6 de setembro de 2019

Becoming




Autor: Michelle Obama
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Duração: 19h e 3m
Editora: Random House Audio (Audible)
Ano: 2018

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Habitualmente não leio biografias, não por aversão ou por não gostar, mas porque há sempre outros livros que me prendem mais a atenção.
Mas das poucas que li até hoje, a maioria foi de mulheres (Mata-Hari, Isabel I, Elizabeth Báthory, Anne Frank), figuras que se destacaram pela sua força de carácter e por romperem barreiras sociais/políticas/de género. 
Michelle Obama é obviamente uma figura mais pequena - não necessariamente menor - ao lado das figuras históricas acima mencionadas mas a sua postura como Primeira-Dama dos Estados Unidos ganhou-lhe o respeito e reconhecimento de milhões de pessoas em todo o mundo, e cimentou-a como exemplo para todos.

Becoming é o seu testemunho, num discurso simples e articulado, um relato na 1.ª pessoa de uma menina que cresceu em Chicago, no seio de uma família humilde, cujos pais sempre incentivaram a estudar, a ser uma boa cidadã e a trabalhar para alcançar a estabilidade. O objectivo nunca foi a fama, foi a de ter uma vida melhor do que a deles - algo universal para todos os pais.

Pela voz Michelle Obama, vamos assistindo a vários episódios onde familiares e amigos se juntam para educarem os filhos (negros) para uma nova sociedade, mais aberta à diferença mas não necessariamente mais justa para as pessoas de cor. Mas Michelle chega a Princeton, a uma sociedade de advogados e vê-se na Casa Branca após décadas de dedicação dos seus pais em providenciar-lhe uma vida digna.

Segundo ela, nunca quis a ribalta nem a vida política mas quando casou com Barack Obama e percebeu que ele queria fazer a diferença através do poder executivo e legislativo, e acreditando nos valores e missão de um idealista, acabou por aceitar e juntar-se à luta para o alcançar, movida pelo amor. A sua única condição foi de que as filhas tivessem uma vida o mais normal possível. 

Ouvir o livro pela voz da autora foi um bónus, onde percebemos a entoação mais emocional de algumas cenas. Por outro lado, ocorreu-me de vez em quando quantas daquelas palavras não teriam sido escritas pelo ghost writer e quanto de Michelle Obama haveria efectivamente no livro. Também me ocorreu quanto foi omitido para manter a aura de  respeitabilidade do casal mas menos não se pode esperar de uma biografia oficial; o mundo da política não permite ver o mundo com lentes cor-de-rosa.

A forma como Barack é retratado é como se de um super-herói se tratasse, o que não admira visto que Michelle menciona várias vezes o amor que sente por ele e como o admira como pai e marido. A mãe de Michelle é um pilar de força e tem uma justa homenagem - este livro é sobretudo um tributo a ela e ao marido (que morreu há vários anos, depois de anos a lutar contra a esclerose múltipla).

No final, comprova-se a imagem que se tem de Michelle Obama: uma personalidade séria, uma pessoa digna e respeitável que procurou ser activa no seu papel como Primeira-Dama, não querendo ofuscar o marido mas não querendo ser apenas um bibelot, usando o seu carisma, beleza e inteligência como armas e canalizando-as para servir os cidadãos. 

A sua paixão por uma vida saudável e pela educação ajudaram milhares de americanos a melhorarem a sua situação a partir de programas criados na era da presidência Obama, e os Obama foram sem dúvida um casal que usou a sua posição para fazer o bem a muitos, algo que percebemos melhor agora com o ocupante actual da presidência dos EUA.

No final das 19 horas de escuta, fica a sensação de ter conhecido uma mulher forte, com um sólido sistema de valores, que alcançou o cume através do trabalho e que fez o melhor que pôde (e foi muito). Michelle Obama é uma inspiração e uma mulher muito equilibrada, rara na sua ponderação e bom senso. Infelizmente, diz que nunca se candidatará à Casa Branca, o que é pena; os EUA só teriam a lucrar se os Obama voltassem a ocupá-la. 

«I was humbled and excited to be First Lady, but not for one second did I think I'd be sliding into some glamorous, easy role. Nobody who has the words 'first' and 'black' attached to them ever would. I stood at the foot of the mountain, knowing I'd need to climb my way into favor.»

*****
(muito bom)

18 de agosto de 2019

Headscarves and hymens: why the Middle East needs a sexual revolution


Autor: Mona Eltahawy
Género: Religião; Sociedade
Idioma: Inglês
Páginas: 240
Editora: Farrar, Straus and Giroux
Ano: 2015
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«The most subversive thing a woman can do is talk about her life as if it really matters.»
Desde a adolescência que leio relatos pessoais de mulheres que tiveram o infortúnio de nascer e crescer em sociedades opressivas: a série Sultana (Ed. Asa),  Blasfémia, Queimada vivaFlor do deserto. 

Esta é mais uma leitura desse género. Numa compilação de horrores, a autora, uma jornalista egípcia com colaborações com o New York Times, Washington Post e Miami Herald, relata várias situações que ocorrem no Médio Oriente e norte de África - Iémen, Egipto, Arábia Saudita -, com várias notas referentes aos regimes legais em vigor que fragilizam a condição feminina e onde a igualdade de género continua uma miragem.

«Why do those men hate us? They hate us because they need us, they fear us, they understand how much control it takes to keep us in line, to keep us good girls with our hymens intact until it’s time for them to fuck us into mothers who raise future generations of misogynists to forever fuel their patriarchy.»

Há várias organizações não-governamentais que se certificam que nada permanece oculto e isso faz a diferença no mundo global em que vivemos e numa era em que através das redes sociais se podem denunciar situações bárbaras e inumanas mas sem seguimento nada muda - os aparelhos políticos destes países são dominados por homens, incluindo líderes religiosos que alimentam o temor divino, e as mulheres que chegam ao poder são silenciadas ou empossadas para fazer número.
 
O mundo ocidental, mantendo os seus interesses nesses países - a nível de recursos energéticos -, nada acrescenta à narrativa, as visitas diplomáticas pontuadas por frases vazias e indiferentes ao sofrimento de milhões de mulheres e raparigas.
«The battles over women's bodies can be won only by a revolution of the mind
O Médio Oriente precisa de uma revolução sexual? Há décadas. A obsessão com a virgindade feminina e os vários tabus associados com a imagem imaculada que associam ao sexo feminino agrilhoam metade da população destes países, onde os códigos penais preenchem as lacunas recorrendo ao Corão, originando aberrações como o facto de um violador poder ser ilibado se aceitar casar com a vítima, o que acontece em mais de 90% dos casos reportados e consequentemente julgados. Digno da Quinta dimensão.

A autora conta-nos ainda a sua luta pessoal em aceitar o seu corpo, o uso do véu, a descoberta de como expressar a sua sexualidade, acrescentando testemunhos de outras mulheres recolhidos em grupos de apoio e fóruns organizados por associações de defesa dos direitos das mulheres ao longo dos anos. 

Mona Eltahawy é uma escritora e jornalista que vive no Egipto e nos EUA, onde adquiriu a cidadania em 2011. O seu activismo centra-se em denunciar a misoginia e descriminação das mulheres no mundo árabe, descrevendo-se como uma «muçulmana feminista radical». Participante activa do movimento Mosque Me Too (#mosquemetoo), que denuncia o abuso sexual sofrido pelas muçulmanas durante o Haji - a peregrinação a Meca -, relatou a sua própria experiência de assédio quando tinha 15 anos; é bastante activa nas redes sociais, dando voz a milhares de mulheres.

«The god of virginity is popular in the Arab world. It doesn’t matter if you’re a person of faith or an atheist, Muslim or Christian—everybody worships the god of virginity. Everything possible is done to keep the hymen—that most fragile foundation upon which the god of virginity sits—intact. At the altar of the god of virginity, we sacrifice not only our girls’ bodily integrity and right to pleasure but also their right to justice in the face of sexual violation. Sometimes we even sacrifice their lives: in the name of “honor,” some families murder their daughters to keep the god of virginity appeased. When that happens, it leaves one vulnerable to the wonderful temptation of imagining a world where girls and women are more than hymens.»

Headscarves and hymens: why the Middle East needs a sexual revolution é uma leitura dolorosa. Ser mulher em qualquer época é um desafio mas nascer num destes países é definitivamente ser vítima de um karma tramado. Fechamos o livro com o coração pesado mas com vontade de fazer alguma coisa; pode ser um simples donativo às várias ONG envolvidas na luta, voluntariado ou promoção de eventos. Pode ser comprar este livro e fazê-lo circular ou oferecê-lo a um amigo ou amiga. Há que manter a mensagem viva e dar voz às mulheres que ainda são tratadas como cidadãos de 2.ª classe ou como coisas.

*****
(muito bom)

4 de agosto de 2019

I’ll Be Gone in the Dark - one woman’s obsessive search for the Golden State Killer




Autor: Michelle McNamara
Género: True crime
Idioma: Inglês
Duração: 10h e 13m
Editora: HarperAudio (Audible)
Ano: 2018
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Nunca tinha ouvido falar de Michelle McNamara.

Jornalista e escritora do género true crime (relatos verídicos de crimes investigados pelas autoridades), falecida em 2016 durante o sono, foi casada com o actor/comediante Patton Oswalt.

Nas próprias palavras da autora, desde a adolescência que era obcecada por histórias de crime; há alguns anos que mantinha um blog acerca de casos arquivados, com uma vasta comunidade de detectives amadores (armchair sleuths) e uma extensa troca de comentários. Foi aí que nasceu a ideia de pegar na compilação exaustiva de informação que acumulara e escrever este livro sobre os crimes do East Area Rapist/Original Night Stalker (EAR/ONS), um violador e assassino em série activo nas décadas de 70 e 80 - McNamara “rebaptizou-o” como Golden State Killer (GSK).

Ao longo dos vários capítulos, vai sendo descrito o modus operandi do criminoso, e como passou do furto ao roubo com violação, até ao homicídio premeditado de casais, com vários sinais de violência, numa escalada sombria de violência e crueldade que sempre confundiu as autoridades policiais – o indivíduo atacou em estados diferentes dos EUA durante períodos distintos.

I’ll Be Gone in the Dark é o trabalho de uma vida: um livro pesado, repleto de pormenores macabros e cronologias desafiantes. McNamara fez um trabalho de pesquisa exaustivo (o subtítulo é mais do que apropriado) e o livro foi terminado postumamente recorrendo aos arquivos minuciosos da autora e a capítulos parcialmente iniciados; foi publicado no início de 2018. 

Não sendo o meu género de eleição, foi uma excelente incursão pelo true crime. O formato audiolivro (Audible) foi uma boa aposta e ajudou a expandir o vocabulário forense em inglês.

Uma nota para o capítulo final: soberbo. 

O epílogo, narrado pelo viúvo, Oswalt, confirma o carácter de Michelle e a sua devoção pelo tema, movida pela paixão de que se fizesse luz sobre este mistério. 

Em 2018, dois meses após a publicação do livro, foi detido um suspeito, o qual foi posteriormente acusado de alguns crimes de homicídio (os de violação já prescreveram) atribuídos ao EAR/ONS ou GSK. É arrepiante ver como o perfil traçado pelas equipas de investigação envolvidas – e compilado pela autora - encaixa que nem uma luva: ex-militar, ex-polícia, conhecimentos de procedimentos e investigação criminal, residente nas áreas afectadas. Curiosamente, as autoridade anunciaram que a captura do suspeito não teve qualquer relação com a saída do livro - uma afirmação infeliz e em que pouca gente deve acreditar.

Esperemos que a justiça (possível) seja feita.

*****
(muito bom)

21 de julho de 2019

Lock every door


Autor: Riley Sager
Género: Thriller
Idioma: Inglês
Páginas: 384
Editora: Dutton (Kindle)
Ano: 2019
ASIN: B07J4719TX
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Sou uma fã de Riley Sager desde a sua estreia com Final girls, cujos direitos para adaptação ao cinema foram adquiridos pela Universal Pictures no mesmo ano em que foi publicado. Assim que saiu o seu segundo livro, The last time I lied, li-o também de uma assentada.

Previsivelmente, assim que este livro ficou disponível no início de Julho, "devorei-o", confirmando Sager como um dos meus autores favoritos de thrillers. Três livros e vibrei com todos.

Se o primeiro livro de Sager apelava à figura da "final girl" dos filmes de terror - dos quais sou uma fã confessa -, este Lock every door vai um pouco mais ao pormenor desse imaginário de horror, com nuances da história d'A semente do diabo, o filme-ícone de Roman Polanski, e um ambiente hitchcockiano; com uma fórmula desta, o que pode falhar?!

Jules Larsen, recém-desempregada e sem namorado, vê cair-lhe no colo uma oportunidade dourada: é contratada para tomar conta de um apartamento numa das zonas mais exclusivas de Manhattan, com uma vista desafogada para o Central Park. O salário é bom e a tarefa é ideal para alguém que precisa de se reorganizar e procurar um emprego na metrópole que nunca dorme. O contrato é para três meses, enquanto os herdeiros do apartamento organizam a mudança. Entretanto, as regras do condomínio têm de ser respeitadas, e é aí que surge a necessidade dos apartamentos não estarem desocupados. No Bartholomew, tudo é opulento: a arquitectura, os moradores, as rendas; e as regras reflectem a exclusividade do edifício.

E são várias as regras. As visitas por pessoas externas são interditas. O empregado deverá pernoitar sempre no apartamento. Não se devem incomodar os outros moradores (a maioria celebridades). Jules diz que sim a tudo, movida pela necessidade e falta de opções - o que é uma mão cheia de regras comparadas com o cenário de continuar a dormir no sofá da sala da melhor amiga e contar tostões para sobreviver?

Nos seus primeiros dias, Jules conhece outra apartment-sitter, Ingrid, que lhe confidencia que o Bartholomew não é o que parece e que a fachada gótica imponente esconde uma história arrepiante de homicídios e suicídios. Jules não dá grande crédito a estas superstições... até ao dia seguinte, quando Ingrid desaparece.

E é ao tentar descobrir o paradeiro de Ingrid que mergulha no passado sombrio do edifício, numa sucessão de capítulos férteis em revelações e alguns sustos. Jules vai descobrir que o que parece bom demais para ser verdade, é-o efectivamente, e que ela própria poderá estar em risco.

Pelo caminho, a história desenrola-se num misto de sobressaltos e alguns arrepios. Algumas personagens, e as suas intenções, são algo óbvias desde o início mas isso não diminui em nada o ritmo da estória.


Já perto do fim, estando embalados e dispostos a apostar no final, surge uma reviravolta inesperada; Riley Sager não desilude.



*****
(muito bom)

12 de julho de 2019

In strangers' houses (Lena Szarka #1)


Autor: Elizabeth Mundy
Género: Policial
Idioma: Inglês
Páginas: 272
Editora: Constable
Ano: 2018
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Livro de estreia da autora Elizabeth Mundy, In strangers' houses apresenta ao público a detective amadora Lena Szarka, imigrante húngara no Reino Unido que trabalha como mulher de limpeza.

Quando a amiga e companheira de casa de Lena, Timea, é encontrada morta a flutuar no Tamisa, Lena revolta-se contra a hipótese de suicídio ou acidente e promete encontrar o culpado.

O seu desejo em encontrar o assassino da amiga levam-na a iniciar uma investigação por conta própria, começando pelas casas de alguns clientes de Timea que poderiam estar envolvidos em situações mais duvidosas. Com um acesso privilegiado às suas casas (e vidas), os resultados não tardam a aparecer, revelando possíveis pistas que Lena partilha com a polícia.

É nessa altura que um polícia novato é "cedido" para ouvir Lena e as suas teorias, e juntos vão continuar a investigar e fazer o possível para que a justiça seja feita.

O livro é um policial leve que se revelou a escolha certa para uma leitura de Verão. Lena é perspicaz e determinada e acerta na mouche várias vezes. É teimosa e trabalhadora, movida pelo amor a Timea e decidida a desvendar o porquê da morte prematura de amiga.

Um par de personagens são pouco mais do que estereótipos mas In strangers' houses foi uma boa descoberta e espero ler mais aventuras de Lena Szarka no futuro - o que não há-de demorar muito visto que o segundo livro já está disponível.


***
(mediano/razoável)

10 de junho de 2019

The testament of Mary


Autor: Colm Tóibín
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 104
Editora: Penguin
Ano: 2013
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Tendo já visto o nome do autor referido em várias publicações, finalmente decidi dar-me a oportunidade de o ler. 

Comecei por esta novela com pouco mais de cem páginas. Apesar de breve, não é uma leitura leve. Conta a história de Maria, mãe de Jesus, reflectindo sobre os acontecimentos que culminaram na cruxificação do filho.

Maria nunca chama Jesus pelo nome, referindo-se sempre a ele como «o meu filho» ou «aquele a quem se referem», e tem uma clara antipatia pelos seguidores daquele, que classifica como delinquentes. Ela própria, olhando para trás, não reconhece no filho a doce criança de tenra idade que se tornou no adulto de voz penetrante que incita à revolta. O seu tom é amargurado e algo recriminatório, o que resulta numa narração amarga, pouco humana, que achei desajustada da personagem, ou melhor, da imagem piedosa que tenho da personagem.

O livro tem passagens muito boas, ricas em lirismo e peso emocional, mas são poucas, breves e excepcionais no tom global da narrativa. 

Esta não é uma leitura memorável nem chego a perceber a nomeação para o Booker - fosse este livro sobre uma mãe que não a mãe de Jesus, teria tido tanta visibilidade e atraído tantas críticas favoráveis? Acho que não.

Como o meu conhecimento da Bíblia (o livro mais vendido e lido no mundo) é limitado, creio que houve várias referências que me passaram ao lado. Mas tenho de admitir que esperava uma execução melhor de uma ideia que me pareceu boa.

Apesar disso, tenho curiosidade em ler outro título do autor.

***
(mediano/razoável)

2 de junho de 2019

The Art of Happiness


Autor: Dalai Lama XIV, Howard C. Cutler
Género: Espiritualidade, Religião
Idioma: Inglês
Páginas: 268
Editora: Coronet Books
Ano: 1999
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Este é um livro que apesar de ter vinte anos, continua actual. Escrito pelo psiquiatra Howard Cutler, é uma sucessão de capítulos com perguntas-chave do especialista ao líder espiritual do Tibete, juntamente com algumas reflexões e apontamento clínicos.

O tema do livro centra-se na busca da felicidade, aliando a abordagem budista com a abordagem psiquiátrica, ambas tentando chegar à meta do alívio do sofrimento e do bem-estar psíquico.

«If you can, serve other people, other sentient beings. If not, at least refrain from harming them. I think that is the whole basis of my philosophy.»

Os capítulos não seguem uma ordem cronológica e citam as conversas entre os dois autores (o Dalai Lama é co-autor) no decorrer de vários encontros durante uma semana, e quando se cruzaram nas palestras dadas pelo Dalai Lama a que o psiquiatra assistiu. Quando interpelado, o líder tibetano dá a sua perspectiva das coisas enquanto líder espiritual e o psiquiatra analisa do ponto de vista da sua formação e experiência, dando também exemplos de pacientes que tratou que escolheram uma abordagem parecida ou completamente diferente da que o livro sugere, consoante o estado de espírito. 
 
O psiquiatra marca o ritmo e direcção do livro, o que resulta mais ou menos, com capítulos bons e outros menos harmoniosos. Muitas vezes Howard Cutler pergunta por dicas ou um sistema de passos (na onda de «diga-me 5 passos infalíveis para atingir a felicidade»), o que balança a estrutura, com o Dalai Lama a furtar-se a providenciar "a resposta" ou a desvendar "a solução" que alegadamente daria ao leitor a chave para a felicidade - prefere focar-se na forma como devemos disciplinar a nossa mente e adaptar a nossa atitude perante a vida e os outros à medida que a vida nos vai acontecendo.    

«The more honest you are, the more open, the less fear you will have, because there's no anxiety about being exposed or revealed to others.»
Ao descrever o Dalai Lama, a sua personalidade e o modo como se relaciona com as pessoas, Howard Cutler fá-lo para mostrar que o líder pratica o que prega e faz tudo com compaixão, e que há nele uma energia que faz aqueles que com ele se cruzam abrirem-se e sentirem-se bem.
«Compassion can be roughly defined in terms of a state of mind that is nonviolent, nonharming, and nonaggressive. It is a mental attitude based on the wish for others to be free of their suffering and is associated with a sense of commitment, responsibility, and respect towards the other.»
Claro que quem compra um livro desta temática, encontrar-se-á já (algo) predisposto a este tipo de ideias mas isso não significa que esteja disposto a lê-lo sem qualquer tipo de criticismo ou sem tirar as suas conclusões condicionado pela própria experiência, o que vai fazer da leitura uma experiência única para cada um. Há passagens em que nos vemos reflectidos no que é contado e outras em que não, mas isso seria sempre verdade pois os temas são universais - o sofrimento, a superação de obstáculos, como nos mostramos ao mundo, a forma como amamos -, mudando apenas o momento.

Para ler de mente aberta - a postura que o livro aconselha a ter perante tudo. 
«Imagine what it would be like if we went through life never encountering an enemy, or any other obstacles for that matter, if from the cradle to the grave everyone we met pampered us, held us, hand fed us (soft bland food, easy to digest), amused us with funny faces and the occasional ‘goo-goo’ noise. If from infancy we were carried around in a basket (later on, perhaps on a litter), never encountering any challenge, never tested – in short, if everyone continued to treat us like a baby. That might sound good at first. For the first few months of life it might be appropriate. But if it persisted it could only result in one becoming a sort of gelatinous mass, a monstrosity really – with the mental and emotional development of a veal. It’s the very struggle of life that makes us who we are. And it is our enemies that test us, provide us with the resistance necessary for growth.»


****
(bom)

5 de maio de 2019

Call me by your name




Autor: André Aciman
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 268
Editora: Farrar, Straus and Giroux (Kindle)
Ano: 2008
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Mais de dois anos após a saída do filme homónimo, que colocou o romance de Aciman no "mapa", finalmente leio o livro.

A relação de Elio e Oliver nas versões literária e cinematográfica fez correr muita tinta, inspirando inúmeros artigos, posts, opiniões e críticas especializadas. Muito se escreveu e analisou, com mais ou menos paixão, um sinal claro de que os temas abordados pelo autor "mexem" com o público.

A acção passa-se num Verão no norte de Itália, nos anos 80. Elio (o narrador) tem 17 anos, estuda música e é precoce, precocidade essa que se reflecte no seu discurso, no seu humor e nos seus gostos. O comportamento é temperamental, indicativo da sua idade, mas a maior parte do tempo é dedicado à música e à leitura, num qualquer canto sossegado da casa.

A casa de férias da família está sempre cheia de rostos familiares de amigos e vizinhos, mas há uma cara nova todos os Verões: um estudante de doutoramento supervisionado pelo pai de Elio, um homem afável e comunicativo. Nesse ano, o estudante é um americano de 24 anos, Oliver, que se vai tornar a obsessão do narrador.
« Perhaps we were friends first and lovers second. But then perhaps this is what lovers are. »

Pelos olhos e voz de Elio, vamos assistindo ao florescer do romance entre os dois -
a atracção velada, os avanços e recuos, os mal-entendidos -, à sua consumação (a primeira vez de Elio) e ao passar veloz dos meses, com o fim do Verão a parecer ditar o fim do romance, uma relação que vai marcar o protagonista para sempre.
« I wanted him dead too, so that if I couldn't stop thinking about him and worrying about when would be the next time I'd see him, at least his death would put an end to it. (...) If I didn't kill him, then I'd cripple him for life, so that he'd be with us in a wheelchair and never go back to the States. If he were in a wheelchair, I would always know where he was, and he'd be easy to find. I would feel superior to him and become his master, now that he was crippled.

Then it hit me that I could have killed myself instead, or hurt myself badly enough and let him know why I'd done it. If I hurt my face, I'd want him to look at me and wonder why, why might anyone do this to himself, until, years and years later--yes, Later!--he'd finally piece the puzzle together and beat his head against the wall. »


Apesar de Elio ser precoce, é muito jovem; os seus desabafos e pensamentos relembram-nos isso. Apesar de ter lido sobre o amor e a exaltação dos sentidos em obras maiores, aquilo que experiencia com Oliver atinge-o com uma intensidade extrema - bem (d)escrita por Aciman, num lirismo cru que resulta bem numas vezes e noutras deixa algo a desejar ao romance e ao bom gosto.
« We had never taken a shower together. We had never even been in the same bathroom together. "Don't flush," I'd said, "I want to look." What I saw brought out strains of compassion, for him, for his body, for his life, which suddenly seemed so frail and vulnerable. (...) "I want you to see mine," I said. He did more. He stepped out [of the shower], kissed me on the mouth, and, pressing and massaging my tummy with the flat of his hand, watched the whole thing happen. »

A parte final do livro é para mim a melhor, passadas mais de 200 páginas de suspiros, hormonas aos saltos e impulsos adolescentes. As palavras do pai de Elio, a conversa que Elio e Oliver têm ao telefone, algumas considerações (mais) lúcidas que vêm com a idade são a melhor parte do livro para mim. Esperava mais - mais profundidade, mais frescura e irreverência nas passagens de Elio - mas não fiquei totalmente desapontada. No fim ficou alguma tristeza pelo jovem com tanto potencial que duas décadas passadas, ainda olha aquele Verão em que perdeu a virgindade com um homem mais velho como o evento mais importante da sua vida.

« Twenty years was yesterday, and yesterday was just earlier this morning, and morning seemed light-years away. »

Gostei de algumas passagens mas o saldo é mediano
. 


***
(mediano/razoável)

28 de abril de 2019

Vox



 Autor: Christina Dalcher
Género: Distopia, Thriller
Idioma: Português
Páginas: 304
Editora: TopSeller
Ano: 2019
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«E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?»

Descobri este livro por acaso, quando vi a autora a ser entrevistada num programa de divulgação cultural. A estória pareceu-me interessante e apenas quando pesquisei o livro no Google me apercebi que a) o livro já saíra há uns meses e, b) houvera uma grande publicidade à volta do mesmo.


A acção de Vox passa-se na América actual, depois de uma facção ultra-conservadora ter subido ao poder, numa eleição legítima. O novo partido, e o novo presidente dos EUA, defendem valores tradicionais, onde os papéis de homens e mulheres se baseiam naqueles vigentes várias décadas atrás, com enfoque numa prática social restritiva aos direitos das mulheres (não podem trabalhar, devendo dedicar-se exclusivamente à lida da casa e à educação dos filhos) e assente na ideologia cristã (o homem representa a figura de Deus na família, é a cabeça do casal; é ele que tem o primado da razão e a última palavra). 

Outras medidas foram implementadas, sendo a principal que todas as mulheres (menores incluídas) estão obrigadas a usarem uma pulseira-contador que limita a sua quota diária de palavras a cem - cada palavra extra acciona um choque eléctrico que aumenta de intensidade proporcionalmente ao excesso falado.

No centro do livro está a Dra. Jean McClellan, uma neurocientista doutorada em Linguística, reduzida a uma vida em casa, sem direito a salário (nem a uma conta bancária), a correspondência ou a um passaporte. Mãe de quatro filhos, uma rapariga e três rapazes, vê a filha a crescer condicionada pelas políticas vigentes. Mas quando um evento inesperado requer o seu conhecimento, Jean vê-se de volta à vida activa, com a hipótese de mudar o estado das coisas.

E estão lançadas as fundações para esta mistura de distopia e thriller, que começa muito bem mas descarrila.

O início de Vox é muito interessante, contendo todos os detalhes da ascensão ao poder da extrema-direita e a forma como as mulheres foram despromovidas a cidadãos de segunda classe - e o impacto na vida diária da população. A forma como a história se desenrola após é menos conseguida e pouco aliciante. 

Vox é claramente um livro publicado devido ao sucesso da série inspirada por A história de uma serva de Margaret Atwood, um livro bastante superior a este. Tal é normal e até esperado, mas o facto é que Vox assenta numa premissa que vende e é procurada por leitores, mas fica aquém do que promete e mesmo como thriller, já li melhor - mas o início do livro é bastante bom e levanta questões que tornam alguns cenários (arrepiantemente) possíveis nos dias de hoje - e isso leva-nos a pensar e a discussões bastante relevantes.



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(bom)
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