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9 de maio de 2020

Brave

 
Autor: Rose McGowan
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Duração: 6h e 53min
Editora: Harper Audio
Ano: 2018
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O nome de Rose McGowan evoca algumas interpretações do cinema indie, onde se estreou nos anos 90. Com o passar dos anos, fez a transição para o cinema comercial (Scream de Wes Craven; Planet Terror de Robert Rodriguez) e para a televisão (Charmed). Depois deixou de aparecer. Há uns anos, quando se assumiu como uma das vítimas de abuso sexual de Harvey Weinstein, tornou-se uma das figuras principais do movimento Me Too.

Brave começa pelo início: Rose nasceu em Itália em 1973, no culto “Children of God”, de onde o pai se escapou com os filhos tinha Rose 10 anos. A relação com os pais, mesmo fora do culto e já a viver nos EUA, sempre foi turbulenta. Anos mais tarde e já adulta, diz que caiu vítima de outro culto: o de Hollywood.

Apesar de gostar dos filmes em que participava, McGowan diz que sempre se sentiu desconfortável com a obsessão por um corpo e rosto perfeitos e pela constante sexualização da sua imagem. O ponto de viragem foi no final dos anos 90, quando se terá tornado mais uma vítima de Harvey Weinstein. Rose teria 23 anos, estava habituada a relações abusivas e a ver o seu valor ligado ao quão sexy era a sua imagem. Quando alegadamente contou o que acontecera, o conselho foi que ficasse calada (a autora critica o enorme grupo de pessoas em Hollywood que auxiliam os “inúmeros predadores sexuais a ficarem impunes”, a fim colherem benefícios pessoais do poder e do dinheiro dos agressores); nunca apresentou uma queixa na polícia.

Após este episódio, Rose McGowan decidiu afastar-se do mundo do cinema e investir na sua vida afectiva - a sua relação com o músico Marilyn Manson deu que falar. Quando protagonizou um filme com Robert Rodriguez mantendo uma relação com ele (que era casado), foi a gota d’água: era definitivamente uma actriz ambiciosa disposta a tudo e uma mulher promíscua. Tinha agora um rótulo e nada do que fizesse iria alterar isso...

Brave é um manifesto sem barreiras. Rose McGowan assume-se como uma activista destemida e determinada a expôr a verdade sobre a indústria do entretenimento, e ficar calada e não fazer ondas não é opção. Pelo caminho, desmonta o conceito de fama e lança uma luz fria sobre a máquina de Hollywood, da qual se recusa voltar a fazer parte. Urge aos leitores que se recusem a ser manipuladas pelos filmes e sejam corajosas, num apelo à acção de homens e mulheres para "serem gentis e decentes uns para com os outros".

A autora queixa-se que, durante anos, não foi ouvida, não sentiu que fosse respeitada ou levada a sério. Algumas mulheres poderão identificar-se com isto, principalmente quando é descrita a forma como se espera que uma mulher aja quando confrontada com o mundo real: agradável, educada, dócil, facilmente manipulada. 

Livros como Brave podem iniciar discussões sobre a necessidade das mulheres denunciarem situações de assédio e violência. Devem fazê-lo; essas histórias precisam de ser contadas. O facto de algumas vozes terem criticado a Rose McGowan por ser alegadamente doente mental em nada diminui a mensagem do livro nesse aspecto - já para não dizer que as pessoas com problemas mentais também têm voz. A autora admite que foi diagnosticada com transtorno depressivo e que durante anos sofreu de anorexia nervosa. 

Brave é um livro que nos deixa desconfortável, onde questionamos as escolhas da autora que repudia a indústria que lhe deu fama e sustento durante vários anos e que parece ter quase sempre escolhido parceiros abusivos. Nisso Rose McGowan está longe de ser uma mentora. O seu estilo é emocional e há muita raiva e linguagem colorida. É um facto e não deve ser um impedimento para não o ler. Os seus vídeos no YouTube mostram uma mulher zangada, transtornada e muito fragilizada; cada um é livre de interpretar e aceitar o seu discurso abrasivo e linguagem corporal

Ouvi este audiolivro duas vezes seguidas e o impacto da mensagem não perdeu impacto aquando da segunda escuta. A importância de muito do que é dito é tão relevante como isso.

*****
(muito bom)

12 de abril de 2020

Maid - hard work, low pay and a mother's will to survive

 
Autor: Stephanie Land
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 288
Editora: Hachette (ebook)
Ano: 2019

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Aos 28 anos, os planos de Stephanie Land passavam por ter um curso superior e tornar-se escritora. Quando um romance de Verão resultou numa gravidez não planeada, viu-se mãe solteira sem suporte familiar.

Para sobreviver, tornou-se empregada de limpeza; a dificuldade de proporcionar à filha a melhor vida possível, enquanto estudava on-line e passava 4 a 6 horas dárias a limpar casas, foi uma provação; à parte, mantinha um blog para manter o “bichinho” da escrita.

Em Maid, a autora fala da sua experiência de assalariada mal paga que depende de ajuda governamental para pagar a renda, as contas mensais e a alimentação. Fala do estigma de viver no limiar da pobreza, de pagar as compras de supermercado com cupões de alimentos e de se sentir encurralada.

Fala da classe média alta americana e de como é limpar as suas casas. Stephanie não conhece nem de vista a maioria dos clientes, não sabe o seu nome mas observa tudo com curiosidade; tenta imaginar a vida dos habitantes das casas através das suas roupas e objectos diversos, e várias vezes dá por si a pensar em como os bens materiais que tanto lhes inveja não são, afinal, garante de felicidade.

Há vários pormenores de como as limpezas às casas são feitas, como tudo é organizado, e a autora relata-nos o seu quotidiano de esfregar chãos e casas de banho até ficarem num brinquinho, e como o trabalho duro e sem benefícios resulta em espasmos musculares, noites mal dormidas e dores de costas suportadas com ibuprofeno.

Apesar de reconhecer a luta constante de Stephanie Land, e de ser inegável a sua tenacidade, tenho de admitir que não sou fã da sua forma de pensar, que levou a decisões pouco felizes – acredito que a sua fraca auto-estima e desamparo familiar não ajudaram.
 
Há um final feliz para a autora e para a filha, cujas circunstâncias eram extremamente difíceis - é bom ler uma história de superação.

****
(bom)

2 de abril de 2020

Persépolis


Autor: Marjane Satrapi
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 352 (integral)
Editora: Vintage Digital (e-book)
Ano: 2008
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Marjane Satrapi (pseudónimo de Marjane Ebihamis) é de origem iraniana e nesta série de banda desenhada muito aclamada, conta a sua história.

É uma criança quando o regime de Reza Pahlavi cai; o xá fora posto no poder pelos norte-americanos, que queriam acesso livre ao petróleo iraniano. O povo iraniano, ao tentar libertar-se de cinquenta anos de tirania, abriu a porta ao regime islâmico, não lucrando com a troca.


A primeira parte de Persépolis é narrada por uma criança que tenta entender o mundo dos adultos e fazer sentido das coisas que lhe são contadas. Estamos no início da década de 80 e as universidades estão a ser encerradas; o uso do véu torna-se obrigatório para as mulheres. Os pais da precoce Marjane protestam contra o regime mas a repressão é violenta. Assustados, mandam a filha para a Áustria para prosseguir os estudos.

É assim que Marjane começa a frequentar o liceu francês em Viena, sem falar uma palavra de alemão. Os amigos são miúdos rebeldes que lhe dão a conhecer as drogas e a sexualidade livre. Dividida entre duas culturas completamente diferentes, luta por ter algum equilíbrio. 

Quando após quatro anos, Marjane regressa a Teerão, a guerra com o Iraque terminou mas a cidade está em ruínas e o governo continua repressivo. A jovem cai numa depressão grave mas com o apoio da família consegue ultrapassá-la e voltar a concentrar-se na sua educação.

O que eu mais gosto nos desenhos de Marjane Satrapi é a mistura do trágico com o burlesco, nunca se furtando à auto-crítica, aos eventos históricos e ao juízo à sociedade islâmica iraniana, onde a liberdade de expressão não existe, onde tudo é proibido (maquilhagem, música, festas, demonstrações de afecto). Os iranianos tentam criar, em casa, um espaço de liberdade e identidade, mas muitos são influenciados pelos valores tradicionais e são eles mesmos a repreender outros que não sigam a ideologia do regime. 

Persépolis narra gráfica e habilmente os sentimentos e emoções de uma mulher rebelde que recusa viver em submissão, ilustrando de uma forma poderosa o cenário histórico-político iraniano. É uma história arrebatadora, que merece ser lida.

O livro, banido de várias escolas norte-americanas - onde foi incluído como leitura obrigatória, gerando mil controvérsias -, ganhou vários prémios, foi adaptado ao cinema, premiado em Cannes e nomeado aos Óscares. A autora abandonou o Irão em 1994 para não mais voltar. Obteve a nacionalidade francesa e reside em Paris, vivendo da realização, da escrita e da ilustração.

*****
(muito bom)

15 de março de 2020

The choice


Autor: Dr. Edith Eger
Género: True crime
Idioma: Inglês
Duração: 12h e 26m
Editora: Simon & Schuster (Audible)
Ano: 2017
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The choice é uma biografia escrita por uma sobrevivente do Holocausto.

No início dos anos 40, Edith era uma adolescente húngara que vivia para a dança e para a ginástica; fazia parte da equipa nacional de ginástica até ter sido expulsa devido ao clima crescente de anti-semitismo. É o golpe mais devastador da sua vida até eclodir a segunda grande guerra, quando a família Eger é intimada a embarcar em vagões…

No campo de Auschwitz Edith sofre várias atrocidades, testemunha muitas outras e dança para o infame Mengele. No final da guerra, órfã, com pouco mais de trinta quilos e muito debilitada, não sabe o que fazer com a liberdade recém-adquirida. O seu relato de sobrevivência é tocante e um milagre.

«No one can take away from you what you’ve put in your mind.»
 
Edith sobreviveu a Auschwitz, casou, teve filhos, mudou-se para a América e formou-se em psicóloga clínica - é mundialmente conhecida pelo seu trabalho no tratamento da perturbação de stress pós-traumático (PSPT). Com mais de 90 anos, ainda dá consultas, determinada a ajudar outros a encontrarem a paz que ela própria demorou décadas a encontrar.
 
Edith Eger não é a primeira sobrevivente de Auschwitz a relatar a sua experiência mas a sua perspectiva e o seu percurso são singulares; profissionalmente, a relação com os seus pacientes é feita com uma profunda empatia e humildade, e o seu entendimento da dor e do perdão é único.  
 
The Choice é triunfal.
*****
(muito bom)

6 de setembro de 2019

Becoming




Autor: Michelle Obama
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Duração: 19h e 3m
Editora: Random House Audio (Audible)
Ano: 2018


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Habitualmente não leio biografias, não por aversão ou por não gostar, mas porque há sempre outros livros que me prendem mais a atenção.

Mas das poucas que li até hoje, a maioria foi de mulheres (Mata-Hari, Isabel I, Elizabeth Báthory, Anne Frank), figuras que se destacaram pela sua força de carácter e por romperem barreiras sociais/políticas/de género.
Michelle Obama é obviamente uma figura mais pequena - não necessariamente menor - ao lado das figuras históricas acima mencionadas mas a sua postura como Primeira-Dama dos Estados Unidos ganhou-lhe o respeito e reconhecimento de milhões de pessoas em todo o mundo, e cimentou-a como exemplo para todos.

Becoming é o seu testemunho, num discurso simples e articulado, um relato na 1.ª pessoa de uma menina que cresceu em Chicago, no seio de uma família humilde, cujos pais sempre incentivaram a estudar, a ser uma boa cidadã e a trabalhar para alcançar a estabilidade. O objectivo nunca foi a fama, foi a de ter uma vida melhor do que a deles - algo universal para todos os pais.

Pela voz Michelle Obama, vamos assistindo a vários episódios onde familiares e amigos se juntam para educarem os filhos (negros) para uma nova sociedade, mais aberta à diferença mas não necessariamente mais justa para as pessoas de cor. Mas Michelle chega a Princeton, a uma sociedade de advogados e vê-se na Casa Branca após décadas de dedicação dos seus pais em providenciar-lhe uma vida digna.

Segundo ela, nunca quis a ribalta nem a vida política mas quando casou com Barack Obama e percebeu que ele queria fazer a diferença através do poder executivo e legislativo, e acreditando nos valores e missão de um idealista, acabou por aceitar e juntar-se à luta para o alcançar, movida pelo amor. A sua única condição foi de que as filhas tivessem uma vida o mais normal possível. 

Ouvir o livro pela voz da autora foi um bónus, onde percebemos a entoação mais emocional de algumas cenas. Por outro lado, ocorreu-me de vez em quando quantas daquelas palavras não teriam sido escritas pelo ghost writer e quanto de Michelle Obama haveria efectivamente no livro. Também me ocorreu quanto foi omitido para manter a aura de  respeitabilidade do casal mas menos não se pode esperar de uma biografia oficial; o mundo da política não permite ver o mundo com lentes cor-de-rosa.

A forma como Barack é retratado é como se de um super-herói se tratasse, o que não admira visto que Michelle menciona várias vezes o amor que sente por ele e como o admira como pai e marido. A mãe de Michelle é um pilar de força e tem uma justa homenagem - este livro é sobretudo um tributo a ela e ao marido (que morreu há vários anos, depois de anos a lutar contra a esclerose múltipla).

No final, comprova-se a imagem que se tem de Michelle Obama: uma personalidade séria, uma pessoa digna e respeitável que procurou ser activa no seu papel como Primeira-Dama, não querendo ofuscar o marido mas não querendo ser apenas um bibelot, usando o seu carisma, beleza e inteligência como armas e canalizando-as para servir os cidadãos. 

A sua paixão por uma vida saudável e pela educação ajudaram milhares de americanos a melhorarem a sua situação a partir de programas criados na era da presidência Obama, e os Obama foram sem dúvida um casal que usou a sua posição para fazer o bem a muitos, algo que percebemos melhor agora com o ocupante actual da presidência dos EUA.

No final das 19 horas de escuta, fica a sensação de ter conhecido uma mulher forte, com um sólido sistema de valores, que alcançou o cume através do trabalho e que fez o melhor que pôde (e foi muito). Michelle Obama é uma inspiração e uma mulher muito equilibrada, rara na sua ponderação e bom senso. Infelizmente, diz que nunca se candidatará à Casa Branca, o que é pena; os EUA só teriam a lucrar se os Obama voltassem a ocupá-la. 
«I was humbled and excited to be First Lady, but not for one second did I think I'd be sliding into some glamorous, easy role. Nobody who has the words 'first' and 'black' attached to them ever would. I stood at the foot of the mountain, knowing I'd need to climb my way into favor.»
*****
(muito bom)

18 de junho de 2018

A river in darkness: one man's escape from North Korea



Autor: Masaji Ishikawa
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 155
Editora: AmazonCrossing (Kindle)
Ano: 2018
ISBN: B06XKRKFZL

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A river in darkness: one man's escape from North Korea é uma história assombrosa contada na primeira pessoa. Alguns detalhes vão ficar na memória de quem a lê durante muito tempo.

Masaji Ishikawa nasceu no Japão nos anos 60. Filho de pai coreano e mãe japonesa, teve no pai um homem fechado e violento que se ressentia do tratamento descriminatório por parte dos japoneses, e na mãe uma mulher passiva e dócil, por vezes em demasia.

Quando surgiu a oportunidade da família se mudar para a Coreia do Norte - pintada como se fosse o "el dorado" -, o pai de Masaji como que rejuvenesceu, animado com a perspectiva de voltar à pátria como um retornado honrado e dar uma vida melhor à família...

Masaji começou a viver na Coreia do Norte ainda adolescente, com a família. Ao longo de várias décadas, e desde o início, ele e a sua família foram constantemente rebaixados, ofendidos e prejudicados por serem japoneses, por terem um pouco mais que os restantes (estamos a falar de relógios de pulso e pequenos utensílios domésticos).

O pouco que eu sei acerca da Coreia do Norte são as nada lisonjeiras notícias que passam de tempos a tempos, apesar da alegada recente "abertura" ao mundo ocidental, i.e. aos EUA. Não há muitos livros acerca da vida lá, por isso esta foi/é uma oportunidade única de ler como se vivia nas áreas rurais nas últimas décadas... e confesso que não estava preparada para a miséria profunda que pontuava a existência dos norte-coreanos.

Biografias são sempre livros difíceis de classificar; este livro está numa categoria ainda mais à parte por causa do tema e da forma como põe a nu a natureza humana em situações extremas de teste à capacidade humana de sobreviver. A coragem de Ishikawa, fortalecida pela clara noção que não tem mais a perder, é louvável e a sua história tem de ser ouvida e passada de boca em boca. Leitura obrigatória.

“There’s a saying, “Sadness and gladness follow each other.” As I see it, people who experience equal amounts of sadness and happiness in their lives must be incredibly blessed.”

“(...) that’s always the way with totalitarian regimes. Language gets turned on its head. Serfdom is freedom. Repression is liberation. A police state is a democratic republic. And we were “the masters of our destiny.” And if we begged to differ, we were dead.”

“I even heard a rumor of one man killing his wife and eating her.”
****
(bom)

18 de maio de 2014

Histórias de Mulheres


Autor: Rosa Montero
Género:
Biografia
Idioma: Português

Páginas: 239
Editora:
Edições Asa

Ano:
2002
ISBN:  972-41-3139-4
Título original: Historias de mujeres
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
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Histórias de Mulheres não é um romance mas lê-se como um.

Leio poucas biografias porque não é um género que me interesse particularmente. Este livro, que já reli três vezes (!) é uma excepção, não só pelos nomes escolhidos mas pelos comentários lúcidos e às vezes poéticos da autora. É um livro muito bem escrito.

Rosa Montero tem uma consagrada carreira jornalística e ficou famosa, no país vizinho, pelas suas entrevistas. Trabalha no jornal espanhol El País desde 1977 e já editou 26 livros, 9 dos quais publicados em Portugal. Dela, ainda só li este.

Em Histórias de Mulheres, Rosa Montero traça o perfil de quinze mulheres que se destacaram e acabaram por marcar ou representar uma época, rompendo tradições, entre personagens mais conhecidas – Agatha Christie, Frida Kahlo, Emily Brontë, Simone de Beauvoir – e mais obscuras, como Laura Riding e Mary Wollstonecraft.

Numa narrativa perspicaz, a autora resume a vida de mulheres singulares, demonizadas por subverterem o seu papel. De épocas e nacionalidades distintas, todas têm em comum o desgaste de uma sociedade machista numa luta pela liberdade, pelo direito à diferença e pelo reconhecimento. 

«Quero dizer que metade da humanidade, a parte feminina, viveu durante milénios, uma existência frequentemente clandestina e em grande parte esquecida, mas sempre muito mais rica do que o molde social a que estava presa, sempre acima dos preconceitos e dos estereótipos.»


Umas biografias são verdadeiramente inspiradoras, com episódios de coragem e sacrifício artístico, enquanto outras são tristes. Alguns destes nomes estavam votados ao esquecimento, como o de Camille Claudel e María Lejárraga, e Montero deu-lhes voz novamente, o que me fez pesquisar a sua obra; isso fala por si.



Histórias de Mulheres é um livro recomendadíssimo, muito bom mesmo.

*****
(muito bom)

16 de março de 2012

Blasfémia


Autor: Asia Bibi (Anne-Isabelle Tollet)
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Alêtheia Editores
Páginas: 142
Preço: € 10
ISBN:  978-9-89-622417-2
Título original: Blasphème

Avaliação: **** (bom)


Blasfémia chegou até mim no seguimento da iniciativa de leitura conjunta da Paula T, no blog viajar pela leitura.

O objectivo é fazer circular o livro e, assim, dar a conhecer a história de Asia Noreen Bibi, uma cristã num Paquistão populado por milhões de muçulmanos. Asia esforça-se por sobreviver diariamente, fazendo limpezas e trabalhando nos campos, tudo o que possa render dinheiro para comprar alimentos para os filhos. O marido trabalha numa fábrica de tijolos e, juntos, vivem o dia a dia como podem, tentando não enfurecer os vizinhos, que não lhes perdoam por não serem devotos a Alá.

Asia encontra-se presa vai fazer 3 anos, acusada de blasfémia e condenada à morte por enforcamento. O crime? Ter bebido água. Num dia de trabalho no campo com outras muçulmanas, Asia teve sede, tirou água de um poço e bebeu-a. Quando encheu de novo o copo e o ofereceu à mulher a seu lado, assinou a sua sentença de morte.

Asia é cristã e o copo pertencia às companheiras muçulmanas. Ao mergulhar de novo o copo na água depo
is de ter bebido, "sujou" a água; o gesto foi um insulto religioso. A notícia espalhou-se e Asia foi espancada e escoltada pela polícia local. Ficou um ano na cadeia a aguardar julgamento e foi sentenciada à morte, onde aguarda, até hoje, a execução.

«Asia Noreen Bibi, em virtude do artigo 295.º-C do código paquistanês, o tribunal condena-vos à pena capital por enforcamento e a uma multa de 300.000 rupias.» (o valor representa cerca de 2500 euros, uma quantia milionária no Paquistão.)

O
Papa Bento XVI manifestou falou publicamente o seu apoio a Asia e dois políticos do seu país defenderam a sua causa, sendo que um deles, ministro das minorias, chegou a encontrar-se com Hillary Clinton para apelar à libertação da mãe de família. Ambos os políticos foram, entretanto, assassinados por mártires islâmicos, por defenderem os impuros que não professam o Islão.

Hoje, somente o marido e o advogado conseguem vê-la, em condições muito difíceis e apenas através de uma câmara, instalada na cela de Asia. Esta vive em condições sub-humanas, sendo que vários anónimos (com receio de represálias) a ajudam a passar palavra cá para fora. Sempre que as condições de segurança o permitiram, cada capítulo do manuscrito foi-lhe apresentado. O texto deste livro contém o seu total acordo e apoio à sua publicação. Asia Bibi quer ser ouvida e deseja que conheçam a sua história; este é um relato extraordinário na primeira pessoa, que choca quem vive num país minimamente civilizado
.

3 de outubro de 2011

Rainhas trágicas

Autor: Juliette Benzoni
Género:
Biografia

Idioma: Português
Editora: Edições 70
Páginas: 325
Preço: € 19
ISBN:  978-9-72-441222-1
Título original: Reines tragiques

Avaliação: **** (bom)

Julliete Benzoni é uma autora bastante publicada em Portugal, com várias sagas e trilogias disponíveis no mercado, das quais tenho uma, a trilogia Segredo de Estado.

Longe de ser uma má autora, os seus livros têm um tom previsível e cor-de-rosa, o que é bom se for apenas uma obra ficcional e não tão bom se tivermos em conta que são romances referenciados como históricos.

Isso não me impediu de comprar Rainhas Trágicas, que alterna breves biografias de figuras conhecidas com a de figuras mais obscuras, contadas em tom novelesco. Em comum, estas mulheres têm o facto de terem sido rainhas (de título oficial ou de alcova), terem sido detentoras de grande beleza e o seu final ter sido trágico (e até prematuro).

Nomes famosos como Catarina Howard (a 5ª mulher de Henrique VIII), Maria Tudor (a Católica), Agripina (mãe do odiado Nero) e Leonor de Aquitânia (mãe do mítico Ricardo Coração de Leão) são apenas quatro das muitas mulheres cuja vida nos é relatada, sendo o leitor transportado para cortes, leitos e multidões em fúria ou em aclamação, desde o Antigo Egipto ao início do século 20.

Apesar da autora pautar por uma escrita leve, o livro beneficiou disso, aligeirando um volume com tendência a ser maçudo, tornando-o apetecível, cujas trezentas e poucas páginas se lêem ligeiras. Recomendo.

Segue o índice, com as 18 soberanas, que vêm a sua vida relatada numa série de feitos heróicos «que conjuga amor, ambição e ódio, a par do crime, da loucura e da razão de Estado.»

I – Nitócris, a Cinderela do Nilo.
II – Lu, a camponesa de Kiang-Su.
III – Agripina, uma cliente de Locusta.
IV – Teofania, a Imperatriz das tabernas.
V – Fredegunda contra Brunilde, as rainhas rivais.
VI – Leonor de Aquitânia, duas vezes rainha.
VII – Isabel de Angolema, a rainha vassala.
VIII – Margarida, Branca e Joana de Borgonha, as rainhas malditas.
IX – Isabel, a loba de França.
X – Branca de Bourbon, a rainha assassinada.
XI – Catarina Cornaro, rainha de Chipre.
XII – Joana, a Louca.
XIII – Catarina Howard, a quinta vítima de Henrique VIII.
XIV – Maria Tudor, a «Saguinária».
XV – Cristina da Suécia, a assassina de Fontainbleau.
XVI – Carolina Matilde da Dinamarca, a prisioneira de Kroenberg.
XVII – Maria Josefina de Sabóia, uma rainha francesa desconhecida.
XVIII – Draga, rainha da Sérvia: a vítima da Mão Negra.

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