Eu li-o na língua original, mas Yellowface está traduzido em Portugal,
pela Desrotina, com o título Impostora.
Ganhou vários prémios e menções: British Book
Award for Fiction (2024), Goodreads Choice Award for Fiction (2023), Brooklyn
Public Library Literary Prize Nominee for Fiction (2023), New England Book
Award for Fiction (2023), Barnes & Noble Book of the Year Award Nominee
(2023).
June e Athena são duas autoras, em momentos opostos da sua
carreira literária: Athena está a ter um tremendo sucesso, enquanto June ainda
é relativamente desconhecida.
Uma noite, no apartamento de Athena, esta tem um
acidente e morre.
June, a única pessoa presente, chama o 112 em pânico. Quando
chega a casa, vê que, «num impulso», trouxe consigo – roubou! – o mais recente
manuscrito da "amiga", ainda por publicar. Na sua cabeça, se o
modificar e “polir”, poderá publicá-lo como seu. É demasiado bom para não
correr o risco.
O sucesso não tarda,
e June conhece a fama, milhares de fãs e a abundância financeira de
figurar na lista dos mais vendidos.
Mas o mundo da edição não é um negócio menos implacável do
que os restantes, e June rapidamente se vê a braços com acusações de plágio e
de apropriação cultural.
Yellowface prendeu-me desde as primeiras
páginas – e sem surpresa, pois lê-se como um thriller contemporâneo.
O enredo é extremamente interessante e dá-nos uma
perspectiva do mundo editorial à séria, extremamente agressivo (ou não fosse
nos Estados Unidos), com comentários cortantes sobre a rivalidade entre
autores.
Rebecca F. Kuang dedica grande parte da história
a abordar o fenómeno da cancel culture (ou cultura do
cancelamento), porque June, não sendo asiática (Athena era-o), é acusada de
não ter o direito de escrever um romance sobre asiáticos. É isso que
surge em primeiro lugar, e o plágio é tratado como menos grave.
É este todo que dá uma profundidade real a Yellowface.
Independentemente do lado para qual o leitor pende, a questão é suscitada:
deverão impôr-se limites a um artista de forma a que este deva cingir-se à sua
cultura e experiência? Esta é uma das muitas perguntas que o livro coloca.
O final do romance tem uma reviravolta fácil de antecipar,
mas isso não tira nada à leitura. O que fica é uma compreensão profunda dos
temas abordados e um enquadramento certeiro na acção que a autora delineou.
Kuang aborda ainda o ciúme entre pares, a identidade pessoal, e o acto de escrever.
Yellowface tem em June uma protagonista
complexa, simultaneamente digna de pena mas também calculista. Começa por nos
ser apresentada como uma pessoa comum, uma escritora que sonha viver
desafogadamente do seu trabalho criativo.
Porém, age de forma chocante e, consequentemente,
encontra-se numa série de situações questionáveis. Torna-se claro que é alguém
que não mede as consequências do que faz e que rapidamente se vê encurralada
pelas próprias mentiras, mas a sua espiral descendente é a consequência das
suas escolhas. As redes sociais jogam um papel decisivo em lembrá-la disso –
mesmo quando o retorno atinge contornos de assédio em massa.
A leitura de Yellowface é empolgante, e nada
aborrecida. Cinco estrelas.
«I do fully believe that awards are bullshit, but that doesn't make me want to win them any less. And The Last Front is, simply put, awards bait. (...) And I dance around my apartment, rehearsing an imaginary acceptance speech, attempting the same mixture of grace and youthful excitment Athena always exuded in hers.»