22 de setembro de 2026

Girl on Girl

       









Autor: Sophie Gilbert
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 344
Editora: Penguin (e-book)
Ano: 2026

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Em Girl on Girl – como a cultura pop levou uma geração de mulheres a voltarem-se contra si próprias, Sophie Gilbert revisita a música, a televisão, a moda e a cultura das celebridades dos anos 1990 e 2000 para mostrar como a cultura popular moldou a nossa visão das mulheres e do feminismo.

Um dos argumentos centrais é que o progresso das mulheres não foi linear. Ideias inicialmente associadas à emancipação foram apropriadas pela indústria e transformadas em produtos. É o caso do «Girl Power», que nasceu no movimento punk riot grrrl como uma afirmação de resistência e acabou popularizado pelas Spice Girls como uma forma de empoderamento ligada ao consumo e à aparência.

Gilbert analisa também figuras como Madonna e Janet Jackson, cuja sexualidade procurava afirmar o controlo sobre o próprio corpo e imagem, mas que coexistia com uma indústria mediática que continuava a reduzir as mulheres à aparência e ao apelo sexual. Pode uma escolha ser considerada emancipadora quando a indústria a controla e beneficia dela?

O livro disseca ainda a cultura das celebridades na viragem do milénio: paparazzi, reality shows, imprensa sensacionalista e blogues (como o de Perez Hilton) transformaram a exposição e a humilhação de mulheres (como Paris Hilton e Britney Spears) em entretenimento. A internet ampliou esse fenómeno, normalizando uma cultura de julgamento e crueldade que ainda hoje deixa marcas.

Girl on Girl é também uma crítica à nostalgia: canções, filmes, programas de televisão e revistas que recordamos com afecto podem, vistos hoje, revelar uma cultura profundamente marcada pela objectificação feminina. Sophie Gilbert não propõe rejeitar esses objectos culturais, mas reconsiderá-los à luz do contexto em que surgiram.

Bem escrito e muito bem pesquisado (no e-book, o formato que li, a grande maioria dos links para revistas, artigos e entrevistas continuam activos), o livro mostra que o feminismo não avançou simplesmente de uma década para a seguinte. Entre conquistas e recuos, a cultura popular moldou a ideia de liberdade feminina de formas que estão longe de ser libertadoras.

«Este livro está longe de ser completo. Deixei de fora muito mais do que consegui incluir, sobretudo porque queria estabelecer ligações e compreender padrões. (…) Trata-se apenas de uma pequena parte de um projeto de reavaliação mais amplo. Analisar a história em conjunto é, antes de mais, uma manifestação de esperança: procuramos entender os caminhos que falharam para então concebermos uma via mais forte rumo ao futuro.»

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(muito bom)

6 de setembro de 2026

Astérix na Lusitânia

     




Autores: Fabcaro; Didier Conrad
Género: Banda desenhada
Idioma: Português
Páginas: 48
Editora: Edições Asa
Ano: 2025

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A chegada de Astérix e Obélix à Lusitânia é, por si só, uma ideia assinalável.

Como acontece com os Bretões, Corsos, Belgas e os próprios Gauleses, a questão é saber que características escolheriam para caricaturar os Lusitanos, e se nós próprios lhes acharíamos graça.

Fabcaro escolheu a melancolia, associando-a à saudade: nostalgia, tristeza, esperança e uma certa inclinação para o derrotismo. É uma caricatura reconhecível, mas também desconfortável, assente numa visão dos portugueses ligada às vagas de emigração das décadas de 1960 e 1970.

Porém, referências como Viriato, fado, saudade, bacalhau, pastéis de nata e hospitalidade continuam a ser associações intemporais.

E há graça neste jogo de clichés. O fado e Amália funcionam bem, com a melancolia lusitana a transformar-se numa arma contra os Romanos, assim como os jogos de palavras do texto original e da parte das tradutoras (Sacanês, o eléctrico XXVIII, o Hepimilis, a Primarquês).

Fonte: imagens do livro

Mas o humor também é desigual em Astérix na Lusitânia, com piadas mornas, como a dos pastéis de nata apresentados como inferiores à pastelaria francesa. Do lado da tradução, o uso exagerado do ”ó pá” cansa à segunda página.

A história do garum é bastante simples e não acrescenta muito. Ainda assim, há momentos divertidos e referências culturais bem fisgadas.

Nunca saberemos qual teria sido a versão de Goscinny e Uderzo. Astérix na Lusitânia diverte e proporciona um prazer estranho quando nos reconhecemos (pouco ou muito) na caricatura.

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(bom)