28 de março de 2021

The Retreat




Autor: Sherri Smith

Género: Thriller

Idioma: Inglês
Páginas: 348
Editora: Forge Books (Kindle)
 Ano: 2019

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Katie foi uma actriz infantil de muito sucesso... há doze anos atrás. 

Adulta, vive do dinheiro que amealhou e não tem ilusões em voltar ao meio artístico. 

A futura cunhada convence-a a fazerem um retiro de bem-estar; Katie convida mais duas amigas. A ideia é fazerem ioga, caminhadas e massagens, com a cereja no topo do bolo sendo a cerimónia de chá de ayahuasca, que alegadamente as levará a um estado de consciência superior [sendo uma bebida com potencial alucinogénico].

Todas as quatro têm motivos diferentes para participarem no retiro. Nenhum deles é bom. Desde o início que percebemos que as protagonistas de The retreat são manipuladoras e mentirosas... e nem todas vão sobreviver ao fim de semana.

O suspense desenrola-se lentamente numa história rica em revelações sucessivas. O ritmo é bom mas as protagonistas estão longe de ser amigas que eu deseje a alguém, por isso nunca torcemos por elas. 

A descrição das actividades do retiro pareceu-me uma boa sátira de algumas cenas "new age"/espirituais, muitas vezes apregoadas por charlatães, mas nunca saem do estereótipo. 

O livro começa bem mas vai perdendo vapor... e interesse. As reviravoltas vão ficando menos credíveis e é um alívio quando alguém é finalmente "despachado", o que nunca é um bom sinal.

Uma boa ideia com uma execução que ficou aquém.

***
(mediano/razoável)

20 de março de 2021

Hunger - a memoir of (my) body

 

Autor: Roxane Gay
Género: Autobiografia

Idioma: Inglês

Páginas: 232

Editora: Harper (Kindle)

Ano: 2016
 

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«Mine is not a success story. Mine is, simply, a true story.»

Comentar uma autobiografia é delicado. É importante reter que a apreciação do livro é relativamente à forma como a história é contada.

Roxane Gay foi violada aos 12 anos por um grupo de rapazes. A dor nunca desapareceu; a autora está agora nos seus 40 e continua obcecada pela pessoa instrumental na sua agressão, um adolescente por quem estava apaixonada na altura. É impossível para a maioria de nós pôr-se no lugar de Roxane. Imaginar os danos que isso provoca é um pouco mais fácil.

«I don’t want to be defined by the worst thing that has happened to me.»

O tema central do livro é a obesidade, as dezenas de quilos que Roxane acumulou ao longo dos anos, a sua «armadura contra o mundo», útil para afastar os olhares masculinos e para se tornar invisível mesmo pesando mais de 250 quilos do alto do seu metro e noventa. Ao comer e comer e comer, anulou-se completamente… e tornou o seu corpo numa prisão.

E isso teve consequências. Lidar com a gordofobia, os olhares reprovadores, os comentários “bem intencionados”... é cansativo. A autora alterna entre a vitimização e a aversão para consigo mesma, a revolta pela forma como as pessoas obesas são tratadas e em como o mundo não está preparado para as acomodar presente em cada página – as conversas são tensas, a mobília não aguenta, caminhar fá-la ficar sem fôlego, o pessoal médico não é compassivo. 

 As situações multiplicam-se e os relatos são penosos; Roxane diz que as humilhações por que passou ao longo dos anos forçaram-na a ver com outros olhos o seu próprio corpo e os dos outros. Porém, o seu corpo continua a ser vilificado, a gordura que carrega altamente indesejável para si e para os que a rodeiam. A escrita fá-la feliz, assim como finalmente saber que é amada pela sua família, amigos e pela "sua pessoa", mas tem sido um caminho longo - e inacabado.

Esta não é uma história bem-sucedida de perda de peso nem de superação. Roxane Gay é uma mulher negra, bissexual, obesa, e sem um “final feliz” à vista. O livro, de 2016, é escrito na primeira pessoa num tom cru e directo.  

Um testemunho corajoso e doloroso, que merece uma leitura atenta.

«It took me a long time, but I prefer “victim” to “survivor” now. I don’t want to diminish the gravity of what happened. I don’t want to pretend I’m on some triumphant, uplifting journey. I don’t want to pretend that everything is okay. I’m living with what happened, moving forward without forgetting, moving forward without pretending I am unscarred

****
(bom)

14 de março de 2021

The marriage pact

 

Autor: Michelle Richmond
Género:
Thriller
Idioma: Inglês

Páginas: 432

Editora: Bantam
(Kindle)
Ano: 2017

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Alice e Jake são jovens e recém-casados. Como presente de casamento recebem uma caixa de madeira, com duas palavras gravadas: o Pacto. 
 
Dentro da caixa está um contrato pronto a ser assinado, garantindo o acesso a um clube altamente exclusivo de pessoas para quem o casamento é sagrado. As regras são claras e qualquer incumprimento é punido.

Alice e Jake estão apaixonados e imaginam-se juntos para sempre e, assim, ao início, o Pacto é sedução: festas glamorosas e um sentido de comunidade com os outros membros. No papel, o cumprimento do Pacto parece razoável, mas o casal rapidamente descobre que quando um ou ambos os parceiros deixam de cumprir, os castigos são arrepiantes. Qualquer "infracção" é punida severamente. E… não há saída do Pacto.

The marriage pact é um thriller involvente, de capítulos curtos e ritmo rápido. O nosso narrador é o marido, Jake, a escolha menos óbvia num livro centrado num casamento e sendo a autora do livro uma mulher. Resulta bem. Jake é psicólogo e analisa as suas acões e das outras personagens à luz da ciência que estudou. Reflecte frequentemente sobre as suas escolhas de uma forma racional e cruza-as com estatísticas sobre o casamento e as relações amorosas. É um pormenor interessante que enriquece o livro.

Infelizmente, o resto da história - como as motivações dos membros do Pacto e a forma como tudo está organizado - não é bem explicado e padece de credibilidade. A maioria das personagens é unidimensional e as suas motivações permanecem por explicar. E o final é aberto, o tipo que menos prefiro se não for uma saga ou uma série.
 
The marriage pact é recomendado para fãs de thrillers, que certamente perdoarão algumas partes menos conseguidas pela ideia e acção acelerada; para os restantes leitores saberá a pouco e não valerá o investimento.

***
(mediano/razoável)

7 de março de 2021

Total Recall - my unbelievably true life story


Autor: Arnold Schwarzenegger
Género: Autobiografia

Idioma: Inglês

Duração: 23h e 21m

Editora: Simon & Schuster Audio

Ano: 2012
 

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Arnold Schwarzenegger nasceu numa pequena cidade austríaca em 1947, sem nada que o distinguisse à primeira vista. 
 
Mais de 50 anos depois, o seu palmarés inclui a conquista de 7 títulos como Mister Olympia, tornando-o um dos culturistas mais celebrados do meio; a façanha de actor melhor pago em Hollywood nos anos 80, um casamento duradouro dentro do clã Kennedy e um mandato como governador da Califórnia de 2003 a 2011 - que lhe valeu o nome de "The Governator" -, o estado americano mais populoso e com um PIB de fazer inveja a muitos países desenvolvidos. 
 
Em todas as suas três carreiras (culturista, actor e político) foi bem sucedido, se bem que em proporções distintas, sendo a última a prestação - a julgar pelos capítulos dedicados a esses anos - a que terá deixado mais a desejar.

A história de Schwarzenegger é digna de um argumento de cinema. Na adolescência, percebeu que queria ter uma vida diferente daquela que via à sua volta. Ir para a América era um sonho e a prática do culturismo permitiu-lhe mudar-se para os EUA quando tinha 21 anos. Num período de cinco anos, era o culturista mais premiado a nível mundial, e em 10 anos, tornou-se milionário pelos seus investimentos imobiliários; pelo caminho, começava a dar cartas como protagonista de filmes de acção.

Ao seu lado tinha Maria Shriver, com uma carreira jornalística também bem sucedida, com quem criou quatro filhos.

A filosofia de Arnold é exemplar na forma como incentiva à excelência, ao auto-aperfeiçoamento e ao trabalho. Para alguém que veio de uma família de classe média europeia com perspectivas modestas, a forma como se formatou e incentivou, fazendo as escolhas certas com reflexão e bom senso, desmistificam por completo a sua imagem de "só músculo e tamanho, cabeça de vento".

A disciplina de treino, a superação de obstáculos e adversários no mundo do culturismo são dos capítulos mais impressionantes. Afirma que isso foi a base para tudo o que conseguiu: ser disciplinado, não perder o objectivo de vista e treinar/praticar/repetir. É uma máxima que aplicou a tudo na vida.

Há várias passagens tão inspiradoras como simples: levantar cedo, praticar exercício frequentemente, tentar aproveitar o máximo as 24 horas diárias (aqui dá o exemplo quando treinava para competir enquanto estudava na universidade, tinha aulas de Inglês, trabalhava no negócio de construção que tinha com um amigo e ainda geria o seu serviço de encomendas ligadas ao fitness com livros e suplementos; depois começou a ter também aulas de representação...!) 

«You’ll have plenty of time to rest when you’re in the grave. Live a risky life and a spicy life and like Eleanor Roosevelt said, every day do something that scares you. We should all stay hungry.»

Os capítulos inicial e final são narrados pelo próprio Schwarzenegger, com o sotaque que lhe é característico. Como em quase tudo em que Arnold S. se envolve, é um sucesso, o testemunho de alguém que viveu/vive o "sonho americano". O capítulo em que fala sobre o divórcio e a infidelidade que o motivou é breve mas está lá. Nem podia ser de outra forma. Schwarzenegger assume-se como é: um tipo curioso que ama a família e os amigos, que adora fumar os seus charutos e alcançar o que se propõe fazer. 

É um livro grande, com tantos pormenores - e eu só falei de algumas coisas -, e uma grande autobiografia -; super recomendado. Hasta la vista, baby!


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(muito bom)

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