26 de novembro de 2013

O aloendro branco



Autor: Janet Fitch
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora: Editorial Presença

Páginas: 455
ISBN: 972-23-2363-5
Título original: White Oleander
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A história d'O Aloendro Branco é forte, tocante e inesquecível, com uma galeria de personagens femininas carismáticas e muito fortes.

A nossa narradora é Astrid Magnussen, uma adolescente cuja vida gira à volta da mãe, Ingrid, uma mulher de temperamento artístico e caprichoso, com tanto de peculiar como de egoísta. 

Ingrid e Astrid vivem no seu próprio mundo, onde Ingrid dita as regras: é rainha e senhora. Agressiva e apologista dos valores vikings, que apelida orgulhosamente de antepassados, Ingrid despreza os "sentimentos menores", como a compaixão e o amor, fazendo crer a Astrid, através de uma visão romântica típica do seu espírito de poetisa, que apenas precisam uma da outra para sobreviver.

Até ao dia em que Ingrid, habituada a relações fugazes e dominadas por ela, se apaixona por um homem e inicia uma relação séria. Quando ele decide acabar, Ingrid só pensa no seu orgulho ferido e encara-o como um alvo a abater. Premeditada e friamente, envenena-o com o belo e delicado aloendro que cresce no jardim da casa onde vive com a filha. Quando é presa, julgada e condenada a prisão perpétua, Ingrid encara a situação como inevitável mas justificada. O futuro de Astrid, com 12 anos e a vida virada do avesso, é a última coisa a passar-lhe pela cabeça.

«Nunca tenhas esperança de encontrar pessoas que te compreendam (...). Pessoas inteligentes, sensíveis, são excepção, uma rara excepção. Se estiveres à espera de encontrar pessoas que te compreendam, a desilusão tornar-te-à cada vez mais sanguinária. O melhor que podes fazer é compreender-te a ti própria, saber o que queres, e fazer com que a manada não se interponha no caminho.»


Entregue aos cuidados do Estado e das assistentes sociais, Astrid passa por várias famílias de acolhimento, sobrevivendo a agressões, negligência e inúmeros actos de violência. A mãe, da prisão, exerce sobre Astrid todo o tipo de pressões psicológicas, esforçando-se por manter a influência sobre a filha e tentar que permaneça intocável aos que a rodeiam.

Mas Astrid está decidida a ser uma pessoa melhor, a conhecer o afecto que a mãe sempre lhe negou e a auto descobrir-se. Sobrevive cada dia graças à sua crescente sensibilidade, inteligência e talento artístico, refugiando-se no desenho e na pintura.

Pela sua vida vão passando várias mulheres: mulheres que Astrid ama ou odeia, mas todas lhe ensinam algo e deixam a sua marca na vida da jovem. Sem poder, a mãe sociopata vai adaptando o seu discurso para atrair a filha, mas Astrid vai percebendo cada vez melhor a mãe e as suas motivações, percebendo que dos pais recebemos benções mas também maldições, e o que Ingrid lhe incutiu nos anos que partilharam - força, gosto pelo conhecimento, independência, coragem -, é o que as vai afastar, pois são as características que permitem à nossa narradora sobreviver num mundo cruel que não se sente pena de orfãs.

«O passado é uma chatice (...) Não acumules passado, Astrid. Não veneres nada. Queima tudo. O artista é como a fénix que renasce das cinzas.» 

O Aloendro Branco é impossível de pousar, o mais recente page turner que me passou pelas mãos, onde as 400 e muitas páginas formam uma história magnética, com momentos líricos memoráveis e uma narradora de essência rara.

NOTA: Devido ao sucesso do livro, Hollywood fez a adaptação do mesmo ao grande ecrã, que resultou num filme interessante que já comentei no bué de fitas (e cuja capa, acima, é a usada para comercializar o título em Portugal). 

avaliação: ***** (muito bom)

20 de novembro de 2013

O último capítulo



Autor: Edmund Power
Género:
Ficção
Idioma: Português

Páginas: 241
Editora:
Saída de Emergência
ISBN:  978-97-2883981-9
Título original: The last chapter
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Brendan Stokes quer ser um escritor rico e famoso.

Vindo de pouca coisa, tem a certeza que assim que conseguir ser publicado, terá tudo o que merece: dinheiro, conforto, mulheres. Das editoras, as cartas de rejeição vão-se acumulando, e a mais recente é acutilante até dizer chega, recomendando-o a deixar de massacrar a língua inglesa com os seus devaneios de pseudo-escritor e deixar o ofício para quem tenha um pingo de talento.

Brendan não desiste, nem mesmo quando a mulher lhe atira à cara que basta de sonhos e vá de ter um emprego a sério, que sozinha a sustentar filho e marido não dá. Os dias passam, as queixas e discussões escalam e o aspirante a escritor começa a pensar em alternativas - voltar para a fábrica onde já trabalhou, estudar, pedir ajuda aos pais -, mas nenhuma lhe agrada.

Até que uma manhã, alertado por um cheiro intenso que invade um andar do prédio, descobre o seu vizinho de baixo, um homem com hábitos de eremita, morto. Brendan não se coíbe de revistar o resto de casa e encontra a solução dos seus problemas: um manuscrito amarelado, que contém uma história magnética e apaixonante.

O resto é fácil de imaginar: Brendan faz umas perguntas para assegurar que o manuscrito nunca foi referido a ninguém e, confiante, envia-o como se fosse seu. Quando as ofertas começam a chegar, os pedidos de entrevistas, o contrato chorudo, parece que finalmente está a ter o que merece.
Mas para manter a fachada, Brendan contou muitas mentiras e continua a contá-las, e já são tantas que é difícil acertar com tudo. Quando a mulher, os amigos e a polícia não desistem de fazer perguntas, a única saída de Brendan é eliminar quem sabe demais e manter a fachada e a mentira.

Para variar, a acção do livro passa-se na Irlanda (o autor é também irlandês), com bastantes referências geográficas e culturais. O protagonista está longe de ser perfeito, mas não deixa de ser interessante seguir a suas acções e a forma como raciocina. Esse é o maior trunfo do livro: a personagem central (e narrador) é um biltre egoísta mas bastante bem construída e queremos ler o que vai fazer cada vez que comete (mais) uma argolada.

O último capítulo não é perfeito, tem várias falhas no enredo e a acção parece, por vezes, demasiado arranjadinha, mas é um bom livro dentro do género e o tema é bastante interessante. 


avaliação: **** (bom)
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