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31 de maio de 2020

Living with a SEAL


Autor: Jesse Itzler
Género: Motivacional
Idioma: Inglês
Páginas: 256
Editora: Center Street (ebook)
Ano: 2015

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Depois de ler algures que o SEAL do título é o super-humano David Goggins, cuja autobiografia - Can't hurt me - está no meu top de livros de 2020, Living with a SEAL materializou-se no topo da minha pilha "a ler".
 
O nome de Jesse Itzler não me dizia nada: um rapper/compositor dos anos 90 tornado empresário de sucesso e co-proprietário de uma equipa da NBA. Nas suas palavras, o seu sucesso deve-se ao facto de estar disposto a fazer coisas que outras pessoas nunca pensaram ou consideram insanas.

Maratonista amador, Itzler diz que viu Goggins pela primeira vez numa prova de 100 milhas e que ficou muito impressionado. Assim que descobriu quem era, convidou David Goggins para, durante um mês, se mudar para sua casa e ser seu personal trainer; Goggins aceitou com a condição que Itlzer aceitaria todos os desafios físicos propostos.

«You can get through any workout because everything ends.» — SEAL (Goggins)
O relato desse mês intenso resultou neste livro. Há treinos insanos, feitos a horas invulgares, debaixo de temperaturas glaciais. Há hipotermia, dores musculares, vários momentos exclamativos. Há boa onda e boa disposição... e há David Goggins. 
 
A mais-valia do livro apoia-se inteiramente na "personagem" que é David Goggins. Sem isso, seria um título que me passaria ao lado. Deve ter havido liberdade artística para "dinamizar" algumas situações, mas do que li em Can't hurt me, a determinação e a filosofia de vida do ex-Navy SEAL foram bem captadas.

«I don’t do shit for applauses. I don’t do shit for fanfare. I do shit for me.» — SEAL (Goggins)
Em Living with a SEAL, a identidade do personal trainer nunca é revelada, e Itzler refere-se a sempre a ele como SEAL. A fotografia da capa do livro não é a de Goggins. Quando o livro foi publicado, em 2015, houve algumas entrevistas dadas pelo duo, e soube-se então a identidade do SEAL.
 
Entretanto, a visibilidade de Goggins tem aumentado nos últimos anos, ligada à angariação de fundos, a palestras motivacionais e à participação em vários eventos desportivos, consolidando-se após o lançamento da sua biografia em 2018 e das entrevistas a Joe Rogan e a Tom Bilyeu. Tornou-se uma marca mas o discurso é o mesmo.
«I don’t stop when I’m tired. I stop when I’m done.» — SEAL (Goggins)

**** 
(bom)

24 de março de 2020

Horrorstör


Autores: Grady Hendrix, 
Michael Rogalski (ilustrador)
Género: Terror
Idioma: Inglês
Páginas: 240
Editora: Quirk Books (e-book)
Ano: 2014
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Este é o segundo livro que leio de Grady Hendrix, depois do excelente We sold our souls.

Em Horrorstör, Hendrix debruça-se sobre o sector do retalho. O livro em papel, concebido para ter a aparência de um catálogo do IKEA, é genial, com cada capítulo ilustrado por um produto disponível na loja ORSK - uma cópia fictícia do gigante IKEA -, cenário da acção. Eu li o e-book, que não é tão fixe, mas que ainda assim resulta bem graficamente.


Algo estranho está acontecer na ORSK do Ohio. Ultimamente, a equipa que abre a loja descobre estantes Kjërring desmontadas, dejectos nos sofás Brooka e copos estilhaçados. Como as câmaras de vigilância não mostram nada de anormal, um grupo de funcionários decide ficar depois do fecho.
«Work gives you a goal. It lets you build something that lives on after you’re gone. Work has a purpose beyond making money.»
À noite, na escuridão, o interior da loja é labiríntico, os barulhos e estalidos multiplicam-se. O showroom, projectado para forçar os clientes a moverem-se no sentido anti-horário, presos num frenesim de consumismo durante o dia, é o palco de algumas entidades sombrias quando cai a noite.

Horrorstör é um romance à parte. Por detrás do grafismo inovador, está uma crítica da sociedade de consumo extrema e uma sátira da filosofia corporativa, tudo misturado num romance horripilante.

****
(bom)

7 de janeiro de 2020

Dear girls

25 de novembro de 2019

The man who mistook his wife for a hat


Autor: Oliver Sacks
Género: Humor
Idioma: Inglês
Páginas: 242
Editora: Picador UK
Ano: 2007

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Ao longo da sua carreira, o neurologista Oliver Sacks deparou-se com muitos casos clínicos tirados do manual e para os quais estariam prescritos diagnósticos certeiros e tratamentos comprovados. Estes muitos casos não perdiam complexidade por serem frequentes mas dificilmente fariam um profissional da área coçar a cabeça em desorientação. 

O que Sacks relata neste livro foram os casos que o fizeram coçar a cabeça em 25 anos de carreira já somados quando o livro foi editado nos anos 80. 

O livro divide-se em quatro partes: a primeira lida com as perdas/défices da função neurológica, decorrentes de acidentes ou velhice (lesões raras que resultavam em associar pessoas a objectos - ver o título do livro - ou a formas abstractas, o fenómeno de "membros fantasma", a cegueira selectiva e perdas de memória extremas associadas ao álcool e à má nutrição); na segunda parte fala-se de excessos como o síndrome de Taurette (caracterizado por tiques físicos e vocais - um síndrome explorado em alguns filmes de comédia) - e de neurossífilis, que causa alterações na personalidade; a terceira parte relata os estados de "transporte", ditos oníricos e ausências, manifestados em alucinações e numa hiper-memória; e a quarta parte fala do «mundo dos simples», i.e., autistas e deficientes intelectuais.
 

Numa vasta galeria de personagens, destaca-se a forma carinhosa como o neurologista encara os seus pacientes, numa mistura de fascínio e curiosidade, mas também respeito. O autor, falecido em 2015, exerceu em vários hospitais de renome dos EUA e do Reino Unido, mas também em sanatórios, tendo visto pacientes de todas as idades e estratos sociais.

A linguagem do livro é técnica q.b., acessível ao leitor médio. Há várias menções a estudos de outros profissionais da neurologia e a devida reverência aos médicos que primeiramente identificaram as condições narradas (A. Luria, Purdon Martin, Tourette). 

Sacks confessa em várias pequenas notas que o cérebro humano, com os seus 60% de gordura e triliões de conexões neurais, é realmente fascinante, e que nem os profissionais da área conseguem desvendar muitos dos seus segredos. Graças a eles e ao seu extenso trabalho, vemos alguns deles desvelados.
****
(bom)

22 de maio de 2018

Weird things customers say in bookshops



 Autor: Jen Campbell
Género: Humor
Idioma: Inglês
Páginas: 128
Editora: Constable (Kindle)
Ano: 2012
ISBN: B005RZB8AO
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Qualquer amante de livros digno desse nome não vai conseguir deixar de ler Weird things customers say in bookshops com uma expressão franzida e um sorriso. 

Isto porque apesar de ser um livro leve e despretencioso, lê-se com um misto de incredulidade perante algumas tiradas incríveis como "I enjoyed the Diary of Ann Frank, why did she never write a sequel?" e "Someone should have taught that Shakespeare guy how to spell. I mean, am I right, or am I right?"

Um retrato bastante fiel daquilo que se ouve quando se trabalha em retalho - e é incrível o que as pessoas dizem/perguntam/comentam -, é também um espelho de uma sociedade que lê cada vez menos e onde se tem menos filtros. E as frases do livro são maioritariamente de livrarias inglesas, sendo o Reino Unido um dos países onde mais se consome livros e literatura. Nem quero imaginar o que se diria no nosso país.  

Weird things customers say in bookshops é um livrinho simpático, que se lê num instante. É um ensaio realista sobre os consumidores em geral, com as suas perguntas surreais q.b., alguma falta de educação e muita ignorância.


***
(mediano/razoável)

12 de julho de 2015

Ele está de volta


Autor:
Timur Vermes
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 304
Editora:
Lua de Papel

Ano:
2013

ISBN:
978-989-2324074
Tradução: João Henriques
Título original: Er ist wieder da 
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Berlim, 2011.

Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Dói-lhe a cabeça e o uniforme tresanda a querosene. Olha à sua volta e não encontra qualquer cara familiar; a cidade também está bastante diferente. Não tem tempo a perder e rapidamente tenta apreender a nova realidade, ao mesmo tempo que planeia o seu regresso ao poder.


Assim começa o primeiro romance de Timur Vermes - um escritor alemão de origem húngara -, um bestseller traduzido em 35 línguas.

Narrado na primeira pessoa pelo próprio Adolf Hitler, assistimos ao renascer de uma figura icónica. Na sociedade actual, entupida por reality shows e pelo YouTube, o renascido Führer é visto como uma estrela da comédia, que uma televisão sequiosa de novidades acolhe de braços abertos. A Alemanha da crise, do Euro ameaçado, da austeridade, vê nele um palhaço inofensivo. Mas ele é real e fala com convicção, o público é que encara tudo como uma paródia. Assim, passo a passo, Hitler planeia o seu regresso ao poder – por via da televisão e das «internetes» -, e rapidamente se torna uma figura de destaque. 

Ele está de volta é uma sátira acutilante a uma sociedade mediatizada. Tem momentos bastante bons, alternados com outros menos conseguidos. Tem várias referências que me passaram ao lado, por não conhecer Berlim e por não estar familiarizada com o universo cultural e televisivo alemães, algo inevitável para quem não é alemão ou não vive(u) na Alemanha. Mas o tom de Hiltler é assustadoramente normal, os seus pensamentos são uma mescla de lógica e fanatismo e é arrepiante ver como as massas sucumbem àquilo que pensam ser um actor que vive intensamente a personagem.

A situação era bastante paradoxal: ainda anteontem eu tinha movimentado o 12.º Exército e agora estava a movimentar prateleiras. 

A meio do livro, o autor conseguiu um feito de relevo: começamos a gostar deste Hitler do YouTube, da sua rectidão e frontalidade, da rapidez com que se adapta a um mundo novo e a forma como deseja que o seu país seja autónomo e bem sucedido economicamente (não é o que todos desejamos para o nosso próprio país?). Claro que Timur Vermes manobra tudo para que assim seja, moldando acontecimentos e situações (adoro quando Hitler é sovado selvaticamente por membros da extrema-direita) mas dá que pensar.

No meu tempo nós levámos o terror às ruas (...) As SA andavam a circular nas suas carrinhas de caixa aberta, a agitar bandeiras e a partir ossos. Bandeiras! Isso é de extrema importância! Porque quando um atrasado mental bolchevique estiver com a cara toda ligada e de cadeira de rodas, precisa de saber quem é que o espancou e porquê.

Eu gostei do livro, da frescura da história e da crítica social mordaz. De destacar ainda a capa, com um design bastante original.  

Está disponível um excerto aqui

****
(bom)

31 de agosto de 2014

I remember nothing: and other reflections

Autor: Nora Ephron
Género:
Humor
Idioma: Inglês

Páginas: 137
Editora: Knopf (Kindle edition)
Ano: 2010
ISBN:  978-0-307-59560-7
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Nora Ephron, falecida em 2012, tornou-se famosa por êxitos de bilheteira como Você tem uma Mensagem, When Harry Met Sally e Sintonia de Amor. No campo das letras, distinguiu-se pelos seus artigos femininos  na revista Esquire e pelos livros espirituosos sobre a condição feminina, de que Não gosto do meu pescoço - e outros humores, achaques e amores da vida das mulheres e este I remember nothing: and other reflections são um exemplo.

Gosto da frontalidade e do humor de Nora. Este livro alterna capítulos longos com outros de 3 páginas, onde a autora descreve a sua evolução como jornalista numa época em que as mulheres eram relegadas para tarefas menores, como é ter um rolo de carne com o seu nome (num restaurante de um amigo), como lidar com um fracasso de bilheteira ou como o fenómeno do e-mail passou de benção a maldição, sempre num tom divertido e passando de um assunto sério para um trivial com desprendimento.

O livro foi publicado 2 anos antes da morte da autora, e é engraçado como Nora aflora o assunto da morte constantemente sem o referir directamente, focando-se antes no avançar da idade, na dificuldade em reconhecermos que estamos velhos e perceber como a memória (e outras coisas) começa a falhar.

O livro que li dela antes deste falava mais directamente de morte e de doença, mas conseguia ser mais leve. Nora não se referia à família como aqui (o alcoolismo da mãe, que morreu ao 57, e o corte de relações com uma das irmãs, por motivos de herança) e é possível perceber que tem alguns assuntos pendentes mas dá para perceber que o livro não funciona como terapia, embora o tom seja confessional.
 
Continuo a não ser grande apreciador da filmografia de Nora Ephron, mas acho-a uma mulher interessante e adoro o seu sentido de humor; o seu legado é positivo em todos os aspectos e sei que leria todos os seus livros futuros.

***
(mediano/razoável)

3 de agosto de 2014

I hate everyone... starting with me


Autor: Joan Rivers
Género:
Humor
Idioma: Inglês

Páginas: 271
Editora: Berkley (Kindle edition)
Ano: 2012
ISBN:  978-1-101-58088-2
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I hate everyone... starting with me é um livro escrito pela comediante norte-americana Joan Rivers. Aqui no país, não sei se muita gente a conhecerá; entra num programa chamado Fashion Police, que é transmitido no canal E! (para quem tem cabo, per supuesto!)
Nunca tinha lido nada dela mas pelo que vi na televisão, o tom não foi surpreendente. É o género de linguagem e humor que a caracterizam quando a vejo na televisão: linguagem cáustica e crítica, implicando com tudo e mais alguma coisa, desde a aparência pessoal à família. Joan aposta num humor corrosivo e agressivo e num discurso que mistura xenofobia e insultos gratuitos.
Love may be a many-splendored thing, but hate makes the world go round. If you think I’m kidding, just watch the six o’clock news. The first twenty-nine minutes are all about dictators and murderers and terrorists and maniacs and, worst of all, real housewives. And then, at the very end of the show, there’s a thirty second human-interest story about some schmuck who married his cat. I rest my case.

Fazendo jus ao título do livro, ela odeia toda a gente, ela própria incluída: goza imenso acerca das dezenas de plásticas e tratamentos que já fez (tem 80 anos e está tão repuxada que já pagou metade da hipoteca do cirurgião plástico), brinca com os tiques e tradições familiares judeus (Joan é judia), inclui-se nas várias críticas da vida fútil de Hollywood.

I hate everyone... starting with me está dividido pelos vários ódios de estimação da autora: manias, modas, hábitos, esterótipos, tiques das celebridades, os dogmas de Hollywood.

Obviamente que ler um livro que começa cada parágrafo com «odeio...» não nos eleva o espírito, mas este é um livro de humor e tem o seu enquadramento; quem não gostar do género de piadas (há inúmeros géneros de humor), pode ler outra coisa.
Dentro do género, gostei; há alguma repetição de piadas nos capítulos finais, mas nada grave. Arrancou-me algumas gargalhadas, o que não é nada mau, principalmente depois de um dia de trabalho menos... alegre.
I hate it when I read an obit that says, “Molly Fishman, 102, suddenly.” Excuse me? She’s 102! How sudden could it have been? She’s been old since the Truman administration. The woman’s been hunched over in her wheelchair, with her tongue on the footrest since 1992; shouldn’t someone have seen her demise coming???
Livros como este são bons para ler e pôr a circular no grupo de amigos; a chance de uma releitura é escassa e dá-se a hipótese a outros de se divertirem com o bota-abaixo omnipresente (ou de se sentirem ofendidos).

***
(mediano/razoável)

14 de julho de 2013

Não gosto do meu pescoço



Autor: Nora Ephron
Género:
Contemporâneo
Idioma: Português
Editora: Casa das Letras
Páginas: 184
ISBN:  978-9-72-461717-6
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Nora Ephron, falecida em 2012, tornou-se famosa por escrever e realizar êxitos de bilheteira como Você tem uma Mensagem, Casei com uma Feiticeira e Sintonia de Amor. No campo das letras, distinguiu-se pelos seus artigos femininos  na revista Esquire e pelos livros espirituosos sobre a condição feminina, de que Não gosto do meu pescoço - e outros humores, achaques e amores da vida das mulheres é um exemplo.

Nora é bastante cândida e divertida na forma como fala das várias atribulações da vida de uma mulher madura: o envelhecimento, a saída dos filhos de casa, as operações plásticas, a morte dos amigos. Num tom ligeiro, dá como exemplo o pescoço e como este revela, implacavelmente, a idade de uma mulher.

«O pescoço denuncia-nos. Os nossos rostos contam mentiras e os nossos pescoços contam a verdade. Temos de serrar uma sequóia para lhe averiguar a idade, o que não seria necessário de as sequóias tivessem pescoço

A autora teve uma vida bastante cheia, com 3 casamentos, filmes de sucesso e alguns prémios. O livro conta alguns dos pontos de viragem da vida de Nora Ephron sem ser uma biografia. A mensagem é directa: o tempo passa, acontecem coisas boas e acontecem coisas más, mas o que escolhemos reter é uma escolha individual.
 

Apesar de se falar de morte e doença, também se fala de filhos e carreira, de beleza e relacionamentos. A escrita é leve e o tom bem-humorado, sarcástico, apurado. O livro chega ao fim rapidamente, mas com menos de 200 páginas, outra coisa não seria de esperar.

«De vez em quando leio um livro sobre o envelhecimento e seja quem for o autor diz sempre que é magnífico ser velho. É magnífico ser sensato, sábio e sagaz; é magnífico estar naquela fase da vida em que se compreende o que é realmente importante. Não suporto pessoas que dizem coisas deste tipo. Em que é que estão a pensar? Não têm pescoço?!»

Mesmo não apreciando particularmente a filmografia de Nora Ephron, achei Não gosto do meu pescoço - e outros humores, achaques e amores da vida das mulheres um livro bastante razoável apesar de ligeirinho. É um bom presente para uma mulher mais velha; foca os assuntos certos sem deprimir e sem ser professoral.
 
   
avaliação: *** (mediano)

25 de janeiro de 2012

Crónica do rei pasmado

Autor: Gonzalo Torrente Ballester
Género:
Fantástico

Idioma:
Português
Editora: Caminho
Páginas: 182
Preço: €11
ISBN:  978-9-722-210708-2

Avaliação:
**** (bom)

Gonzalo Torrente Ballester é uma referência na literatura latina, com milhares de cópias vendidas. Este é o primeiro livro que leio dele.

Crónica do rei pasmado tem lugar na corte espanhola, durante o reinado de Filipe IV. Certa noite, depois de uma visita “às meninas”, o jovem soberano não consegue tirar da cabeça o corpo da cortesã Marfisa.

Deslumbrado com a perfeição das curvas femininas, mete na cabeça que há-de ver a rainha nua. É como se caísse o Carmo e a Trindade! A Igreja imediatamente salta em defesa do pudor, da reserva e dos bons costumes, numa época em que um casal se amava vestido e a esposa não deixava que a camisa de noite subisse acima dos joelhos.

Numa tentativa de reforçar a posição clerical, um padre ambicioso começa a espalhar que, ao deixar-se o rei levar a sua avante, será o povo a sofrer as consequências, com o despoletar de guerras e invasões. Mesmo assim, há quem ache a vontade filipina compreensível, até porque são muitos os cônjuges que assumem que desejariam estar mais à vontade com as suas queridas.

Perante tal escandaleira, logo o Inquisidor-Mor convoca um conclave de religiosos a fim de se discutir a legitimidade da exigência do rei. Entretanto, e como a rainha acede a receber o marido e a concretizar-lhe o desejo, são despoletadas medidas a fim de evitar que os dois se encontrem a sós. Por fim, é um jesuíta português (interpretado no cinema por Joaquim De Almeida) e um conde galego - galante, aprumado e bem falante (que aqui personifica o Diabo) - a servirem de alcoviteiros, levando a cabo um plano que permita a Dom Filipe fazer o gosto ao olho.

Em pouco menos de 200 páginas, G.T. Ballester constrói com uma narrativa bem humorada e repleta de críticas à pretensa moral e bons costumes da Igreja, com
uma premissa imaginativa. Crónica do rei pasmado diverte sobretudo pela sua mordacidade. Gostei.

6 de setembro de 2011

Brancos Estúpidos - e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação



Autor: Michael Moore
Género:
Humor
Idioma: Português
Editora: Temas e Debates
Páginas: 304
Preço: € 17
ISBN:  978-9-72-759626-3
Título original: Stupid white men... and other sorry excuses for the state of the nation!

Avaliação: **** (bom)

Brancos Estúpidos . e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação é um livro que a brincar vai dizendo umas verdades. É uma crítica assumida em tom de paródia às administrações americanas pré-Obama: as de Bush filho e Clinton.

Foi um best-seller em 6 países europeus, foi traduzido em 15 línguas e fez grande sucesso nos EUA, com sucessivas edições. O autor é Michael Moore, escritor e cineasta controverso, famoso por não ter papas na língua.

Aqui, Moore aponta baterias a um sem número de grupos, que critica sem descanso. Começando pelo plano político, onde nos explica detalhadamente os meandros da política norte-americana, inclusive a fraude das eleições que puseram W. Bush no poder, ou «o ladrão-mor e o usurpador da Sala Oval», como é apelidado pelo autor, disserta ainda sobre as políticas internas e externas mais desastrosas dos últimos anos, abrangendo as medidas sociais e económicas.

«Deve ter sido a melhor coisa a que assisti na cidade de Washington – um pretendente ao trono americano obrigado a meter o rabo entre as pernas e a fugir de milhares de cidadãos americanos armados apenas com a verdade e os ingredientes para uma boa omeleta.»
(escreve o autor acerca do episódio em que W. Bush, depois de “vencer” as eleições se dirigia ao Capitólio e era vaiado e o seu carro bombardeado com ovos por um grupo americanos indignados.)

George W. Bush é o “presidente”, porque Moore não lhe reconhece a legitimidade, e é chamado de tudo, desde palerma a incompetente, com o seu cadastro dissecado: a detenção por conduzir bêbado, as experiências com marijuana em adolescente, o facto de nunca ter tido de trabalhar ou de se esforçar para obter fosse o que fosse, abrigado pelo apelido que ostenta, a sua dependência alcoólica. Moore faz ainda uma lista das decisões desastrosas de W., que cortou financiamentos e subsídios a escolas e políticas sociais em curso, projectos-lei ambientais, cuidados médicos e pensões, decisões que ainda hoje se fazem sentir.

Através do ritmo fluído e despachado da narrativa, constata-se que os states não são o paraíso que se julga, passando os seus habitantes por dificuldades idênticas às nossas: incompetência judicial, as penas pequenas dos criminosos, os salários baixos, as políticas educacionais e a fraca assistência aos carenciados.

Pela “pena” de Moore, analisei melhor a política norte-americana, conheci as fraquezas das medidas de Clinton (um presidente que não fez grande coisa aparte o contributo inquestionável em questões internacionais) e alguns maus passes feitos por Bush Pai e por Reagan.

O autor chama os americanos de idiotas por terem dedicado em exclusivo a sua atenção, nos anos 90, à nódoa de esperma num vestido azul de uma certa estagiária e aos encontros amorosos de Hugh Grant com uma trabalhadora do sexo quando havia tanta coisa para questionar e debater, e expõe as debilidades de uma nação que é tida como «a mais estúpida do Mundo».

Numa crítica cerrada aos poderosos e à América corporativista, alguns capítulos de
Brancos Estúpidos . e outras desculpas esfarrapadas para o estado da nação dedicam-se a enumerar o que está errado na sociedade americana, com especial destaque para o racismo e a forma como a mentalidade reinante é limitada e centrada no seu próprio umbigo. Todas as considerações de Moore são escritas em tom provocatório mas camufladas de humor, o que, creio, foi feito para "safar" o escritor de processos judiciais sérios.

Uma leitura diferente, não-ficcional, que aumentou o meu conhecimento em muitas áreas. Vale o que vale pois não é imparcial, mas gosto de ler perspectivas diferentes sobre os assuntos e esta é divertida.

26 de agosto de 2011

Why we suck - a feel good guide to staying fat, loud, lazy and stupid



Autor: Denis Leary
Género:
Humor

Idioma: Inglês
Editora: Plume Books
Páginas: 256
Preço: € 5
ISBN:  978-0452295643

Avaliação:
*** (mediano)

Why we suck - a feel good guide to staying fat, loud, lazy and stupid é um livro que aspira a ser sarcástico, rude e ofensivo. E é-o efectivamente, mas olhando para o autor não é de admirar.

Denis Leary é um comediante e actor que se distingue pelo humor ácido e agressivo. Fez nome através do stand-up mas a fama mundial chegou com a televisão, onde é argumentista e protagonista da série Rescue Me (Socorro em Portugal).

Neste livro, Leary mistura histórias de família com opiniões e filosofias de vida sobre inúmeros assuntos: a educação dos filhos, a fama em Hollywood, a obsessão com a imagem nos dias de hoje, os presidentes americanos recentes, o casamento homossexual, etc.


Há capitulos bastante engraçados e irreverentes q.b., nomeadamente os primeiros (gostei bastante dos capítulos sobre a Oprah, sobre gatos e sobre a auto-medicação), mas à medida que vamos lendo, comecei a ter a sensação que Leary estava a encher chouriços, com algum engonhanço, como menções repetidas a episódios familiares e a pontos de vista.

Politicamente incorrecto e corrosivo, peca por se tornar entediante, talvez porque o que o autor teria para dizer poderia ser condensado em pouco mais de 150 páginas, menos 100 que as que o livro tem.
 
Fica um excerto do livro, disponibilizado pela Amazon e uma recomendação para uma leitura diferente.
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