11 de maio de 2026

A Idade da Pele

     






Autor: Dubravka Ugrešić
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 200
Editora: Cavalo de Ferro
Ano: 2023
Título original: Doba ko
že
Tradução do Inglês: Rita Costa 

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Dubravka Ugrešic (1949-2023) nasceu na ex-Jugoslávia, na actual Croácia. 

Académica de Literatura Russa, as suas declarações contra a guerra nos Balcãs, em 1991, tornaram-na alvo de ódio nacionalista por parte de jornalistas, políticos e escritores, e levaram-na a abandonar o seu país natal e a exilar-se na Holanda.

Autora de ensaios e romances, traduzidos em mais de 20 línguas, venceu vários prémios literários — em 2016, a sua obra foi distinguida com o prémio Neustadt de Literatura

A idade da pele é um conjunto de ensaios escritos entre 2014 e 2018.
 Ugrešić escreve sobre a cultura contemporânea dominada pela imagem, pelo corpo e pela superficialidade, assente na ideia central de que vivemos numa era em que a pele — enquanto superfície — substituiu a profundidade, numa lógica cuja violência se torna mais evidente quando lida à luz dos crimes de guerra e da fragmentação jugoslava.
 

A autora, cujo estatuto de exilada atravessa todo o livro, é especialmente sensível às dinâmicas de pertença, trazendo uma perspectiva incisiva sobre o que significa existir num mundo onde tudo é visível, mas pouco é realmente compreendido, onde as emoções complexas são reduzidas a likes, emojis e slogans.

A idade da pele é um livro seco e intelectualmente rigoroso. A autora não oferece soluções nem consolo, e o tom irónico e humorístico não esconde a sua tristeza da perda irreversível que resultou na mentalidade que, crê, a guerra normalizou e persistiu.

Mais do que uma sequência de conflitos, a queda da Jugoslávia é, para Dubravka Ugrešić, a vitória da superfície sobre a complexidade.

«Graças aos media, a estupidez tornou-se global. (…) A sua principal tarefa não é tanto a desinformação, ou a informação parcial, mas a trivialização da informação. Os consumidores da informação, no momento em que ficam saciados, têm a forte sensação de que o tempo deixou de fluir, de que se encontram num buraco atemporal, deslocado, desligado e desorientado.»

«A misoginia é uma reacção instintiva nos pequenos países dos Balcãs. É tão comum, tão profundamente arreigada, tão omnipresente e tão flagrante que ninguém — nem quem a dissemina, nem as vítimas — dá conta. (…) E surge muitas vezes camuflada, atrás de uma máscara, nos lugares mais inesperados, como nos sonhos eróticos ou nas fantasias de jovens inocentes com uma parceira ideal, muda...»

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(bom)

30 de abril de 2026

O aniversário

   




Autor: Andrea Bajani
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 144
Editora: Alfaguara
Ano: 2025
Título original: L'anniversario 
Tradução: Sofia Ribeiro 
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O aniversário assinala a estreia de Andrea Bajani em Portugal.

Este escritor italiano, nascido em 1975, é autor de vários romances premiados e traduzidos internacionalmente. 

O aniversário
 é o testemunho de um homem que corta todos os laços com a família de origem, decidido a sobreviver a um ambiente dominado por um pai autoritário e uma mãe anulada.

Num discurso sem floreados, o narrador analisa com precisão clínica a violência psicológica onde cresceu. O monólogo interior explica a emancipação em várias situações, e como a fuga se tornou o único gesto possível de libertação.

A escrita de Bajani é seca e cirúrgica, expondo um inferno familiar feito de silêncios, manipulação e dependência emocional. Apesar de curta, é uma leitura pesada. 

A intensidade e a lucidez do texto trazem uma frieza que tornam difícil um envolvimento emocional profundo. Mas sentimos sempre a ideia de uma ferida que não cicatrizou no narrador, e que a sua libertação, apesar de necessária, foi incompleta.

É um livro que provoca alguma, ou muita, angústia, dependendo da sensibilidade do leitor. 

«[A minha mãe] voltou ao fogão para cozinhar como antes e para ficar em silêncio, sem que o rosto traísse qualquer dissidência ou mau humor quando o meu pai, depois de nos pedir que disséssemos se o que tínhamos acabado de tirar da travessa era bom, dizia então que tinha sido ideia dele, que ele era a mente e a nossa mãe, apenas o braço.»

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(bom)

18 de abril de 2026

Symposium / O Banquete

     






Autor: Platão
Género: Clássicos
Idioma: Inglês
Páginas: 130
Ano: 2012 

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Platão terá nascido em 428 a.C., em Atenas, cidade onde também morreu, aos 81 anos.

Uma das figuras-chave do período clássico da Grécia Antiga, foi filósofo e matemático, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental.

Juntamente com o seu mentor, Sócrates, e o seu discípulo, Aristóteles, Platão lançou os alicerces da filosofia ocidental. 

Entre as suas obras mais relevantes, além d
O Banquete, contam-se República, Fédon, Górgias, Íon e a Apologia de Sócrates.

Symposium / O Banquete, redigido por volta de 384 a.C., é geralmente considerado o primeiro texto literário-filosófico de um ciclo centrado na reflexão à mesa — neste caso, um banquete entre amigos.

Estudei vários textos de Platão na escola, mas não este — a oportunidade surgiu quando o livro foi o mais votado no clube de leitura a que pertenço.

N’O Banquete, Sócrates, Xenofonte, e Aristodemo, entre outros, alternam entre conversas triviais e discussões de maior alcance, que passam por Homero, a pólis e, sobretudo, o amor.

O texto é um conjunto de ideias sobre o desejo — não apenas como impulso carnal, mas como força estruturante das relações sociais, da produção intelectual e da ambição política. 

A famosa “escada do amor”, apresentada por Sócrates através de Diotima, pode ser lida como uma tentativa de sistematizar o modo como transformamos a atracção em significado — do corpo à ideia, do particular ao universal/
transcendente.

Ao mesmo tempo, há algo moderno na forma como o texto expõe o discurso enquanto encenação de si mesmo: cada interveniente fala tanto sobre o amor quanto sobre si próprio, revelando inseguranças e propósitos. Nesse sentido, o banquete não é apenas um espaço de pensamento, mas também de performance.

Talvez por isso o texto continue a ser lido: não tanto pelas respostas que oferece, mas pela forma como organiza perguntas que ainda hoje são relevantes.

Eu li a tradução inglesa que faz parte do domínio público; a obra está traduzida em Portugal pela helenista Maria Mafalda Viana, com o título O Banquete, via Tinta da China.

«Human nature was originally one and we were a whole, and the pursuit of the whole is called love.»

«
There is no sameness of existence, but the new mortality is always taking the place of the old. This is the reason why parents love their children — for the sake of immortality; and this is why men love the immortality of fame. For the creative soul creates not children, but conceptions of wisdom and virtue, such as poets and other creators have invented.»

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(muito bom)