23 de fevereiro de 2020

Miss Pas Touche


Autor: Kerascoët
Género: Banda desenhada
Idioma: Francês
Páginas: 216
Editora: Dargaud
Ano: 2015

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Paris nos anos 30. Depois da euforia com o fim da primeira guerra mundial, a capital francesa está novamente em crise com um cenário de desemprego, inflação e racionamento - cada lar limitado a 300g de pão por dia, por exemplo. 

Blanche e Agathe são duas irmãs que sobrevivem sendo criadas internas numa casa de uma velha aristocrata. O salário é baixo mas é melhor que nada, e não dormem na rua. Blanche, fiel ao seu nome, é tímida e ajuizada, e prefere ficar em casa a sair. Já Agathe é um espírito mais livre e gosta de  sonhar acordada; é adepta dos arrais parisienses, conhecidos por guinguettes, onde vai com uma amiga. Os dias repetem-se sem sobressaltos. 

Até à noite em que Agathe é assassinada em frente à irmã, que não consegue distinguir as feições dos assassinos. Despedida e sem onde morar, de luto pela irmã, Blanche decide fazer a sua própria investigação assim que arranjar outro trabalho. Acaba a trabalhar no bordel mais conceituado da cidade, frequentado pela nata da sociedade e onde a discrição é chave.

Rebaptizada Miss Pas Touche (Menina não-me-toques), e firme nas suas resoluções - proteger a sua virgindade e descobrir os assassinos de Agathe - Blanche inicia a sua actividade como "dominatrix", insultando e zurzindo os clientes com um gosto e ferocidade que lhe aumentam a reputação e a utilidade para o negócio.
 
O meu livro é a edição integral, que reúne os 4 volumes que saíram entre 2006 e 2009:

Volume 1 : La Vierge du bordel (a virgem do bordel);
Volume 2 : Du sang sur les mains (sangue nas mãos);
Volume 3 : Le prince charmant (o príncipe encantado);
Volume 4 : Jusqu'à ce que la mort nous sépare (até que a morte nos separe);

Os temas são adultos mas a violência não é explícita no traço nem no texto. As personagens são "coloridas", muito expressivas, e as principais são bem dimensionadas. Há alguma previsibilidade nos últimos dois volumes, sendo que os dois primeiros são os mais consistentes. O tema da amizade e dos laços afectivos tem destaque e há vários temas (homossexualidade, classes sociais, igualdade de género) que são explorados à luz da época de uma forma muito bem sucedida.

Para mim, foi  uma excelente iniciação ao trabalho de Kerascoët, uma dupla de ilustradores franceses, e gotaria de ler mais deles no futuro.

****
(bom)

16 de fevereiro de 2020

We sold our souls


Autor: Grady Hendrix
Género: Terror
Idioma: Inglês
Páginas: 337
Editora: Quirk Books (e-book)
Ano: 2018
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Kris Pulaski tem 47 anos e acorda todos os dias com uma sensação de vazio. Actualmente faz o turno da noite num hotel mas na sua juventude foi guitarrista dos Dürt Würk, uma banda de heavy metal.

A banda preenchia Kris, dava-lhe vida, e após anos de viagens desconfortáveis e de concertos em bares que mal pagavam o combustível, quando surgiu a hipótese de um contrato que trazia segurança e mais conforto, parecia que a dedicação tinha, então, dado frutos.

Porém, algo aconteceu nessa noite - a noite do contrato - e anos mais tarde, apenas o vocalista, Terry Hunt, alcançou o estrelato; todos os outros membros da banda deixaram a música, e estão mais ou menos conformados.

«A girl with a guitar never has to apologize for anything.»

Mas Kris não se consegue lembrar de tudo o que aconteceu nessa noite, e há pormenores que não batem certo. Ultimamente, isso consome-a ao ponto de não conseguir pensar noutra coisa; decide contactar os ex-membros da banda, o que a leva a confrontar as escolhas que fez no passado.

We sold our souls é um livro aliciante, que se lê em poucos dias. Para um fã de música em geral é bom mas para um fã de metal é ainda melhor. Há várias referências no livro que passarão ao lado de pessoas que não conhecem o género, mas mesmo sem isso, é uma história que entretém - com isso, é uma leitura excelente. O início de cada capítulo contém uma notícia, um excerto de uma entrevista ou de um programa de rádio para ajudar a situar a acção e a fornecer alguns detalhes extra.

Há uma crítica directa do autor ao mundo da música e de como os artistas são seduzidos a "vender-se", a reinventar-se ou a tornar a sua música mais comercial - e as consequências de manter ou mudar o som original.

Como é um livro de terror, há a nuance sobrenatural, assente na ideia de que a alma de Kris terá sido a moeda de troca para o sucesso de Terry Hunt. Porém, a premissa vai mais além, e de uma forma bem conseguida pelo autor. A escrita é inteligente e visual, com algumas cenas arrepiantes; é um livro de terror muito bem feito, com uma protagonista forte e credível, que dá gosto seguir. Há também uma personagem secundária, que acrescenta bastante aos arrepios e ao tom de terror.

Adoro descobrir novos autores! Em Portugal, actualmente, há apenas um título disponível traduzido (e não é este): O exorcismo da minha melhor amiga. Já procurei por outros livros de Grady Hendrix e pareceram-me todos interessantes - dois dos quais a ler em breve.

*****
(muito bom)

8 de fevereiro de 2020

Can't Hurt Me


Autor: David Goggins
Género: Biografia, Motivacional
Idioma: Inglês
Duração: 13h e 37min
Editora: Lioncrest Publishing (Audible)
Ano: 2018

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Nunca tinha ouvido nem lido o nome David Goggins. Mas numa ocasião em que procurava informação relativamente a uma lesão de corrida, site após site, o nome não parava de aparecer. Um post em particular mencionava este livro e como era inspirador.

A história de David Goggins é a história de um menino que nasce e cresce numa vizinhança pobre, tem um pai violento, vive situações racistas e tem dificuldades de aprendizagem e medo da água. Anos mais tarde, vê-se obeso, sem perspectivas de futuro e a contar tostões. O medo da água não desapareceu.

David Goggins decide mudar radicalmente os seus hábitos, e começa por ser mais activo e por comer de forma mais saudável. Rapidamente desenvolve uma mentalidade que não é para toda a gente, e à medida que vai mais além, as suas escolhas levam-no a alistar-se nas forças armadas, depois nos Navy Seals, o que envolve uma força mental excepcional e saber nadar.

Capítulo a capítulo, e neste audiolivro, o narrador é o próprio David Goggins, ouvimos o que o autor disse, e diz, a si mesmo para ultrapassar os obstáculos, ouvimos as entoações e adivinhamos os intentos masoquistas de um homem cuja felicidade passa por colocar-se em situações extremas, fisicamente desafiantes, e lutar por ultrapassá-las, obrigando o corpo a suportar o que a mente já aceitou.

Há algumas histórias realmente incríveis - ligadas ao ultra racing, às tentativas de bater recordes mundiais de resistência -, em que se percebe que a superação vem do interior de uma forma sobre-humana, e nessa altura o leitor poderá aprender e perceber como ele próprio poderá superar algo. Nessa altura de execução surge a máxima de Can't hurt me, de como ir mais além é realmente possível e uma vez atingida essa fasquia, há sempre uma próxima etapa.

Pessoalmente, é uma filosofia que me toca, com que me identifico. Não faltam vídeos de motivação disponíveis a custo zero, nem oradores com diferentes abordagens, e há que encontrar aquele que ressoa connosco. Eu acho David Goggis realmente inspirador, se bem que extremo por vezes. Mas admiro-o, muito, o seu percurso, a forma como se reinventou, e a mensagem deste livro é absolutamente fantástica e só há coisas positivas a tirar daqui.
*****
(muito bom)

3 de fevereiro de 2020

O adeus a Mary Higgins Clark aos 92 anos







No passado dia 31 de Janeiro, morreu a escritora americana Mary Higgins Clark, apelidada de "Rainha do Suspense".

Foto: bestimage

Todos os 51 títulos que escreveu foram best-sellers e venderam mais de 100 milhões de cópias só nos Estados Unidos; o seu livro de estreia, publicado na década de 70, vai presentemente na sua 75.ª edição. Apesar disso, e à semelhança de vários autores famosos, viu o seu trabalho rejeitado várias vezes (quarenta, de acordo com a Wikipédia) antes de alguém aceitar - finalmente! - publicá-la.


Quase todos os livros que li de Mary Higgins Clark requisitei-os da biblioteca municipal da cidade onde cresci, nos anos 90. Dos títulos publicados a partir do ano 2000, li dois apenas. A autora era conhecida por publicar um livro por ano.

Vários livros foram adaptados a telefilme nos anos 80 e 90 (não envelheceram bem), e à medida que o género ganhou outro fôlego e contornos com nomes como Stieg Larsson, Nicci French, Patricia Cornwell, Jo Nesbo e Gillian Flynn, tornou-se mais sofisticado. Mas, a título pessoal, Higgins Clark continua uma referência como uma das primeiras autoras policiais que li, a par com a incomparável Agatha Christie.

 Fonte:
Wikipedia e New York Times.
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