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18 de setembro de 2022

O jogador de xadrez

   

Autor: David Sala
Género: Banda desenhada
Idioma: Português
Páginas: 136
Editora: Levoir
Ano: 2018
Título original: Le jouer d'échecs

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O jogador de xadrez
é uma adaptação a banda desenhada do livro Novela de xadrez, de Stefan Zweig, que li há uns anos - apontamento aqui.

A adaptação do autor francês David Sala é extremamente fiel ao espírito e ambiente do texto original.

A leitura desta novela gráfica teve, pessoalmente, uma camada extra de emoção porque Stefan Zweig escreveu Novela de xadrez  pouco antes de se suicidar, em 1942, aquando do seu exílio no Brasil.

Zweig estaria desesperado pelo avanço nazi na Europa. Vários dos seus livros foram queimados pelo regime nazi. Infelizmente, o escritor não viveu para testemunhar a queda de Hitler.

Fonte: foto do livro

Em O jogador de xadrez, a acção passa-se no ano de 1941, a bordo de um paquete com destino à Argentina.

A bordo, o campeão do mundo de xadrez defronta um aristocrata vienense, cujo extraordinário domínio do jogo, vamos descobrir em flashback, foi aprendido em circunstâncias brutais às mãos de nazis
.

Fonte: foto do livro

Adorei a estética e a paleta de cores utilizada, fiel à década em que se passa a acção da história. Os grandes planos das expressões das personagens privilegiam as emoções e são um dos pontos fortes do livro.

Confesso que estranhei, ao início, as ilustrações, coloridas a aguarela, uma técnica diferente - mas não menos bela - da que estou habituada.

Não conhecia o traço (bastante original) de David Sala e fiquei rendida. Quanto mais olho para os desenhos, mais gosto do estilo, super adequado à história
.

Fonte: foto do livro

O jogador de xadrez é uma bela homenagem ao livro de Stefan Zweig, um dos escritores mais influentes das primeiras décadas do século XX, que influenciou vários artistas contemporâneos, entre os quais o realizador Wes Anderson n'O Grande Hotel Budapeste.

A ler e a reler.

*****
(muito bom)

23 de maio de 2021

Dream story (Traumnovelle)

 

Autor: Arthur Schnitzler
Género: Romance

Idioma: Inglês
Páginas: 128
Editora: Penguin (Kindle)
 Ano: 1926

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Dream story apareceu no meu radar por causa do filme De olhos bem fechados, o último filme de Stanley Kubrick, que morreu poucos dias após o filme estar pronto, em 1999. Os protagonistas são Nicole Kidman e Tom Cruise, casados na altura.

Kubrick e Frederic Raphael basearam-se neste livro para escrever o guião do filme, depois do primeiro o ter lido e lançado o desafio ao segundo.

Vi o filme primeiro, várias vezes - e gosto bastante -, mas prefiro fazer o contrário para não ser influenciada aquando da leitura. 

Ao ler Dream story, no entanto, foi fácil lê-lo sem imaginar os actores e cenários do filme, pois a obra de Schnitzler passa-se na Viena dos anos 20 e a de Kubrick na Nova Iorque dos anos 90; a atmosfera é muito diferente. Porém, também é notória como os argumentistas se inspiraram no livro e seguiram fielmente a narrativa. 

A figura central do livro é Fridolin, um médico austríaco casado com Albertine, com quem tem uma filha pequena. Uma noite, Albertine confessa ao marido uma fantasia que teve com um estranho nas suas últimas férias; Fridolin retribui contando que também se sentiu atraído por alguém.

A partir daí, Fridolin vê todas as suas interacções com outras mulheres de uma forma diferente, mais receptivo a insinuações e ao flirt, mais aberto à sua beleza e capacidade de atracção.

Vendo pacientes no hospital e ao domicílio, infiltrando-se numa soirée privada onde todos estão mascarados, o autor coloca o protagonista em múltipas situações onde a tensão psicológica e sexual da vida de casado estão sempre presentes nos monólogos de Fridolin. Há um tom pouco explícito ao longo de toda a história, reforçando o ambiente de sonho e e ambiguidade da acção.

No final, podemos conjecturar que a história talvez não seja o sonho de Fridolin mas de Albertine. Ou ir ainda mais além na especulação. Na época em que foi escrito, com Freud a revolucionar as ideias sobre o sonho, o desejo e a sexualidade, o facto de Dream story não ser linear permite várias interpretações. Kubrick soube jogar com isso na sua adaptação.

Em Portugal, foi publicado pela Relógio d'Água com o título História de um sonho.

Li num artigo que os livros de Arthur Schnitzler estavam na lista negra dos nazis para as famosas queimas de livros, juntamente com os de Freud, Zweig e Remarque, entre outros; tenho curiosidade em ler mais deste autor.

****
(bom)

7 de março de 2021

Total Recall - my unbelievably true life story


Autor: Arnold Schwarzenegger
Género: Autobiografia

Idioma: Inglês

Duração: 23h e 21m

Editora: Simon & Schuster Audio

Ano: 2012
 

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Arnold Schwarzenegger nasceu numa pequena cidade austríaca em 1947, sem nada que o distinguisse à primeira vista. 
 
Mais de 50 anos depois, o seu palmarés inclui a conquista de 7 títulos como Mister Olympia, tornando-o um dos culturistas mais celebrados do meio; a façanha de actor melhor pago em Hollywood nos anos 80, um casamento duradouro dentro do clã Kennedy e um mandato como governador da Califórnia de 2003 a 2011 - que lhe valeu o nome de "The Governator" -, o estado americano mais populoso e com um PIB de fazer inveja a muitos países desenvolvidos. 
 
Em todas as suas três carreiras (culturista, actor e político) foi bem sucedido, se bem que em proporções distintas, sendo a última a prestação - a julgar pelos capítulos dedicados a esses anos - a que terá deixado mais a desejar.

A história de Schwarzenegger é digna de um argumento de cinema. Na adolescência, percebeu que queria ter uma vida diferente daquela que via à sua volta. Ir para a América era um sonho e a prática do culturismo permitiu-lhe mudar-se para os EUA quando tinha 21 anos. Num período de cinco anos, era o culturista mais premiado a nível mundial, e em 10 anos, tornou-se milionário pelos seus investimentos imobiliários; pelo caminho, começava a dar cartas como protagonista de filmes de acção.

Ao seu lado tinha Maria Shriver, com uma carreira jornalística também bem sucedida, com quem criou quatro filhos.

A filosofia de Arnold é exemplar na forma como incentiva à excelência, ao auto-aperfeiçoamento e ao trabalho. Para alguém que veio de uma família de classe média europeia com perspectivas modestas, a forma como se formatou e incentivou, fazendo as escolhas certas com reflexão e bom senso, desmistificam por completo a sua imagem de "só músculo e tamanho, cabeça de vento".

A disciplina de treino, a superação de obstáculos e adversários no mundo do culturismo são dos capítulos mais impressionantes. Afirma que isso foi a base para tudo o que conseguiu: ser disciplinado, não perder o objectivo de vista e treinar/praticar/repetir. É uma máxima que aplicou a tudo na vida.

Há várias passagens tão inspiradoras como simples: levantar cedo, praticar exercício frequentemente, tentar aproveitar o máximo as 24 horas diárias (aqui dá o exemplo quando treinava para competir enquanto estudava na universidade, tinha aulas de Inglês, trabalhava no negócio de construção que tinha com um amigo e ainda geria o seu serviço de encomendas ligadas ao fitness com livros e suplementos; depois começou a ter também aulas de representação...!) 

«You’ll have plenty of time to rest when you’re in the grave. Live a risky life and a spicy life and like Eleanor Roosevelt said, every day do something that scares you. We should all stay hungry.»

Os capítulos inicial e final são narrados pelo próprio Schwarzenegger, com o sotaque que lhe é característico. Como em quase tudo em que Arnold S. se envolve, é um sucesso, o testemunho de alguém que viveu/vive o "sonho americano". O capítulo em que fala sobre o divórcio e a infidelidade que o motivou é breve mas está lá. Nem podia ser de outra forma. Schwarzenegger assume-se como é: um tipo curioso que ama a família e os amigos, que adora fumar os seus charutos e alcançar o que se propõe fazer. 

É um livro grande, com tantos pormenores - e eu só falei de algumas coisas -, e uma grande autobiografia -; super recomendado. Hasta la vista, baby!


*****
(muito bom)