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2 de dezembro de 2013

E se amanhã o medo




Autor: Ondjaki
Género:
Contos
Idioma: Português

Páginas: 102
Editora:
Editorial Caminho
ISBN:  972-21-1708-4
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Este é o primeiro livro que leio do angolano Ndalu de Almeida, que usa o pseudónimo Ondjaki, palavra em umbundu que significa «aquele que enfrenta desafios».

Com 36 anos, Ondjaki tem já uma obra significativa e plural, entre livros de contos, romances e poesia; os prémios literários também são uns quantos, onde se destacam o Grande Prémio APE (2007), o Prémio Bissaya Barreto (2012) e o Prémio José Saramago (2013).

E se amanhã o medo é um livro de contos, dividido em 2 partes: horas tranquilas e conchas escuras.

«- Aceito uma vacina contra a raiva.»
«- Muito bem. Parece-me apropriado. O mundo não está para brincadeiras.»

A primeira parte, horas tranquilas, tem 15 contos subtis, líricos e luminosos, com algum humor e folclore à mistura, e muito movimento (libélulas, aves, viajantes). As personagens anseiam pela alegria, pela paz, pela esperança, há vida e serenidade. Os meus contos favoritos são coração de porco e o pássaro do cais, bastante diferentes entre si mas ambos leves e poéticos, com o seu quê de realismo mágico.

«Velhice é todos dias ir despedindo um pouco coisas que inda nos tocam as paredes do coração.»

conchas escuras, composto por 5 contos, em que o meu favorito é lábios em lava, é mais cru e sombrio. Aqui há medo e culpa, o tom é opressivo e não há esperança nas personagens, há interrogações e angústia; há violação, há morte misericordiosa (no leitor, há desconforto).

E se amanhã o medo é breve, os contos têm 2 a 3 páginas, aparentemente simples mas metafóricos e simbólicos. Sendo o primeiro livro que leio de Ondjaki, não tenho termo de comparação, mas não me parece um autor de fácil apreensão, o que não deixa de ser intimidante. As suas realidades inventadas são complexas e as frases curtas que usa não dispensam duas e três leituras até atingir o pleno. Gostei e deixo-vos aqui um excerto do livro.

«Era, no fundo, o que trazia todas as pessoas àquele local: a magia de renovar o órgão primeiro, o bombeador de sensações, a casa mais íntima de um ser humano. (...) Leve isto consigo ... entregou-lhe um pequeno aglomerado de folhas, escrito à mão num cuidadoso latim. ... Vai servir-lhe para ser feliz! ... E o que é? ... a mulher, sensível, curiosa. ... Todos os meus apontamentos sobre a sensibilidade dos porcos. O que é dizer: você é a primeira pessoa a levar um coração com o respectivo manual de felicidade.» 


avaliação: **** (bom)

28 de dezembro de 2012

Adeus princesa



Autor: Clara Pinto Correia
Género:
Ficção
Idioma: Português
Editora: Clube do Autor

Páginas:
332


Avaliação:
***
(mediano)

Estava bastante curiosa em ler Adeus princesa, de Clara Pinto Correia. Classificado como um livro policial e com inúmeras menções positivas na contra-capa, a história tem ainda o condão de se passar no Alentejo, região que me é muito querida.

Um dos romances de topo dos anos 80, conta a história da franzina e não muito bonita Mitó, principal suspeita da morte do namorado, Helmut, um mecânico alemão da Base Aérea de Beja. O jornalista Joaquim Peixoto e o fotógrafo Sebastião Curto viajam de Lisboa para recolher informações e testemunhos sobre o caso, apenas para descobrir que os habitantes estão mais esperançados que a publicidade ajude a resolver os problemas que afligem a região, do que interessados na resolução do crime.


«Auf Wiedersehen, prinzessin.»

A partir do assassinato do alemão Helmut, a autora desenvolve a história, cujo foco central é o Alentejo rural. As personagens são figuras típicas com conflitos políticos e sociais, como o pai de Mitó, dirigente do Centro de Trabalho de Baleizão e perfil soviético, e o chefe de Polícia, Mariano Larguinho, queem nos visitantes lisboetas a esperança de ver os problemas da província falados, e talvez solucionados, nas páginas da revista.



No rescaldo da Reforma Agrária, os proprietários foram expulsos e os camponeses ocuparam-lhes as terras e formaram cooperativas. Dez anos mais tarde, altura em que se passa a acção, este sonho já se desfez: as cooperativas agrícolas estão a desaparecer, a sociedade está a decair, as mercearias deixaram de vender fiado, os jovens só pensam em farra e drogas…

Apesar da caracterização social bem humorada e da acção dinâmica, Adeus princesa não me conseguiu envolver. Como policial, é fraquito, mas cedo descobrimos que a identidade do assassino é o que menos importa. Como poderia ser, diante da delinquência juvenil, das drogas, da ausência de perspectivas no futuro dos jovens, do desemprego e das consequências nefastas da reforma agrária no Alentejo retratado pela autora? A sua pertinência actual é desconcertante (a componente social é muito bem trabalhada) mas como leitura de entretenimento, simplesmente não me "agarrou".
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