26 de julho de 2026

A segunda vida de Olive Kitteridge

     






Autor: Elizabeth Strout
Género: Literatura
Idioma: Português
Páginas: 344
Editora: Alfaguara
Ano: 2019
Tradução: Tânia Ganho 

---

A segunda vida de Olive Kitteridge é a continuação de Olive Kitteridge (ler o meu apontamento aqui).

Elizabeth Strout mantém a mesma estrutura de histórias interligadas, passadas numa pequena cidade costeira (fictícia) do Maine. Cada capítulo funciona como um conto autónomo (Detido, Parto, Exilados, Coração), com Olive a aparecer ora como protagonista, ora como presença secundária.

A professora de Matemática, reformada há vários anos, continua frontal e emocionalmente pouco expressiva, embora a idade a tenha tornado mais consciente das suas falhas e lhe permita mostrar-se mais vulnerável.

À semelhança do primeiro livro, os temas continuam densos: a perda de autonomia e o isolamento que acompanham a velhice, a aceitação da morte, as segundas oportunidades amorosas, o arrependimento e o remorso.

A prosa da autora continua a saldar-se numa leitura calma e reflexiva, onde o interesse reside na psicologia das personagens e na emoção contida.

A "segunda vida" de Olive é uma aprendizagem de como viver com maior abertura emocional, em que o envelhecimento não é apresentado como decadência, mas como um processo de maior honestidade consigo própria.

Enquanto o primeiro livro explora as falhas humanas enquanto ainda há tempo para errar, o segundo debruça-se sobre o que permanece quando o tempo começa a escassear.

«Doía-lhe tudo, como se tivesse caminhado muito mais do que o seu corpo aguentava, doía-lhe o corpo inteiro, e pensou: dói-me a alma. E concluiu, então, que nunca devíamos encarar de ânimo leve a solidão que as pessoas sentiam no seu âmago, que as escolhas que faziam para evitarem essa escuridão escancarada eram escolhas que exigiam respeito.»

*****
(muito bom)

12 de julho de 2026

O surpreendente silêncio dos homens

       









Autor: Rita Ferro
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 224
Editora: Dom Quixote
Ano: 2025

---

O surpreendente silêncio dos homens, de Rita Ferro (1955–), foi publicado em 2025.

A escritora e cronista portuguesa estreou-se na literatura em 1990, e é autora de uma vasta obra que inclui romances, crónicas e livros de não-ficção. A sua escrita aborda frequentemente as relações humanas, a condição feminina, a família e temas sociais. 

Maria da Graça, narradora da história, cresce sob a influência do aviso que é preciso desconfiar dos homens. Ao longo do livro, conta-nos episódios da infância até à idade adulta, pontuados por manifestações de violência masculina. O romance aponta a forma como muitas mulheres são educadas para antecipar o perigo, moldando comportamentos e escolhas para se protegerem.

Ao longo das páginas, reparei que o tom se situou entre o romance introspectivo e o ensaio social, com Rita Ferro a abordar temas como o medo transmitido entre gerações e o silêncio dos homens perante comportamentos abusivos (de outros homens).

O "silêncio" do título estende-se aos homens que optam por não agir e/ou não censurar os comportamentos contra as mulheres, preferindo, ao invés, a passividade.

A escrita de Rita Ferro é directa e provocadora, e a narrativa interrompe para introduzir reflexões, estatísticas e comentários sobre a violência de género. Ao início, esta mudança de tom surpreendeu-me, mas acabou por se integrar naturalmente no romance.

Mais do que pela história que conta, O surpreendente silêncio dos homens destaca-se pelas questões que levanta, e pelo convite a uma reflexão necessária sobre as mesmas.

É importante evitar generalizações simplistas sobre homens ou mulheres, mas não devemos ignorar os factos e os números. A violência de género é uma realidade documentada e merece ser discutida sem preconceitos, sem se desvalorizar a dimensão do problema. 

«Os homens descobriram quase tudo, ninguém desmente. Depois da roda a escrita, o vidro, a lâmpada, o avião, a pólvora, o telefone, a televisão, a internet, o GPS. Mas não o melhor da vida: as mulheres. Não o seu corpo, as suas almas! Não pelo sexo, a reprodução, ou a família, mas por tudo quanto lhes damos, se merecem. E mesmo se não merecem.» 

«Deve-se ao homem a maior parte dos grandes feitos, sim senhor, porque até ao século XIX não nos deixaram sonhar, criar, arriscar. (...) lascaram a pedra, descobriram novos mundos, chegaram à Lua e a Marte, separaram siameses, transplantaram fígados e corações. Mas ainda não encontraram uma forma de nos poupar aos abusos, aos espancamentos, às violações? (...) E como conciliar a mesma mão que afaga e ampara, com a que brutaliza, sequestra, estupra?»

****
(bom)

21 de junho de 2026

A cinco palmos dos olhos

    







Autor: Carlos Campaniço
Género: Literatura, Romance
Idioma: Português
Páginas: 272
Editora: Casa das Letras
Ano: 2025

---

A cinco palmos dos olhos foi a minha estreia com o escritor Carlos Campaniço, nascido em Safara, no concelho de Moura, em 1973.

Comecei pelo seu título mais recente, pelo menos à data deste apontamento. Que boa descoberta!

O resumo deste romance: após o 25 de Abril, a aldeia alentejana de Aldeia Velha é transformada pela Reforma Agrária e pelo fim da Guerra Colonial. Entre ex-latifundiários, trabalhadores rurais, militantes políticos e sonhadores desiludidos, a comunidade adapta-se a uma nova realidade. 

Como elo de ligação entre a galeria de personagens temos um carteiro peculiar com a alcunha de Boca-Viúva, num romance que retrata tensões, esperanças e episódios do dia-a-dia de uma aldeia em mudança.

Foi muito bom ouvir e visualizar o Alentejo desses dias, e que Campaniço descreve tão bem! Algumas frases são pura poesia, e captam bem a musicalidade de como se fala na região, que tem um colorido muito próprio. 

Vivi em Beja vários anos e a experiência ficou-me gravada no coração, muito por força das pessoas que adoptaram
, como amiga e colega, esta alfacinha que cresceu nos subúrbios da capital. E voltar a esse quotidiano numa década que não vivi, e a uma ruralidade que não me é completamente familiar, em anos decisivos para o Portugal pós-ditadura, tornou a leitura muito mais rica.

Recomendo este livro, e a lerem escritores portugueses. E, pois claro!, já tenho outros livros de Campaniço debaixo de olho.

«Assim andava o Presidente da Junta desde que soubera do regresso do latifundiário. E logo depois o seu partido confirmaria a derrota inimaginável, o fim do sonho: os trabalhadores teriam de sair das terras de que tiravam o seu ganha-pão. (...)
"V
oltarão a pagar-nos aquele nada para trabalharmos para eles? Teremos de tirar os nossos filhos da escola, agora que todas as crianças têm direito a estudar, e irão para os campos aos sete ou oito anos de idade, como nós fomos? Haverá comida para todos, como há hoje, ou vamos pedir fiado nas lojas novamente? E trabalho? Agora todos temos trabalho. Voltaremos ao tempo em que seleccionavam apenas uns quantos na praça e os outros morriam à fome?

*****
(muito bom)