31 de maio de 2026

O tanto que grita este silêncio — porque se abstêm os portugueses?

      








Autor: Nelson Nunes
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 111
Editora: Fundação Francisco Manuel 
dos Santos (e-book)
Ano: 2025

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O voto é um elemento essencial da vida democrática, e participar nas eleições é uma das formas mais importantes de exercer a cidadania.

Em Portugal, uma parte significativa da população escolhe repetidamente não exercer esse direito.

No livro O tanto que grita este silêncio: porque se abstêm os portugueses?, Nelson Nunes dedica-se a compreender o que leva tantos cidadãos a afastarem-se das urnas.

Através de testemunhos, análises e reflexões, revela um conjunto de motivações que inclui desconfiança nas instituições, desencanto com os partidos políticos, sentimento de impotência perante as decisões do poder, e uma forma deliberada de protesto.

Cada abstencionista representa uma história individual e uma relação particular com a democracia.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é que o autor não procura convencer o leitor de que a abstenção é correcta ou incorrecta; o seu objectivo é compreender as causas de um comportamento que tem vindo a marcar a realidade portuguesa e que levanta questões importantes sobre representação, participação e confiança pública.

Num contexto em que a distância entre eleitores e instituições parece aumentar em várias democracias ocidentais, este ensaio é uma leitura pertinente.

Pessoalmente, acho importante participar nas eleições. Mesmo quando nenhum partido convence, creio que votar em branco ou nulo é preferível à abstenção. O livro surpreendeu-me pela consistência e racionalidade de muitos dos argumentos apresentados pelos abstencionistas. Ainda assim, não vejo por que razão essas mesmas posições não poderiam ser expressas através de um voto em branco.

Por outro lado, a obra chama a atenção para um aspecto interessante: os meios de comunicação tendem a analisar e discutir a abstenção, mas raramente dedicam a mesma atenção aos votos brancos e nulos. Isso cria uma diferença relevante. Quem se abstém como forma de protesto acaba por gerar debate público e visibilidade para a sua posição, enquanto quem se desloca às urnas para votar em branco ou nulo vê, muitas vezes, essa escolha passar despercebida.

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(muito bom)

11 de maio de 2026

A Idade da Pele

     






Autor: Dubravka Ugrešić
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 200
Editora: Cavalo de Ferro
Ano: 2023
Título original: Doba ko
že
Tradução do Inglês: Rita Costa 

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Dubravka Ugrešic (1949-2023) nasceu na ex-Jugoslávia, na actual Croácia. 

Académica de Literatura Russa, as suas declarações contra a guerra nos Balcãs, em 1991, tornaram-na alvo de ódio nacionalista por parte de jornalistas, políticos e escritores, e levaram-na a abandonar o seu país natal e a exilar-se na Holanda.

Autora de ensaios e romances, traduzidos em mais de 20 línguas, venceu vários prémios literários — em 2016, a sua obra foi distinguida com o prémio Neustadt de Literatura

A idade da pele é um conjunto de ensaios escritos entre 2014 e 2018.
 Ugrešić escreve sobre a cultura contemporânea dominada pela imagem, pelo corpo e pela superficialidade, assente na ideia central de que vivemos numa era em que a pele — enquanto superfície — substituiu a profundidade, numa lógica cuja violência se torna mais evidente quando lida à luz dos crimes de guerra e da fragmentação jugoslava.
 

A autora, cujo estatuto de exilada atravessa todo o livro, é especialmente sensível às dinâmicas de pertença, trazendo uma perspectiva incisiva sobre o que significa existir num mundo onde tudo é visível, mas pouco é realmente compreendido, onde as emoções complexas são reduzidas a likes, emojis e slogans.

A idade da pele é um livro seco e intelectualmente rigoroso. A autora não oferece soluções nem consolo, e o tom irónico e humorístico não esconde a sua tristeza da perda irreversível que resultou na mentalidade que, crê, a guerra normalizou e persistiu.

Mais do que uma sequência de conflitos, a queda da Jugoslávia é, para Dubravka Ugrešić, a vitória da superfície sobre a complexidade.

«Graças aos media, a estupidez tornou-se global. (…) A sua principal tarefa não é tanto a desinformação, ou a informação parcial, mas a trivialização da informação. Os consumidores da informação, no momento em que ficam saciados, têm a forte sensação de que o tempo deixou de fluir, de que se encontram num buraco atemporal, deslocado, desligado e desorientado.»

«A misoginia é uma reacção instintiva nos pequenos países dos Balcãs. É tão comum, tão profundamente arreigada, tão omnipresente e tão flagrante que ninguém — nem quem a dissemina, nem as vítimas — dá conta. (…) E surge muitas vezes camuflada, atrás de uma máscara, nos lugares mais inesperados, como nos sonhos eróticos ou nas fantasias de jovens inocentes com uma parceira ideal, muda...»

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(bom)

30 de abril de 2026

O aniversário

   




Autor: Andrea Bajani
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 144
Editora: Alfaguara
Ano: 2025
Título original: L'anniversario 
Tradução: Sofia Ribeiro 
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O aniversário assinala a estreia de Andrea Bajani em Portugal.

Este escritor italiano, nascido em 1975, é autor de vários romances premiados e traduzidos internacionalmente. 

O aniversário
 é o testemunho de um homem que corta todos os laços com a família de origem, decidido a sobreviver a um ambiente dominado por um pai autoritário e uma mãe anulada.

Num discurso sem floreados, o narrador analisa com precisão clínica a violência psicológica onde cresceu. O monólogo interior explica a emancipação em várias situações, e como a fuga se tornou o único gesto possível de libertação.

A escrita de Bajani é seca e cirúrgica, expondo um inferno familiar feito de silêncios, manipulação e dependência emocional. Apesar de curta, é uma leitura pesada. 

A intensidade e a lucidez do texto trazem uma frieza que tornam difícil um envolvimento emocional profundo. Mas sentimos sempre a ideia de uma ferida que não cicatrizou no narrador, e que a sua libertação, apesar de necessária, foi incompleta.

É um livro que provoca alguma, ou muita, angústia, dependendo da sensibilidade do leitor. 

«[A minha mãe] voltou ao fogão para cozinhar como antes e para ficar em silêncio, sem que o rosto traísse qualquer dissidência ou mau humor quando o meu pai, depois de nos pedir que disséssemos se o que tínhamos acabado de tirar da travessa era bom, dizia então que tinha sido ideia dele, que ele era a mente e a nossa mãe, apenas o braço.»

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(bom)