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17 de julho de 2025

A Ilha das Árvores Desaparecidas

 


Autor: Elif Shafak
Género: Romance, Contemporâneo
Idioma: Português
Páginas: 376
Editora: Editorial Presença
Ano: 2022
Título original: The island of missing trees
Tradução: Maria de Fátima Carmo

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Este é o terceiro livro que leio de Elif Shafak, autora turco-britânica, consagrada e multi-premiada, que descobri há cerca de dois anos.

A Ilha das Árvores Desaparecidas conta a história de um amor proibido, que começa no Chipre em 1974. Dois adolescentes encontram-se e apaixonam-se: ele grego e cristão, ela turca e muçulmana. 
 
No seu lugar secreto, cresce uma figueira, testemunha das conversas e dos encontros entre os jovens amantes. Esta árvore é uma das narradoras de vários capítulos do romance.

Outros capítulos passam-se na Londres dos nossos dias. Ada nunca conheceu a ilha do Chipre onde os pais nasceram. Toda a história da família está envolta em segredos e conflitos. A única coisa que a liga à terra dos pais é a figueira centenária que cresce no jardim da sua casa.

A Ilha das Árvores Desaparecidas tinha, na sua sinopse, tudo para resultar numa excelente leitura para mim. E, porém, não foi isso que aconteceu. 
 
Uma das partes mais originais foi a mais decepcionante. Quando a figueira narrava longos parágrafos sobre a natureza... tornou-se aborrecido. As passagens para os capítulos em Londres faziam uma quebra e eram (bastante) menos aliciantes em comparação com os do Chipre.
 
Gostei bastante de todos os pormenores históricos e de saber mais sobre a ocupação turca do norte da ilha cipriota, que dura desde 1963 até aos dias de hoje (!). Adorei seguir a história de amor principal (há outra, menos desenvolvida, e apaixonante também) impactada pela guerra civil. É evidente o trabalho de pesquisa e atenção ao pormenor por parte da escritora.
 
A escrita de Elif Shafak é poética e evocativa, com passagens muito belas e metáforas sublimes. O livro tem várias camadas e pormenores mas não conseguiu, infelizmente, manter o mesmo grau de interesse nas diferentes vozes que o compõem. 
«De qualquer modo, nunca tinha sido uma grande otimista. Devia estar-me no ADN. Descendia de uma longa linhagem de pessimistas. Por isso fiz o que fazia muitas vezes: comecei a imaginar todos os modos de as coisas poderem correr mal. E se este ano a primavera não chegasse e eu ficasse debaixo de terra... para sempre?»

****
(bom)

16 de maio de 2025

The Trees





Autor: Percival Everett
Género:
Contemporâneo
Idioma: Inglês

Páginas: 335

Editora: Influx Press

Ano: 2022

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Money, Mississípi.

Um homem branco é encontrado morto em casa com um segundo cadáver ao lado, que se assemelha a Emmett Till, um jovem negro de 14 anos linchado na mesma cidade 65 anos antes.

Dois detectives negros, do Departamento de Investigação do Mississípi, são enviados a Money para investigarem. O xerife, os seus ajudantes, o médico-legista e demais habitantes brancos colaboram contrariados.

Quando outras mortes macabras se sucedem, uma agente do FBI aparece para coordenar a investigação, após ser descoberto que duas das vítimas pertenciam à família de Carolyn Bryant, a mulher branca que acusou Emmett Till de a ter agredido sexualmente, o que levou ao seu linchamento.

Percival Everett escreveu um romance acutilante que mistura ficção policial e sátira, com vários apontamentos de humor ácido sobre a violência racial nos Estados Unidos.

Everett utiliza a linguagem de forma provocadora, e vários diálogos são tão divertidos como surreais. Os nomes das personagens secundárias são castiços e dão outra cor à acção: Helvetica Quip, Chester Hobnobber, Hickory Spit, Pete Built.

The Trees é um livro audaz e, da melhor forma possível, perturbador.

Foi considerado, aquando da sua publicação, livro do ano para o New York Times, o Chicago Tribune e a TIME. Recebeu o Prémio Bollinger Everyman Wodehouse e foi finalista da edição do Booker de 2022.

Eu li The Trees em Inglês, mas a obra está traduzida em Portugal, pela Livros do Brasil, com o título As Árvores.

«”How much is your cheapest one?”
“May I remind you that the dearly departed is going to be in this box for eternity,” Easy said. “By eternity I do mean forever.”
Daisy stared at him.
“We do have a pauper’s coffin. (…)
“I can live with that.”
“I guess Junior Junior will have to as well,” Easy said.
“Damn straight” Daisy said
.»

*****
(muito bom)

29 de março de 2025

Yellowface

 



Autor: R. F. Kuang
Género:
Contemporâneo
Idioma: Inglês

Páginas: 329

Editora: The Borough Press

Ano: 2023

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Eu li-o na língua original, mas Yellowface está traduzido em Portugal, pela Desrotina, com o título Impostora.

Ganhou vários prémios e menções: British Book Award for Fiction (2024), Goodreads Choice Award for Fiction (2023), Brooklyn Public Library Literary Prize Nominee for Fiction (2023), New England Book Award for Fiction (2023), Barnes & Noble Book of the Year Award Nominee (2023). 

June e Athena são duas autoras, em momentos opostos da sua carreira literária: Athena está a ter um tremendo sucesso, enquanto June ainda é relativamente desconhecida.

Uma noite, no apartamento de Athena, esta tem um acidente e morre.

June, a única pessoa presente, chama o 112 em pânico. Quando chega a casa, vê que, «num impulso», trouxe consigo – roubou! – o mais recente manuscrito da "amiga", ainda por publicar. Na sua cabeça, se o modificar e “polir”, poderá publicá-lo como seu. É demasiado bom para não correr o risco.

O sucesso não tarda,  e June conhece a fama, milhares de fãs e a abundância financeira de figurar na lista dos mais vendidos.

Mas o mundo da edição não é um negócio menos implacável do que os restantes, e June rapidamente se vê a braços com acusações de plágio e de apropriação cultural.

Yellowface prendeu-me desde as primeiras páginas – e sem surpresa, pois lê-se como um thriller contemporâneo.

O enredo é extremamente interessante e dá-nos uma perspectiva do mundo editorial à séria, extremamente agressivo (ou não fosse nos Estados Unidos), com comentários cortantes sobre a rivalidade entre autores.

Rebecca F. Kuang dedica grande parte da história a abordar o fenómeno da cancel culture (ou cultura do cancelamento), porque June, não sendo asiática (Athena era-o), é acusada de não ter o direito de escrever um romance sobre asiáticos. É isso que surge em primeiro lugar, e o plágio é tratado como menos grave.

É este todo que dá uma profundidade real a Yellowface. Independentemente do lado para qual o leitor pende, a questão é suscitada: deverão impôr-se limites a um artista de forma a que este deva cingir-se à sua cultura e experiência? Esta é uma das muitas perguntas que o livro coloca.

O final do romance tem uma reviravolta fácil de antecipar, mas isso não tira nada à leitura. O que fica é uma compreensão profunda dos temas abordados e um enquadramento certeiro na acção que a autora delineou. 

Kuang aborda ainda o ciúme entre pares, a identidade pessoal, e o acto de escrever.

Yellowface tem em June uma protagonista complexa, simultaneamente digna de pena mas também calculista. Começa por nos ser apresentada como uma pessoa comum, uma escritora que sonha viver desafogadamente do seu trabalho criativo.

Porém, age de forma chocante e, consequentemente, encontra-se numa série de situações questionáveis. Torna-se claro que é alguém que não mede as consequências do que faz e que rapidamente se vê encurralada pelas próprias mentiras, mas a sua espiral descendente é a consequência das suas escolhas. As redes sociais jogam um papel decisivo em lembrá-la disso – mesmo quando o retorno atinge contornos de assédio em massa.

A leitura de Yellowface é empolgante, e nada aborrecida. Cinco estrelas.

«I do fully believe that awards are bullshit, but that doesn't make me want to win them any less. And The Last Front is, simply put, awards bait. (...) And I dance around my apartment, rehearsing an imaginary acceptance speech, attempting the same mixture of grace and youthful excitment Athena always exuded in hers.»

*****
(muito bom)