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15 de fevereiro de 2011

O evangelho do enforcado

evangAutor: David Soares
Género:
Romance histórico / Fantástico

Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 368
Preço: € 19
ISBN:  978-9-72-731159-0
Título original: O evangelho do enforcado

Avaliação:
**** (bom)


O Evangelho do Enforcado combina habilmente História e fantasia. Tendo como pano de fundo as circunstâncias em que foram criados os Painéis de S. Vicente de Fora, começa por acompanhar a vida do pintor que lhes deu vida, Nuno Gonçalves, e entrecruza-se com o período que marcou o início dos Descobrimentos portugueses.

Permitindo-se inúmeras liberdades criativas (ser-me-á impossível voltar a olhar a figura do Infante D. Henrique - votado como o 7.º dos Grandes Portugueses - e de toda a
ínclita geração da mesma forma depois desta leitura), David Soares retrata as gentes e a Lisboa do século XV com bastante crueza e não menos erudição.

O início da leitura não é fácil, sendo que a narrativa desperta alguma repulsa, mas quebrada essa barreira, o virar de páginas torna-se compulsivo, ao que ajuda a galeria de personagens verdadeiramente rica e electrizante, com vários nossos conhecidos dos livros do preparatório: Mestre d'Avis, Filipa de Lencastre, Infante D. Henrique, D. Afonso V, etc.

As anotações finais do autor são bastante úteis, permitindo perceber melhor algumas nuances introduzidas (o pão roxo, por exemplo) e confirmando o imenso trabalho de pesquisa por detrás do romance.

Uma leitura recomendadíssima, não só por ser de um autor português mas porque é um bom livro dentro do género e do melhor que se faz (escreve) em Portugal.

Não leva mais estrelas porque achei que a acção acabou algo abrupta, sem um real remate.

23 de agosto de 2010

The owl killers

Autor: Karen Maitland
Género: Ficção Histórica Medieval
Idioma: Inglês
Editora: Penguin Books
Páginas: 568
Preço: € 7,61
ISBN: 978-0-141-03189-7

Avaliação: **** (bom)

Estamos em Inglaterra, no ano da graça do Senhor 1321, na época denominada de Idade das Trevas.

É um período marcado por um desenvolvimento quase nulo, onde reina a miséria, os jugos clerical e feudal, o totalitarismo e a superstição. A ciência é vista como um absurdo, não havendo espaço para o pensamento intelectual e filosófico; imperam, ao invés, a ignorância, o preconceito e o medo do desconhecido e do que é diferente.

É neste cenário que a autora coloca as personagens de The Owl Killers, mais concretamente na aldeia de Ulewic, o que em inglês medieval significa "o lugar da coruja". Em Ulewic, duas forças debatem-se pelo controlo da populaça: a Igreja cristã e os pagões Owl Masters, homens da terra que se vestem com túnicas e máscaras de coruja e coagem os habitantes a manterem os hábitos antigos de adoração aos deuses.

O povo trabalha a terra para o nobre que detém a posse do latifúndio, paga os seus inúmeros impostos e dízimos, e tenta sustentar-se e à sua família. Não há sistema de saúde, nem subsídios, nem ajudas estatais, a vida é dura, cruel e não se compadece daqueles que têm recaídas ou momentos de azar. Estamos em 1321 e cada um tem lutar arduamente pela sua sobrevivência.

Quando Ulewic e os arredores são atingidos pela peste, a vida fica (ainda) mais difícil. O gado adoece e morre, algumas crianças não resistem à fome e infecções, o padre do lugar não sabe como amparar os paroquianos. Com os estômagos vazios, desmoralizados e cada vez mais indigentes, os populares procuram a origem da sua má sorte e viram-se contra um grupo de beguinas que se instalou recentemente em Ulewic.

As beguinas vivem num mosteiro, um pouco afastadas da aldeia. Dedicam-se à caridade, ao cuidado dos pobres e doentes, mas sem vínculo a votos de clausura como as freiras. Cada beguina tem uma função no beguinário e trabalha para o bem colectivo. As beguinas são autónomas e providenciam a sua subsistência: trabalham a terra (cereais, algodão), vendem o que produzem, conhecem as ervas e os unguentos. Durante anos, foram toleradas e deixadas em paz pela Igreja, mas em 1311, são consideradas hereges e ostracizadas daí em diante.   

Em Ulewic, não encontram inicialmente um ambiente hostil na medida em que ajudam a população com comida e dinheiro, mas rapidamente passam a bode expiatório, acusadas de atraírem a ira divina pelo seu modo de vida independente.

A história é narrada por várias personagens: Servant Martha, a líder das beguinas; o padre da aldeia, Ulfrid; Osmanna, a filha do senhor feudal que é acolhida pelas beguinas quando é expulsa pelo pai; Beatrice, uma beguina abrasiva e revoltada com a sua infertilidade; e ainda uma criança da aldeia, Pisspuddle.

Toda a acção é pontuada por uma envolvente e intrigante mistura de elementos cristãos e pagãos, com muita bruxaria e superstição à mistura. As personagens têm uma voz diferente entre si e são todas muito interessantes, o que facilita a leitura do livro e a compreensão do que se passa, com as diferentes perspectivas a complementarem a história. O livro tem tantos pormenores e sub-enredos que o tornam delicioso que é impossível não o apreciar.

Tudo somado, The Owl Killers é uma leitura viciante e impossível de largar, que recomendo vivamente.
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