Mostrar mensagens com a etiqueta novela gráfica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta novela gráfica. Mostrar todas as mensagens

20 de abril de 2024

Torso

    


Autores: Brian Michael Bendis, Marc Andreyko
Género: Banda desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 288
Editora: Dark Horse Books (Kindle)
Ano: 2022

---

Torso conta a história da investigação ao primeiro serial killer americano.

1935: o agente federal Eliot Ness, líder d’Os Intocáveis (famosos por não cederem às tentativas de suborno feitas pela máfia), muda-se para Cleveland, recém-saído do seu lendário triunfo sobre Al Capone.

Ao mesmo tempo, começam a ser descobertos partes de corpos desmembrados, torsos decapitados que não revelam pistas sobre a identidade da vítima.

Fonte: imagem do livro
 

Eliot Ness e a sua nova equipa investigam durante anos, percorrendo as zonas mais pobres de Cleveland, com muitos obstáculos e conflitos pelo meio, a maioria políticos.

O Eliot Ness aqui ilustrado difere da figura do cinema: é um tipo calado e racional, que raramente usa a arma.

A história do livro é uma mistura bem conseguida de factos e imaginação, com a segunda bastante mais prevalente.

Torso é um livro muito bem ilustrado, apesar de ter estranhado o estilo de desenho ao início. A história e o tom são 100% noir.

*****
(muito bom)

24 de outubro de 2023

These savage shores

    

Autores: Ram V, Sumit Kumar
Género: Banda desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 176
Editora: Vault Comics
Ano: 2019

---

1766. Dois séculos após o primeiro navio europeu ter navegado para a Costa do Malabar e ter chegado a Calicut, a Companhia das Índias Orientais procura garantir o seu futuro ao longo da lucrativa Rota da Seda.

Um mal antigo segue a bordo de um dos navios da Companhia, em busca de um lar no novo mundo, apenas para descobrir que aquele é vetusto, com demónios poderosos e lendas muito antigas.

É nestas costas selvagens que se vai travar um combate implacável entre poderes negros com séculos de idade.


Fonte: imagem do livro

Cedo percebemos como os interesses colonizadores da Companhia das Índias Orientais justificaram atrocidades em nome da Coroa Inglesa em novos territórios longe de terra europeias.

These savage shores mistura colonialismo, vampirismo e lendas hindus. A história é muito boa, com uma mistura rica de seres sobrenaturais, maquinações políticas, amor e amizade. Há um embate cultural e mitológico entre criaturas das culturas ocidental e oriental, num confronto selvagem entre seres imortais e mortais.

Esta edição de capa dura reúne os cinco volumes originais e é uma obra de arte em cor e detalhes

****
(bom)

2 de agosto de 2023

The Kite Runner / O menino de Cabul - novela gráfica

 

Autores: Khaled Hosseini, Fabio Celoni, Mirka Andolfo
Género: Banda desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 135
Editora: Kindle Edition
 Ano: 2011

---

Li O menino de Cabul há um par de anos.

Lembrava-me de uma história triste, com um protagonista, Amir, difícil de simpatizar.

A história d'O menino de Cabul transporta-nos ao Afeganistão dos anos 70, antes das ocupações soviética e talibã, onde os meninos protagonistas desfrutam dos seus verdes anos, entre brincadeiras e sonhos inocentes.

O narrador é Amir, mimado e protegido pelo privilégio que lhe confere a riqueza do pai. O seu melhor amigo é Hassan, filho de um criado da casa, analfabeto e desprezado por fazer parte de uma minoria étnica no país (os hazara).

Mas esses anos são determinantes para formar o carácter de Amir, que cresce para se tornar um homem inseguro, cujas escolhas o assombram durante décadas.

Fonte: Imagem do livro
 
O livro original, publicado pela primeira vez em 2003, arrecadou inúmeros prémios literários e foi adaptado ao cinema (2007). Permitiu ainda ao autor, médico de profissão, dedicar-se à escrita a tempo inteiro.

A BD segue fielmente a história, de uma forma mais resumida e com menos nuances. O livro é melhor (quando não o é? excepcionalmente) mas esta é uma boa introdução à história que poderá levar à descoberta do original.
 
Os temas tratados são complexos e emocionalmente pesados, algo a ter em conta para um público jovem a quem se pense, por exemplo, oferecer o livro.
 
Do autor, Khaled Hosseini, li este e A thousand splendid suns / Mil sóis resplandecentes. Ambos bons, preferi este último.

****
(bom)

19 de maio de 2023

Vann Nath: painting the Khmer Rouge

     

Autores: Matteo Mastragostino, Paolo Vincenzo Castaldi
Género: Banda desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 128
Editora: Humanoids
Ano: 2020

---

Vann Nath: painting the Khmer Rouge é um livro de ficção histórica, baseado na experiência do protagonista titular durante o regime do Khmer Vermelho, uma das ditaduras mais brutais do século XX.

O livro começa em 1975, com o Khmer Vermelho a subir ao poder e a expulsar vários habitantes das cidades, nomeadamente de Pnom Pen, uma vez que os seguidores do partido comunista desconfiavam das ideias e atitudes progressistas dos moradores da capital, onde se concentravam os artistas e intelectuais.

Seguimos Vann Nath a relembrar o perído que passou na S-21 (hoje o museu do genocídio Tuol Sleng), a prisão do Khmer Vermelho na capital cambojana.


Fonte: imagem do livro

Das cerca de dezassete mil pessoas encarceradas na S-21, doze sobreviveram. Vann Nath foi poupado porque a direcção da prisão precisava de alguém para fazer um retrato de Pol Pot.

Vann foi um de sete prisioneiros a escapar à execução pela sua “utilidade” para difundir a propaganda do regime.

O pintor, e activista de direitos humanos depois de sair da prisão, tornou-se o sobrevivente mais famoso de um dos capítulos mais sombrios da história do seu país.

As suas pinturas do quotidiano e das torturas na S-21, feitas nos anos após a sua libertação, foram usadas como prova no julgamento de 2010 do chefe da prisão, Kaing “Duch” Guek Eav, pelo tribunal de genocídio do Khmer Vermelho, apoiado pela ONU. O pintor foi ainda uma das testemunhas-chave (uma cena ilustrada neste livro).

Vann Nath sofria de uma doença renal, resultado das privações na prisão, e fazia diálise frequentemente. Faleceu a 5 de Setembro de 2011, aos 65 anos; sobreviveram-lhe a esposa e três filhos.

 

Fonte: imagem do livro

Voltando à BD: Mastragostino, o argumentista, escolheu não contar a história de uma forma linear, o que poderá não resultar da melhor maneira se o leitor não conhecer este período negro da história cambojana. Também não há nenhum enfoque no activismo de Vann Nath na história em BD, apenas em notas posteriores.

Em termos de ilustração, o trabalho de Castaldi é superior, usando pinceladas para criar um mundo mais delicado, que contrasta com as barbaridades da acção. Os vilões têm expressões carregadas e, por vezes, dentes pontiagudos. As cores usadas são os cinzas, castanhos e vermelhos.

Eu estive no Camboja em 2016 e visitei a S-21/Tuol Sleng e um dos campos de morte (killing fields). Algumas das pinturas de Vann Nath adornam as paredes de Tuol Sleng. Não me esqueci.

O regime do Khmer Vermelho dizimou uma grande parte da população do Camboja no final dos anos 1970; o guia disse-nos que o Camboja é, por isso, uma das nações com mais jovens per capita.

Fonte: imagem do livro

Vann Nath: painting the Khmer Rouge é uma visão necessária da vida numa ditadura, o tipo de história que não podemos esquecer.

Podem ver alguns dos quadros do artista, a maioria bastante gráficos, neste website

****
(bom)

16 de abril de 2023

The Hand of Black and other stories

     

Autor: Martin Cendreda
Género: Novela gráfica
Idioma: Inglês
Páginas: 132
Editora: Fantagraphics
Ano: 2021

---


Não conhecia o trabalho de Martin Cendreda, que trabalhou em séries de animação como Bojack Horseman e South Park.

Quando vi algumas vinhetas de The Hand of Black and other stories, todas desenhadas em vermelho, branco e preto, gostei muito da estética e do traço.


Fonte: imagem do livro

A novela gráfica reúne sete histórias curtas e quase sem diálogos, com tons de humor negro e terror.

Na ausência de diálogo, focamo-nos muito mais no desenho e nas subtilezas da acção.


Fonte: imagem do livro

As histórias lidam com compulsões, isolamento, paranóia e inaptidão social.

Pelo que vi, The Hand of Black and other stories, que saiu em 2021, não está traduzido em Portugal nem no Brasil.

Mas devido aos poucos diálogos, é bastante acessível a quem não leia inglês.


Fonte: imagem do livro

Abaixo, está o índice e, a negrito, as minhas histórias favoritas. Boas leituras!

- Neptune's daughter
- The Hunger
- The Hand of Black
- Magic marker
- The Man in the mirror
- Copy

- Tik-Tik

****
(bom)

9 de outubro de 2022

Maids

    

Autor: Katie Skelly
Género: Banda desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 106
Editora: Fantagraphics (Kindle)
Ano: 2020

---

Le Mans, anos 30.

As irmãs Papin, Christine e Lea, são empregadas domésticas na casa dos Lancelin.

Na noite de 2 de fevereiro de 1933, as irmãs matam a esposa e a filha mais nova da família. O crime é brutal, cometido num frenesim que deixa as vítimas irreconhecíveis.

O caso causou um grande impacto em França. Foi sugerido que o crime ocorreu devido à exploração das irmãs em jornadas de trabalho de 14 horas, com folgas raras.

Fonte: imagem do livro

Em Maids, Katie Skelly conta à história de Christine e Lea Papin em banda desenhada.

Gostei do traço leve, minimalista, colorido. Porém, a história soube-me a pouco, com vários pormenores excluídos - há várias páginas online sobre o caso onde se relata
a relação das irmãs, o seu passado familiar, o julgamento, etc.

Fonte: imagem do livro

Maids é a mais recente adaptação do caso das irmãs Papin, que já foi tema de peças de teatro, documentários e filmes, incluindo o thriller francês Les blessures assassines, o thriller britânico Sister my sister, e a peça do dramaturgo francês Jean Genet Les Bonnes

Desconhecia que inspirou a história do excelente filme Parasitas, do cineasta Bong Joon-ho, que venceu os Óscares de Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Filme em 2020.

Fonte: imagem do livro


Não sendo uma má leitura, esta banda desenhada ficou aquém.

Fiquei bastante interessada em ver os thrillers francês e inglês
.

***
(mediano/razoável)

28 de setembro de 2022

Sixty years in winter

  

Autores: Ingrid Chabbert, Aimée de Jongh
Género: Banda desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 116
Editora: Europe Comics (Kindle)
Ano: 2022
Título original: Soixante printemps en hiver

---

Sixty years in winter é uma história de libertação.

Após 35 anos de casamento, no dia em que celebra 60 anos, Josy tem as malas feitas para sair de casa.

Perante a família boquiaberta, diz que se sente a sufocar e quer parar de fingir: já não existe mais amor nem alegria, apenas hábito. 

Pega nas chaves da sua velhinha Volkswagen e faz-se à estrada, sozinha, disposta a recuperar o gosto pela vida.

Fonte: google images
 
Abraçando uma vida minimalista, rapidamente faz amigos entre pessoas que, também elas vivendo em casas móveis, se sentem à parte.

Na sua vontade em viver em pleno, Josy encontra novamente o amor, um amor diferente de tudo o que imaginou ser possível. Mas Josy é relembrada que com novos ganhos vêm também novas perdas.

Fonte: google images

A história de Sixty years in winter é terna em todos os aspectos, em harmonia com uma paleta de cores suave, que beneficia a ilustração dos corpos envelhecidos.

A linguagem das personagens é a de mulheres que nasceram na década de 60
, sem gíria moderna nem ideias progressistas.


Fonte: google images

Pelos olhos de Josy, assistimos ao prazer de (re)descoberta, de pensarmos em nós próprios e furtarmo-nos a obrigações auto-impostas; assistimos também à tristeza de alguém se encontrar incompreendido por marido e filhos quando opta por fazer algo incomum.

Há dor e há superação, há alegria e há saudade. E a corajosa Josy persevera como pode.

Fonte: google images

Sixty years in winter é uma leitura serena, cheia de pormenores subtis, onde a mensagem principal é a da importância, sem olhar à idade, da auto-descoberta.
 
À data deste apontamento, o livro está disponível em Francês (idioma original) e em Inglês.

****
(bom)

18 de setembro de 2022

O jogador de xadrez

   

Autor: David Sala
Género: Banda desenhada
Idioma: Português
Páginas: 136
Editora: Levoir
Ano: 2018
Título original: Le jouer d'échecs

---


O jogador de xadrez
é uma adaptação a banda desenhada do livro Novela de xadrez, de Stefan Zweig, que li há uns anos - apontamento aqui.

A adaptação do autor francês David Sala é extremamente fiel ao espírito e ambiente do texto original.

A leitura desta novela gráfica teve, pessoalmente, uma camada extra de emoção porque Stefan Zweig escreveu Novela de xadrez  pouco antes de se suicidar, em 1942, aquando do seu exílio no Brasil.

Zweig estaria desesperado pelo avanço nazi na Europa. Vários dos seus livros foram queimados pelo regime nazi. Infelizmente, o escritor não viveu para testemunhar a queda de Hitler.

Fonte: foto do livro

Em O jogador de xadrez, a acção passa-se no ano de 1941, a bordo de um paquete com destino à Argentina.

A bordo, o campeão do mundo de xadrez defronta um aristocrata vienense, cujo extraordinário domínio do jogo, vamos descobrir em flashback, foi aprendido em circunstâncias brutais às mãos de nazis
.

Fonte: foto do livro

Adorei a estética e a paleta de cores utilizada, fiel à década em que se passa a acção da história. Os grandes planos das expressões das personagens privilegiam as emoções e são um dos pontos fortes do livro.

Confesso que estranhei, ao início, as ilustrações, coloridas a aguarela, uma técnica diferente - mas não menos bela - da que estou habituada.

Não conhecia o traço (bastante original) de David Sala e fiquei rendida. Quanto mais olho para os desenhos, mais gosto do estilo, super adequado à história
.

Fonte: foto do livro

O jogador de xadrez é uma bela homenagem ao livro de Stefan Zweig, um dos escritores mais influentes das primeiras décadas do século XX, que influenciou vários artistas contemporâneos, entre os quais o realizador Wes Anderson n'O Grande Hotel Budapeste.

A ler e a reler.

*****
(muito bom)

3 de setembro de 2022

Pele de Homem

  

Autores: Hubert, Zanzim
Género: Banda desenhada
Idioma: Português
Páginas: 160
Editora: A Seita
Ano: 2022

---

Pele de Homem foi uma prenda, uma bela prenda!

A história passa-se na Itália renascentista: Bianca é uma donzela que pertence a uma família abastada com um casamento arranjado pelos pais. O noivo chama-se Giovanni; os dois nunca se conheceram.

Mas há muitas mais coisas que Bianca desconhece, e isso é motivo de angústia. Tudo muda quando a madrinha lhe revela um segredo de família reservado às mulheres: possuem um tesouro, uma “pele de homem” que lhes permite transformarem-se num... homem.

Com ela e nela, Bianca «irá descobrir o mundo masculino fechado às mulheres da época, e na busca de conhecer aquele que lhe está prometido como marido, irá também descobrir o amor entre homens, bem como o seu desejo como mulher, e todas as alegrias, frustrações e tristezas que esse amor e esse desejo podem trazer». E essas descobertas cimentam um desejo de emancipação que Bianca simplesmente não quer refrear.

«Nós, as mulheres da nossa família, temos um grande segredo. Possuímos uma pele de homem. Chamamos-lhe Lorenzo. Uma vez vestida, ninguém duvidará de que és um rapaz.»

Fonte: google images

Pele de Homem surpreendeu-me. Conseguiu retratar temas como a condição feminina, o fervor religioso, e a sexualidade de uma forma fresca e delicada, mantendo a importância dos valores universais ligados às liberdades (religiosa, expressão, imagem, pensamento).

As 160 páginas não se prestam a uma leitura de enfiada; é preciso degustar a obra. Percebi que assim, a cada serão de leitura, além de me lembrar exactamente do que se tinha passado antes, e segundo a divisão por capítulos, mergulhava com gosto renovado nas aventuras de Bianca/Lorenzo e Giovanni.

Fonte: google images

Pele de Homem é um livro fenonenal, que me encantou, e quando o acabei de ler, comecei a procurar por outros livros dos autores.

Infelizmente, um deles não mais publicará: o escritor, Hubert, suicidou-se uns meses antes da publicação da BD, alegadamente depois de anos a lutar com uma depressão ligada à sua sexualidade e crenças religiosas.

Fonte: google images

A obra venceu o Grande Prémio RTL de BD, o Prémio de BD do jornal Le Point, o Prémio Landerneau 2020, o Grande prémio ACBD da crítica de BD francófona, o Prémio das Livrarias de BD, e o Prémio dos Jovens no Festival de Angoulême.

Pele de Homem é uma pepita visual e uma narrativa com uma mensagem intemporal. Não tenho dúvidas de que se tornará um clássico.

******
(fenomenal)