10 de dezembro de 2013

Os Trinta - Nada é como sonhámos



Autor: Filipa Fonseca Silva
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 172
Editora:
Oficina do Livro
ISBN:  978-989-5557-23-3
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Filipa Fonseca Silva conseguiu, com a tradução em inglês de Os Trinta - Nada é como sonhámos (Thirty Something – Nothing’s how we dreamed it would be) um feito histórico: tornar-se a primeira escritora portuguesa no Top 100 da Amazon.

Fiquei curiosa (e contente) com esta excelente notícia, mas como o orçamento não dá para tudo, fui meter o nariz na biblioteca municipal, et voilá!, tinham o livro.

Publicitado como «uma espécie de "Os Amigos de Alex" do século XXI», segue três trintões que integram o mesmo grupo de amigos: Filipe, mulherengo «coleccionador de relações falhadas»; Maria, deixada pelo noivo uns meses antes do casamento; e Joana, uma falsa moralista que casou por interesse.

O livro segue o dia (e a noite) em que o grupo se encontra na casa de Joana, para um jantar de convívio cuja frequência se tornou cada vez mais rara. Pela voz das três personagens, vamos seguindo a forma como vêem aqueles que foram amigos próximos ou conhecidos, questionando e comentando escolhas e formas de ser e de estar. 

«Quando é que os amigos deixam de ser aquelas pessoas a quem podemos contar tudo, para se tornarem pessoas com quem temos medo de falar? (...) Lembro-me de poder falar de tudo, descrever sentimentos, chorar ao telefone com as minhas amigas (...) Agora não. Está sempre tudo muito bem, obrigada.»

A escrita da autora é muito visual e a linguagem é actual e moderna. Algumas expressões usadas são tipicamente americanas (traduzidas literalmente para português), e fáceis de identificar para quem conhece a língua do Tio Sam. As personagens têm vozes distintas mas são algo estereotipadas, o que torna difícil a empatia com o leitor mas que facilita a compreensão e o seguimento da acção. A história é previsível mas algumas passagens são boas, principalmente as reflexões mais lúcidas das personagens.

 «(...) se eu saísse com o meu eu de agora e com o meu eu de há quinze anos, tenho a certeza de que o puto ganhava. Na altura, lia muitos livros e de autores muito mais interessantes. Escrevia poemas, músicas, cartas de amor para mulheres imaginárias. Via cinema de verdade (...). Tinha uma cultura geral tão boa para um miúdo da minha idade que até chegava a impressionar os amigos dos meus pais, o que na altura me parecia um feito extraordinário. Hoje (...), percebo que não era assim tão difícil impressioná-los.»

Os Trinta - Nada é como sonhámos foi uma boa surpresa mas gostava que tivesse sido mais desenvolvido; assim, foi uma leitura light q.b., que me deixou com uma impressão positiva da nossa primeira autora no top mundial da Amazon, que espero que tenha muito mais sucessos futuros. Cá estarei para a ler. 


avaliação: *** (mediano)

2 de dezembro de 2013

E se amanhã o medo




Autor: Ondjaki
Género:
Contos
Idioma: Português

Páginas: 102
Editora:
Editorial Caminho
ISBN:  972-21-1708-4
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Este é o primeiro livro que leio do angolano Ndalu de Almeida, que usa o pseudónimo Ondjaki, palavra em umbundu que significa «aquele que enfrenta desafios».

Com 36 anos, Ondjaki tem já uma obra significativa e plural, entre livros de contos, romances e poesia; os prémios literários também são uns quantos, onde se destacam o Grande Prémio APE (2007), o Prémio Bissaya Barreto (2012) e o Prémio José Saramago (2013).

E se amanhã o medo é um livro de contos, dividido em 2 partes: horas tranquilas e conchas escuras.

«- Aceito uma vacina contra a raiva.»
«- Muito bem. Parece-me apropriado. O mundo não está para brincadeiras.»

A primeira parte, horas tranquilas, tem 15 contos subtis, líricos e luminosos, com algum humor e folclore à mistura, e muito movimento (libélulas, aves, viajantes). As personagens anseiam pela alegria, pela paz, pela esperança, há vida e serenidade. Os meus contos favoritos são coração de porco e o pássaro do cais, bastante diferentes entre si mas ambos leves e poéticos, com o seu quê de realismo mágico.

«Velhice é todos dias ir despedindo um pouco coisas que inda nos tocam as paredes do coração.»

conchas escuras, composto por 5 contos, em que o meu favorito é lábios em lava, é mais cru e sombrio. Aqui há medo e culpa, o tom é opressivo e não há esperança nas personagens, há interrogações e angústia; há violação, há morte misericordiosa (no leitor, há desconforto).

E se amanhã o medo é breve, os contos têm 2 a 3 páginas, aparentemente simples mas metafóricos e simbólicos. Sendo o primeiro livro que leio de Ondjaki, não tenho termo de comparação, mas não me parece um autor de fácil apreensão, o que não deixa de ser intimidante. As suas realidades inventadas são complexas e as frases curtas que usa não dispensam duas e três leituras até atingir o pleno. Gostei e deixo-vos aqui um excerto do livro.

«Era, no fundo, o que trazia todas as pessoas àquele local: a magia de renovar o órgão primeiro, o bombeador de sensações, a casa mais íntima de um ser humano. (...) Leve isto consigo ... entregou-lhe um pequeno aglomerado de folhas, escrito à mão num cuidadoso latim. ... Vai servir-lhe para ser feliz! ... E o que é? ... a mulher, sensível, curiosa. ... Todos os meus apontamentos sobre a sensibilidade dos porcos. O que é dizer: você é a primeira pessoa a levar um coração com o respectivo manual de felicidade.» 


avaliação: **** (bom)
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