12 de julho de 2015

Ele está de volta


Autor:
Timur Vermes
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 304
Editora:
Lua de Papel

Ano:
2013

ISBN:
978-989-2324074
Tradução: João Henriques
Título original: Er ist wieder da 
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Berlim, 2011.

Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Dói-lhe a cabeça e o uniforme tresanda a querosene. Olha à sua volta e não encontra qualquer cara familiar; a cidade também está bastante diferente. Não tem tempo a perder e rapidamente tenta apreender a nova realidade, ao mesmo tempo que planeia o seu regresso ao poder.


Assim começa o primeiro romance de Timur Vermes - um escritor alemão de origem húngara -, um bestseller traduzido em 35 línguas.

Narrado na primeira pessoa pelo próprio Adolf Hitler, assistimos ao renascer de uma figura icónica. Na sociedade actual, entupida por reality shows e pelo YouTube, o renascido Führer é visto como uma estrela da comédia, que uma televisão sequiosa de novidades acolhe de braços abertos. A Alemanha da crise, do Euro ameaçado, da austeridade, vê nele um palhaço inofensivo. Mas ele é real e fala com convicção, o público é que encara tudo como uma paródia. Assim, passo a passo, Hitler planeia o seu regresso ao poder – por via da televisão e das «internetes» -, e rapidamente se torna uma figura de destaque. 

Ele está de volta é uma sátira acutilante a uma sociedade mediatizada. Tem momentos bastante bons, alternados com outros menos conseguidos. Tem várias referências que me passaram ao lado, por não conhecer Berlim e por não estar familiarizada com o universo cultural e televisivo alemães, algo inevitável para quem não é alemão ou não vive(u) na Alemanha. Mas o tom de Hiltler é assustadoramente normal, os seus pensamentos são uma mescla de lógica e fanatismo e é arrepiante ver como as massas sucumbem àquilo que pensam ser um actor que vive intensamente a personagem.

A situação era bastante paradoxal: ainda anteontem eu tinha movimentado o 12.º Exército e agora estava a movimentar prateleiras. 

A meio do livro, o autor conseguiu um feito de relevo: começamos a gostar deste Hitler do YouTube, da sua rectidão e frontalidade, da rapidez com que se adapta a um mundo novo e a forma como deseja que o seu país seja autónomo e bem sucedido economicamente (não é o que todos desejamos para o nosso próprio país?). Claro que Timur Vermes manobra tudo para que assim seja, moldando acontecimentos e situações (adoro quando Hitler é sovado selvaticamente por membros da extrema-direita) mas dá que pensar.

No meu tempo nós levámos o terror às ruas (...) As SA andavam a circular nas suas carrinhas de caixa aberta, a agitar bandeiras e a partir ossos. Bandeiras! Isso é de extrema importância! Porque quando um atrasado mental bolchevique estiver com a cara toda ligada e de cadeira de rodas, precisa de saber quem é que o espancou e porquê.

Eu gostei do livro, da frescura da história e da crítica social mordaz. De destacar ainda a capa, com um design bastante original.  

Está disponível um excerto aqui

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(bom)

22 de junho de 2015

Laços de Família

Autor: Marilynne Robinson
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 232
Editora:
Difel

Ano:
2007

ISBN:
978-972-2908511
Tradução: Isabel Veríssimo
Título original: Housekeeping 
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Lançado em 1981, Laços de Família foi considerado uma pérola rara. Nomeado para o Pullitzer (nesse ano, ganhou Coelho Enriquece, de John Updike), ficou-se pelo PEN/Hemingway Award e deixou a autora, Marilynne Robinson, debaixo de olho (curiosamente,  Robinson apenas publicaria o segundo romance, Gilead, 24 anos depois, em 2004).

Anos 50. Ruthie (a narradora) e a irmã, Lucille, são levadas pela mãe (uma mulher solitária e calada) a uma pequena cidade do Idaho, Fingerbone, onde vive a avó materna. Entregues as meninas, a mãe afasta-se de prego a fundo em direcção ao lago da cidade, suicidando-se na mesma massa de água onde o seu pai se afogara anos antes.

As duas crianças ficam entregues a uma avó inexpressiva, passando para duas tias "taralhocas" com a morte daquela e finalmente para outra tia (excêntrica até ao tutano) quando as duas solteironas decidem que criar duas crianças dá demasiado trabalho.

Rapidamente nos apercebemos que a família é atormentada pela doença mental, o suicídio e a inquietude. A autora é mestra em envolver-nos na vida doméstica e no crescimento das crianças, mas há toda uma atmosfera estranha que não torna a história credível (os actos das personagens não fazem grande sentido e a indiferença dos habitantes de Fingerbone é absurda). Há muitas respostas que ficam por dar, as personagens masculinas são irrelevantes e as mulheres da história pautam-se por uma passividade aflitiva.

Há três palavras que, para mim, resumem a história e o ambiente de Laços de Família: sublime, entediante e melancólico.
A história tem momentos evocativos e de grande beleza poética, escritos com uma elegância que se reconhece rara, mas a repetição de alguns cenários torna-se maçadora ao ponto de querermos que desate. Quanto à melancolia, é ambivalente, pois dá uma riqueza ao texto que acaba por aborrecer quando a história não avança. Ainda agora, depois de ter repensado os capítulos/as cenas mais relevantes, não consigo ver a apregoada genialidade deste livro; não foi nada gratificante seguir a infância e adolescência de Ruthie e Lucille.
 
Perdeu-se ainda algo na tradução do título: Housekeeping converteu-se em Laços de Família, quebrando o elo com a história e a forma como cada personagem é afectada pela atenção (excessiva ou falta dela) aos cuidados domésticos e à lida da casa.
 
Acredito que o livro seja superior à percepção que tive dele, mas só posso comentar aquilo que me fez sentir, num deambular demasiado longo que uma edição mais apurada teria resolvido.
 
Não vou desistir do que me trouxe ao nome da autora: a leitura de Gilead, considerada a sua melhor obra. Comecei por este romance porque foi o primeiro e queria lê-los por ordem cronológica, mas não tão cedo; cada vez que penso em Laços de Família, apetece-me bocejar.

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(mediano/razoável)
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