24 de outubro de 2026

As invisíveis – histórias sobre o trabalho de limpeza

       









Autor: Rita Pereira de Carvalho
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 96
Editora: Fundação Francisco Manuel 
dos Santos (e-book)
Ano: 2022

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A maioria das “senhoras da limpeza” entram cedo e saem tarde, e viajam enquanto a cidade dorme. A magia acontece quando ninguém está a ver.

São trabalhadoras essenciais, e não há um edifício comercial que dispense o seu trabalho.

Em As invisíveis – histórias sobre o trabalho de limpeza, a jornalista Rita Pereira de Carvalho dá voz aos assalariados das limpezas industriais. São histórias de vida distintas, ligadas a uma função que pede robustez e competência para limpar o que os outros sujam.

Com excepção do último testemunho, todas as histórias são de mulheres, a quem, quase sempre, associamos esta profissão. Há diferenças entre elas, mas convergem nos horários exigentes, no esforço físico e na falta de reconhecimento. Há ainda uma invisibilidade que, com o tempo, parece tornar-se parte da profissão.

Talvez seja essa uma das constatações mais inquietantes deste livro: a capacidade de nos habituarmos ao que não deveria ser normal: habituamo-nos a não ser vistos, e habituamo-nos a não ver.

O chão que brilha de lavado, o lixo que desaparece, as casas de banho impecáveis. A limpeza é indispensável à vida colectiva, mas quem a assegura permanece à margem da nossa atenção. E só notamos quando deixa de ser feita.

A invisibilidade não é apenas uma questão de olhar, mas também uma questão de estatuto e de reconhecimento. Há profissões essenciais ao funcionamento da sociedade que continuam a ocupar lugares menos valorizados. Dependemos delas, mas raramente pensamos em quem as exerce.

Ler As invisíveis – histórias sobre o trabalho de limpeza é olhar para quem habitualmente não vemos. É lembrar que, por detrás dos espaços limpos que encontramos todos os dias, há pessoas, esforço e tempo. E que nada disso acontece por magia.

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(bom)

11 de outubro de 2026

Contos de cães e maus lobos

        









Autor: Valter Hugo Mãe
Género: Contos
Idioma: Português
Páginas: 159
Editora: Porto Editora
Ano: 2015

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Contos de cães e maus lobos reúne onze contos, tem um prefácio de Mia Couto e uma nota do autor no final.

A encadernação, dominada pelo cinzento-escuro e pelo vermelho, é muito bonita, e cada conto, e também o prefácio, é acompanhado por ilustrações de um artista plástico diferente (doze ao todo), o que dá ao livro uma dimensão visual marcante.

Mas é o tom das histórias que fica. Há qualquer coisa de encantatório nos contos, mas aquilo de que se fala é bastante real.

As personagens são, na sua maioria, pessoas comuns: rapazes e raparigas, mães, avós, filhos, netos, velhos. Há crianças que não querem crescer e outras que são obrigadas a fazê-lo muito depressa. Há personagens que descobrem a importância de gostar e de cuidar, seja de outras pessoas, de objetos ou dos próprios livros.

Gostei da forma como Valter Hugo Mãe fala de coisas importantes sem lhes retirar simplicidade. Escreve sobre amor, perda, infância, memória e afectos de uma forma delicada, com uma escrita poética com sabor a fábula.

Os meus contos favoritos de Contos de cães e maus lobos: A menina que carregava bocadinhos; O menino de água; Querido monstro; Modo de amar; As mais belas coisas do mundo; e Bibliotecas.

«A liberdade também era isso, não voltar. O amor existia em todas as direcções. Ela pressentia isso. Que o amor estava para lá de qualquer direcção.»

«Tinha um pássaro no coração. Era, assim mesmo, o lugar mais decente para aprisionar um animal de estimação.»
 
«Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes.»

«Eu queria ser sagaz, ter perspicácia, estar sempre inspirado. O meu avô pedia que não me desiludisse. Quem se desilude morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado.»

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(bom)

22 de setembro de 2026

Girl on Girl

       









Autor: Sophie Gilbert
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 344
Editora: Penguin (e-book)
Ano: 2026

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Em Girl on Girl – como a cultura pop levou uma geração de mulheres a voltarem-se contra si próprias, Sophie Gilbert revisita a música, a televisão, a moda e a cultura das celebridades dos anos 1990 e 2000 para mostrar como a cultura popular moldou a nossa visão das mulheres e do feminismo.

Um dos argumentos centrais é que o progresso das mulheres não foi linear. Ideias inicialmente associadas à emancipação foram apropriadas pela indústria e transformadas em produtos. É o caso do «Girl Power», que nasceu no movimento punk riot grrrl como uma afirmação de resistência e acabou popularizado pelas Spice Girls como uma forma de empoderamento ligada ao consumo e à aparência.

Gilbert analisa também figuras como Madonna e Janet Jackson, cuja sexualidade procurava afirmar o controlo sobre o próprio corpo e imagem, mas que coexistia com uma indústria mediática que continuava a reduzir as mulheres à aparência e ao apelo sexual. Pode uma escolha ser considerada emancipadora quando a indústria a controla e beneficia dela?

O livro disseca ainda a cultura das celebridades na viragem do milénio: paparazzi, reality shows, imprensa sensacionalista e blogues (como o de Perez Hilton) transformaram a exposição e a humilhação de mulheres (como Paris Hilton e Britney Spears) em entretenimento. A internet ampliou esse fenómeno, normalizando uma cultura de julgamento e crueldade que ainda hoje deixa marcas.

Girl on Girl é também uma crítica à nostalgia: canções, filmes, programas de televisão e revistas que recordamos com afecto podem, vistos hoje, revelar uma cultura profundamente marcada pela objectificação feminina. Sophie Gilbert não propõe rejeitar esses objectos culturais, mas reconsiderá-los à luz do contexto em que surgiram.

Bem escrito e muito bem pesquisado (no e-book, o formato que li, a grande maioria dos links para revistas, artigos e entrevistas continuam activos), o livro mostra que o feminismo não avançou simplesmente de uma década para a seguinte. Entre conquistas e recuos, a cultura popular moldou a ideia de liberdade feminina de formas que estão longe de ser libertadoras.

«Este livro está longe de ser completo. Deixei de fora muito mais do que consegui incluir, sobretudo porque queria estabelecer ligações e compreender padrões. (…) Trata-se apenas de uma pequena parte de um projeto de reavaliação mais amplo. Analisar a história em conjunto é, antes de mais, uma manifestação de esperança: procuramos entender os caminhos que falharam para então concebermos uma via mais forte rumo ao futuro.»

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(muito bom)