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19 de março de 2020

O marinheiro que perdeu as graças do mar


Autor: Yukio Mishima
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 176
Editora: Assírio e Alvim
Ano: 2008
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Este é o primeiro livro que leio de Mishima, pseudónimo de Kimitake Hiraoka, nascido em Tóquio em 1925.

Mishima suicidou-se aos 45 anos por seppuku (vulgo haraquíri), seguindo o código de conduta dos samurai, por ideologia e por não se rever na direcção que a sociedade japonesa estaria a tomar - não terá ajudado uma tentativa de golpe de estado que lhe valeu enorme contestação.

Em O marinheiro que perdeu as graças do mar, o adolescente Noboru está fascinado com a relação amorosa da mãe com Ryuji, um marinheiro que carrega a grandeza do mar e uma aura de masculinidade impossível de ignorar. Noboru não é próximo da mãe, não tem uma figura paternal na sua vida e faz parte de um grupo de rapazes com tendências violentas. A presença de Ryuji vai agitar e mudar várias coisas.
«A glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga.»
Há partes do livro viscerais, outras de grande beleza evocativa. É raro encontrar um autor assim; uma cena particular envolvendo um gato é aflitivamente descritiva, mas a descrição é ao pormenor, tornando-a impossível de esquecer. É um livro muito denso.

Li que Mishima foi várias vezes indicado como candidato ao Nobel da Literatura, e consigo ver o porquê. Há força na sua escrita e a leitura não é fácil - as personagens d'O marinheiro que perdeu as graças do mar marcaram-me ao ponto de não querer voltar ao universo do autor tão cedo. 

****
(bom)

8 de março de 2020

Viral


Autor: Helen Fitzgerald
Género: Romance
Idioma: Inglês
Páginas: 272
Editora: Faber & Faber
Ano: 2016
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Su é uma jovem responsável, boa aluna, prestes a entrar em Medicina; adoptada na Coreia do Sul por um casal anglófono quando tinha meses, sabe que escapou a uma existência triste num orfanato. A irmã, Leah, da mesma idade, não está preocupada em ter uma carreira ou um emprego; quer divertir-se o mais possível enquanto os pais lhe pagarem as despesas.


Leah, determinada que Su não passe o Verão enfiada em casa, lança a ideia de fazerem uma viagem de finalistas a Magaluf, em Maiorca, com duas amigas. Su aceita.

No último dia de férias, depois de uma noite com muito álcool, Su acorda com um link para um vídeo que se está a tornar viral: nele, aparece a fazer sexo oral a doze homens num bar, completamente embriagada. A irmã e as amigas aplaudem, rodeadas por estranhos.

«So far, twenty-three thousand and ninety-six people have seen me online. They include my mother, my father, my little sister, my grandmother, my other grandmother, my grandfather, my boss, my sixth year biology teacher and my boyfriend James.»

A cada minuto que passa, a cada partilha que é feita, mais pessoas no mundo descobrem o que Su fez nas férias. O efeito cascata rapidamente se faz sentir e ninguém ligado a Su escapa. Na Escócia, a mãe das jovens, juíza de primeira instância, vê-se impossibilitada de iniciar uma acção judicial contra o autor do vídeo, e pondera fazer justiça pelas próprias mãos. Uma após outra, sucedem-se catástrofes que vão alterar a vida de Su e da sua família para sempre.

A cada capítulo, vemos o impacto das redes sociais e o seu poder. Vemos como Su e a família tentam lidar com o sucedido, as reacções de amigos e conhecidos, a forma como tudo é noticiado.

Uma pesquisa rápida no Google mostou-me que situações similares são comuns e estão disponíveis online. O que para algumas pessoas será impensável é o esperado (e procurado) por milhares de jovens que todos os anos se deslocam à ilha para desfrutar das praias e da vida nocturna.

As personagens são credíveis, o livro simples e com uma mensagem muito poderosa. Viral aborda um assunto difícil de uma forma realista; no fim fica a sensação que ficou tudo "arrumadinho" muito depressa mas isso não prejudica o ritmo de leitura. O essencial ficou escrito. 

****
(bom)

4 de maio de 2014

A persistência da memória


Autor: Daniel Oliveira
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora:
Oficina do Livro

ISBN: 978-989-7411076
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A persistência da memória marca a estreia de Daniel Oliveira nos romances.

Gosto do programa Alta Definição e tento ler autores portugueses sempre que possível, por isso quando uma colega de trabalho me emprestou o livro, não hesitei.

Camila Vaz é uma apresentadora de televisão com uma vida desafogada. O seu traço mais distinto é a memória, pois Camila tem o síndrome de memória superior, o que lhe confere a capacidade de se recordar ao pormenor de todos os acontecimentos da sua vida, tenham sido bons ou não.

Só o Rio de Janeiro me faria esquecer os pedaços de mim que não vieram. Deixei em Lisboa aquela Camila que não quero ser. Todas as outras que sou vieram comigo.

Pela voz da narradora, vamos passeando pela cosmopolita Nova Iorque e pelo escaldante Rio de Janeiro, assistimos a cenas de cama e de cumplicidade com amantes diversos e a episódios traumáticos envolvendo familiares e estranhos.

Os capítulos iniciais são promissores. Acho destemido o autor que tenta escrever pela voz do sexo oposto e estava receptiva. Não me identifiquei com a protagonista nem revi mulheres que conheço na mesma, mas entendi a mulher que Camila é.
 
Sempre me senti uma máquina de viver, cuja consequência foi criar tantas sensações quantas estivesse disposta a fruir.
 
Apesar de estar bem escrito e conter algumas reflexões bastante lúcidas e profundas, é um livro que acaba por se perder na mensagem. Gostei das notas sobre Fernando Pessoa e Salvador Dalí, embora a maioria estivesse presente na metade do livro que achei mais fraca. 

É bom ler em português, mesmo quando as expectativas saem goradas. A persistência da memória é uma estreia ambiciosa da qual esperava mais direcção e menos divagação.

***
(mediano/razoável)

16 de março de 2014

O quinto filho


Autor: Doris Lessing
Género:
Romance Contemporâneo
Idioma: Português
Editora:
Europa-América
ISBN:  560-107-203304-7
Título original: The fifth child
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O quinto filho é o primeiro livro que leio de Doris Lessing, premiada com o Nobel da Literatura em 2007 (morreu em 2013). Foi recomendado pela minha amiga Tânia, que mo emprestou. Apesar de ter tido uma semana preenchida, arranjei tempo para o ler; é uma leitura viciante.

A acção passa-se na Inglaterra dos anos 60, uma década de mudança onde se procura um escape à vida tradicional defendida pelas gerações anteriores e se quebram os dogmas sociais.

Mas os jovens Harriet e David defendem esses valores tradicionais: sonham ter uma família numerosa, viver longe da agitação citadina e ter uma vida caseira e virada para os valores familiares. Quando se encontram, reconhecem-se como iguais e rapidamente começam a planear um futuro em conjunto. Num espaço de poucos anos, o sonho a dois de Harriet e David toma forma: uma casa enorme num idílico cenário verde, sempre cheia de familiares; quatro filhos saudáveis e cheios de vida; auxílio financeiro e apoio emocional dos pais, que os suportam nas suas decisões de uma vida cor-de-rosa.

A quinta gravidez de Harriet vem perturbar tudo. Desde o início que ela percebe as diferenças relativamente às gestações anteriores. Desta vez, tem uma gravidez agitada que a deixa esgotada e apreensiva sobre o filho por nascer, o que a obriga a ter um comportamento diferente e a questionar o nascimento do quinto filho.

Quando Ben nasce, tudo muda, afectando a dinâmica familiar: é uma criança sombria e assustadora, com um comportamento anti-social. Não inspira simpatia nem amor, apesar dos esforços dos pais e irmãos em integrá-lo e amá-lo, e não procura o contacto humano, evitando-o sempre que possível. Os familiares que enchiam a casa dos Lovatt começam a afastar-se e David e Harriet começam a questionar as suas escolhas e a tomar algumas decisões que criam desavenças.

A acção foca-se principalmente em Harriet e no seu quinto filho, e na forma como tudo se altera quando Ben nasce e a sua presença na família. A escrita de Doris Lessing é frontal, as personagens são bem construídas e a história envolve-nos.

O saldo final é uma leitura complexa e desconfortável q.b., que trata sobre escolhas e sacrifícios, e que se torna algo brutal, o que faz imaginar um final sombrio que fica em aberto. Foi uma boa introdução a Doris Lessing.

Escrito em 1988, O quinto filho teve uma sequela em 2000, Ben in the world, por publicar em Portugal. 

****
(bom)

16 de fevereiro de 2014

As virgens suicidas



Autor: Jeffrey Eugenides
Género:
Literatura contemporânea
Idioma: Português

Páginas: 256
Editora:
Dom Quixote
ISBN:  978-972-202449-5
Título original: The virgin suicides
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O livro começa como acaba (o autor não o esconde): cinco adolescentes entre os 13 e os 17 anos, as irmãs Lisbon, suicidam-se no espaço de um ano. A razão? Temos as restantes 255 páginas para descobrir.

Cecilia, a mais nova, é a primeira a matar-se. A partir daí, a família Lisbon cai numa espiral descendente de escuridão e isolamento, afastando-se do resto da comunidade e deixando de ser vista no exterior. Ao mesmo tempo que a sua casa se deteriora por fora, o interior deixa adivinhar uma profunda depressão dos pais e das 4 irmãs sobreviventes.

A história é contada por um grupo de rapazes da idade das raparigas, seus vizinhos e colegas de escola, que seguem todos os passos daqueles «seres luminosos» com tão pouco em comum com os seus pais socialmente inaptos. Os rapazes estão fascinados pelas irmãs, desenvolvendo uma obsessão que se prolonga na idade adulta, razão pela qual o livro é narrado vários anos depois, por mentes já desenvolvidas e críticas, que conseguem analisar mais friamente o que os olhos inexperientes não viam nem percebiam na altura.

A razão do suicídio não é clara, mas algumas razões são lançadas para a mesa: a opressão de uma mãe religiosa e castradora que não consegue lidar com o vento da mudança dos anos 70, a impassividade de um pai que cede toda a autoridade à esposa, uma predisposição genética para uma tristeza crónica debilitante, uma mistura explosiva das anteriores.
 
O tema é sombrio e Jeffrey Eugenides cria uma atmosfera claustrofóbica que fica na memória muito depois de acabarmos o livro. O estilo é poético e floreado q.b., mas equilibra bem com o tom, dando luz a um conteúdo escuro.

Confesso que a história me afectou nos dias em que o li, ao que não ajudou ser Inverno, com muitos dias nublados e de chuva, como se a melancolia das irmãs Lisbon me acompanhasse mesmo nos momentos em que não estava a ler; é raro um livro ter este efeito sobre mim, mas reconheço que prefiro não o sentir, pois As virgens suicidas trata temas demasiado desconfortáveis para andarmos com eles na cabeça todo o dia.

Também por isso, este é um dos raros casos em que gostei mais do filme do que do livro; a realizadora Sofia Coppola soube captar o essencial da obra de Eugenides e dar a luminosidade ideal a uma história bastante sombria, que em livro se torna demasiado longo e pesado; a qualidade da história é evidente, não nego, mas continuava a ser provocador com menos umas cinquenta páginas, que só prolongam a agonia do leitor e não acrescentam nada de novo.

Uma boa leitura, extremamente melancólica, que aconselho a alternar com um livro mais "levezinho" (eu gostaria de ter tido esta dica).

****
(bom)

16 de dezembro de 2013

As novas bacantes



Autor: Catherine Clément
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 96
Editora:
Edições ASA

Colecção: ASA de bolso
ISBN:  972-41-2099-6
Título original: Les Dames de l'Agave
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Catherine Clément é uma escritora francesa, nascida na Paris de 1939, que se notabilizou na escrita de romances, embora tenha editado várias obras de filosofia, psicanálise e antropologia; entre os seus livros mais conhecidos estão A Senhora, A viagem de Théo e A rameira do Diabo. As novas bacantes é a minha estreia com esta autora.

Descrito na contracapa como «um pequeno divertimento policial», a história do livro passa-se numa aldeia nas margens do rio Loire, cujo nome não é mencionado. Os habitantes vêem a paz abalada por uma seita emergente de mulheres que, à noite, se junta em volta de uma fogueira em honra de Baco.

Ressuscitando o culto, estas mulheres, de todas as idades (algumas, pasme-se!, da própria aldeia), celebram o deus do vinho e dos excessos dançando nuas ao som de tambores, noite dentro, embriagando-se com uvas da vinha morangueira que abunda na região. Os habitantes locais não sabem o que fazer, pois nem o diálogo nem a coacção resultam contra as bacantes.

Nessa altura, chega à cidade o reputado Professor Jean Le Bihouic, que pretende terminar o seu mais recente livro no sossego bucólico. Abandonado pela esposa de décadas por um homem mais novo, o professor não se encontra na melhor forma e espera que um descanso campestre ajude à recuperação. A ilusão não dura muito, pois toda a aldeia se vira para ele, um letrado citadino, para que resolva a situação das bacantes.

Sendo um homem afável e incapaz de dizer não, o professor tenta encontrar uma solução e alia-se ao padre da aldeia e ao presidente da Câmara para descobrir o que se passa, ao mesmo tempo que tenta acabar o livro que o levou ali. O que se segue é uma sucessão de acontecimentos descritos de uma forma bastante castiça e um pouco anedótica, com algumas alusões mitológicas e o final feliz possível.

Sendo um livro de tom ligeiro e com menos de cem páginas, lê-se bem. A história é engraçada e, como policial, é modesto (não há cá Poirot nem detectives privados).

No final, percebemos como a autora quis fazer uma história sobre as eventuais bacantes modernas e não resistiu a dar o seu toque ao mito do rei Penteu, com algumas considerações finais pela voz do protagonista professor.

Um livro engraçado e uma autora a explorar. 


avaliação: *** (mediano/razoável)

2 de dezembro de 2013

E se amanhã o medo




Autor: Ondjaki
Género:
Contos
Idioma: Português

Páginas: 102
Editora:
Editorial Caminho
ISBN:  972-21-1708-4
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Este é o primeiro livro que leio do angolano Ndalu de Almeida, que usa o pseudónimo Ondjaki, palavra em umbundu que significa «aquele que enfrenta desafios».

Com 36 anos, Ondjaki tem já uma obra significativa e plural, entre livros de contos, romances e poesia; os prémios literários também são uns quantos, onde se destacam o Grande Prémio APE (2007), o Prémio Bissaya Barreto (2012) e o Prémio José Saramago (2013).

E se amanhã o medo é um livro de contos, dividido em 2 partes: horas tranquilas e conchas escuras.

«- Aceito uma vacina contra a raiva.»
«- Muito bem. Parece-me apropriado. O mundo não está para brincadeiras.»

A primeira parte, horas tranquilas, tem 15 contos subtis, líricos e luminosos, com algum humor e folclore à mistura, e muito movimento (libélulas, aves, viajantes). As personagens anseiam pela alegria, pela paz, pela esperança, há vida e serenidade. Os meus contos favoritos são coração de porco e o pássaro do cais, bastante diferentes entre si mas ambos leves e poéticos, com o seu quê de realismo mágico.

«Velhice é todos dias ir despedindo um pouco coisas que inda nos tocam as paredes do coração.»

conchas escuras, composto por 5 contos, em que o meu favorito é lábios em lava, é mais cru e sombrio. Aqui há medo e culpa, o tom é opressivo e não há esperança nas personagens, há interrogações e angústia; há violação, há morte misericordiosa (no leitor, há desconforto).

E se amanhã o medo é breve, os contos têm 2 a 3 páginas, aparentemente simples mas metafóricos e simbólicos. Sendo o primeiro livro que leio de Ondjaki, não tenho termo de comparação, mas não me parece um autor de fácil apreensão, o que não deixa de ser intimidante. As suas realidades inventadas são complexas e as frases curtas que usa não dispensam duas e três leituras até atingir o pleno. Gostei e deixo-vos aqui um excerto do livro.

«Era, no fundo, o que trazia todas as pessoas àquele local: a magia de renovar o órgão primeiro, o bombeador de sensações, a casa mais íntima de um ser humano. (...) Leve isto consigo ... entregou-lhe um pequeno aglomerado de folhas, escrito à mão num cuidadoso latim. ... Vai servir-lhe para ser feliz! ... E o que é? ... a mulher, sensível, curiosa. ... Todos os meus apontamentos sobre a sensibilidade dos porcos. O que é dizer: você é a primeira pessoa a levar um coração com o respectivo manual de felicidade.» 


avaliação: **** (bom)
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