domingo, fevereiro 28, 2021

Pet sematary


 Autor: Stephen King
Género:
Terror
Idioma: Inglês

Páginas: 484

Editora: Hodder
(ebook)
Ano: 2010 (1.ª edição em 1983)

---

Ler os livros de Stephen King na adolescência e na idade adulta é diferente. Neste contexto, pode dizer-se o mesmo de outros autores, de outros géneros literários, do acto de leitura em si.

Mas como fã de livros e filmes de terror, em diferentes visionamentos e releituras, este foi o género cuja maior diferença se faz sentir. Os melhores filmes/livros, com diversas "camadas" e metáforas (Alien; The Thing; Rosemary's baby; O Exorcista; Get Out) são pepitas, enquanto o gratuito de cópias e sucedâneos se desvanece.

Pet Sematary lido aos 12 anos resultou num livro demasiado longo, que se "arrastou" entre as (poucas) cenas de terror. Uma releitura recente promoveu-o no meu top de livros do autor.
 
A história centra-se na família Creed, que se muda da movimentada Chicago para a pequena cidade de Ludlow, no Maine. Louis Creed é médico e começa a trabalhar no campus universitário; a esposa, Rachel, fica em casa a cuidar das duas crianças e do gato de estimação, numa vibe de "que bem que se está no campo". 
 
Mas este é um livro de um contador de histórias de terror... assim, a casa do casal fica junto a uma estrada onde passam camiões a uma velocidade considerável; e por trás do quintal dos Creed, fica um "samitério de animais", onde as crianças locais sempre enterraram os seus animais de estimação ao longo das décadas. 
 
Depois o vizinho dos Creed, Jud Crandall, segreda a Louis, aqui e ali, entre golos de cerveja, da existência de um antigo cemitério índio escondido no interior da floresta, onde o solo está "contaminado" com a presença de forças malignas. Toda a história vai encaixando naturalmente à medida que animais e humanos vão falecendo. 
 
Naturalmente, Stephen King "joga" com o desconforto e a suspeita de que "o" cenário assustador se vai  concretizar. O livro arrepia mais do que assusta, e é um arrepio contínuo. King faz-nos pensar na morte, na forma como lidamos com a perda e com a nossa própria mortalidade; algo que nos toca diferentemente consoante a idade e circunstâncias. Esses capítulos estão extremamente bem conseguidos e elevam King acima do estereótipo do género (nem sempre bem representado, como é sabido).
«Because what you buy, is what you own. And what you own always comes home to you.»

Há momentos de escape, como as várias referências à cultura pop (metáforas, piadas, excertos de músicas dos Ramones, alusões aos zombies de George Romero). O final poderia ter sido menos previsível mas o livro é de '83. Este tornou-se uma das tendências a imitar na altura (e tem-no sido). Tivesse sido lido nessa altura e teria sido inovador mas só o li nos anos 90.

«Sometimes dead is better.»

O livro resistiu bem à passagem do tempo e atesta o talento de Stephen King - o autor tornou-se multimilionário quando essas mesmas histórias resultaram igualmente bem no pequeno e grande ecrãs.

Pet Sematary foi adaptado ao cinema em 1989 e em 2019, sendo o primeiro mais fiel ao livro (o argumento foi adaptado por King) que o segundo - são ambos filmes bem conseguidos.

*****
(muito bom)

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Heretic: why Islam needs a reformation now

 

Autor: Ayaan Hirsi Ali
Género: Religião, Não Ficção

Idioma: Inglês

Páginas: 288

Editora: Harper (ebook)

Ano: 2015
 

---

A primeira vez que li o nome de Ayaan Hirsi Ali foi no livro de Douglas Murray, A estranha morte da Europa
 
A história desta autora/política/activista é fascinante, ilustrada na autobiografia da mesma, Infiel. Hirsi Ali foi, durante anos, uma muçulmana praticante e o asilo político que lhe foi conferido pela Holanda deu-lhe acesso a uma educação e oportunidades impensáveis na sua nativa Somália. O resultado é que há várias décadas que é ateia e uma crítica do Islão. 
 
Em Heretic: why Islam needs a reformation now, a autora defende uma reforma interna do Islão e aponta o Ocidente como tendo um papel nessa reforma. Algumas ideias parecem algo fantasiosas, difíceis de implementar até numa sociedade “aberta e tolerante” (algo subjectivo), o que dá um tom mais controverso do que realista a alguns capítulos.

Para Hirsi Ali, a violência é inerente ao Islão porque o Islão não é uma religião pacífica; isso não significa que a crença islâmica torne os muçulmanos naturalmente violentos. O que acontece é que a incitação à violência justificada contra os infiéis (todos os que não são muçulmanos) é explicitamente declarada nos textos sagrados do Islão, e todas as ofensas que são elencadas (apostasia, adultério, blasfémia, ameaças à honra da família e ao próprio Islão) podem e devem ser defendidas por todos os muçulmanos. Uma pesquisa por vários jornais nos últimos anos demonstram como os actos de “defesa da honra e do bom nome e imagem do Islão” têm estado na base de inúmeros actos terroristas em França, na Alemanha, nos Países Baixos, na Bélgica...

Devemos ter em mente que o quadro negro que a autora nos pinta do Islão vem inteiramente da sua experiência pessoal e não de um desejo de polémica. Há um esforço visível em analisar cruamente a religião muçulmana, evitando o "politicamente correcto".

Conteúdo islamofóbico? Não. Algumas coisas precisam de ser analisadas, criticadas e submetidas a mudanças e reformas. Por que há-de o Islão de ser diferente e/ou ter um estatuto especial?

Este é um livro corajoso. Hirsi Ali livro menciona outros "companheiros de luta", vários activistas muçulmanos dispostos a discutir uma reforma do Islão. As suas vozes pretendem ecoar as de milhões que viverão na opressão e no medo. A própria autora vive com ameaças de morte desde que, em 2004, escreveu o guião da curta-metragem de Submission, realizado por Theo van Gogh, que foi assassinado por um fundamentalista islâmico pouco tempo depois da difusão daquela num canal de televisão. Desde então, qualquer difusão está proibida, embora a curta esteja disponível na internet. 

Até à data, o livro não foi editado em Portugal.

****
(bom)

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

One to watch


Autor: Kate Stayman-London
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 216
Editora: Dial Press (e-book)
Ano: 2020

---

One to watch marca a estreia literária de Kate Stayman-London, escritora e estratega política - trabalhou na campanha de Hillary Clinton em 2016. 

One to watch não tem qualquer mensagem política, é puro chick lit
 
A primeira vez que ouvi falar neste livro, a ideia pareceu-me interessante: Bea, uma blogger de moda "plus size" (tamanho 16 nos EUA = tamanho 48 na Europa) é convidada para ser a "bacherolette/solteira cobiçada" num reality show de encontros amorosos chamado Main Squeeze. Vários homens solteiros vão disputar a sua atenção e tentar conquistá-la; no fim, restarão apenas 2, um dos quais lhe poderá fazer uma proposta de casamento.

Este é um formato televisivo real, no ar há quase duas décadas. A premissa é positiva na medida em que Bea sofreu um desgosto amoroso recentemente e vê a sua participação como uma forma de promover a sua carreira e de se divertir (e ficar com umas roupas catitas), decidida a seguir em frente e em não se apaixonar durante o programa. Há ainda o bónus de desafiar as convenções de beleza e provar que uma mulher que não pareça uma Barbie pode ser a protagonista de um show com as características de Main Squeeze (The Bachelor/The Bacherolette).

O livro começa com Bea a mostrar-se uma mulher insegura e com dúvidas do seu valor por ser gorda, ao contrário do que aparenta. Quando Bea aceita entrar no reality show, vai sendo revelada a forma como o programa é planeado e manipulado (quais os concorrentes que vão ser desprezíveis para fazer o público simpatizar com Bea, por exemplo), os capítulos tornam-se mais interessantes, mas não foi por esse caminho que a autora quis enveredar, voltando sempre ao romance de pacotilha.

Capítulo após capítulo, Bea não se aceita e fraqueja ao menor sinal de gordofobia: uma mulher que se sente atraída por homens de beleza convencional no programa (atraentes, musculados, sorriso colgate) mas que fica devastada quando eles não parecem corresponder nem querem serem vistos com ela, apesar de na vida real as coisas nunca terem sido diferentes. 

A história torna-se chata, com uma protagonista de 30 anos tão imatura que dói... O final é um bocejo.

Gostei dos capítulos em forma de blog posts, podcasts, fóruns online e artigos da imprensa cor-de-rosa, piscadelas d'olho ao público que consome este tipo de televisão e à forma como a media publicita este tipo de programas.

Apesar do potencial, One to watch é uma fórmula mais do que revista. Um caso claro de promoção extrema; o produto final fica muito aquém do publicitado.

**
(fraco)

sábado, fevereiro 06, 2021

Not that bad - dispatches from rape culture

Autor: Vários; Roxane Gay (ed.)
Género: Ensaio

Idioma: Inglês

Duração: 8h e 41m

Editora: Harper Audio (Audible)

Ano: 2018
 

---

Editado por Roxane Gay, uma autora bestseller famosa nos Estados Unidos pelas suas análises sociais, Not that bad é uma antologia de 30 ensaios lida pelos próprios autores, cujo tema é a violação, a agressão e o assédio sexuais.

É uma audição difícil. Cada ensaio tem a sua própria força, com uma perspectiva única sobre a rape culture (ou "cultura da violação", um contexto no qual a violação sexual é normalizada, algo decorrente das atitudes sociais sobre o género e a sexualidade) e uma carga emocional considerável.

Cada capítulo aborda como é viver num mundo onde a população feminina tem que gerir o assédio e a agressão sexual constantes e onde as mulheres são «(…) questionadas, rejeitadas, desacreditadas, denegridas, menosprezadas, ridicularizadas, envergonhadas, intimidadas quotidianamente (…)».

Com um tom honesto e cobrindo múltiplas experiências nos mais diversos cenários (atingindo todas as classes sociais; em contexto de migração; abordando o abuso infantil) os testemunhos são de uma intimidade desarmante. É uma colecção audaz, que reflecte a sociedade ocidental e incita à mudança, insistindo que not that bad (não tão mau assim) não deve definir a gravidade de uma agressão sexual.

Os diversos testemunhos diferem nas circunstâncias e alguns podem ser controversos para alguns leitores, como nas histórias onde as vítimas que deram consentimento para sexo não queriam ter dado o seu consentimento. É uma nuance complicada para alguém mais conservador ou do sexo masculino. Como li numa crítica na Amazon, este livro é para todos, mas nem toda a gente está preparada para este livro.

É um tema corajoso, que precisa de difusão e de ser discutido. Tenho as minhas dúvidas sobre o seu peso na era pré-movimento #metoo, que expôs uma mentalidade perniciosa e impensável nos dias de hoje. Mas a mudança faz-se lentamente e para isso é preciso falar, discutir e alterar o que é preciso. E se há tema que vale esse investimento!, a forma como a sexualidade feminina é retratada e encarada tem de mudar.

A lista completa de narradores inclui: Roxane Gay (introdução), Gabrielle Union, Ally Sheedy, Amy Jo Burns, Lyz Lenz, Claire Schwartz, Aubrey Hirsch, Jill Christman, Lynn Melnick, Brandon Taylor, Emma Smith-Stevens, A.J. McKenna, Lisa Mecham, Vanessa Mártir, xTx, Sophie Mayer, Nora Salem, V.L. Seek, Michelle Chen, Liz Rosema, Anthony Frame, Samhita Mukhopadhyay, Miriam Zoila Pérez, Zoe Medeiros, Sharisse Tracey, Stacey May Fowles, Elisabeth Fairfield Stokes, Meredith Talusan, Nicole Boyce e Elissa Bassist.

*****
(muito bom)