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9 de junho de 2020

Diabolical summer


Autores: Thierry Smolderen, Alexandre Clérisse
Género: Banda Desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 168
Editora: IDW (Kindle)
 Ano: 2016
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Esta banda desenhada francesa, Prémio BD Fnac em 2017, e minha estreia na obra deste dois artistas que colaboram frequentemente, foi uma agradável surpresa.

1967, Côte d’Azur. Antoine é um rapaz discreto de 15 anos que divide as férias grandes entre partidas de ténis e namoricos. Quando conhece o espevitado Erik, os dois rapazes iniciam uma amizade improvável, o que não agrada ao pai de Antoine.

Pouco tempo depois, o jovem vê-se envolvido num rodopio de situações dramáticas. Quando o pai desaparece, o Verão de 1967 torna-se o Verão de todas as descobertas e emoções. Acidentes, espiões e uma conspiração ao mais alto nível. Um Verão diabólico, sem dúvida…

A história de Diabolical summer é complexa e sofisticada, mas são as ilustrações de Clérisse que ficam na retina. O festival kitsch dos anos 60, as cores psicadélicas, o charme retro da década perfeitamente captado, fazendo gosto ao olho na dissecação de cada vinheta.

Quando acabamos o livro é isso que fica. Uma boa história magistralmente ilustrada. Very groovy, baby!

*****
(muito bom)

26 de maio de 2020

O Alquimista


Autor: Paulo Coelho
Género: Auto-ajuda, Motivacional
Idioma: Português
Páginas: 108
Editora: Planeta (ebook)
Ano: 1988

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Publicado em 1988, O Alquimista foi o livro que lançou o brasileiro Paulo Coelho para a ribalta.

Paulo Coelho nasceu em 1947, no Rio de Janeiro. Tem os seus livros traduzidos em dezenas de idiomas e recebeu prémios literários na Austrália, nos EUA, na França, e em Itália. É o escritor brasileiro mais vendido e lido no mundo.

Apesar disso, nunca senti vontade de o ler. Mesmo tendo umas poucas amigas que mo aconselhavam... mas cujos gostos literários não eram concordantes com os meus. Não aconteceu.

Recentemente, durante o período de confinamento, eu e a uma amiga decidimos fazer uma leitura conjunta de um livro com poucas páginas e tema acessível. Dos candidatos, ganhou O Alquimista, o livro que permaneceu na lista de bestsellers do New York Times durante anos.

A história: um jovem pastor tem o sonho recorrente de um tesouro escondido e das pirâmides egípcias. Decide ir em busca do tesouro, encontrando pelo caminho várias personagens que lhe transmitem ensinamentos, entre os quais os conceitos da Lenda Pessoal, da Alma do Mundo e da Linguagem Universal. A busca pelo tesouro despoleta, assim, um processo de enriquecimento espiritual e o leitor tira(ria) vantagem das várias revelações a par com o protagonista.

N'O Alquimista, o autor não descreve fisicamente as personagens além do género, focando-se antes nas roupas e acessórios que usam. Isso torna a história mais universal, sem associações extra que poderiam desviar a atenção do que é importante: a mensagem. Isto porque o tesouro acima mencionado é uma metáfora para o auto-conhecimento.

A escrita é pontuada por frases simples e curtas, que permitem ler o livro de uma assentada ou fazendo paragens e retomar a leitura sem perder o fio à meada.

«Quando você quer uma coisa, todo o Universo conspira para que possa consegui-la.»
 
A centena de páginas da edição que li resumem-se a um conjunto de banalidades num tom religioso que rapidamente se torna monótono. A história não é desenvolvida, o protagonista não é interessante nem multidimensional (novamente a vagueza da universalidade), algumas frases soam estranhas mesmo se lidas em voz alta (vejo algum conteúdo made in Brasil mas leio pouco em Português do Brasil, pelo que admito que a falha aqui pode ser minha), não há elevação espiritual. Certamente que o facto das minhas expectativas serem elevadas não ajudaram.
 
Gostaria de ter apreciado o livro (a minha amiga gostou bastante) mas não o achei estimulante de todo. Vago e sem estrutura, desinspirado até, apesar das entrevistas que li em que Paulo Coelho diz que sonhou com o livro, viajou até ao Egipto e sempre acreditou que esta história singraria. E fê-lo, mas eu nada colhi.

Leio todos os géneros literários e já li bons livros de auto-ajuda/motivacionais, com trajectórias espirituais inspiradoras, alguns dos quais têm um apontamento aqui no blog: Can't hurt me, The choice, A gata do Dalai Lama, The art of happiness. Há vários outros títulos que ainda não li e que me inspirarão tanto como O Alquimista inspirou outras pessoas; isso consola-me.
 
**
(fraco)

2 de abril de 2020

Persépolis


Autor: Marjane Satrapi
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 352 (integral)
Editora: Vintage Digital (e-book)
Ano: 2008
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Marjane Satrapi (pseudónimo de Marjane Ebihamis) é de origem iraniana e nesta série de banda desenhada muito aclamada, conta a sua história.

É uma criança quando o regime de Reza Pahlavi cai; o xá fora posto no poder pelos norte-americanos, que queriam acesso livre ao petróleo iraniano. O povo iraniano, ao tentar libertar-se de cinquenta anos de tirania, abriu a porta ao regime islâmico, não lucrando com a troca.


A primeira parte de Persépolis é narrada por uma criança que tenta entender o mundo dos adultos e fazer sentido das coisas que lhe são contadas. Estamos no início da década de 80 e as universidades estão a ser encerradas; o uso do véu torna-se obrigatório para as mulheres. Os pais da precoce Marjane protestam contra o regime mas a repressão é violenta. Assustados, mandam a filha para a Áustria para prosseguir os estudos.

É assim que Marjane começa a frequentar o liceu francês em Viena, sem falar uma palavra de alemão. Os amigos são miúdos rebeldes que lhe dão a conhecer as drogas e a sexualidade livre. Dividida entre duas culturas completamente diferentes, luta por ter algum equilíbrio. 

Quando após quatro anos, Marjane regressa a Teerão, a guerra com o Iraque terminou mas a cidade está em ruínas e o governo continua repressivo. A jovem cai numa depressão grave mas com o apoio da família consegue ultrapassá-la e voltar a concentrar-se na sua educação.

O que eu mais gosto nos desenhos de Marjane Satrapi é a mistura do trágico com o burlesco, nunca se furtando à auto-crítica, aos eventos históricos e ao juízo à sociedade islâmica iraniana, onde a liberdade de expressão não existe, onde tudo é proibido (maquilhagem, música, festas, demonstrações de afecto). Os iranianos tentam criar, em casa, um espaço de liberdade e identidade, mas muitos são influenciados pelos valores tradicionais e são eles mesmos a repreender outros que não sigam a ideologia do regime. 

Persépolis narra gráfica e habilmente os sentimentos e emoções de uma mulher rebelde que recusa viver em submissão, ilustrando de uma forma poderosa o cenário histórico-político iraniano. É uma história arrebatadora, que merece ser lida.

O livro, banido de várias escolas norte-americanas - onde foi incluído como leitura obrigatória, gerando mil controvérsias -, ganhou vários prémios, foi adaptado ao cinema, premiado em Cannes e nomeado aos Óscares. A autora abandonou o Irão em 1994 para não mais voltar. Obteve a nacionalidade francesa e reside em Paris, vivendo da realização, da escrita e da ilustração.

*****
(muito bom)

26 de janeiro de 2020

A thousand splendid suns


Autor: Khaled Hosseini
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 419
Editora: Bloomsbury
Ano: 2008
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Em conversa com uma amiga, os livros de Khaled Hosseini vieram à baila. Ela leu três, foi muito elogiosa em relação a todos; eu tenho The kite runner mas ainda não o li.

Passados uns dias, A thousand splendid suns aterrava cá em casa, emprestado entusiasticamente, com a indicação de que deveria ter prioridade sobre todas as outras leituras - e, nem de propósito!, com o período do Natal e Ano Novo a aproximar-se, «lê-se num instantinho».
«Learn this now and learn it well. Like a compass facing north, a man’s accusing finger always finds a woman. Always.»
É verdade, A thousand splendid suns lê-se bem, é interessante, mas não é o género de história que eu devore (ou talvez tenha sido a forma como foi escrito), por isso levei mais tempo do que o esperado. 

O cenário é o Afeganistão. Em meados dos anos 70, conhecemos a nossa primeira protagonista, Mariam, bastarda (harami) de uma serviçal e do dono da casa. Envergonhado pelo seu impulso, Jalil, homem de negócios, convence a mãe de Mariam a mudar-se para a periferia de Herat, onde as visita todas as quintas-feiras. Mesmo vivendo isoladas e de forma muito humilde, a jovem Mariam nunca esquece a sua posição de harami - e a mãe não a deixa esquecer. Mas a luz dos seus olhos é o pai, e Mariam vive para as suas visitas breves, onde ele a leva a pescar ou conversa com ela, trazendo por vezes pequenos presentes, que Mariam recebe como se fossem jóias. Quando ele se vai embora, Mariam volta à rotina cinzenta e à contagem decrescente até à próxima quinta-feira.

Mariam cresce nos "anos dourados" do Afeganistão, embora seja vítima de um casamento combinado com um homem décadas mais velho e viva sob o seu controlo. Nos anos 90, com os Talibã no poder, aumenta a violência, o fundamentalismo, a fome e as mortes. A casa de Mariam recebe uma terceira habitante, Laila, a nossa outra protagonista, e as duas formam uma amizade fraternal, apesar das enormes diferenças e dos desafios, aumentados depois do 11 de Setembro, quando os EUA declaram guerra ao Afeganistão e se inicia a caça a Osama bin Laden.

Juntas, Mariam e Laila tentam sobreviver, apesar da sua condição menor aos olhos da sociedade e de um ambiente familiar tóxico. O relato dos seus dias não é uma leitura leve, e é especialmente difícil de ler por uma ocidental, criada num sistema onde os direitos mais fundamentais são assegurados sem pestanejar. É também uma história triste, com passagens de esperança e um final feliz q.b.

Pessoalmente, não achei o livro tão lírico como publicitado, apesar de o ter lido na língua em que o autor o escreveu - tem passagens evocativas mas são breves. Das duas personagens principais, achei Mariam mais interessante e com uma história muito mais rica. Confesso que à medida que a personagem de Laila foi ganhando mais destaque, o meu ritmo de leitura abrandou. Também gostaria que a relação entre as duas mulheres tivesse sido mais descrita, em vez de relatada em alguns parágrafos. Mas A thousand splendid suns é um bom livro, bem conseguido, que deve ser lido, pois é um testemunho das privações que assolaram o povo afegão e da forma errada como o Islamismo foi/é usado para calar e oprimir.

Vou devolver o livro com um sorriso; gostaria de ler os restantes livros de Khaled Hosseini. 
****
(bom)

11 de novembro de 2019

Circe



Autor: Madeline Miller
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 333
Editora: Bloomsbury Publishing
Ano: 2019

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Sou fã de mitologia grega desde miúda, por isso Circe não tinha de ser especialmente apelativo para me prender a atenção - o suficiente para comprar o livro sem grande ponderação.

Mas fê-lo desde a primeira página e continuou a fazê-lo até ao fim; a escrita elegante e fluida, rica em descrições, fez-me virar página após página, seduzida pela voz de Circe, mulher que ficou na História como a semi-deusa feiticeira, amante de Ulisses, que transformava em porcos os homens que ancoravam na sua ilha. Madeline Miller dá-nos outra pessoa, menos demonizada.

Filha do deus Hélios, personificação do Sol, e da ninfa Perseis, a jovem Circe não se integra bem no palácio do pai entre os irmãos e os primos, estando sempre à margem. A sua voz "estranha", parecida às dos mortais, e o desinteresse pelas intrigas palacianas, fazem com que não seja procurada pelos seus pares. A mãe, ausente desde cedo, está mais interessada em manter o seu estatuto de favorita do que em investir tempo na educação da prole.

Assim, Circe cresce habituada a auto-entreter-se e a manter-se longe dos olhares alheios, e do falatório, dos que a rodeiam. Pelos seus olhos, vemos como os deuses podem ser caprichosos e cruéis. Neste aspecto, gostei especialmente das cenas com Prometeus. 

Décadas mais tarde, Circe é exilada para a ilha de Eana, uma gaiola dourada onde é rapidamente esquecida pelos outros deuses. Aqui, torna-se especialista em venenos e drogas, solidificando a figura que ficou para a posteridade e que é associada com Atena, Cila, Medéia, Pasífae, Dédalo. Na ilha, é visitada por Hermes regularmente, e as interações entre os dois são dos capítulos mais interessantes do livro. Em Eana, Circe aprende o que é o amor, a violência, a perda, a saudade, e os seus limites. A autora conta-nos uma história de maturidade e de aceitação que se desenrola ao longo de vários séculos (um luxo exclusivo de deuses e semi-deuses).

A escrita é elegante, com passagens muito bem conseguidas. A voz de Circe é cândida, sincera no relato das suas falhas e das suas lutas. Gostei bastante, acho que Miller escreve muito bem; espero ler o Canto de Aquiles em breve.
****
(bom)

26 de novembro de 2018

Less



 Autor: Andrew Sean Greer
Género: Humor, Sátira
Idioma: Inglês
Páginas: 272
Editora: Hachette Book Group (Kindle)
Ano: 2017
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Arthur Less tem 49 anos e é um escritor pouco conhecido, sem grande obra. Residente em São Francisco, tenta lidar com a passagem do tempo, as memórias de amantes passados e a irrelevância no meio literário.
  
«Nobody came to "An Evening with Arthur Less".»

Preso num dia-a-dia previsível e sem novidades, Less vê-se subitamente num turbihão de emoções quando recebe um convite de casamento do ex-namorado Freddy, uma relação recente de nove anos que Less tenta minimizar mas não consegue. Como comparecer é impensável (e demasiado doloroso), Less arranja forma de lhe ser impossível fazê-lo, agendando várias viagens e eventos na altura da boda, desde participar como orador numa conferência literária na Cidade do México até ao Japão, onde é suposto escrever uma crítica da cozinha nipónica numa revista masculina. Pelo meio ficam eventos em Itália, na Alemanha, em França, em Marrocos e na Índia.



«Arthur Less is the first homosexual ever to grow old...He has never seen another gay man age past fifty, none except Robert. He met them all at forty or so but never saw them make it much beyond; they died of AIDS, that generation. Less' generation often feels like the first to explore the land beyond fifty.»
 
Mas as memórias com Freddy perseguem-no e assombram-no. A uns meses de fazer 50 anos, Less é confrontado interiormente com as suas escolhas, o seu passado amoroso e a sua homossexualidade. Incapaz de lidar com a infelicidade de não continuar com Freddy, está decidido a viajar pelo mundo e a ocupar-se com coisas que não lhe dizem grande coisa, tudo porque não consegue ultrapassar o que se tornou nem a solidão que o espera de volta a casa.

Less é um dos piores livros que li nos últimos meses. Enfadonho, está longe da minha ideia de um livro vencedor de um Pulitzer. Onde está o humor, a sátira anunciados? Fiquei à espera de algo que nunca veio, e a minha persistência não foi recompensada.



**
(fraco)

21 de outubro de 2018

O tigre branco



Autores: Aravind Adiga
Género: Policial
Idioma: Inglês
Páginas: 276
Editora: Free Press
Ano: 2008
ISBN: 1416562605
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O Tigre Branco arrebatou por unanimidade o Man Booker Prize em 2008.

Romance de estreia do autor, Aravinda Adiga, mostra uma Índia pouco explorada pela ficção: violenta e crivada de desigualdades socioculturais - bem diferente da imagem de nação exótica, dos saris de mil cores, da ioga e da elevação espiritual a que estamos habituados.

Toda a obra é uma longa carta dirigida ao Primeiro-Ministro chinês, Wen Jiabao, que visitará o país em breve, escrita ao longo de sete noites. O autor da carta, Balram, nascido na “Escuridão” – a Índia rural, paupérrima e subserviente -, apresenta-se como o tigre branco do título, um «empreendedor social» que narra a sua ascensão de aldeão miserável até à luz do seu sucesso empresarial; na “Luz” vivem os políticos, actores, homens de negócios, numa almejada vida de prosperidade financeira pertencente a uma minoria e desconhecida por milhões de indianos.

Nas suas cartas, Balram não procura a absolvição pelos crimes que cometeu, mostra-se apenas como o exemplo de um dos milhões de pobres na Índia, agrilhoados pelo sistema de castas; mostra-nos ainda como o suborno e a corrupção incrustadas são a base do milagre económico do país - as observações do narrador são agudas e inquietantes, o tom sempre sarcástico.

O título é a metáfora do livro. Por ser um animal raro na selva, Balram foi assim apelidado por um inspector escolar por ser capaz de ler e escrever quando poucos eram capazes de o fazer. Apesar de lhe ter sido prometida uma bolsa para que pudesse explorar o seu potencial, Balram teve de suspender os estudos quando a família o empregou para ajudar a saldar uma dívida.

O Tigre Branco é gráfico mas aqueles que já visitaram a Índia facilmente reconhecerão várias referências e recordarão cenas quotidianas nos mercados, nas estradas, nas ruas. Este é o retrato de uma sociedade brutal e impiedosa, em que as injustiças se perpetuam geração após geração. Balram consegue escapar da escuridão de um destino de servidão e fá-lo sem remorsos, alcançando a desejada luz da independência financeira.

Um livro excelente.


*****
(muito bom)

22 de junho de 2015

Laços de Família

Autor: Marilynne Robinson
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 232
Editora:
Difel

Ano:
2007

ISBN:
978-972-2908511
Tradução: Isabel Veríssimo
Título original: Housekeeping 
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Lançado em 1981, Laços de Família foi considerado uma pérola rara. Nomeado para o Pullitzer (nesse ano, ganhou Coelho Enriquece, de John Updike), ficou-se pelo PEN/Hemingway Award e deixou a autora, Marilynne Robinson, debaixo de olho (curiosamente,  Robinson apenas publicaria o segundo romance, Gilead, 24 anos depois, em 2004).

Anos 50. Ruthie (a narradora) e a irmã, Lucille, são levadas pela mãe (uma mulher solitária e calada) a uma pequena cidade do Idaho, Fingerbone, onde vive a avó materna. Entregues as meninas, a mãe afasta-se de prego a fundo em direcção ao lago da cidade, suicidando-se na mesma massa de água onde o seu pai se afogara anos antes.

As duas crianças ficam entregues a uma avó inexpressiva, passando para duas tias "taralhocas" com a morte daquela e finalmente para outra tia (excêntrica até ao tutano) quando as duas solteironas decidem que criar duas crianças dá demasiado trabalho.

Rapidamente nos apercebemos que a família é atormentada pela doença mental, o suicídio e a inquietude. A autora é mestra em envolver-nos na vida doméstica e no crescimento das crianças, mas há toda uma atmosfera estranha que não torna a história credível (os actos das personagens não fazem grande sentido e a indiferença dos habitantes de Fingerbone é absurda). Há muitas respostas que ficam por dar, as personagens masculinas são irrelevantes e as mulheres da história pautam-se por uma passividade aflitiva.

Há três palavras que, para mim, resumem a história e o ambiente de Laços de Família: sublime, entediante e melancólico.
A história tem momentos evocativos e de grande beleza poética, escritos com uma elegância que se reconhece rara, mas a repetição de alguns cenários torna-se maçadora ao ponto de querermos que desate. Quanto à melancolia, é ambivalente, pois dá uma riqueza ao texto que acaba por aborrecer quando a história não avança. Ainda agora, depois de ter repensado os capítulos/as cenas mais relevantes, não consigo ver a apregoada genialidade deste livro; não foi nada gratificante seguir a infância e adolescência de Ruthie e Lucille.
 
Perdeu-se ainda algo na tradução do título: Housekeeping converteu-se em Laços de Família, quebrando o elo com a história e a forma como cada personagem é afectada pela atenção (excessiva ou falta dela) aos cuidados domésticos e à lida da casa.
 
Acredito que o livro seja superior à percepção que tive dele, mas só posso comentar aquilo que me fez sentir, num deambular demasiado longo que uma edição mais apurada teria resolvido.
 
Não vou desistir do que me trouxe ao nome da autora: a leitura de Gilead, considerada a sua melhor obra. Comecei por este romance porque foi o primeiro e queria lê-los por ordem cronológica, mas não tão cedo; cada vez que penso em Laços de Família, apetece-me bocejar.

***
(mediano/razoável)
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