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18 de junho de 2020

The madness of crowds

 
Autor: Douglas Murray
Género: Comentário Social
Idioma: Inglês
Páginas: 288
Editora: CBloomsbury Continuum (ebook)
Ano: 2019
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Com base nas minhas aquisições, o algoritmo da Amazon propôs-me este livro, de cujo autor (um intelectual e comentador político britânico) nunca ouvi falar. Gostei do excerto que li.

Começa com duas citações: uma de G.K. Chesterton e outra de Nicki Minaj (uns versos do seu hit "Anaconda").

O livro debruça-se sobre os temas sociais mais controversos das últimas décadas, dividindo-se em 4 partes temas-base: Gays, Mulheres, Raça, e Transgénero. 
 
Em cada um deles, Murray contrapõe as ideologias dos actores que querem ser aceites, como iguais, pela sociedade, confiando numa evolução natural das coisas e das ideias, com aqueles que querem, pelo activismo mais ou menos extremo e por uma demonstração de um entendimento mais elevado e algo sobranceiro, mudar o que é socialmente aceite. 
 
Os confrontos são inevitáveis, o que é natural, mas há várias situações ligadas ao politicamente correcto que levam a censura e punição (despedimentos, julgamento via social media, perseguição pessoal e destruição de carreiras) e revolucionam as figuras e as ideias tidas como ideais sociais. O autor do livro é considerado «the wrong sort of gay» por ser neoconservador, o rapper Kanye West vê a sua "blackness" questionada porque apoia Donald Trump, a activista feminista Germaine Greer deixa de ser considerada como tal porque não aceita que um homem transgénero seja considerado uma mulher. 
 
Murray descontrói várias das bandeiras dos chamados "social justice warriors" (justiceiros sociais), um termo que se tornou pejorativo nas últimas duas décadas, mais preocupados em verem validadas as suas ideas politicamente correctas do que efectivamente lutarem por elas ou aprofundarem a sua «convicção progressista».

O tema do papel das mulheres na sociedade e a sua evolução, e o tema da raça não aportam novidades para quem tenha lido livros ou artigos recentes sobre isso, mas os capítulos sobre a identidade de género vale o preço do livro, levantando questões extremamente pertinentes e distinguindo conceitos (os vários subgrupos, a cirurgia de redesignação sexual, toda uma panóplia de adjectivos a incorporar nos idiomas). O livro está bem pesquisado e os exemplos são múltiplos mas muitas das situações vêm, sem surpesa, dos Estados Unidos.

É um livro controverso mas também corajoso. Os temas prestam-se a isso. A loucura das massas do mundo ocidental manisfestam-se nas redes socais, sendo o twitter o poleiro de eleição, e vários apontamentos de Murray têm tanto de certeiro como de parcial na sua análise do fenómeno. Murray não esconde (nem poderia) o seu alinhamento político, mas não é preciso afinar por esse diapasão para apreciar os vários pontos de vista e reflectir sobre eles.
 
Infelizmente, apesar da racionalidade presente em todo o livro, a loucura das massas certificar-se-à que o caminho será longo na abordagem e discussão dos actuais problemas sociais. Não há nada de racional, de lógico, nas massas. Mas fica registado o esforço de Murray.

*****
(muito bom)

22 de abril de 2020

A Peste



Autor: Albert Camus
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 320
Editora: Vintage (ebook)
Ano: 2012

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Publicada em 1947, A Peste é considerada uma das obras mais notáveis de Albert Camus, Nobel da Literatura de 1957.
 

O livro tem sido muito mencionado desde que o mundo entrou em "quarentena covid" e parece ter-se tornado leitura obrigatória.

A acção d'A Peste passa-se em Orão, na Algéria sob domínio francês, onde
as vidas dos habitantes são controladas «pelos seus hábitos, as rotinas de trabalho, idas a restaurantes e cinemas, casos amorosos superficiais». 

Quando de um dia para o outro, começam a ver-se alguns ratos mortos pelas ruas, a vida continua sem sobressaltos. Quando os ratos começam a morrer às centenas, o que obriga à recolha visível e cremação dos cadáveres, o facto é noticiado ainda sem grande alarido. Quando começam a surgir as primeiras mortes entre a população, as autoridades estão reticentes em adoptar medidas extremas.
  
«Everybody knows that pestilences have a way of recurring in the world; yet somehow we find it hard to believe in ones that crash down on our heads from a blue sky. There have been as many plagues as wars in history; yet always plagues and wars take people equally by surprise.»

Leva algum tempo mas, gradualmente, o público começa a ver a epidemia como um desastre colectivo. A peste traz «justiça imparcial», com vítimas de todos os estratos sociais. Finalmente decreta-se a quarentena. Aqueles que tentam escapar da cidade são alvejados.

Devido ao elevado número de mortes, os funerais começam a ser feitos sem cerimónia. Eventualmente, torna-se necessário enterrar as vítimas em valas comuns. Quando não há mais espaço no cemitério, as autoridades começam a cremar os corpos.

Vários meses se passam até se voltar à normalidade. 

Até lá, a população tem de lidar com o isolamento, a privação, o desaparecimento de entes queridos, a mortalidade iminente. Há saques, contrabando, escapes hedonistas. Há esperança, amizade, superação, numa história que é densa e fortemente filosófica. Os temas são actuais e a semelhança com o que se passa presentemente é arrepiante. É uma grande narrativa.

Não é um livro perfeito. Pessoalmente, creio que é demasiado longo; teria lucrado com o corte de alguns capítulos. Há muita repetição e algumas situações parecem acessórias, sendo inicialmente muito desenvolvidas e concluídas sumariamente. Há somente um par de personagens femininas (e são secundárias).

No final, relembra-se que uma pandemia está sempre iminente - apenas adormecida -, e o ser humano nada pode fazer para o impedir. É um facto que não podemos negar, somos disso testemunhas; o mundo não será o mesmo depois disto.
*****
(muito bom)

12 de abril de 2020

Maid - hard work, low pay and a mother's will to survive

 
Autor: Stephanie Land
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 288
Editora: Hachette (ebook)
Ano: 2019

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Aos 28 anos, os planos de Stephanie Land passavam por ter um curso superior e tornar-se escritora. Quando um romance de Verão resultou numa gravidez não planeada, viu-se mãe solteira sem suporte familiar.

Para sobreviver, tornou-se empregada de limpeza; a dificuldade de proporcionar à filha a melhor vida possível, enquanto estudava on-line e passava 4 a 6 horas dárias a limpar casas, foi uma provação; à parte, mantinha um blog para manter o “bichinho” da escrita.

Em Maid, a autora fala da sua experiência de assalariada mal paga que depende de ajuda governamental para pagar a renda, as contas mensais e a alimentação. Fala do estigma de viver no limiar da pobreza, de pagar as compras de supermercado com cupões de alimentos e de se sentir encurralada.

Fala da classe média alta americana e de como é limpar as suas casas. Stephanie não conhece nem de vista a maioria dos clientes, não sabe o seu nome mas observa tudo com curiosidade; tenta imaginar a vida dos habitantes das casas através das suas roupas e objectos diversos, e várias vezes dá por si a pensar em como os bens materiais que tanto lhes inveja não são, afinal, garante de felicidade.

Há vários pormenores de como as limpezas às casas são feitas, como tudo é organizado, e a autora relata-nos o seu quotidiano de esfregar chãos e casas de banho até ficarem num brinquinho, e como o trabalho duro e sem benefícios resulta em espasmos musculares, noites mal dormidas e dores de costas suportadas com ibuprofeno.

Apesar de reconhecer a luta constante de Stephanie Land, e de ser inegável a sua tenacidade, tenho de admitir que não sou fã da sua forma de pensar, que levou a decisões pouco felizes – acredito que a sua fraca auto-estima e desamparo familiar não ajudaram.
 
Há um final feliz para a autora e para a filha, cujas circunstâncias eram extremamente difíceis - é bom ler uma história de superação.

****
(bom)

7 de abril de 2020

Animal farm / O triunfo dos porcos / A quinta dos animais


Autor: George Orwell
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 154
Editora: Penguin (e-book)
Ano: 2003
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Numa quinta imaginária na Inglaterra, os animais decidem revoltar-se e reclamar a quinta dos humanos «cruéis e exploradores» para si.  Uma ideia inocente e aparentemente tão simples leva a uma reflexão extraordinária sobre a sociedade humana. 

Após se tornarem os donos da quinta, é redigido um conjunto de mandamentos, para unir os animais:
1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

Porém, rapidamente acontecem situações que desafiam um cenário de igualdade, com alguns animais a trabalharem mais, outros a descansarem mais, poucos a assumirem mais protagonismo; vai-se firmando o despotismo, a propaganda, a ausência de julgamentos justos e as execuções.

 «Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros.»

O tom do romance é objetivo, relatando factos e quase nunca enveredando por considerações filosóficas. Esse tom e o desenrolar (ultrajante!) da acção, numa ironia gradual, confirmam a triste realidade que pouco mudou - a maioria dos animais continua a ser explorada. 

Existem vários conflitos na história: os animais contra Jones (o dono da quinta), o Bola de Neve contra o Napoleão (os dois porcos líderes), os animais comuns contra os porcos, os animais da quinta contra os humanos vizinhos das outras quintas; todos eles retratam a tensão subjacente entre classes, entre explorados e exploradores, entre os ideais utópicos e a (dura) realidade do socialismo.


Orwell escreve de uma forma simples e directa, sem floreados. A acção é muito bem dirigida, com a tensão a escalar de uma forma credível; tudo parece desenrolar-se de uma forma tão natural que é assustador tendo em conta o ponto de partida.

George Orwell escreveu esta fábula para satirizar a Revolução Russa (1917-1945), nomeadamente a corrupção dos ideais socialistas, o perigo de uma classe trabalhadora ingénua e o uso da propaganda como instrumento do abuso de poder.

Escolhi reler o texto na língua original mas o título usado para as primeiras edições em Portugal é muito boa, embora contenha spoilers. O final chega sem surpresas, infelizmente. Animal farm / O triunfo dos porcos / A quinta dos animais é um clássico incontornável.
«Não havia dúvidas agora sobre o que estava acontecendo às caras dos porcos. Os que se encontravam lá fora olhavam do porco para o homem, do homem para o porco e novamente do porco para o homem, mas era já impossível distinguir uns dos outros
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(obra prima)

21 de outubro de 2018

O tigre branco



Autores: Aravind Adiga
Género: Policial
Idioma: Inglês
Páginas: 276
Editora: Free Press
Ano: 2008
ISBN: 1416562605
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O Tigre Branco arrebatou por unanimidade o Man Booker Prize em 2008.

Romance de estreia do autor, Aravinda Adiga, mostra uma Índia pouco explorada pela ficção: violenta e crivada de desigualdades socioculturais - bem diferente da imagem de nação exótica, dos saris de mil cores, da ioga e da elevação espiritual a que estamos habituados.

Toda a obra é uma longa carta dirigida ao Primeiro-Ministro chinês, Wen Jiabao, que visitará o país em breve, escrita ao longo de sete noites. O autor da carta, Balram, nascido na “Escuridão” – a Índia rural, paupérrima e subserviente -, apresenta-se como o tigre branco do título, um «empreendedor social» que narra a sua ascensão de aldeão miserável até à luz do seu sucesso empresarial; na “Luz” vivem os políticos, actores, homens de negócios, numa almejada vida de prosperidade financeira pertencente a uma minoria e desconhecida por milhões de indianos.

Nas suas cartas, Balram não procura a absolvição pelos crimes que cometeu, mostra-se apenas como o exemplo de um dos milhões de pobres na Índia, agrilhoados pelo sistema de castas; mostra-nos ainda como o suborno e a corrupção incrustadas são a base do milagre económico do país - as observações do narrador são agudas e inquietantes, o tom sempre sarcástico.

O título é a metáfora do livro. Por ser um animal raro na selva, Balram foi assim apelidado por um inspector escolar por ser capaz de ler e escrever quando poucos eram capazes de o fazer. Apesar de lhe ter sido prometida uma bolsa para que pudesse explorar o seu potencial, Balram teve de suspender os estudos quando a família o empregou para ajudar a saldar uma dívida.

O Tigre Branco é gráfico mas aqueles que já visitaram a Índia facilmente reconhecerão várias referências e recordarão cenas quotidianas nos mercados, nas estradas, nas ruas. Este é o retrato de uma sociedade brutal e impiedosa, em que as injustiças se perpetuam geração após geração. Balram consegue escapar da escuridão de um destino de servidão e fá-lo sem remorsos, alcançando a desejada luz da independência financeira.

Um livro excelente.


*****
(muito bom)
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