9 de novembro de 2013

Memória das minhas putas tristes




Autor: Gabriel García Márquez
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 114
Editora:
Dom Quixote
ISBN:  978-97-2202802-8
Título original: Memoria de mis putas tristes
---

Escrito em 2004 pelo Nobel da Literatura de 1982, Gabriel García Márquez, Memória das Minhas Putas Tristes conta a história de um velho de idade avançada, que se decide oferecer uma noite de amor no dia em que celebra 90 anos.

«... órfão de pai e mãe, solteiro sem futuro, jornalista medíocre quatro vezes finalista nos Juegos Florales de Cartagena de Indias e favorito dos caricaturistas pela minha exemplar fealdade.» (página 19)

O velho, conhecido por Sábio, é um cronista sem igual na cidade onde habita. As suas excentricidades são aceites e respeitadas por todos. Não se considera um homem de excepção, mas é-o: culto, com alma de poeta, é solitário como poucos, vive entre os seus livros, dicionários e música... e nunca fez amor, só sexo, sempre pago. Porquê? Porque apesar de sentimental é um cínico e porque não acredita no amor romântico.

No seu nonagésimo aniversário, decide que há-de ter uma virgem. A "madame" local, cúmplice de muitos negócios e conversas murmuradas, providencia uma jovem de 14 anos para essa noite, onde acaba por dormir ferrada e embalada por valeriana. Não há sexo mas o velho Sábio apaixona-se pelo cheiro e pelo corpo da rapariga, começando a imaginar mil formas de cativar e ter para si.

O resto é poesia, poesia em forma de prosa, onde conhecemos a vida do Sábio e o avanço do seu amor pela jovem Delgadina, alternando o texto entre a exaltação da velhice e a descoberta do primeiro amor. É inspirador ver um homem tão avançado na idade tão activo e respeitado pela comunidade, com tanto por fazer, mas creio que a premissa é demasiado fantasiosa e não me "agarrou" como esperava.

«Quando era jovem ia às salas de cinema sem tecto, onde tanto nos podia surpreender um eclipse da Lua como uma pneumonia dupla por causa de um aguaceiro perdido. Mas mais do que os filmes interessavam-me as passarinhas da noite que iam para a cama pelo preço da entrada, ou davam de borla ou fiado. Pois o cinema não é o meu género. O culto obsceno de Shirley Temple foi a gota que fez transbordar o copo.» (página 21)

O livro, apesar de breve, tem passagens muito boas. García Márquez teve o condão de transformar o título do livro e a sua premissa inicial numa história de amor vivida a um e numa narrativa com conteúdo, embora fique aquém da densidade das suas obras maiores. A narrativa tem alguma candura mas soube-me a pouco, pois custou-me acreditar em grande parte da acção.

É bom mas um bom pequenino: bonzinho.


avaliação: **** (bom)

2 de novembro de 2013

A metamorfose




Autor: Franz Kafka
Género:
Ficção
Idioma: Português

Páginas: 96
Editora:
BIS
ISBN:  978-98-9660306-9
Título original: Die Verwandlung
---

Apesar de imensamente referenciado na literatura, nunca tinha lido Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX (shame on me). Admito que nunca tinha procurado nada do autor e até hoje o universo nunca se tinha alinhado para que o lesse.

Até que há uns dias, houve alinhamento e, enquanto dava uma olhadela pelas lombadas de uma das estantes da biblioteca municipal, reparei e peguei n'A Metamorfose; gostei da capa, avaliei a fineza (não chega a uma centena de páginas) e li a menção de que, escrita em 1912, é a obra kafkiana mais lida e estudada; veio comigo para casa.

«Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto.»

Assim do nada, o jovem Gregor desperta um dia transformado num gigantesco insecto. Gregor vive em casa com os pais, a irmã mais nova e duas criadas. Caixeiro-viajante, é o único que trabalha e sustenta o agregado; a sua primeira preocupação ao ver-se com múltiplas perninhas e carapaça é a de que como vai fazer para se levantar, vestir e apanhar o comboio para o trabalho.

À medida que os minutos passam e a casa se anima com ruídos familiares, Gregor vai entrando em pânico com a falha da rotina e a perspectiva de o verem assim... o que acaba por acontecer e desembocar numa série de situações surreais q.b., fazendo-nos alternar entre a surpresa, a incredulidade e a raiva.

Pessoalmente, o que me ficou d'A Metamorfose é uma mensagem de alienação, tristeza e opressão. A família de Gregor não se importa realmente com ele e conforma-se com a situação do filho (e irmão) à velocidade da luz. A sua preocupação é garantir que o dinheiro não pára de entrar e quando percebem que conseguem sobreviver sem o rendimento auferido por Gregor, rapidamente deixam de providenciar pelo seu conforto e bem-estar. A figura do pai é austera e emocionalmente ausente, a da mãe é psicologicamente frágil com laivos de histeria e a da irmã de 16 anos é egoísta.
Descartado e descartável, a Gregor resta rastejar como o insecto em que se tornou e desaparecer das vidas daqueles que rapidamente o secundarizam e viram os olhos para um futuro onde o primogénito já não figura. Tendo em conta a ideia que tinha de Kafka e uma leitura de uma breve biografia, o final não poderia ser outro.

Na minha opinião, este é um livro que se lê rapidamente e se apreende com vagar. Li-o a uma velocidade bastante superior àquela a que o estou, ainda, a deglutir, pois é uma leitura que dá que pensar: sobre as relações familiares, sobre a alienação e sobre a indiferença e o egoísmo; é território denso e nem sempre confortável.

Um dia destes voltarei a Kafka. Fiquei impressionada pelo mundo de questões que colocou num livro tão pequeno. 


avaliação: **** (bom)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...