6 de maio de 2011

Escrever - memórias de um ofício

Autor: Stephen King
Género: Autobiografia / Escrita criativa
Idioma: Português
Editora: Temas e Debates
Páginas: 256
Preço: € 18
ISBN:  978-9-72-759459-7
Título original: On writing: a memoir of the craft


Avaliação: ***** (muito bom)

«Se não tem tempo para ler, não tem tempo nem ferramentas para escrever.»

Neste livro, dividido em duas partes, King desvenda-nos os segredos e ferramentas da sua arte. A primeira parte é uma autobiografia, com enfoque no seu percurso literário, a segunda parte um guia do escritor.

Começamos com um passeio pelas memórias do mestre do terror: infância, adolescência, primeiros passos no mundo editorial, sucesso mundial, experiência de vida. Longe de ser uma leitura monótona, ajuda-nos a perceber como as situações passadas ajudaram o fazer de King o escritor que ele é, não sendo necessário ter uma vida fora do comum para escrever sobre o sobrenatural e o bizarro.

A segunda metade é um guia para o aspirante a escritor. Stephen King começa por dizer, sem peias, que não vê com bons olhos os workshops de escrita criativa e cursos derivados.

Para ele, se alguém não tiver o que é necessário para escrever - «the package» -, dificilmente o adquirirá em cursos. A chave é amar a leitura, ler muito (mesmo muito muito muito) e saber o que se quer fazer com as ideias que se tem a fervilhar no cocuruto. Os conhecimentos de gramática, léxico e sintaxe ajudam, mas tudo se resume a duas máximas:

1) ler muito
2) escrever muito

King descreve pormenorizadamente o seu processo de criação e incentiva os aspirantes a seguirem-no ou a adaptarem-no a si. Dá dicas e recomenda alguns livros que o influenciaram ou a que ele tira o chapeau pela qualidade e/ou técnica.

Stephen King, goste-se ou não da sua obra, é uma referência para todos os que gostariam de escrever dentro do género; em Escrever - memórias de um ofício chega até ao leitor facilmente, numa narrativa simples, directa e, acima de tudo,  útil.

29 de abril de 2011

A sombra de Foucault

Autor: Patricia Duncker
Género:
Romance

Idioma: Português
Editora: Gradiva
Páginas: 152
Preço: € 10
ISBN:  978-9-72-662599-5
Título original: Hallucinating Foucault

Avaliação: **** (bom)

De vez em quando aventuro-me pela literatura contemporânea, com resultados menos bons. Há excepções. A sombra de Foucault é um desses exemplos. Romance de estreia de Patricia Duncker, editado em 1996, ganhou o prémio Dillon’s First Fiction.

É um livro que se lê bem, pela linguagem acessível e parágrafos resumidos; tem
um tom poético (e até musical)  envolvente. A narrativa trata das relações pessoais, do "peso"  dos textos literários, da loucura e das questões existenciais.

O texto é, a cada linha, uma homenagem ao movimento estruturalista, cujo principal representante foi o filósofo francês Michel Foucault, que, nos seus escritos, apelava ao desenvolvimento de uma ética individual de resistência ao poder; a sua obra encontra-se dividida em 3 estudos distintos: a loucura no mundo ocidental, as articulações entre o saber e o poder, e o triângulo poder/prisões/sexualidade.

«Quem és tu, ponto de interrogação?, eu questiono-me muito. No teu hábito de gala pareces um magistrado. És o mais feliz dos sinais de pontuação porque pelo menos obténs respostas.»

Por esta altura já estarão a pensar que o livro é uma seca, que só interessará e será perceptível a quem conheça ou admire o trabalho de Foucault, mas isso não acontece.

Esta é uma obra de ficção e a figura do filósofo (e consequentemente os seus estudos) apenas servem de base à acção propriamente dita, na medida em que inspiram as personagens no seu quotidiano e na maneira como encaram a vida e o ser humano.

Em todo o livro, o verdadeiro enfoque é na relação que se desenvolve entre um autor famoso, Paul Michel, e um seu fã estudante (e nosso narrador), que tem por ele e pelas suas ideias uma admiração imensa.

A forma como a autora explora a ligação entre escritor e leitor é muito bem ilustrada e quando o nosso narrador, impelido a visitar o instável Paul Michel, internado num hospício, tem o primeiro contacto com o seu ídolo, assistimos a um desconcertante diálogo, onde se espelham cogitações e amarguras. E a narrativa flui, agradável e sem pretensões intelectuais, com o leitor rendido à inteligência e acutilância de Paul Michel.


«Escrevo com o brilho desempoeirado do soalho dum salão de baile. Escrevo para idiotas.»

É um livro difícil de encontrar nas livrarias, mas garantidamente que o encontram no alfarrabista ou nas bancas de livros usados.

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