3 de dezembro de 2017

Submissão

25032347


Autor: Michel Houellebecq
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 264
Editora: Alfaguara
Ano: 2015
ISBN: 978-989-8775276
Título original: Soumission 
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Michel Houellebecq é um dos mais reputados autores franceses. Nunca tinha lido nada dele. Entre amigos e colegas, o consenso é que Submissão, não sendo o seu melhor livro, é seu dúvida o mais falado.

Poucas horas após Submissão ter chegado às livrarias, em Janeiro de 2015, deu-se o tiroteio no jornal satírico Charlie Hebdo, que vitimou 12 pessoas. Entre as vítimas contava-se o economista Bernard Maris, um dos amigos mais próximos de Houellebecq. A capa do Charlie dessa semana mostrava uma caricatura de Houllebecq prevendo que em 2022 (ano em que se passa a acção de Submissão), praticaria o jejum do Ramadão. Havia rumores de que Houellebecq, habitualmente um crítico do Islão, faria no seu próximo romance, uma apologia do mesmo.

O narrador de Submissão é François, um francês quarentão, professor da Sorbonne, perito em Joris-Karl Huysmans, um dos autores associados ao “movimento decadente francês”. François, que se descreve como sendo tão "político como uma toalha de banho", assiste sem emoção aos resultados finais das eleições francesas de 2022. A França está prestes a ser governada por uma de duas facções: Marine Le Pen e a sua Frente Nacional estão empatados com um partido (fictício), a Fraternidade Muçulmana, liderada pelo carismático Mohammed Ben Abbes. Os socialistas, sob a batuta de Manuel Valls, decidem formar uma coligação com a Fraternidade. Ben Abbes é nomeado Presidente.

Enquanto Le Pen conduz uma marcha nos Champs Elysées com os seus apoiantes, o governo de Ben Abbes age rápido e calculadamente, e a mudança para um estado de sharia é aceite sem protesto; as mudanças dão-se bastante rápido: forçando as mulheres a deixarem os postos de trabalho, os números do desemprego caem a pique; os judeus são encorajados a emigrar; o défice é eliminado através de cortes na educação (entre os quais o encerramento da Sorbonne – com o consequente desemprego de François). Todas as mulheres residentes em França são obrigadas a usar o véu islâmico.

François vê a sua vida (ainda) mais vazia e incerta. Longínquos parecem os tempos áureos académicos e, com eles, o acesso a um número ilimitado de alunas dispostas a serem suas amantes; sozinho com a sua misoginia, a sua misantropia e as suas hemorróidas, François vê-se destinado a devorar refeições pré-prontas frente à televisão e a embebedar-se serão após serão. O suicídio chega a afigurar-se-lhe como uma solução.

A sua única companhia são as obras de Huysmans, que adquirem um novo significado na nova realidade política e social, dando ao ex-académico uma perspectiva inédita das coisas. Refugia-se no campo e faz algumas peregrinações, o que lhe permite compreender melhor – e a sentir – o apelo do divino. De volta a Paris, é convidado a reingressar na nova Sorbonne – rebaptizada Universidade Islâmica de Paris-Sorbonne, financiada que é agora por dinheiro saudita. O que se segue é inevitável...

Submissão é uma distopia, uma crónica anunciada, pela pena de Houellebecq, do que espera o povo francês.

Comigo fica uma leitura difícil de digerir mas que não deixa ninguém indiferente. Fiquei com curiosidade em ler mais do autor.
"Poderá o máximo da felicidade humana residir na submissão absoluta?


****
(bom)

5 de novembro de 2017

Good as gone


Autor: Amy Gentry
Género:
Romance
Idioma: Inglês

Páginas: 273
Editora:
Houghton Mifflin Harcourt (Kindle)
Ano:
2016

ASIN: B01EKQFUHC
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Uma noite, Julie Whitaker, de 13 anos, é raptada do seu quarto enquanto a irmã mais nova assiste a tudo, aterrorizada de tal modo que não dá o alarme imediatamente, comprometendo a linha de tempo e a eficácia da polícia; durante anos, a investigação permanece parada e sem factos novos. Os Whitaker esforçam-se por manter a família unida, sempre na esperança de que Julie ainda esteja viva. Até ao dia em que a campainha toca e uma jovem que parece ser - e afirma ser - Julie está à porta.

Segue-se um período de euforia e festa em que a família tenta compensar o tempo perdido mas Anna, a mãe, tem dúvidas, dúvidas que a envergonham profundamente mas que não consegue evitar ter. Quando é contactada por um investigador privado, decide descobrir se Julie é quem diz ser.

Gostei de ler este livro, sobretudo a forma como a autora aborda a humanidade das personagens, as suas dúvidas e reacções naturais: a forma como cada membro da família fez o luto e lidou com o sofrimento de um acontecimento tão traumático, a análise de Anna sobre se teria sido uma boa mãe, a forma como cada um se culpou de não ter feito mais ou o suficiente. 

Pelos olhos de Anna vemos a acção avançar normalmente, mas pelos olhos de Julie a história vai sendo contada em flashbacks, com a informação a ser lentamente desvendada ao leitor (resulta bem!).

Por outro lado, houve alguns pormenores que podiam ter sido melhor trabalhados, como a postura indiferente da polícia em verificar a veracidade da história de Julie e a falta de curiosidade dos jornalistas por uma situação tão "apetecível"; não achei muito credível. Se nos abstrairmos disso, conseguimos desfrutar melhor do livro.

Good as gone é um bom thriller e deixa-nos na dúvida até ao fim, por isso recomendo.

****
(bom)

17 de outubro de 2017

Little Children


Autor: Tom Perrotta
Género:
Romance
Idioma: Inglês

Páginas: 336
Editora:
St. Martin's Paperbacks

Ano:
2004

ISBN: 0-312-99032-4
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Bem-vindos ao típico subúrbio americano: populado pela classe alta, belas vivendas de 2 andares com relvados verdejantes e carros recentes, parques infantis sempre lotados onde os utentes debitam filosofias de vida e conselhos de como educar os filhos - como ser pai é deixar de ser egoísta e aprender a viver para uma outra pessoa, atingindo uma consciência superior.

Nem todas as personagens de Little children – todos eles residentes na mesma área - são assim: temos pais aborrecidos para lá do imaginável, cansados da sua prole, altamente susceptíveis ao adultério; pais que se esquecem de embalar lanches e peluches preferidos; ou os que andam com os filhos no parque a horas pouco recomendáveis, mesmo quando um ex-recluso (condenado por se ter exibido a uma menor) se muda para a vizinhança… há aqui um real desejo de fuga.

Tom Perrotta não poupa as suas personagens, é satírico no seu retrato, mas há um cuidado em humanizar sem ceder ao sentimentalismo.

Uma das protagonistas é Sarah, que não se identifica com as outras mães que passam o tempo a falar dos filhos e se sente isolada e sem amigos. Em casa, ela e o marido tornaram-se estranhos. A única coisa que a ajuda a suportar a rotina é Todd, um pai dono de casa que também leva o filho ao parque todos os dias e bastante cobiçado pelas mulheres da vizinhança. A solidão e o tédio vão levar a que tenham um caso amoroso que se torna um dos dramas centrais do livro, mas há outros dramas em abundância.

Little children não é livro que nos faça sentir bem nem tem personagens simpáticas mas está muito bem escrito, não é previsível e é interessante.

Este foi o primeiro livro que li de Tom Perrotta e não será o último.

****
(bom)

12 de agosto de 2017

This is water



Autor: David Foster Wallace
Género:
Ensaio
Idioma: Inglês

Páginas: 16
Editora:
Kindle Edition

Ano:
2009
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Neste pequeno ensaio (eu li a versão condensada, vi entretanto que há outra disponível com mais de cem páginas), David Foster Wallace coloca algumas questões interessantes relativamente à nossa [seres humanos] empatia para com os outros e com a necessidade de praticarmos a compaixão diariamente. 

O texto original foi escrito pelo autor aquando de uma apresentação numa universidade do Ohio (EUA), e salienta que a verdadeira liberdade que advém da educação é a capacidade de nos ajustarmos, sermos conscientes e empáticos. Soltos no mundo, devemos usar essa(s) ferramenta(s) para percebermos o que realmente é importante e agirmos de uma forma tolerante e aberta para com aqueles que nos rodeiam. 
«The only thing that’s capital “T” True is that you get to decide how you’re going to try to see it. This, I submit, is the freedom of real education, of how to be well-adjusted. You get to decide what has meaning and what doesn’t. That is real freedom. That is being educated and understanding how to think. The alternative is unconsciousness.»
Um pequeno texto que coloca questões interessantes, mais ainda se o leitor estiver predisposto aos temas abordados

****
(bom)

5 de junho de 2017

The woman in cabin 10


Autor:
Ruth Ware
Género:
 Policial
Idioma: Inglês

Páginas: 354
Editora:
Vintage Digital (Kindle)

Ano:
2016

ASIN: B019CGXYRS
 
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Na contracapa, a sinopse prometia um mistério claustrofóbico, passado a bordo de um cruzeiro de luxo. Os ocupantes são um grupo privilegiado naquela que é a viagem inaugural do Aurora, a caminho do mar do Norte e de paisagens inspiradoras.


A bordo, entre a elite, está Laura "Lo" Blacklock, jornalista de uma publicação de viagens que ganha o lugar a bordo quando a editora-chefe não pode comparecer. Esta é a oportunidade de fazer contactos e ficar próxima de uma promoção que lhe escapa há anos. 

No navio, Lo fica encantada com a grandiosidade e requinte do espaço. Tudo parece perfeito e tão luxuoso! Apesar de o timing não ser o melhor - Lo está numa fase incerta da sua relação (teve uma discussão com o namorado na véspera do embarque) e uma tentativa de assalto recente deixaram-na insegura e em sobressalto, uma combinação longe da ideal quando a ideia é a auto-promoção -, está decidida a aproveitar a oportunidade de se relacionar com os ilustres.

Uma noite, já tarde, Lo é acordada por um ruído e ouve um corpo a ser lançado à àgua na cabina ao lado da sua. Quando dá o alarme, as coisas ficam cada vez mais estranhas pois ninguém no navio se lembra de ter visto a mulher que Lo fala; o encarregado da segurança a bordo do navio confirma que a pessoa que era suposto ficar lá cancelou e nunca chegou a subir a bordo... nesse caso, quem caiu à água?

The woman in cabin 10 tinha todos os condimentos para ser uma história melhor.
Os primeiros capítulos são interessantes e a premissa levou-me a ignorar as falhas de uma protagonista que está constantemente exausta, sem fome e/ou com ataques de ansiedade. Para Lo, tudo é um esforço sobre-humano, e o seu espírito está num constante estado de inquietude (ao que não ajuda o seu hábito de ingerir elevadas quantidades de álcool de estômago vazio).
 

O seu comportamento também não passa despercebido, por isso em grande parte do livro a palavra de Lo, e o que ela afirma ter visto, é posto em causa, ao ponto de nós, leitores, não sabermos bem o que esperar, o que torna o livro mais apetecível, tendo em conta a moda dos "unreliable narrators" e o suspense que acrescentam à narrativa. Eu achei um ponto positivo.

E como gosto de thrillers, achei que em
The woman in cabin 10 o cenário foi atmosférico q.b. para me manter a ler até ao fim. Algumas escolhas da autora não foram as melhores, na minha opinião, mas isso não torna o livro evitável. Simplesmente chagamos ao fim com algumas pontas soltas e várias personagens sem grande interesse (nem peso) na história, o que deixa uma sensação de inconcretizado.

***
(mediano/razoável)
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