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13 de outubro de 2023

Três Filhas de Eva

 

Autor: Elif Shafak
Género: Romance

Idioma: Português

Páginas: 424

Editora: Quetzal Editores

Ano: 2018
Título original:
Three daughters of Eve

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Elif Shafak é uma escritora e académica, nascida em Estrasburgo (a minha cidade actual). Foi-me recomendada com entusiasmo.

A autora turco-britânica conta já com 19 livros publicados, entre os quais 12 romances, vários deles vencedores de prémios literários; a sua obra, traduzida em mais de 50 línguas, fala sobretudo de mulheres, minorias e imigrantes.

Doutorada em Ciência Política e em Humanidades, Shafak deu aulas em várias universidades na Turquia, nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Três Filhas de Eva, romance cuja acção alterna entre a Istambul do presente, a dos anos 80 e a Oxford dos anos 2000, centra-se em Peri, uma mulher turca abastada.

O ponto de partida é um jantar na capital turca que reúne gente influente, e onde Peri, uma das convidadas, no seguimento de um percalço que aconteceu a caminho do evento, começa a recordar os seus tempos na universidade de Oxford e as amizades que mantinha à altura.

O tempo avança e recua entre os anos 80 (infância de Peri), os da primeira década do novo milénio (quando era estudante em Inglaterra), e o tempo presente da narrativa (durante o jantar).

Lemos sobre o passado de Peri, que nasceu e foi criada na Turquia juntamente com dois irmãos. Os pais eram muito diferentes entre si: o pai tinha ideias seculares e a mãe era profundamente devota ao Islão. Desde pequena que Peri expressa confusão sobre o divino, e na sua passagem por Oxford, decide aprender mais sobre fé – decide frequentar um curso subversivo sobre Deus, leccionado pelo carismático Professor Azur.

Em Oxford, Peri torna-se próxima de duas outras jovens, com quem chega a partilhar casa: Shirin é iraniana, adopta uma estilo de vida ocidental e não tem qualquer interesse em questões religiosas; já Mona é uma muçulmana praticante, que usa o hijab (véu islâmico) e que defende os valores da sua crença.

Há um acontecimento na sua passagem por Oxford que vai mudar a vida de todas elas, mas principalmente de Peri, e que vai condicionar as suas escolhas.

O livro é sólido, mas não gostei por aí além.

As motivações de Peri não são claras, há um período de cerca de 15 anos no romance que não é coberto (a saída de Oxford, o casamento, a relação entre Peri e os filhos) e há várias questões que permanecem sem resposta. As outras duas filhas de Eva do título, Shirin e Mona, aparecem pouco e não são muito desenvolvidas, o que é pena, pois gostaria de ter lido mais sobre elas.

Comprei outros livros de Elif Shafak juntamente com este e vou lê-los, mas Três Filhas de Eva, apesar de bom (e bem escrito), ficou aquém das minhas expectativas.

****
(bom)

2 de agosto de 2023

The Kite Runner / O menino de Cabul - novela gráfica

 

Autores: Khaled Hosseini, Fabio Celoni, Mirka Andolfo
Género: Banda desenhada
Idioma: Inglês
Páginas: 135
Editora: Kindle Edition
 Ano: 2011

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Li O menino de Cabul há um par de anos.

Lembrava-me de uma história triste, com um protagonista, Amir, difícil de simpatizar.

A história d'O menino de Cabul transporta-nos ao Afeganistão dos anos 70, antes das ocupações soviética e talibã, onde os meninos protagonistas desfrutam dos seus verdes anos, entre brincadeiras e sonhos inocentes.

O narrador é Amir, mimado e protegido pelo privilégio que lhe confere a riqueza do pai. O seu melhor amigo é Hassan, filho de um criado da casa, analfabeto e desprezado por fazer parte de uma minoria étnica no país (os hazara).

Mas esses anos são determinantes para formar o carácter de Amir, que cresce para se tornar um homem inseguro, cujas escolhas o assombram durante décadas.

Fonte: Imagem do livro
 
O livro original, publicado pela primeira vez em 2003, arrecadou inúmeros prémios literários e foi adaptado ao cinema (2007). Permitiu ainda ao autor, médico de profissão, dedicar-se à escrita a tempo inteiro.

A BD segue fielmente a história, de uma forma mais resumida e com menos nuances. O livro é melhor (quando não o é? excepcionalmente) mas esta é uma boa introdução à história que poderá levar à descoberta do original.
 
Os temas tratados são complexos e emocionalmente pesados, algo a ter em conta para um público jovem a quem se pense, por exemplo, oferecer o livro.
 
Do autor, Khaled Hosseini, li este e A thousand splendid suns / Mil sóis resplandecentes. Ambos bons, preferi este último.

****
(bom)

10 de janeiro de 2022

O naufrágio das civilizações

 

Autor: Amin Maalouf
Género: Ensaio, Política

Idioma: Português

Páginas: 240

Editora: Marcador

Ano: 2020

Título original:
Le naufrage des civilisations  

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Amin Maalouf é um escritor e historiador líbano-francês, membro da Academia Francesa, composta pelos intelectuais mais proeminentes do meio francês.
 
Maalouf nasceu em Beirute, onde trabalhou como jornalista até 1975, quando rebentou a guerra civil libanesa. Nessa altura, mudou-se para França, iniciando a actividade como escritor. Como romancista, arrecadou inúmeros prémios, incluindo o prestigiado Goncourt.
 
Quando me ofereceram O naufrágio das civilizações, reconheci o nome do autor e, embora nunca o tivesse lido, sabia que a obra de Maalouf é caracterizada pelas temáticas da guerra e da emigração.  
 
Aqui, o resultado é um livro de geopolítica focado no Médio Oriente da segunda metade do século XX, cobrindo a presidência de Nasser no Egipto, a crise do Suez, a guerra dos seis dias (conflito árabe-israelense de 1967), a revolução islâmica do aiatola Khomeini, passando por vários episódios da política norte-americana.

Num mix de memórias e análise, o autor cruza factos históricos e biográficos, com contornos históricos e sociológicos, numa linguagem clara. Reflectindo sobre as últimas décadas, Maalouf aborda ainda o aquecimento global e as mudanças tecnológicas, incluindo a revolução digital e a robótica, que provavelmente farão com que centenas de milhões de empregos desapareçam.
 
Numa referência ao Brexit, menciona o fracasso do projeto europeu, alertando ainda para a perda da credibilidade democrática da América - acelerada durante o mandato de Donald Trump. Ao mesmo tempo que uma nova corrida ao armamento (nuclear) parece inevitável, são cada vez mais sérias as ameaças ao clima e ao meio ambiente, que só poderiam ser enfrentadas com uma solidariedade global que não existe. Cada vez há mais cisão e um maior distanciamento entre povos, apoiado em ideias xenófobas e de preservação de identidade individual onde a inclusão é condicionada pelas agendas políticas.
 
O naufrágio das civilizações é um apanhado das últimas décadas, uma análise que se salda numa leitura tão realista como deprimente. Isso não lhe tira qualidade, mas recomenda-se uma leitura pausada, com intervalos generosos para reflexão.
 
«Será que vamos aprender alguma coisa antes que estas calamidades nos atinjam? Teremos a força de alma necessária para nos recompormos e corrigirmos a situação antes que seja demasiado tarde?»

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(bom)

22 de fevereiro de 2021

Heretic: why Islam needs a reformation now

 

Autor: Ayaan Hirsi Ali
Género: Religião, Não Ficção

Idioma: Inglês

Páginas: 288

Editora: Harper (ebook)

Ano: 2015
 

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A primeira vez que li o nome de Ayaan Hirsi Ali foi no livro de Douglas Murray, A estranha morte da Europa
 
A história desta autora/política/activista é fascinante, ilustrada na autobiografia da mesma, Infiel. Hirsi Ali foi, durante anos, uma muçulmana praticante e o asilo político que lhe foi conferido pela Holanda deu-lhe acesso a uma educação e oportunidades impensáveis na sua nativa Somália. O resultado é que há várias décadas que é ateia e uma crítica do Islão. 
 
Em Heretic: why Islam needs a reformation now, a autora defende uma reforma interna do Islão e aponta o Ocidente como tendo um papel nessa reforma. Algumas ideias parecem algo fantasiosas, difíceis de implementar até numa sociedade “aberta e tolerante” (algo subjectivo), o que dá um tom mais controverso do que realista a alguns capítulos.

Para Hirsi Ali, a violência é inerente ao Islão porque o Islão não é uma religião pacífica; isso não significa que a crença islâmica torne os muçulmanos naturalmente violentos. O que acontece é que a incitação à violência justificada contra os infiéis (todos os que não são muçulmanos) é explicitamente declarada nos textos sagrados do Islão, e todas as ofensas que são elencadas (apostasia, adultério, blasfémia, ameaças à honra da família e ao próprio Islão) podem e devem ser defendidas por todos os muçulmanos. Uma pesquisa por vários jornais nos últimos anos demonstram como os actos de “defesa da honra e do bom nome e imagem do Islão” têm estado na base de inúmeros actos terroristas em França, na Alemanha, nos Países Baixos, na Bélgica...

Devemos ter em mente que o quadro negro que a autora nos pinta do Islão vem inteiramente da sua experiência pessoal e não de um desejo de polémica. Há um esforço visível em analisar cruamente a religião muçulmana, evitando o "politicamente correcto".

Conteúdo islamofóbico? Não. Algumas coisas precisam de ser analisadas, criticadas e submetidas a mudanças e reformas. Por que há-de o Islão de ser diferente e/ou ter um estatuto especial?

Este é um livro corajoso. Hirsi Ali livro menciona outros "companheiros de luta", vários activistas muçulmanos dispostos a discutir uma reforma do Islão. As suas vozes pretendem ecoar as de milhões que viverão na opressão e no medo. A própria autora vive com ameaças de morte desde que, em 2004, escreveu o guião da curta-metragem de Submission, realizado por Theo van Gogh, que foi assassinado por um fundamentalista islâmico pouco tempo depois da difusão daquela num canal de televisão. Desde então, qualquer difusão está proibida, embora a curta esteja disponível na internet. 

Até à data, o livro não foi editado em Portugal.

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(bom)

11 de outubro de 2020

O menino de Cabul

 
Autor: Khaled Hosseini
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 333
Editora: Editorial Presença
Ano: 2013

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Depois de ter lido A thousand splendid suns, sabia que voltaria a ler Khaled Hosseini, nomeadamente o título que o tornou famoso.
 
Este livro, publicado pela primeira vez em 2003, arrecadou inúmeros prémios literários e foi daptado ao cinema (2007). Permitiu ainda ao autor, médico de profissão, dedicar-se à escrita a tempo inteiro.
 
O menino de Cabul - The kite runner, no original - é a história de dois rapazes, Amir e Hassan, com pouco em comum: etnias diferentes (pashtun e hazara), crenças diferentes no Islão (sunita e xiita), estratos sociais díspares (um pai abastado e um pai serviçal); é quando lançam papagaios que se esbate a diferença, animados pelo mesmo fim. 
 
É aquando de uma corrida pela captura de um papagaio que algo acontece que vai mudar para sempre a vida dos dois rapazes. O que acontece naquele dia, num Afeganistão pré-talibã já profundamente desigual, assegura que o rapaz pobre e analfabeto (Hassan) nunca irá além do seu lugar pré-definido e autorizado na sociedade: um excluído de uma minoria étnica e desprezada, sem direitos nem voz. 
 
Amir  faz também as suas escolhas, as escolhas de um menino cobarde que crescerá para se tornar num homem cobarde, assombrado décadas fora pelas suas escolhas e pela sua relação com Hassan, mesmo com 12 mil quilómetros de distância entre ambos.

O menino de Cabul tem um protagonista impossível de admirar. Isso tornou-o uma leitura difícil para mim. O tema principal do romance alterna entre a culpa e a redenção mas o caminho é penoso, com várias decisões questionáveis, hipocrisia e falta de tecido moral. 
 
A menção do Afeganistão evoca imagens de guerra, desigualdade social, mulheres veladas e intolerância religiosa. A escrita de Hosseini não é especialmente evocativa e há partes da narrativa algo forçadas e desinspiradas na sua previsibilidade, com personagens muito estereotipadas.
 
Este livro ficou aquém das expectativas. A sua força reside nos temas e de nos dar a conhecer vários episódios da história e costumes afegãos (o quotidiano durante as ocupações soviética e talibã, o costume abominável de bacha bazi (ainda praticado, apesar da moldura penal!) folclore, etc.).
 
A thousand splendid suns continua o meu favorito dos dois lidos até agora.

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(bom)

29 de agosto de 2020

A estranha morte da Europa: imigração, identidade, religião

 
Autor: Douglas Murray
Género: Política, Comentário Social
Idioma: Português
Páginas: 352
Editora: Desassossego
Ano: 2018
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Depois de ler The madness of crowds, fiquei fã de Douglas Murray. Quer se subscrevam as suas ideias parcial ou totalmente, ou de todo, a sua capacidade de analisar temas pertinentes num contexto global e societal é admirável.

Murray é neoconservador, homossexual e ateu. Há vários anos que é alvo de ameças de morte devido às suas opiniões, nomeadamente sobre política externa e o Islão, dois dos seus temas de eleição (tem vários outros). 


Sendo um crítico frequente do Islão e dos muçulmanos, «muitos dos quais alimentam um "fundamentalismo maligno", baseado numa mentalidade medieval», vê o relativismo cultural como uma exacerbação do problema. Classifica "islamofobia" como uma expressão sem sentido, pois crê que há um número considerável de razões para se temer vários aspectos e versões do Islão. 

Após o tiroteio no jornal Charlie Hebdo, em 2015, foi aconselhado - à semelhança de outros intelectuais e políticos que fizeram comentários críticos ao Islão - a não aparecer em público.

A estranha morte da Europa saiu em 2017, e será seguro deduzir que terá sido uma leitura da situação negra que se vivia na Europa de então, com polícias e militares armados a patrulharem várias cidades europeia na sequência de vários atentados terroristas em Paris, Nice, Londres, Copenhaga, Berlim, Hannover e Bruxelas.

Douglas Murray mantém o mesmo tom do início ao fim do livro: a Europa está a morrer, com a cultura europeia «assassinada» por hordas de imigrantes muçulmanos, auxiliados na sua missão por (cobardes) políticos liberais. 
Segundo Murray, políticas de imigração frouxas abriram as portas para migrantes económicos (não confundir com refugiados, estes sim candidatos elegíveis para asilo) e aqueles empenhados em cometer crimes de agressão física e sexual e homicídio em massa. Enquanto isso, os europeus, exaustos da sua própria história e desgastados pelo declínio crescente da fé cristã, são lentamente substituídos por uma população de estrangeiros implacavelmente hostil e anti-integração. O livro foca-se quase exclusivamente no impacto da imigração na cultura europeia, não na sua economia, fazendo uns apontamentos (poucos) ao custo dos migrantes ao Estado-providência do país em que escolhem fixar-se (maioritariamente Alemanha e península escandinava).
 

Citando censos demográficos, notícias e entrevistas em campos de refugiados, a Europa de Murray é nada menos do que apocalíptica. Ao longo de mais de 300 páginas, há uma litania de crimes cometidos por imigrantes, requerentes de asilo e refugiados, entre considerações várias sobre a evolução histórico-social da Europa versus a da África (Norte) e Ásia (Médio Oriente). A extensa lista ilustra uma crise gigantesca e contínua que alguns países europeus evocam actualmente para controlar as suas fronteiras e estreitar a sua política externa (Hungria, Polónia, Itália), algo que os EUA têm vindo a praticar há umas décadas e que foi um dos temas-chave da campanha de Trump.

É um livro duro de ler e difícil de digerir, sobretudo para quem tem uma visão globalista/liberal/inclusiva. Ver uma compilação tão crua, que remete para segmentos que todos lemos ou vimos nos media, levanta, no mínimo, questões vitais e apura-nos o ouvido, confirmando nos discursos políticos toda a falta de clareza e demagogia que Murray alerta aqui quando o tema é a imigração em massa e/ou a crise dos refugiados. 
Claro que os políticos, estejam onde estiverem e independentemente da nacionalidade, nunca poderão ter uma experiência parecida com a do cidadão comum, confrontado quotidianamente com a «ameaça ao seu estilo de vida». Um livro indispensável nos dias de hoje, e a ser lido com filtro - como todos os livros políticos.

A estranha morte da Europa poderá - deverá - dar origem a uma discussão alargada sobre imigração, identidade e religião, temas demasiado vastos para condensar num livro tão mono-temático. Claro que a Europa deve acolher refugiados, não escancarar as portas às hordas de migrantes económicos que buscam um estado social que não existe nos seus países de origem e sem qualquer interesse de assimilação. Claro que quotas têm de ser criadas pois as economias não são elásticas, mesmo as dos países mais ricos. Óbvio que tem que se fazer uma leitura dos atentados terroristas dos últimos anos com frontalidade e sem preocupação com o "politicamente correcto" e em magoar a sensibilidade religiosa muçulmana, se o que se passa é em terrirório europeu, não em Damasco, Bagdade ou Cabul. 

Há que ter orgulho pelo muito que a Europa passou para, devagar, alcançar as liberdades que existem hoje, liberdades essas que devem ser usufruídas por todos plenamente, não customisadas porque vão contra faccções religiosas que se recusam a uma reforma aos dias de hoje; devemos isso aos nossos antepassados (excerto do livro a ler aqui - via wook).

*****
(muito bom)

2 de abril de 2020

Persépolis


Autor: Marjane Satrapi
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 352 (integral)
Editora: Vintage Digital (e-book)
Ano: 2008
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Marjane Satrapi (pseudónimo de Marjane Ebihamis) é de origem iraniana e nesta série de banda desenhada muito aclamada, conta a sua história.

É uma criança quando o regime de Reza Pahlavi cai; o xá fora posto no poder pelos norte-americanos, que queriam acesso livre ao petróleo iraniano. O povo iraniano, ao tentar libertar-se de cinquenta anos de tirania, abriu a porta ao regime islâmico, não lucrando com a troca.


A primeira parte de Persépolis é narrada por uma criança que tenta entender o mundo dos adultos e fazer sentido das coisas que lhe são contadas. Estamos no início da década de 80 e as universidades estão a ser encerradas; o uso do véu torna-se obrigatório para as mulheres. Os pais da precoce Marjane protestam contra o regime mas a repressão é violenta. Assustados, mandam a filha para a Áustria para prosseguir os estudos.

É assim que Marjane começa a frequentar o liceu francês em Viena, sem falar uma palavra de alemão. Os amigos são miúdos rebeldes que lhe dão a conhecer as drogas e a sexualidade livre. Dividida entre duas culturas completamente diferentes, luta por ter algum equilíbrio. 

Quando após quatro anos, Marjane regressa a Teerão, a guerra com o Iraque terminou mas a cidade está em ruínas e o governo continua repressivo. A jovem cai numa depressão grave mas com o apoio da família consegue ultrapassá-la e voltar a concentrar-se na sua educação.

O que eu mais gosto nos desenhos de Marjane Satrapi é a mistura do trágico com o burlesco, nunca se furtando à auto-crítica, aos eventos históricos e ao juízo à sociedade islâmica iraniana, onde a liberdade de expressão não existe, onde tudo é proibido (maquilhagem, música, festas, demonstrações de afecto). Os iranianos tentam criar, em casa, um espaço de liberdade e identidade, mas muitos são influenciados pelos valores tradicionais e são eles mesmos a repreender outros que não sigam a ideologia do regime. 

Persépolis narra gráfica e habilmente os sentimentos e emoções de uma mulher rebelde que recusa viver em submissão, ilustrando de uma forma poderosa o cenário histórico-político iraniano. É uma história arrebatadora, que merece ser lida.

O livro, banido de várias escolas norte-americanas - onde foi incluído como leitura obrigatória, gerando mil controvérsias -, ganhou vários prémios, foi adaptado ao cinema, premiado em Cannes e nomeado aos Óscares. A autora abandonou o Irão em 1994 para não mais voltar. Obteve a nacionalidade francesa e reside em Paris, vivendo da realização, da escrita e da ilustração.

*****
(muito bom)

26 de janeiro de 2020

A thousand splendid suns


Autor: Khaled Hosseini
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 419
Editora: Bloomsbury
Ano: 2008
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Em conversa com uma amiga, os livros de Khaled Hosseini vieram à baila. Ela leu três, foi muito elogiosa em relação a todos; eu tenho The kite runner mas ainda não o li.

Passados uns dias, A thousand splendid suns aterrava cá em casa, emprestado entusiasticamente, com a indicação de que deveria ter prioridade sobre todas as outras leituras - e, nem de propósito!, com o período do Natal e Ano Novo a aproximar-se, «lê-se num instantinho».
«Learn this now and learn it well. Like a compass facing north, a man’s accusing finger always finds a woman. Always.»
É verdade, A thousand splendid suns lê-se bem, é interessante, mas não é o género de história que eu devore (ou talvez tenha sido a forma como foi escrito), por isso levei mais tempo do que o esperado. 

O cenário é o Afeganistão. Em meados dos anos 70, conhecemos a nossa primeira protagonista, Mariam, bastarda (harami) de uma serviçal e do dono da casa. Envergonhado pelo seu impulso, Jalil, homem de negócios, convence a mãe de Mariam a mudar-se para a periferia de Herat, onde as visita todas as quintas-feiras. Mesmo vivendo isoladas e de forma muito humilde, a jovem Mariam nunca esquece a sua posição de harami - e a mãe não a deixa esquecer. Mas a luz dos seus olhos é o pai, e Mariam vive para as suas visitas breves, onde ele a leva a pescar ou conversa com ela, trazendo por vezes pequenos presentes, que Mariam recebe como se fossem jóias. Quando ele se vai embora, Mariam volta à rotina cinzenta e à contagem decrescente até à próxima quinta-feira.

Mariam cresce nos "anos dourados" do Afeganistão, embora seja vítima de um casamento combinado com um homem décadas mais velho e viva sob o seu controlo. Nos anos 90, com os Talibã no poder, aumenta a violência, o fundamentalismo, a fome e as mortes. A casa de Mariam recebe uma terceira habitante, Laila, a nossa outra protagonista, e as duas formam uma amizade fraternal, apesar das enormes diferenças e dos desafios, aumentados depois do 11 de Setembro, quando os EUA declaram guerra ao Afeganistão e se inicia a caça a Osama bin Laden.

Juntas, Mariam e Laila tentam sobreviver, apesar da sua condição menor aos olhos da sociedade e de um ambiente familiar tóxico. O relato dos seus dias não é uma leitura leve, e é especialmente difícil de ler por uma ocidental, criada num sistema onde os direitos mais fundamentais são assegurados sem pestanejar. É também uma história triste, com passagens de esperança e um final feliz q.b.

Pessoalmente, não achei o livro tão lírico como publicitado, apesar de o ter lido na língua em que o autor o escreveu - tem passagens evocativas mas são breves. Das duas personagens principais, achei Mariam mais interessante e com uma história muito mais rica. Confesso que à medida que a personagem de Laila foi ganhando mais destaque, o meu ritmo de leitura abrandou. Também gostaria que a relação entre as duas mulheres tivesse sido mais descrita, em vez de relatada em alguns parágrafos. Mas A thousand splendid suns é um bom livro, bem conseguido, que deve ser lido, pois é um testemunho das privações que assolaram o povo afegão e da forma errada como o Islamismo foi/é usado para calar e oprimir.

Vou devolver o livro com um sorriso; gostaria de ler os restantes livros de Khaled Hosseini. 
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(bom)