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16 de junho de 2024

Cadernos da Água

 

Autor: João Reis
Género: Romance

Idioma: Português

Páginas: 248

Editora: Quetzal Editores

Ano: 2022

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Esta é a minha estreia com João Reis, escritor e tradutor de línguas nórdicas.

Cadernos da Água mergulha o leitor num mundo assolado pela seca, pelas guerras da água e pelo rescaldo de uma pandemia.

Ao longo de quase 250 páginas, vivemos num mundo distópico onde os portugueses se tornaram migrantes climáticos, em fuga de um Portugal desidratado, que os países do Norte europeu recusam acolher.

A falta de água, a guerra global, a violência impune de grupos paramilitares, o aparecimento de novos vírus, e a falta de solidariedade são manifestações deste futuro (muito) próximo.

Há vários narradores em Cadernos da Água, mas a voz dominante é a de Sara, que regista, num caderno, o seu quotidiano num campo de refugiados, onde vive com a filha; o marido está em parte incerta.

A história, habilmente urdida pelo autor, é tão aterradora como magnética, com muitos momentos desconfortáveis, onde o ser humano é mostrado nas suas diversas facetas.

Uma leitura excelente.

Numa entrevista, João Reis confirmou que o final de Cadernos da Água potencia uma eventual sequela, para a qual já terá algumas notas.
 

 «Aviso à população

Devido às inúmeras vicissitudes que o país tem sofrido, e que incluem a constante falta de material médico e produtos alimentares, avisa-se a população civil de que a reprodução humana se encontra uma vez mais proibida.

SALVE-SE: POUPE ÁGUA»

 

*****
(muito bom)

3 de abril de 2022

What really happened in Wuhan

 

Autor: Sharri Markson
Género: Política

Idioma: Inglês
Duração: 16h e 28m

Editora: Harper Audio
 Ano: 2021

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À data deste texto, vivemos ainda sob o efeito da pandemia causada por um vírus que ceifou milhões de vidas e alterou milhares de milhões de outras, causando um abrandamento mundial.

Desde Março de 2020, altura em que foram adoptadas as primeiras medidas sanitárias no continente europeu, vivemos confinamentos e recolheres obrigatórios, tornando-se habitual o uso continuado de máscaras e debates acesos sobre a eficácia/obrigatoriedade/efeitos da vacinação e dos passes vacinais. Da China, ainda chegam notícias de novas infeccções, de uma nova variante (demicron) e novos confinamentos. As notícias ainda existem, mas a tragédia que se abateu sobre a Ucrânia abre agora, com toda a legitimidade, os telejornais.

Sharri Markson, a autora de What really happened in Wuhan, é uma jornalista australiana premiada. Neste livro, defende a teoria de que o vírus do covid-19 terá sido geneticamente criado pelo Instituto de Virologia de Wuhan e libertado no mundo após uma fuga acidental («lab-leak theory»), contrariando a teoria de que a origem terá sido natural, com origem num mercado local de animais (semelhante à hipótese de 2000, aquando da epidemia de SARS, entre 2002 e 2004). 
 
É um tema polarizador, sem dúvida, e a teoria da fuga do laboratório chinês contém nuances que fazem as delícias dos críticos mais vocais, que a classificam como uma elaborada "teoria da conspiração". Quem pega neste livro estará desde já aberto a ouvir os argumentos que fundamentam esta hipótese. A sua robustez é subjectiva, o que não equivale a dizer que quem lê este livro, vai ficar convencido. Mas alguns ficarão. É assim que funciona.

Misturando factos (há um departamento no Instituto de Virologia de Wuhan que estuda e manipula coronavírus; foi publicado em 2018 um estudo norte-americano que denunciava incumprimentos dos protocolos de segurança, e alertava para deficiências na segurança ligadas a alegadas faltas de pessoal técnico especializado nesse mesmo instituto), testemunhos directos (citações de cientistas, políticos, investigadores, cidadãos comuns nos media e em relatórios entretantos publicados) e indirectos (fontes jornalísticas e denunciantes, cuja identidade é protegida), em What really happened in Wuhan, a autora constrói uma cronologia minuciosa, atravessando vários continentes e envolvendo diferentes actores.

Vai sendo traçada uma cadeia de eventos que envolve alegadas ocultações de informação, pressões políticas e interesses económicos, onde diversos agentes governamentais chineses e norte-americanos (assim como os seus colaboradores espalhados pelo mundo) têm os papéis principais. Tudo "atado" e referenciado como está, este livro lê-se quase como um thriller, ao que ajuda ter tanto de plausível como de fantástico.
 
É possível que um cientista do Instituto se tenha esquecido de um passo no protocolo de segurança? 
 
É possível que as autoridades chinesas tenham tentado encobrir a gravidade da situação, aquando da escalada do número de casos, no final de 2019? Por que é que essas mesmas autoridades terão levado meses a permitir o acesso a uma equipa de peritos da Organização Mundial de Saúde ao mercado de animais de Wuhan e ao Instituto de Virologia?
 
É plausível que vários cientistas internacionais tenham hesitado em aprofundar e/ou defender uma teoria que implicaria a perda de fundos chineses para as suas pesquisas? Por quê o ataque aos cientistas que o fizeram, quando a base de qualquer método científico passa por questionar, formular hipóteses e testá-las através da discussão e da aplicação desse mesmo método?

Não hesitaria em ler um livro que defendesse a teoria oposta, a de que o vírus terá sido transmitido por um animal (morcego ou pangolim) a uma pessoa, no mercado de Wuhan. Teria de ser um livro com uma linguagem acessível a leigos, pois a sustentação dessa hipótese é maioritariamente baseada em factos estudados na biologia, zoologia, virologia, e epidemiologia, entre outras.
 
O título deste livro é directo mas poderá ser visto como sensacionalista (marketing?), afastando potenciais leitores que privilegiem uma abordagem mais neutra.

À semelhança de outros títulos de não-ficção, esta versão audiolivro poderia ter beneficiado de um (PDF) anexo com mapas, glossários e/ou indíces bibliográficos, o que teria facilitado a escuta.
 
What really happened in Wuhan é um livro bem escrito e bem organizado, denso em informação e cross-references. A classificação de "bom" não se prende tanto com a minha inclinação em aceitar a teoria da lab-leak mas pela forma consistente como a teoria é construída, assente numa cronologia extensiva, citando nomes de pessoas vivas, mortas e desaparecidas (estas últimas na China, contando-se vários médicos, advogados e jornalistas); junta-se a isso o facto de, numa pesquisa rápida online, não ter encontrado nenhuma referência a um eventual processo judicial iniciado contra a autora ou a editora deste livro por difamação, algo que não me surpreenderia encontrar. 
 
Nas últimas décadas, a forma como o governo chinês se posiciona no mercado e adopta medidas económicas e sociais dentro das suas fronteiras (e até fora delas), dá azo a que se levantem muitas questões... 
 
No entanto, o próprio livro falha em apresentar vários elementos probatórios, talvez por razões válidas ou não, o que dá azo a especular acerca da veracidade de algumas alegações. Alguma vez se saberá a verdade? Estarão, agora, cientistas a atestar da robustez da hipótese defendida neste livro? Se sim, as suas conclusões alguma vez serão tornadas públicas? O tempo dirá.
 
Se, no final, não ficarmos inclinados a aceitar a teoria defendida, ao menos poderemos dar o tempo por bem empregue se considerarmos a leitura como um thriller ou, por que não?, como tema de conversa entre amigos.

****
(bom)

7 de março de 2021

Total Recall - my unbelievably true life story


Autor: Arnold Schwarzenegger
Género: Autobiografia

Idioma: Inglês

Duração: 23h e 21m

Editora: Simon & Schuster Audio

Ano: 2012
 

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Arnold Schwarzenegger nasceu numa pequena cidade austríaca em 1947, sem nada que o distinguisse à primeira vista. 
 
Mais de 50 anos depois, o seu palmarés inclui a conquista de 7 títulos como Mister Olympia, tornando-o um dos culturistas mais celebrados do meio; a façanha de actor melhor pago em Hollywood nos anos 80, um casamento duradouro dentro do clã Kennedy e um mandato como governador da Califórnia de 2003 a 2011 - que lhe valeu o nome de "The Governator" -, o estado americano mais populoso e com um PIB de fazer inveja a muitos países desenvolvidos. 
 
Em todas as suas três carreiras (culturista, actor e político) foi bem sucedido, se bem que em proporções distintas, sendo a última a prestação - a julgar pelos capítulos dedicados a esses anos - a que terá deixado mais a desejar.

A história de Schwarzenegger é digna de um argumento de cinema. Na adolescência, percebeu que queria ter uma vida diferente daquela que via à sua volta. Ir para a América era um sonho e a prática do culturismo permitiu-lhe mudar-se para os EUA quando tinha 21 anos. Num período de cinco anos, era o culturista mais premiado a nível mundial, e em 10 anos, tornou-se milionário pelos seus investimentos imobiliários; pelo caminho, começava a dar cartas como protagonista de filmes de acção.

Ao seu lado tinha Maria Shriver, com uma carreira jornalística também bem sucedida, com quem criou quatro filhos.

A filosofia de Arnold é exemplar na forma como incentiva à excelência, ao auto-aperfeiçoamento e ao trabalho. Para alguém que veio de uma família de classe média europeia com perspectivas modestas, a forma como se formatou e incentivou, fazendo as escolhas certas com reflexão e bom senso, desmistificam por completo a sua imagem de "só músculo e tamanho, cabeça de vento".

A disciplina de treino, a superação de obstáculos e adversários no mundo do culturismo são dos capítulos mais impressionantes. Afirma que isso foi a base para tudo o que conseguiu: ser disciplinado, não perder o objectivo de vista e treinar/praticar/repetir. É uma máxima que aplicou a tudo na vida.

Há várias passagens tão inspiradoras como simples: levantar cedo, praticar exercício frequentemente, tentar aproveitar o máximo as 24 horas diárias (aqui dá o exemplo quando treinava para competir enquanto estudava na universidade, tinha aulas de Inglês, trabalhava no negócio de construção que tinha com um amigo e ainda geria o seu serviço de encomendas ligadas ao fitness com livros e suplementos; depois começou a ter também aulas de representação...!) 

«You’ll have plenty of time to rest when you’re in the grave. Live a risky life and a spicy life and like Eleanor Roosevelt said, every day do something that scares you. We should all stay hungry.»

Os capítulos inicial e final são narrados pelo próprio Schwarzenegger, com o sotaque que lhe é característico. Como em quase tudo em que Arnold S. se envolve, é um sucesso, o testemunho de alguém que viveu/vive o "sonho americano". O capítulo em que fala sobre o divórcio e a infidelidade que o motivou é breve mas está lá. Nem podia ser de outra forma. Schwarzenegger assume-se como é: um tipo curioso que ama a família e os amigos, que adora fumar os seus charutos e alcançar o que se propõe fazer. 

É um livro grande, com tantos pormenores - e eu só falei de algumas coisas -, e uma grande autobiografia -; super recomendado. Hasta la vista, baby!


*****
(muito bom)

17 de novembro de 2020

Ten lessons for a post-pandemic world

Autor: Fareed Zakaria
Género: Comentário social, Política

Idioma: Inglês
Páginas: 320
Editora: W.W. Norton Company (ebook)
Ano: 2020

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Fareed Zakaria é um escritor e jornalista norte-americano de origem indiana, especializado em relações políticas internacionais. No seu currículo conta com colaborações escritas no Washington Post e na Newsweek e programas na CNN, PBS e ABC.

Em Ten lessons for a post-pandemic world, Zakaria propõe encarar a pandemia como uma oportunidade para readaptar a economia mundial e tornar as nações mais prósperas.

O livro menciona várias fontes e adivinha uma pesquisa profunda. Várias reflexões são bastante lúcidas, analisando a corrida pré-confinamento às prateleiras dos supermercados e a uma vacina, comparando o passado e o presente e prevendo o futuro económico-social da Europa e dos EUA, embora com maior enfoque na América do Norte.

O autor defende um combate activo ao individualismo e para que os países não se fechem sobre si mesmos e apostem na entreajuda. O futuro não é unidimensional e demonizar a globalização é um passo largo para um isolamento que poderá alimentar regimes autoritários e nacionalistas. 

Não há que concordar com tudo o que Zakaria escreve, mas devemos pensar nas questões levantadas e na hipótese de reescrever o futuro.

Ten lessons for a post-pandemic world é uma lufada de ar fresco, equilibrando lições de economia e filosofia com os vários possíveis cenários de mudança da situação geopolítica e da ordem mundial.

Índice do livro
Introduction: The bat effect
01 - Buckle up
02 - What matters is not the quantity of government but the quality
03 - Markets are not enough
04 - People should listen to the experts and experts should listen to the people
05 - Life is digital
06 - Aristotle was right: we are social animals
07 - Inequality will get worse
08 - Globalization is not dead
09 - The world is becoming bipolar
10 - Sometimes the greatest realists are the idealists
Conclusion: Nothing is written

*****
(muito bom)