30 de janeiro de 2021

Canção doce


Autor: Leila Slimani
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 216
Editora: Alfaguara
Ano: 2017

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Canção doce (Chanson douce no original) foi um dos bestsellers europeus de 2016, valendo à autora franco-marroquina Leila Slimani o prestigiado Prix Goncourt

A história desenrola-se na Paris dos nossos dias. Nela, um casal com dois filhos decide contratar uma ama para cuidar das crianças agora que a mãe vai voltar a trabalhar.
 
A escolha recai sobre a discreta Louise, que conquista rapidamente toda a família com a sua seriedade e capacidade de trabalho. Louise limpa, cozinha e é carinhosa para com as crianças, mantendo o agregado familiar numa bolha de conforto que é apreciada por todos.

O livro abre com o homicídio das duas crianças pela ama. O livro aprofunda então as histórias de Paul e Myriam, um casal de classe média-alta, e de Louise, que vive nos subúrbios da capital em escassez económica, e as suas interacções e dinâmicas. Com o assassinato das crianças como ponto de partida, o leitor é rapidamente envolvido na história e navega pelas nuances sociais e culturais retratadas, tentando perceber e prever as acções da homicida.

Slimani condensa em pouco mais de 200 páginas diversas questões, das quais se destacam as expectativas ligadas à maternidade, a pobreza (envergonhada) e as relações de poder e dependência. O resultado é um romance envolvente e dinâmico, com algumas falhas.

Não apreciei inteiramente a forma como a autora abordou as possíveis abordagens que terão levado ao crime: a narrativa torna claro que Louise é uma pessoa reprimida e com problemas psicológicos, incapaz de uma ligação emocional saudável; o enfoque na sua pobreza não foi bem explicada ao ponto de ser um motivo válido (e aqui surgiram algumas questões pertinentes relativamente à falta de meios económicos). Creio que faltou um desenvolvimento de algumas situações para ter uma história mais coerente e forte.

Leila Slimani ter-se-á inspirado num caso ocorrido em 2012 em Nova Iorque e nas entrevistas que ela mesma fez quando procurava uma ama para os filhos, fascinada pelas relações que se estabelecem entre a família e a ama.

O romance foi adaptado ao cinema em 2019, valendo duas nomeações à actriz principal pelo papel de Louise.

****
(bom)

24 de janeiro de 2021

A Seca

Autor: Jane Harper
Género: Thriller
, Policial
Idioma: Português
Páginas: 352
Editora: Edições Asa (e-book)

Ano: 2017

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Há quanto tempo este livro estava na lista dos próximos títulos a ler... Finalmente, comecei-o, e que leitura!

Livro de estreia de Jane Harper, A Seca é um policial que nos agarra desde os primeiros capítulos. 

A história começa com o regresso de Aaron Falk a Kiewarra, onde viveu até à adolescência, para o funeral de Luke, um amigo de infância. 

Aaron sente os olhares de todos em si, tendo abandonado a cidade há duas décadas entre rumores de que estaria envolvido na morte de uma jovem da terra.

O ambiente é ainda mais pesado porque a história oficial é que Luke matou a família e suicidou-se em seguida por motivos económicos, levado ao desespero por um longo período de seca que abala Kiewarra e mantém vários exploradores agrícolas angustiados.

Mas os pais de Luke recusam-se a acreditar nesta versão e pedem a Aaron, que é um agente federal especializado em crime económico, que investigue as finanças do filho, o que ele aceita relutantemente, por lealdade ao amigo e empatia para com os pais de Luke.

Está assim montado o cenário, num calor sufocante em pleno deserto australiano, onde a seca e a crise económica põem a descoberto as tensões de um lugar onde toda a gente se conhece e onde Aaron sabe que não é bem-vindo. No meio do pó e debaixo de um calor claustrofóbico, o agente tenta descobrir a verdade rodeado de hostilidade, tendo como aliado o Sargento Raco, da polícia local.

O final não é bombástico, mas é bem construído. Os flashbacks, sucintos e visuais, foram uma adição inteligente que permitiram revelar cenas passadas sem quebrar o ritmo.

A Seca é um policial muito bem escrito, que nos envolve desde as primeiras páginas e revela uma segurança surpreendente para um livro de estreia. Super recomendado.

*****
(muito bom)

18 de janeiro de 2021

Who goes there?

Autor: John W. Campbell Jr.
Género:
Ficção Científica
Idioma: Inglês
Páginas: 65
Editora: Wildside Press (Kindle)
Ano: 1938

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Uma novela de 65 páginas, publicada no Verão de 1938 deu, até à data, origem a três adaptações ao grande ecrã: The thing from another world (1951), The thing/Veio do outro mundo (1982) e The thing/A coisa (2011). 

Não vi o primeiro, adoro o segundo  (de John Carpenter), e gostei bastante do terceiro, uma prequela do filme de '82.

Antártida. Um grupo de cientistas descobre uma nave, de onde um extraterrestre congelado é resgatado. O evento é encarado como uma descoberta científica extraordinária, algo que se vai revelar ingénuo à medida que o processo de descongelamento começa. Rapidamente, a equipa descobre que “a coisa", agora à solta no acampamento, é uma forma de vida altamente desenvolvida que sobrevive matando e imitando as vítimas, mantendo a sua aparência e comportamentos originais, tornando-se assim quase impossível de detectar.

Alguns homens apercebem-se rapidamente do potencial caótico se a criatura sair do acampamento e convencem os restantes da gravidade da situação. Assim, decide-se inutilizar os aviões e veículos que permitiriam uma fuga e descobrir quem poderá ter sido infectado. O clima de desconfiança e instabilidade instala-se entre os quase quarenta homens, agravado pela urgência de agir e sobreviver, assim que se torna claro que os infectados não podem ser curados e têm de ser eliminados. Esta ideia foi a percursora do género survival horror.

Achei a ideia bastante avançada para a altura e forte o suficiente para se ter tornado a referência que é. Após a leitura de Who goes there? pesquisei um pouco e descobri que foi encontrado em 2018 um manuscrito inédito, uma versão alargada desta história, intitulada Frozen Hell, quase 50 anos após a morte de John Campbell Jr. Neste seguimento, uma nova adaptação da história começou a ser preparada em 2020 com base no manuscrito inédito, devendo o filme ser lançado pela Universal Pictures nos próximos anos.

Talvez por isso a adaptação de Carpenter divirja tanto da novela original. Em Who goes there? as personagens são pouco desenvolvidas (menos de metade são nomeadas) e o “grosso” do livro é diálogo, sendo o restante a explicação biológica do extraterrestre e os testes pensados pelos protagonistas para a conseguir detectar entre os humanos. O filme de 1982 adaptou a novela e melhorou-a, rendendo hora e meia de filme.

Who goes there? mantém-se como uma das histórias de ficção científica mais influentes e memoráveis de sempre. Talvez leia a versão alargada encontrada em 2018.

****
(bom)

13 de janeiro de 2021

The Wives

Autor: Tarryn Fisher
Género: Thriller

Idioma: Inglês
Páginas: 256
Editora: Graydon House (e-book)
 Ano: 2019

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Se juntarmos um livro anunciado como um bestseller e comparado com Em parte incerta (Gone girl) de Gillian Flynn (!)...

... ao tema da poligamia e a promessa de uma história diferente, temos The Wives.

Seth é polígamo e tem três esposas com quem divide a semana, viajando entre diferentes cidades para estar com cada uma delas à vez. 

A narradora de The Wives é a esposa n.º 2, Thursday (que Seth vê precisamente às quintas-feiras...) e, que, desde cedo, nos dá conta do seu amor e dedicação ao marido, insatisfeita com o facto de não ser a única mulher da vida dele e convicta de ser a única disposta a sacrificar-se pelo seu amor.

A rotina mantém-se há dois anos e Thursday crê que o marido é perfeito para ela (o seu único defeito é ter mais duas esposas além dela): carinhoso, um amante apaixonado e um empresário bem sucedido. Até que um documento encontrado por acaso leva Thursday a questionar-se sobre o carácter de Seth e a sua vida com as outras duas mulheres.

The Wives começa acelerado e credível q.b., com uma Thursday obcecada e dependente da aprovação do marido a agir de uma forma algo tresloucada e envolvendo-se em várias situações que dão dinamismo à história.

À medida que a história vai avançando, porém, a acção vai-se tornando mais irrealista, com reviravoltas que resultam mal. O "twist" final é uma desilusão. A desilusão é maior porque entretanto começámos a imaginar os diferentes finais, num crescendo de possibilidades que a história vai alimentando e não cumpre.

The Wives é uma leitura inicialmente envolvente que vai ficando cada vez menos credível, culminando num final fraco e várias pontas soltas. 

(Ah, e ficamos sem saber o que torna Seth tão irresistível afinal...)

**
(fraco)

7 de janeiro de 2021

Rising sun


Autor: Michael Crichton
Género: Thriller
, Policial
Idioma: Inglês
Páginas: 416
Editora: Ballantine Books (ebook)
Ano: 1992 (ed. original)

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Anos 90. A empresa japonesa Nakamoto decide inaugurar a sua sede norte-americana em Los Angeles com uma festa de arromba. Várias personalidades VIP estão convidadas, entre celebridades do showbiz e políticos. Os jornalistas estão a postos.

Mas algo vem ensombrar a grande noite: uma jovem mulher é morta, o corpo sem vida deixado numa sala rodeada de câmaras de vigilância.

Como os japoneses insistem em conduzir o seu próprio inquérito, os conflitos com os detectives chamados ao local não tardam em surgir. É então chamada uma dupla de detectives para mediar a situação: um oficial de ligação de assuntos estrangeiros, o Tenente Smith, e um especialista da cultura japonesa, já reformado, o Capitão Connor. A ideia é investigar com rigor mas sem hostilizar os investidores nipónicos, uma vez que as relações entre os dois países são delicadas.
 
O livro de Crichton, publicado no início dos anos 90, explora a tecnologia de manipulação de imagens, que dava os primeiros passos no que agora qualquer smartphone pode manipular recorrendo a filtros e programas de tratamento de imagem facilmente disponíveis para download. Na altura, essa tecnologia começava a ser desenvolvida no Japão e serve como ponto vital na trama. Uma premissa sumarenta para a altura mas algo ultrapassada nos dias de hoje.

Pelo meio, as personagens tecem várias considerações e comentários sobre a cultura japonesa e o seu modelo empresarial, que valeram ao autor, Michael Crichton, várias críticas e acusação de racismo na altura. A ideia de que o Japão estaria a "comprar" os Estados Unidos não foi profética. Crichton sempre defendeu que a sua crítica era dirigida às forças económicas do seu próprio país, mas as críticas não cessaram, o que talvez explique as várias alterações feitas à história aquando da adaptação do livro ao cinema. Com o falecido Sean Connery e Wesley Snipes como protagonistas, o filme, bastante mais fraco do que o livro, foi um sucesso de bilheteira.

Gosto muito dos livros de Crichton. Rising Sun seguiu-se ao excelente Jurassic Park, e ficou aquém, mas é um bom livro, com uma ideia-base original e bem pensada. Não creio que seja racista mas compreendo que é fácil de ser interpretado como tal. Algumas noções não foram novidade para mim pois já tinha lido o excelente Temor e Tremor há uns anos - o livro narra a experiência de trabalho de uma jovem ocidental numa empresa japonesa.

É um policial que funciona bastante bem, assente numa tensão constante entre os vários participantes, principais e secundários, contrapondo as diferentes posturas do ocidente e do oriente. Tem algumas ideias pouco exploradas nos livros (a asfixia erótica, a marginalização de pessoas deficientes no Japão, o modelo empresarial nipónico), o que só por si enriquece a história. 

Algo datado mas uma boa leitura.

****
(bom)

1 de janeiro de 2021

Adieu, 2020... Bonjour, 2021, ça va?

Bom ano, caros leitores do bué de livros!

2020 finalmente findou-se... Não vai deixar saudades, pois não? Deixou-nos de rastos!

https://www.dailyarthub.com/wp-content/uploads/2020/10/Goodbye-2020-Hello-2021-DAH.jpg

Fonte: Daily Art Hub

Cada ano que passa é sempre fértil em leituras e 2020 foi um grande ano nesse aspecto.

Além de ter tido tempo para ler mais do que inicialmente previsto (depois do período de adaptação ao teletrabalho), a qualidade foi significativa, com a descoberta de autores que se tornaram muito queridos, como Douglas Murray, Grady Hendrix e Stacey Halls (podem ler a opinião sobre cada um dos títulos clicando na imagem respectiva).







Tenho ainda que mencionar os excelentes momentos embrenhada em Can't hurt me, O triunfo dos porcos, 10 lessons for a post-pandemic world e Persépolis, com as notas mentais de que tenho de ler mais Orwell futuramente e continuar a exercitar o corpo e não só a mente (seguindo o exemplo de superação constante ditado por David Goggins).

Cada vez mais, os dispositivos de leitura multiplicam-se - kindle, tablete, telemóvel, portátil -, nunca destronando, apenas complementando, o livro em papel, o meio através do qual muitos de nós crescemos e aprendemos a amar as letras. Não tenho preferência alguma, utilizo-os a todos com o mesmo prazer.

IN MEMORIAM

2020 foi um ano abundante em óbitos de muita gente anónima e de figuras maiores das várias áreas, mas focando-nos somente no mundo da literatura, o mundo ficou bem mais pobre com o desaparecimento de, e sem qualquer ordem especial: Carlos Ruiz Zafón, Mary Higgins Clark, John le Carré, Eduardo Lourenço e Clive Cussler, num minúsculo apontamento dos vários autores que faleceram nos últimos 12 meses (e foram muitos).

A vida segue... A todos nós, um 2021 cheio de boas leituras e rodeados dos nossos mais queridos!


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