhosa. Apenas te pede que não estejas ali...

No entanto, já não consegue evitar uma maior percepção do que a rodeia, sendo o maior golpe a dinâmica da sua própria família, que descobre estar deprimida e a tentar lidar (cada um à sua maneira) com os problemas: o isolamento do irmão, Joseph, a apatia do pai, a tristeza da mãe. Rose cria então mecanismos para sobreviver ao turbilhão emocional que a rodeia, paralelamente à vida que não deixa de acontecer à sua volta.

Um dos pontos fortes do livro são as personagens. A família Edelstein é uma família-tipo que se afoga enquanto tenta manter a aparência de normalidade; cada membro da família lida com as aflições da melhor forma que pode sem nunca se envolver com os outros membros da família. Rose percebe isto tudo e mais, não evitando um sentimento de perda à medida que a ideia luminosa que tinha dos pais se desvanece.

O livro tem passagens admiráveis e extremamente lúcidas mas não é perfeito e a execução de algumas ideias ficou aquém do esperado. A apatia das personagens é, por vezes, exasperante e o final não enche olho nem barriga.

Porém, A frágil doçura do bolo de limão é uma narrativa pouco tradicional, com uma pitada de realismo mágico e vários apontamentos líricos, um livro diferente do que tenho lido e que me permitiu uma leitura alternativa que muito apreciei e que recomendo (ler excerto).

****
(bom)

2 de novembro de 2013

A metamorfose




Autor: Franz Kafka
Género:
Ficção
Idioma: Português

Páginas: 96
Editora:
BIS
ISBN:  978-98-9660306-9
Título original: Die Verwandlung
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Apesar de imensamente referenciado na literatura, nunca tinha lido Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX (shame on me). Admito que nunca tinha procurado nada do autor e até hoje o universo nunca se tinha alinhado para que o lesse.

Até que há uns dias, houve alinhamento e, enquanto dava uma olhadela pelas lombadas de uma das estantes da biblioteca municipal, reparei e peguei n'A Metamorfose; gostei da capa, avaliei a fineza (não chega a uma centena de páginas) e li a menção de que, escrita em 1912, é a obra kafkiana mais lida e estudada; veio comigo para casa.

«Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto.»

Assim do nada, o jovem Gregor desperta um dia transformado num gigantesco insecto. Gregor vive em casa com os pais, a irmã mais nova e duas criadas. Caixeiro-viajante, é o único que trabalha e sustenta o agregado; a sua primeira preocupação ao ver-se com múltiplas perninhas e carapaça é a de que como vai fazer para se levantar, vestir e apanhar o comboio para o trabalho.

À medida que os minutos passam e a casa se anima com ruídos familiares, Gregor vai entrando em pânico com a falha da rotina e a perspectiva de o verem assim... o que acaba por acontecer e desembocar numa série de situações surreais q.b., fazendo-nos alternar entre a surpresa, a incredulidade e a raiva.

Pessoalmente, o que me ficou d'A Metamorfose é uma mensagem de alienação, tristeza e opressão. A família de Gregor não se importa realmente com ele e conforma-se com a situação do filho (e irmão) à velocidade da luz. A sua preocupação é garantir que o dinheiro não pára de entrar e quando percebem que conseguem sobreviver sem o rendimento auferido por Gregor, rapidamente deixam de providenciar pelo seu conforto e bem-estar. A figura do pai é austera e emocionalmente ausente, a da mãe é psicologicamente frágil com laivos de histeria e a da irmã de 16 anos é egoísta.
Descartado e descartável, a Gregor resta rastejar como o insecto em que se tornou e desaparecer das vidas daqueles que rapidamente o secundarizam e viram os olhos para um futuro onde o primogénito já não figura. Tendo em conta a ideia que tinha de Kafka e uma leitura de uma breve biografia, o final não poderia ser outro.

Na minha opinião, este é um livro que se lê rapidamente e se apreende com vagar. Li-o a uma velocidade bastante superior àquela a que o estou, ainda, a deglutir, pois é uma leitura que dá que pensar: sobre as relações familiares, sobre a alienação e sobre a indiferença e o egoísmo; é território denso e nem sempre confortável.

Um dia destes voltarei a Kafka. Fiquei impressionada pelo mundo de questões que colocou num livro tão pequeno. 


avaliação: **** (bom)

27 de outubro de 2013

A herança de Eszter



Autor: Sándor Márai
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora: Dom Quixote
ISBN:  978-97-2202999-5
Título original: Eszter Hagyatéka
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Sándor Márai foi um jornalistaescritor húngaro, um dos mais importantes durante o período entre as guerras mundiais. Crítico fervoroso do comunismo, mudou-se para a América em 1968. Escreveu mais de 60 livros, o primeiro aos 24 anos; em Portugal estão publicadas 7 obras suas.

A herança de Eszter conta a história de uma mulher de 40 anos, solteira desde sempre, que leva uma vida modesta e muito pacata. Eszter já amou, um amor mal resolvido que lhe deixou marcas profundas com as quais se conformou. Até ao dia em Lajos anuncia que a vai visitar, 25 anos depois; a preocupação de amigos e familiares é fundada, não só porque Lajos é um sedutor sem escrúpulos mas porque foi aquele que destruiu a família de Eszter e roubou tudo o que possuíam.


«Quando Vilma morreu e se deu a ruptura entre nós, Lajos afastou-se do horizonte familiar. Então, regressei eu aqui, a esta pobre casa e meu último refúgio. Nada me esperava, excepto uma cama e um pão seco. Mas quem chega de uma tormenta é feliz, pois tem um tecto por cima da cabeça.»

A nossa narradora é uma mulher frágil e ingénua, iludível na forma como se relaciona com os outros, e Lajos é um mestre na manipulação alheia, capaz de dizer o que preciso for para sacar mais qualquer coisa a alguém que ainda acredite na bondade do seu carácter.

Assisitir à chegada da Lajos e à forma como lida com os antigos amigos é desconcertante mas Márai fá-lo habilmente e com subtileza. Aliás, todo o livro tem um tom leve mas o texto é forte. Sándor Márai possui uma elegância na escrita de que é um prazer desfrutar mas sentimos a força da sua prosa, o que me fez virar as páginas vorazmente.

«Pode-se deitar fora uma mulher, como uma caixa de fósforos, por paixão, por se ter um carácter assim, por não conseguir ligar-se a uma mulher, (...) mas deitar alguém fora por distracção... isso é mais do que infâmia.»

Com poucos mais de 150 páginas, é um livro breve, que chega ao fim rapidamente, mas isso não lhe tira lirismo. É uma leitura compensadora, de uma poesia subtil e várias frases encantadoras; o final não foi o meu preferido, mas cada escritor sabe das suas personagens and that's that.

Além deste livro, do autor li As velas ardem até ao fim, um livro muito bom, superior a este, que aproveito para recomendar; Sándor Márai é um autor a descobrir e eu vou ler mais dele, isso é certinho. 

avaliação: **** (bom)

7 de março de 2012

O leito celestial

Autor: Irving Wallace

Género: Ficção
Idioma: Português
Editora: Livros do Brasil
Páginas: 300
Preço: € 9,60
ISBN:  978-9-72-380576-5
Título original: The celestial bed

Avaliação: *** (mediano)

Irving Wallace é um autor norte-americano que fez grande sucesso nos anos 80 e ainda hoje é um nome de referência no campo de ficção. O que mais me agrada no seu estilo é a simplicidade linguística e os enredos. Wallace elabora temas bastante diversificados e interessantes para os seus livros que, após a breve leitura da sinopse na contracapa, nos desperta a atenção. O Leito Celestial não é excepção.

A temática, algo arrojada para o ano em que foi escrito (1987), trata de disfunções sexuais como a impotência, a ejaculação precoce e a ausência de libido, tendo como palco a liberal e soalheira Califórnia.

O Dr. Freeberg é um terapeuta sexual que adopta dos seus ídolos de profissão a utilização de delegados sexuais como parte do tratamento para os problemas dos que o procuram; os delegados são homens e mulheres atraentes, confiantes e sem pudores, cujo objectivo é desinibirem gradualmente os pacientes e ensinarem-lhes a desfrutar do seu corpo e do corpo do seu parceiro sexual através de um determinado número de sessões, sessões essas pontuadas por troca de carícias, apreensão do próprio corpo, jogos de sedução e descontracção total, cuja meta é levar o paciente a atingir o orgasmo, a ter uma erecção, a sentir desejo sexual novamente, conforme os casos.

Mas a Califórnia não é tão liberal como se esperava e Freeberg tem na peugada um magistrado do Ministério Público com fome de protagonismo e um pastor evangelista com o pecado na boca e a bíblia como suporte dos seus argumentos. As suas acusações retratam o terapeuta diplomado como um proxeneta e os seus delegados sexuais como prostitutos.

Assim, ao longo do livro seguimos o caso de três pacientes (dois homens e uma mulher) e o tratamento que lhes é aplicado pelos delegados, ao mesmo tempo que os vilões de serviço juntam provas para fundamentar o seu caso através de um esquema camuflado. Confesso que os meus capítulos preferidos foram aqueles que acompanhavam as ditas sessões entre paciente e delegado, sempre numa linguagem correcta e gráfica sem cair na vulgaridade.

O aspecto menos conseguido são os sub-enredos imaginados por Wallace para suportar a história, com o seu ponto mais baixo patente no romance trôpego entre os dois delegados sexuais protagonistas e na forma como finaliza e remata o livro, o que prejudica em muito o livro e tira-lhe imensa credibilidade. É como assistirmos a uma palestra rigorosamente técnica sobre astronomia e às tantas aparecer um doutorado mascarado de extra-terrestre a fazer macacadas, desvirtuando o que foi dito até então.

O Leito Celestial
vendeu muito e ainda vende alguma coisa; o sexo vende sempre. Ajuda ser uma leitura fluída e ligeira, traços comuns da escrita de Wallace
. Apesar dos pontos negativos que referi prejudicarem em muito o livro, vale a pena lê-lo.

18 de dezembro de 2011

A boda mexicana

Autor: Sandra Sabanero
Género: Ficção
Idioma: Português
Editora: DIFEL
Páginas: 409
Preço: € 9 (alfarrabista)
ISBN:  978-9-72-290728-6
Título original: La boda mexicana

Avaliação: **** (bom)

A Boda Mexicana é um retrato muito vívido e nítido da vida no México rural, em meados do século XX.

Durante 400 páginas, somos transportados a um país de fortes tradições e costumes profundamente enraizados, onde os papéis de cada um estão predestinados desde o nascimento. A história tem como narradora principal Esperanza Villanueva, que no dia do seu casamento, partilha recordações com a mãe, folheando um albúm de família.

Pela sua voz, somos levados a uma viagem do passado para o presente, acompanhando a evolução de mentalidades no México. Nitidamente virado para as figuras femininas da família, as evocações realizadas têm como figura central as mulheres da família Villanueva, mulheres de garra e muito força interior que experienciam a vida de forma diferente.

No meio de muito suor e lágrimas, inúmeras gravidezes e maus tratos físicos e psicológicos, estas mulheres vão experimentado uma existência mais ou menos madrasta, muitas vezes dependentes de factores alheios às próprias: o alcoolismo do marido, a rebeldia e ingratidão dos filhos, a má-língua do bairro, o pesado trabalho doméstico, traições, etc.

Com uma narrativa à flor da pele e um estilo directo, Sandra Sabanero dá vida a todas essas (e muitas mais) vozes femininas, cuja ânsia de superar todas as dificuldades e obstáculos transforma uma história aparentemente banal num retrato realista e de grande impacto emocional, onde não ficamos indiferentes à cor e alegria de um povo (mexicano) que chora com tanto sentimento como ri, que não se abate nunca e tem ganas de sonhar um pouquinho mais alto… se não por si, pelos que ama.

A descrição das festas de casamento e religiosas (e são bastantes) são tão suculentas que damos por nós a salivar por um punhado de amêndoas torradas, uma fatia de bolo de mel ou um guloso taco picante.


Um livro muito agradável. Gostei.

7 de outubro de 2011

A Condessa



Autor: Rebecca Johns
Género:
Ficção

Idioma: Português
Editora: Edições Asa
Páginas: 336
Preço: € 16
ISBN:  978-9-89-231596-6
Título original: The Countess: a novel of Elizabeth Bathory


Avaliação: **** (bom)

Erzébet Báthory nasceu nobre, rica e bela, filha de aristocratas húngaros. Acabou prisioneira na torre do seu castelo, abandonada para morrer, sem família nem amigos. Sobre si pendiam acusações macabras: teria morto centenas de jovens, vítimas de espancamento, fome ou ambas, por lhe terem desagradado.

A história é contada na 1.ª pessoa, com a aristocrata a relatar a sua vida, desde a infância até às circunstâncias que levaram ao seu encarceramento, sempre num tom intimista. Apesar de algumas nuances góticas e da frase na capa (Bathory é considerada a primeira assassina em série da História), os relatos de violência são poucos e ligeiramente aflorados, além de que a autora escolheu não usar muito do folclore que envolve a lenda da Condessa Sangrenta.


Bastante ricas são as descrições da vida na Hungria nos séculos 16 e 17, que permite ao leitor perceber como viviam e se entretinham no ócio os nobres; quanto ao povo, já se sabe: trabalho, privações, sacrifício. O livro tem um bom ritmo, o retrato psicológico da condessa é muito subtil, evitando a diabolização fácil
mas deixando adivinhar alguns traços negativos, como a desconsideração das pessoas pela sua classe social e um extremo egoísmo.

Para aqueles que possam ser atraídos por promessas de "vampiragem" e banhos de sangue, não vão levar nada. A Condessa é a história de uma mulher forte e autónoma, prometida em casamento aos 11 anos, que conseguiu aumentar a sua riqueza e acolheu dezenas de jovens na sua casa, com a promessa de trabalho honesto, dote e casamento. Ajudou algumas, mas algures pelo caminho perdeu-se, assustada com o avançar da idade e desconfiada das intenções dos que a rodeavam.

Esperava mais do livro, assim como o aprofundar de algumas passagens (o casamento com Ferenc e a relação com Anna Darvulia, a sua criada mais fiel e querida), mas a autora mantém um tom de romance histórico até ao fim, numa escrita fluida e pouco negra, justamente esperada tendo em conta o tema.

31 de agosto de 2011

O jardim de cimento



Autor: Ian McEwan
Género:
Literatura

Idioma: Português
Editora: Gradiva

Páginas: 160
Preço: € 11
ISBN:  978-9-72-6620624-4
Título original: The cement garden

Avaliação:
****
(bom)


Tomei conhecimento deste livro através de uma lista de leituras recomendadas de Stephen King, no seu Escrever - memórias de um ofício. Já tinha ouvido falar deste autor (tem alguns livros adaptados ao cinema, como Expiação) mas ainda não tinha lido nada dele.

Este livro conta-nos a história de quatro menores deixados à sua mercê. Julie, Jack, Sue e Tom vivem num bairro degradado num subúrbio britânico, onde a única casa habitada é a sua, tendo as restantes sido demolidas ou abandonadas.

Num curto espaço de tempo perdem os pais. A mãe, antes de morrer, diz aos filhos mais velhos, Julie e Jack, que lhes deixará dinheiro suficiente para manter a casa e lhes assegurar o sustento. Receosos de serem separados e enviados para orfanatos, os adolescentes decidem esconder a morte da mãe e fecham o corpo num baú coberto de cimento, assumindo a gestão da família.

Com o passar do tempo, sem pais e sem supervisão adulta, as regras e a disciplina desaparecem. Cada um faz o que quer, muitas vezes indiferente ao conforto e bem-estar dos outros. Sue refugia-se nos livros, Tom age como um bebé caprichoso, Jack afunda-se num drama existencial e Julie tenta crescer demasiado depressa, encetando um namoro com um rapaz alguns anos mais velho. É neste redemoinho de emoções, de desejos calados e angústias abafadas em que o leitor se vê envolvido.

É um livro interessante que se lê em poucos dias. São 160 páginas que folheamos com facilidade, apesar de o conteúdo ser de lenta digestão.

Este livro foi também adaptado ao cinema em 1993, com críticas favoráveis. 

10 de junho de 2011

A criada

Autor: Isabel Marie
Género:
Literatura

Idioma: Português
Editora: Terramar
Páginas: 140
Preço: € 6
ISBN:  978-9-89-710175-7
Título original: La bonne




Avaliação: **** (bom)

A Criada é um livro fininho, de cento e poucas páginas, que se lê enquanto o diabo esfrega um olho. De linguagem acessível e parágrafos curtos, conta uma história contemporânea, sem entrelinhas.

A narradora é Sarah, uma jovem de 23 anos, recém-licenciada em Filosofia e
hedonista assumida. Habituada a viver o presente ao sabor do que acontece, leccionar numa escola parece-lhe inconcebível. Nómada urbana (aloja-se em pensões e quartos de particulares), faz questão de viver em Paris, pela riqueza de eventos e culturas, e apenas procura o sexo oposto para gratificação sexual.

Candidata-se à função de empregada doméstica de um casal de classe média-alta, Laura e Bernardo, decidida a não revelar a sua identidade. Uma vez aceite, "Clara" (Sarah), passa a desempenhar um papel de catalisador entre os cônjuges, dando-lhes carinho, conforto e atenção. À medida que o tempo passa, Clara/Sarah vai-se envolvendo cada vez mais com o casal, mantendo um registo pormenorizado sobre a relação que tem com ambos: sexual com Bernardo e platónica com Laura.

A leitura d'A Criada é tão fluída (e breve) que rapidamente chegamos ao final, deparando-nos com um final com tanto de credível como de actual. Há algo magnético nas personagens cinzentas e lineares do livro, tão comuns, perdidos num quotidiano insípido e automatizado (mas inconscientemente à espera de algo que lhes dê alento).


Em jeito de nota de rodapé, a autora, nascida em Barcelona, foi uma psicanalista, deportada em criança pelo regime de Franco. Este seu romance esteve nomeado para vários prémios. Isabel Marie enforcou-se em 1996.

7 de junho de 2011

As Senhoras de Missalonghi

Autor: Colleen McCullough
Género: Ficção
Idioma: Português
Editora: Dom Quixote
Páginas: 152
Preço: € 8 (alfarrabista)
ISBN:  978-9-72-200624-8
Título original: The ladies of Missalonghi




Avaliação: *** (mediano)


Colleen McCullough é uma autora mundialmente (re)conhecida pelo seu romance Pássaros Feridos e pela colecção sobre a Roma Antiga, grandes volumes literários repletos de história, pormenores e (imeeeensa) pesquisa.

Da sua autoria, ainda só li um livro, A Canção de Tróia; adorei. Procurei outros títulos e, como nem só de leituras-calhamaço vive o ser humano, investi num mais magrinho.

Acontece que As Senhoras de Missalonghi é pequeno em mais do que um aspecto: tem menos de 200 páginas, não há grande desenvolvimento das personagens e o final é... assim a dar para o bacoco.

O livro retrata uma pequena cidade dominada por uma família - os Hurlingford -, em que os homens são executivos poderosos e as mulheres exercitam fortemente o social e o ritual do cházinho na casa da prima, da tia e da irmãzinha.

Existem as pobres e as ricas, e a acção incide sobre uma gata borralheira, a solteira trintona Missy Wright, que vive com a mãe e uma tia numa quinta na periferia da cidade – são elas as senhoras de Missalonghi. Pobres mas honradas, fazem por esticar o parco rendimento, à conta de uma horta caseira e trabalhos de costura, serviços muito mal pagos pelos familiares (Deus as livre de venderem a sua mercadoria a estranhos, não fica nada bem, ainda que os ditos primos e primas as explorem vergonhosamente)
.

Missy anseia por vestidos bonitos e um amor igual aos romances cor-de-rosa que requisita na biblioteca municipal. Inveja as primas abastadas e sonha com uma família com filhos e um marido apaixonado. Mas sendo pobre, ninguém lhe pega. Para piorar, é uma ovelha-negra: uma morena escura num clã de louras de pele alva.

«Visto-me de castanho porque sou pobre, mas sou respeitável. O castanho nunca mostra a sujidade, nunca está nem deixa de estar na moda, nunca fica ruço, e nunca é ordinário, nem vulgar, nem maltrapilho.»

Até ao dia em que chega à cidade John Smith, um ex-presidiário (dizem), que paga tudo em ouro e que desperta a atenção da pacata Missy. O resto desenrola-se mais ou menos como um romance de cordel, com ela a correr atrás dele com juras de amor.

«Era o problema da cama. Transformava estranhos em íntimos, mais rapidamente do que dez anos de chá corteses, servidos em salas de estar.»

O resto da história desenrola-se quase como num romance de cordel, sem surpresas nem sobressaltos, deixando um travo de tolice.

NOTA: li algures que este livro foi polémico pois surgiram suspeitas de plágio – algumas descrições seriam muito semelhantes a um romance juvenil dos anos 80, The Blue Castle de L.M. Montgomery.

23 de janeiro de 2011

A princesa virgem

Autor: Robin Maxwell
Género:
Romance histórico

Idioma: Português
Editora: Planeta Editora
Páginas: 278
Preço: € 12
ISBN:  978-9-72-731159-0
Título original: Virgin: prelude to the throne

Avaliação:
**** (bom)

Inglaterra, 1547.

N'A Princesa Virgem, seguimos de perto a infância e adolescência de Isabel I, de seu cognome ‘Rainha Virgem’. Já todos ouvimos falar de Henrique VIII, esse monarca inglês tão obstinado e determinado que, na sua juventude, desafiou a toda-poderosa Roma e criou uma nova religião – o anglicanismo –; foi envelhecendo e gradualmente decaindo, tanto moral como psicologicamente.

Quando morreu, deixou para trás um trio de filhos de diferentes esposas: Eduardo, de Jane Seymour; Maria, de Catarina de Aragão e Isabel, de Ana Bolena. O rei inglês que lhe sucedeu foi o rapaz mas foi Isabel (a última na linha de sucessão) que teve o reinado mais longo e significativo.

«The King is dead. Long live the King.»

Este livro conta a ascensão de Isabel, com todas as jogadas políticas e intrigas de corredores e alcova por detrás da mesma. Inicialmente banida para uma obscura casa de campo (depois da sua mãe, Ana Bolena, ter sido decapitada), Isabel é chamada para a corte por Catarina Parr, a última mulher de Henry VIII, casada entretanto com o (mega) ambicioso Thomas Seymour.

Enquanto Eduardo reina (ao estilo fantoche) aconselhado pelo irmão de Thomas Seymour, este seduz Isabel na expectativa de a levar ao trono e ser o seu consorte no governo de Inglaterra. Obviamente que todos estes esquemas não são mais que fruto da imaginação da autora, já que há uma lacuna na História no que se refere a muitas figuras. Aliás, esse é o ponto negativo do livro, que tem um travinho a romance de cordel. E isto porque Robin Maxwell se deixa “viajar” demais, misturando descrições apimentadas numa narrativa que se quer com alguma credibilidade.

Nunca esquecendo que isto é ficção e há que prender o leitor, o livro vai além do meramente satisfatório e é uma boa leitura, porque nos oferece um prisma diferente da Inglaterra do século XVI, tendo algumas passagens realmente interessantes, que nos permitem conhecer melhor o funcionamento do aparelho de Estado inglês da época.

Além disso, torna-se de leitura compulsiva e em três dias está acabado e de volta à estante.

26 de novembro de 2010

Outros mundos

Autor:  Barbara Michaels
Género: Fantástico
Idioma: Português
Editora: Planeta Editora
Páginas: 270
Preço: € 12,60 (requisitado da biblioteca municipal)
ISBN:  978-9-73-11064

Avaliação: * (a evitar)

 
Numa escura, húmida, noite de nevoeiro, um pequeno grupo de intelectuais reúne-se num clube masculino exclusivo. Chegam envoltos nos seus abafos dispendiosos, com o pretensiosismo de quem sabe mais que a maioria.

Deste grupo,
que se junta periodicamente para discutir acontecimentos paranormais, fazem parte o famoso ilusionista Houdini e o afamado Sir Arthur Conan Doyle (criador do celebérrimo Sherlock Holmes). 

Outros Mundos relata uma dessas reuniões. Num serão frente à lareira, com uma bebida aconchegante no colo, os intelectuais analisam dois episódios distintos: ‘A Bruxa de Bell’ e ‘O Caso Phelps’. O primeiro é a história de um poltergeist que assombra uma família do sudeste americano; o segundo envolve uma família católica a braços com um espírito violento. Depois dos relatos, os membros do clube (todos eles interessados e/ou estudiosos do sobrenatural) discutem e determinam se as assombrações são verdadeiras ou falsas.

Quando li a sinopse, achei que o livro tinha os predicados ideais para uma leitura nocturna inquietante, mas cedo a prometida história de fantasmas se transformou num desencantado virar de páginas.

A forma como se desenrola a acção é extremamente desinspirada. Enquanto lia as análises dos fenómenos feitas pelos membros do "selecto" clube, mais anedótica a história se tornava. Sei que Conan Doyle foi adepto do espiritismo e frequentador assíduo de sessões espíritas - chegou a ser Presidente da Aliança Espírita de Londres -, por isso quando li as passagens em que intervém, espantou-me a falta de lógica. O livro é uma má piada do princípio ao fim, com diálogos secos, chatos, pouco credíveis. Admirou-me ainda que
Barbara Michaels escrevesse algo assim; é uma autora consagrada e muito experiente, que assina outro género de livros como Barbara Metz e Elizabeth Peters (não ficção e históricos, respectivamente), todos com imenso sucesso.

O saldo total é um enorme bocejo. Obriguei-me a ler o livro até ao final, talvez à espera de uma reviravolta que não chegou a acontecer. Este livro, bom? Talvez noutro mundo.
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