Mostrar mensagens com a etiqueta michel houellebecq. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta michel houellebecq. Mostrar todas as mensagens

12 de fevereiro de 2025

Serotonina



Autor: Michel Houellebecq
Género:
Contemporâneo
Idioma: Português

Páginas: 280

Editora: Alfaguara Portugal

Ano: 2021
Título original:
Sérotonine
Tradução: Valério Romão

---

Depois de Submissão (ler o meu apontamento aqui), esta é a minha segunda incursão pela obra do enfant terrible da literatura contemporânea francesa.

A história de Serotonina segue Florent-Claude Labrouste, de 46 anos, funcionário do Ministério da Agricultura.

Florent-Claude está deprimido: a relação com a namorada está nas últimas, crê a França à beira do precipício económico e social, acha o seu trabalho irrelevante, a sua vida é um beco sem saída.

Assim, deixa a namorada, despede-se, vende o apartamento, muda-se para um quarto de hotel minúsculo. Passa os dias a petiscar e, principalmente, a beber e a fumar. Começa também a tomar um anti-depressivo que liberta serotonina e que lhe permite “aguentar” o dia-a-dia.

É a partir desta ruptura radical com a rotina que Florent-Claude começa a recordar o passado, as suas aspirações e ideais enquanto jovem, as relações amorosas e de amizade. Olha para trás com ferocidade e acidez; sente-se extremamente desiludido.

Ler Michel Houellebecq não é ler com um sorriso nos lábios, embora o humor sarcástico (presente nas descrições de alguns cenários e/ou personagens) nos faça soltar uma boa gargalhada, ainda que ocasionalmente.

Gostei do livro, e começo a reconhecer o que me agrada no tom e estilo de Houellebecq, nomeadamente o domínio da linguagem (e aqui saúdo o tradutor  V. Romão, pois também tive acesso ao livro em francês, e achei várias passagens excelentemente traduzidas), o tom de crónica que utiliza e a sensação de incómodo e de irreverência que evoca com as suas palavras.

Só posso, de momento, compará-lo com Submissão, e são igualmente bons, embora prefira aquele. Em ambos há uma visão muito negra da sociedade e das relações humanas, visão com a qual não concordo inteiramente. Há várias passagens com considerações sobre a sexualidade e as mulheres que soam bacocas, como se os protagonistas de Houellebecq não conseguissem passar muito tempo sem falar sobre corpos, e sexo, e pénis e vaginas.

Embora alguns capítulos se tenham arrastado, Serotonina tem parágrafos excelentes sobre os escritores Thomas Mann e Marcel Proust, assim como aqueles sobre os fictícios Dr. Azote, com quem o narrador se consulta frequentemente, e Aymeric, o amigo da faculdade de Florent-Claude, um aristocrata que se dedicou à agricultura – uma oportunidade muito bem explorada pelo escritor para falar sobre a morte lenta da França rural.

Serotonina é uma leitura vagarosa, com um narrador derrotista que se repete na sua visão negra do mundo. Mas é suficientemente interessante, corrosivo, e bem escrito – sem dúvida! –, para retomarmos a leitura uma e outra vez, até chegarmos ao fim.  

«Pensava então no Dr. Azote, se aquele homem se comportava da mesma forma com todos os doentes, porque, se sim, era um santo, e pensava no Aymeric, mas as coisas haviam mudado, tinha de facto envelhecido, não ia convidar o Dr. Azote para ouvir discos na minha casa, não nasceria qualquer amizade entre nós, o tempo das relações humanas caducara, em todo o caso para mim.»

****
(bom)

3 de dezembro de 2017

Submissão

25032347


Autor: Michel Houellebecq
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 264
Editora: Alfaguara
Ano: 2015
ISBN: 978-989-8775276
Título original: Soumission 
---
Michel Houellebecq é um dos mais reputados autores franceses. Nunca tinha lido nada dele. Entre amigos e colegas, o consenso é que Submissão, não sendo o seu melhor livro, é seu dúvida o mais falado.

Poucas horas após Submissão ter chegado às livrarias, em Janeiro de 2015, deu-se o tiroteio no jornal satírico Charlie Hebdo, que vitimou 12 pessoas. Entre as vítimas contava-se o economista Bernard Maris, um dos amigos mais próximos de Houellebecq. A capa do Charlie dessa semana mostrava uma caricatura de Houllebecq prevendo que em 2022 (ano em que se passa a acção de Submissão), praticaria o jejum do Ramadão. Havia rumores de que Houellebecq, habitualmente um crítico do Islão, faria no seu próximo romance, uma apologia do mesmo.

O narrador de Submissão é François, um francês quarentão, professor da Sorbonne, perito em Joris-Karl Huysmans, um dos autores associados ao “movimento decadente francês”. François, que se descreve como sendo tão "político como uma toalha de banho", assiste sem emoção aos resultados finais das eleições francesas de 2022. A França está prestes a ser governada por uma de duas facções: Marine Le Pen e a sua Frente Nacional estão empatados com um partido (fictício), a Fraternidade Muçulmana, liderada pelo carismático Mohammed Ben Abbes. Os socialistas, sob a batuta de Manuel Valls, decidem formar uma coligação com a Fraternidade. Ben Abbes é nomeado Presidente.

Enquanto Le Pen conduz uma marcha nos Champs Elysées com os seus apoiantes, o governo de Ben Abbes age rápido e calculadamente, e a mudança para um estado de sharia é aceite sem protesto; as mudanças dão-se bastante rápido: forçando as mulheres a deixarem os postos de trabalho, os números do desemprego caem a pique; os judeus são encorajados a emigrar; o défice é eliminado através de cortes na educação (entre os quais o encerramento da Sorbonne – com o consequente desemprego de François). Todas as mulheres residentes em França são obrigadas a usar o véu islâmico.

François vê a sua vida (ainda) mais vazia e incerta. Longínquos parecem os tempos áureos académicos e, com eles, o acesso a um número ilimitado de alunas dispostas a serem suas amantes; sozinho com a sua misoginia, a sua misantropia e as suas hemorróidas, François vê-se destinado a devorar refeições pré-prontas frente à televisão e a embebedar-se serão após serão. O suicídio chega a afigurar-se-lhe como uma solução.

A sua única companhia são as obras de Huysmans, que adquirem um novo significado na nova realidade política e social, dando ao ex-académico uma perspectiva inédita das coisas. Refugia-se no campo e faz algumas peregrinações, o que lhe permite compreender melhor – e a sentir – o apelo do divino. De volta a Paris, é convidado a reingressar na nova Sorbonne – rebaptizada Universidade Islâmica de Paris-Sorbonne, financiada que é agora por dinheiro saudita. O que se segue é inevitável...

Submissão é uma distopia, uma crónica anunciada, pela pena de Houellebecq, do que espera o povo francês.

Comigo fica uma leitura difícil de digerir mas que não deixa ninguém indiferente. Fiquei com curiosidade em ler mais do autor.
"Poderá o máximo da felicidade humana residir na submissão absoluta?


****
(bom)