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19 de março de 2020

O marinheiro que perdeu as graças do mar


Autor: Yukio Mishima
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 176
Editora: Assírio e Alvim
Ano: 2008
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Este é o primeiro livro que leio de Mishima, pseudónimo de Kimitake Hiraoka, nascido em Tóquio em 1925.

Mishima suicidou-se aos 45 anos por seppuku (vulgo haraquíri), seguindo o código de conduta dos samurai, por ideologia e por não se rever na direcção que a sociedade japonesa estaria a tomar - não terá ajudado uma tentativa de golpe de estado que lhe valeu enorme contestação.

Em O marinheiro que perdeu as graças do mar, o adolescente Noboru está fascinado com a relação amorosa da mãe com Ryuji, um marinheiro que carrega a grandeza do mar e uma aura de masculinidade impossível de ignorar. Noboru não é próximo da mãe, não tem uma figura paternal na sua vida e faz parte de um grupo de rapazes com tendências violentas. A presença de Ryuji vai agitar e mudar várias coisas.
«A glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga.»
Há partes do livro viscerais, outras de grande beleza evocativa. É raro encontrar um autor assim; uma cena particular envolvendo um gato é aflitivamente descritiva, mas a descrição é ao pormenor, tornando-a impossível de esquecer. É um livro muito denso.

Li que Mishima foi várias vezes indicado como candidato ao Nobel da Literatura, e consigo ver o porquê. Há força na sua escrita e a leitura não é fácil - as personagens d'O marinheiro que perdeu as graças do mar marcaram-me ao ponto de não querer voltar ao universo do autor tão cedo. 

****
(bom)

11 de julho de 2014

Novela de xadrez


Autor: Stefan Zweig
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 96
Editora:
Assírio & Alvim

Ano:
2013
ISBN:  978-972-371703-7
Título original: Schachnovelle
Tradução: Álvaro Gonçalves
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Stefan Zweig escreveu esta história pouco antes de se suicidar, corria o ano de 1942. A razão alegada foi a de que este austríaco, exilado no Brasil, estava deprimido com o avanço nazi na Europa.

Novela de xadrez foi, assim, publicada, postumamente. Apesar de ser um dos autores mais famosos e vendidos nas décadas de 20 e 30, eu nunca tinha ouvido falar de Zweig e este livro foi a minha estreia.

É uma história intensa, que contrapõe duas personagens memoráveis: o aclamado campeão mundial de xadrez, apático e anti-social, que joga sem paixão e sem ardor, e o advogado humilde e amável que sobreviveu a uma das mais requintadas formas de tortura graças a uma mente superior mas pagando um preço elevado, refletindo uma instabilidade preocupante, jogando xadrez com o coração e não apenas com a mente.
 
Os dois cruzam-se num cruzeiro e o resto é história... que terão de ler.

Apesar de curta, é uma história intensa, escrita de uma forma simples e cativante. Adorei a abordagem subtil ao desequilíbrio e à loucura, e a demonstração inspiradora da força da mente.

Não é preciso ser um amante do xadrez para perceber ou desfrutar da história. Stefan Zweig doseou habilmente as emoções das personagens e as expectativas do leitor. O resultado é um livro que se devora rapidamente.

*****
(muito bom)

2 de novembro de 2013

A metamorfose




Autor: Franz Kafka
Género:
Ficção
Idioma: Português

Páginas: 96
Editora:
BIS
ISBN:  978-98-9660306-9
Título original: Die Verwandlung
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Apesar de imensamente referenciado na literatura, nunca tinha lido Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX (shame on me). Admito que nunca tinha procurado nada do autor e até hoje o universo nunca se tinha alinhado para que o lesse.

Até que há uns dias, houve alinhamento e, enquanto dava uma olhadela pelas lombadas de uma das estantes da biblioteca municipal, reparei e peguei n'A Metamorfose; gostei da capa, avaliei a fineza (não chega a uma centena de páginas) e li a menção de que, escrita em 1912, é a obra kafkiana mais lida e estudada; veio comigo para casa.

«Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto.»

Assim do nada, o jovem Gregor desperta um dia transformado num gigantesco insecto. Gregor vive em casa com os pais, a irmã mais nova e duas criadas. Caixeiro-viajante, é o único que trabalha e sustenta o agregado; a sua primeira preocupação ao ver-se com múltiplas perninhas e carapaça é a de que como vai fazer para se levantar, vestir e apanhar o comboio para o trabalho.

À medida que os minutos passam e a casa se anima com ruídos familiares, Gregor vai entrando em pânico com a falha da rotina e a perspectiva de o verem assim... o que acaba por acontecer e desembocar numa série de situações surreais q.b., fazendo-nos alternar entre a surpresa, a incredulidade e a raiva.

Pessoalmente, o que me ficou d'A Metamorfose é uma mensagem de alienação, tristeza e opressão. A família de Gregor não se importa realmente com ele e conforma-se com a situação do filho (e irmão) à velocidade da luz. A sua preocupação é garantir que o dinheiro não pára de entrar e quando percebem que conseguem sobreviver sem o rendimento auferido por Gregor, rapidamente deixam de providenciar pelo seu conforto e bem-estar. A figura do pai é austera e emocionalmente ausente, a da mãe é psicologicamente frágil com laivos de histeria e a da irmã de 16 anos é egoísta.
Descartado e descartável, a Gregor resta rastejar como o insecto em que se tornou e desaparecer das vidas daqueles que rapidamente o secundarizam e viram os olhos para um futuro onde o primogénito já não figura. Tendo em conta a ideia que tinha de Kafka e uma leitura de uma breve biografia, o final não poderia ser outro.

Na minha opinião, este é um livro que se lê rapidamente e se apreende com vagar. Li-o a uma velocidade bastante superior àquela a que o estou, ainda, a deglutir, pois é uma leitura que dá que pensar: sobre as relações familiares, sobre a alienação e sobre a indiferença e o egoísmo; é território denso e nem sempre confortável.

Um dia destes voltarei a Kafka. Fiquei impressionada pelo mundo de questões que colocou num livro tão pequeno. 


avaliação: **** (bom)
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