Título original: L'heure des prédateurs
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
Giuliano da Empoli é um politólogo, professor e escritor com cidadania italiana e suíça. Foi conselheiro político do primeiro-ministro Matteo Renzi.
The Wizard of the Kremlin / O Mago do Kremlin foi o seu primeiro romance (o meu apontamento sobre o livro aqui), multipremiado e adaptado ao cinema (idem sobre o filme).
N’A Hora dos Predadores, Empoli foca-se no poder contemporâneo e no palco onde as regras deixaram de ser claras, e onde florescem os mais agressivos, oportunistas e amorais — os predadores do título, apelidados também de borgianos (entrada do Wikipédia sobre César Bórgia).
Um dos aspetos mais interessantes deste ensaio é a aproximação entre política e performance. Os novos protagonistas do poder são estrategas e performers — não há uma palavra equivalente em português que capte o sentido de performance/performer; prefiro manter o anglicismo.
A Hora dos Predadores não é tanto um livro pessimista como é lúcido. É sensato da parte do autor recusar simplificações, e expor o leitor à complexidade e ambiguidade do que nos conta, como um dos episódios da subida ao poder de MBS (o príncipe herdeiro da Arábia Saudita), os bastidores da ONU durante uma das suas assembleias, ou a forma de comunicação dos pais da inteligência artificial (IA) moderna (Hinton, LeCun e Bengio).
É uma leitura necessária para compreender as regras (ou a ausência delas) que estruturam o poder moderno.
«Ao longo das últimas três décadas, os responsáveis políticos das democracias ocidentais comportaram-se, face aos conquistadores da tecnologia, exactamente como os astecas do século XVI; confrontados com o raio e trovão da Internet, com as redes sociais e com a IA, submeteram-se na esperança de que ressaltassem sobre eles alguns salpicos de pó de fadas.»
«O poder da IA não tem nada de democrático, nem de transparente. Mais do que artificial, a IA é uma forma de inteligência autoritária, que centraliza os dados e os transforma em poder. Tudo isso na mais total opacidade, sob o controlo de um punhado de empreendedores e de cientistas que cavalgam o tigre na esperança de não virem a ser devorados.»
*****
(muito bom)




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