6 de junho de 2021

Tokyo decadence

 
Autor: Ryu Murakami
Género: Contos

Idioma: Inglês
Páginas: 258
Editora: Kurodahan Press (Kindle)
 Ano: 2019
(1.ª edição: 1988)

---


Ryu Murakami
é um escritor e realizador japonês nascido em 1952.

Apesar não ser parente de Haruki Murakami (Kafka à beira-mar; 1Q84; Norwegian wood), é conhecido no milieu cultural japonês como "o outro Murakami".

O seu primeiro romance, Almost Transparent Blue, escrito quando Murakami ainda era estudante, foi um bestseller e recebeu o prémio literário mais conceituado do Japão, consagrando-o como "o" autor japonês de literatura violenta.

Tokyo Decadence é uma boa amostra do seu trabalho, um conjunto de 15 contos seleccionados de cinco colecções publicadas entre 1986 e 2003.

Os protagonistas dos contos não são gueixas, artistas tímidos ou homens de negócios convencionais; são marginais/alienados que habitam uma Tóquio cruel e sombria, que alimenta os vícios de drogados, prostitutas e degenerados.

A prosa de Tokyo Decadence tem um tom único na sua mordacidade. As personagens recorrem à prostituição, ao consumismo e à droga para encherem as suas vidas, mentindo e roubando sem remorsos. A maioria das personagens femininas são mentalmente desequilibradas, histéricas e ninfomaníacas; a maioria das personagens masculinas são bêbadas, prostitutas e tóxico-dependentes.

Apesar do tom decadente e cenários deprimentes, Tokyo Decadence é interessante e lê-se bem; rapidamente nos habituamos ao tom sombrio, às relações humanas pouco salutares e ao excesso de vício. As história são por vezes salpicadas com dança e música cubanas - que o autor ajudou a difundir no Japão. É dificil prever como as histórias vão acabar; Murakami não recorre a clichés; alguns contos acabam abruptamente. 

Tirando um par de contos algo descartáveis, a maioria fica na memória. Alguns estão interligados e há temas recorrentes, o que ajuda a criar uma coesão narrativa. 

Achei esta leitura uma boa introdução à obra do autor.

****
(bom)

30 de maio de 2021

Collective darkness

 

Autor: Vários (Antologia)
Género: Contos, Terror
Idioma: Inglês
Páginas: 167
Editora: Editing Mee (Kindle)
 Ano: 2020

---


Collective Darkness é uma antologia de 12 contos de terror de autores nunca publicados.

Sendo a segunda antologia que leio num espaço de poucas semanas, e com a outra ainda fresca na memória, esta ficou um pouco aquém da primeira.

Mais uma vez, os temas são variados: fantasmas, vampiros, locais
isolados, monstros na escuridão. A intensidade também difere, com nenhum verdadeiramente aterrador.

Gostei bastante de três contos:


Padua's eyes – Jonathan Reddoch - o meu favorito; passado na era medieval, onde uma jovem vê o pai e o pónei de estimação serem atacados por um vampiro e depois perseguidos pelos locais... e ela decide vingar-se.

Red flag – K.R. Patterson
- um conto sobre a dinâmica entre uma mãe e o filho, com uma reviravolta final interessante.

Polter geist – Jen Ellwyn - um rapaz determinado em recuperar um artefacto numa loja com "sombras" por todo o lado, tenta sair sem ser detectado; bom clima de suspense.

Apesar desta antologia não ter contido histórias tão interessantes, aprecio bastante descobrir novas "vozes", quiçá algumas delas os autores de referência no género daqui a uns anos.

***
(mediano/razoável)

23 de maio de 2021

Dream story (Traumnovelle)

 

Autor: Arthur Schnitzler
Género: Romance

Idioma: Inglês
Páginas: 128
Editora: Penguin (Kindle)
 Ano: 1926

---

Dream story apareceu no meu radar por causa do filme De olhos bem fechados, o último filme de Stanley Kubrick, que morreu poucos dias após o filme estar pronto, em 1999. Os protagonistas são Nicole Kidman e Tom Cruise, casados na altura.

Kubrick e Frederic Raphael basearam-se neste livro para escrever o guião do filme, depois do primeiro o ter lido e lançado o desafio ao segundo.

Vi o filme primeiro, várias vezes - e gosto bastante -, mas prefiro fazer o contrário para não ser influenciada aquando da leitura. 

Ao ler Dream story, no entanto, foi fácil lê-lo sem imaginar os actores e cenários do filme, pois a obra de Schnitzler passa-se na Viena dos anos 20 e a de Kubrick na Nova Iorque dos anos 90; a atmosfera é muito diferente. Porém, também é notória como os argumentistas se inspiraram no livro e seguiram fielmente a narrativa. 

A figura central do livro é Fridolin, um médico austríaco casado com Albertine, com quem tem uma filha pequena. Uma noite, Albertine confessa ao marido uma fantasia que teve com um estranho nas suas últimas férias; Fridolin retribui contando que também se sentiu atraído por alguém.

A partir daí, Fridolin vê todas as suas interacções com outras mulheres de uma forma diferente, mais receptivo a insinuações e ao flirt, mais aberto à sua beleza e capacidade de atracção.

Vendo pacientes no hospital e ao domicílio, infiltrando-se numa soirée privada onde todos estão mascarados, o autor coloca o protagonista em múltipas situações onde a tensão psicológica e sexual da vida de casado estão sempre presentes nos monólogos de Fridolin. Há um tom pouco explícito ao longo de toda a história, reforçando o ambiente de sonho e e ambiguidade da acção.

No final, podemos conjecturar que a história talvez não seja o sonho de Fridolin mas de Albertine. Ou ir ainda mais além na especulação. Na época em que foi escrito, com Freud a revolucionar as ideias sobre o sonho, o desejo e a sexualidade, o facto de Dream story não ser linear permite várias interpretações. Kubrick soube jogar com isso na sua adaptação.

Em Portugal, foi publicado pela Relógio d'Água com o título História de um sonho.

Li num artigo que os livros de Arthur Schnitzler estavam na lista negra dos nazis para as famosas queimas de livros, juntamente com os de Freud, Zweig e Remarque, entre outros; tenho curiosidade em ler mais deste autor.

****
(bom)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...