26 de dezembro de 2025

250 anos de Jane Austen (1775-1817)

Fonte: Imagens Google

A 16 de Dezembro [2025], assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Jane Austen (1775–1817).

No século XVIII, onde o quotidiano feminino era tido como trivial, Austen publicou num mundo literário dominado por romances sentimentais e narrativas góticas.

A escritora foi profundamente subversiva, transformando o quotidiano em matéria literária séria: casamentos, heranças, visitas sociais, pequenas humilhações — tudo o que parecia menor tornou-se um palco de conflito moral e psicológico, (d)escrito num tom de ironia moral sem moralismo.

Austen observou sem condescendência, e mostrou o ridículo sem humilhar. Criou personagens femininas com interioridade moderna, sem serem arquétipos - Elizabeth Bennet, Anne Elliot, Emma Woodhouse - que pensam, erram, reflectem. Nunca se casou, mas criticou o casamento como instituição económica, e expôs, com clareza cirúrgica, como o amor estava condicionado por dinheiro, classe e sobrevivência.

Jane Austen escreveu sobre coisas que não envelhecem: autonomia feminina em sistemas restritivos, escolha versus conveniência, desejo versus segurança.

Ocupa um lugar singular na literatura, com seis romances publicados, nenhum deles épico ou trágico. É estudada nas universidades, está na cultura popular e no imaginário colectivo.

Em 2025, 250 anos depois do seu nascimento, o olhar de Jane Austen segue lúcido, irónico e de uma delicadeza implacável.

Fonte: Imagens Google

13 de dezembro de 2025

A cicatriz

 





Autor: Maria Francisca Gama
Género:
Romance, Contemporâneo
Idioma: Português

Páginas: 168

Editora: Suma de Letras

Ano: 2024

---

A cicatriz é um bestseller português que saiu em 2024. Foi o segundo romance da autora, Maria Francisca Gama (1997-), formada em Direito.   

Na plataforma Goodreads, tem, à data deste apontamento, mais de 14 mil avaliações, com uma média de 4 em 5 estrelas possíveis.

A acção passa-se no Rio de Janeiro, pano de fundo de uma paixão entre dois jovens portugueses. Depois de dias de férias idílicos, aproveitam uma das últimas noites para irem jantar fora. Decidem regressar a pé para o hotel, mas não se recordam se o caminho é pela esquerda ou pela direita. E como se lê na contracapa o livro, como é que a vida pode mudar tanto por uma escolha irrisória?

A cicatriz fala de amor, de trauma e de violência, alternando diferentes períodos temporais. A questão da identidade e autonomia femininas está presente em toda a narrativa.

O ritmo é lento, com a protagonista a revelar-se gradualmente, bem trabalhada. As personagens secundárias são menos desenvolvidas. 

Quanto às nuances políticas apontadas por alguns leitores, eu não as li assim. Pareceu-me que as preocupações feministas surgem naturalmente da experiência das personagens - o foco é no individual e no psicológico.

É um romance que exige paciência para a introspecção e que faz perguntas ligadas à memória e à superação ou cicatrização das nossas feridas (físicas e emocionais).

A cicatriz é uma leitura curta mas densa.

«No entanto, nesta noite, talvez pelos gins bebidos ao jantar ou pelo cansaço acumulado das férias, tanta passeata, mergulhos, beijos e sexo, não sabíamos exatamente por onde ir. Era sexta-feira, as ruas estavam cheias de gente, tão cheias que era difícil atravessá-las, e acabámos por nos perder. "Agora é para a esquerda ou para a direita?"»

****
(bom)