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13 de dezembro de 2014

O pecado de Porto Negro


Autor: Norberto Morais
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 432
Editora:
Casa das Letras

Ano:
2013
ISBN: 978-972-4622439
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O pecado de Porto Negro foi um dos finalistas do prémio literário Leya 2013, no ano em que ganhou o romance Uma outra voz, de Gabriela Ruivo Trindade. Não li este último nem teria tido a oportunidade de ler este, não fosse uma querida colega de trabalho me ter alertado da sua existência (e mo ter gentilmente emprestado).

Segundo romance do autor Norberto Morais, nascido em Calw, O pecado de Porto Negro é uma história de amor, ciúme e vingança, narrada com pormenores deliciosos e uma linguagem exuberante, onde o autor brilha na forma como domina a língua portuguesa e a narrativa, uma demonstração impressionante coroada por passagens que dá gosto ler e reler, o que revela um talento notável para a escrita (de apontar, contudo, nos capítulos iniciais, a repetição de uma expressão que se torna cansativa mas que poderia ter sido evitada por um editor mais sagaz, mas que em nada diminui a qualidade global).

Passada na ilha fictícia de São Cristóvão (algures na América Central), a história remete-nos para os cenários míticos das telenovelas brasileiras das décadas de 80 e 90: climas quentes que atiçam mentalidades conservadoras e (pseudo)religiosas, personagens apaixonadas e apaixonantes que vivem o dia-a-dia com simplicidade e um toque de pimenta, numa combinação irresistível de cheiros, cores e sentidos.

É neste cenário que encontramos o mulherengo Santiago Cardamomo, a tímida Ducélia Trajero e o manhoso Rolindo Face, um trio de protagonistas sólido secundados por um grupo ainda mais admirável: o travesti Chalila Boé, o frio Tulentino Trajero, a implacável madame Cuménia Salles, o sensível Cuccécio Pipi, entre muitos outros, numa galeria notável tão colorida como os seus nomes (adoro os nomes neste livro, geniais!). Norberto Morais dá-lhes vida num colorido linguístico que dá gosto seguir, numa trama bem imaginada.

Há muito pouco que possa acrescentar ao que dezenas de leitores já fizeram melhor do que eu: O pecado de Porto Negro é maravilhoso e prova de que há excelentes novos autores lusos para descobrir

Tendo em conta a época, fica a recomendação de um excelente presente para um amante de bons livros.

Leiam um excerto aqui.

*****
(muito bom)

12 de novembro de 2014

Em busca da identidade - o desnorte


Autor: José Gil
Género:
Ensaio
Idioma: Português

Páginas: 64
Editora:
Relógio d'Água

Ano:
2009
ISBN: 978-989-6410834
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José Gil, catedrático em Filosofia, considerado por um seminário francês um dos 25 grandes pensadores do mundo, incendiou vários discursos há uns anos aquando da publicação de Portugal Hoje - o medo de existir

Nunca li o livro, mas lembro-me da agitação causada pelo mesmo, onde José Gil indignou muita gente (que se expressou de uma forma mais ou menos douta) ao falar sobre o pessimismo e a mentalidade reinantes no nosso país, apontando dedos ao período do Salazarismo como causador dos principais traços negativos dos portugueses: somos invejosos, corruptos, chico-espertos, medrosos.

Isso foi noutro livro, mas quando tive a oportunidade de ler este Em busca da identidade - o desnorte, achei que era uma boa oportunidade de ler um autor que já andava a adiar há algum tempo.

O autor considera que «fizemos da identidade o território da subjectividade» e «esforçamo-nos por resistir ao "fora" que aí vem, do exterior ou do interior, que ameaça destruir as nossas velhas subjectividades». Assim, diz José Gil, a única maneira de remover o obstáculo da «identidade» é «deixarmos de ser primeiro portugueses para poder existir primeiro como homens».

A primeira ideia é que este não é um livro para todos. Porquê? Porque as ideias-chave são baseadas em ideias de dois filósofos, Foucault e Ferenczi, cujas possibilidades de terem sido estudados por alguém exterior ao estudo da Filosofia são mínimas (pessoalmente, tenho uma ideia muito vaga de Foucault, tão vaga que não reconheci algumas das ideias que lhe são atribuídas no livro), colocando o leitor numa corda bamba, incerto de como avançar. José Gil explica os conceitos em que apoia o seu discurso, mas isso não torna o que tem para dizer mais interessante (ou claro).

«Há qualquer coisa na sociedade portuguesa que se volta contra os próprios portugueses. (…) O comum do espírito português é pequenamente pragmático – o dia-a-dia. (…) Apenas sei que traz consequências muito nefastas para o trabalho, para o enraizamento de uma certa cultura de elite em Portugal. (…) Gostamos do lazer, o que é bom porque não sofremos do stress do trabalho. Mas porque é que os portugueses gostam de continuar na inércia? É o pequeno gozo das coisas, aquilo que chamo chico-espertismo. Trata-se de uma forma de fuga ao trabalho e, paradoxalmente, de afirmação. Por essência o português não é preguiçoso – quando emigra é dos melhores trabalhadores. Mas cá ainda vivemos numa espécie de ninho, onde o lazer está na ordem das preferências.»

Como leiga no assunto tratado (partindo de conceitos de Foucault e Ferenczi), não consegui extrair muita coisa do livro; li-o atentamente, percebi a maioria do que foi dito mas não lhe achei grande relevância. Do meu ponto de vista, isso atribui-se a dois aspectos de igual importância: 1) não sou o público-alvo deste livro, e 2) o enfoque do livro no chico-espertismo português não foi tratado de uma forma que me interessasse e surpreendesse. O autor questiona mas não dá sugestões de mudança, fala da incompetência política e de como o apelo às massas se baseia numa estratégia da imagem e do discurso (o ex-primeiro-ministro José Sócrates é mencionado nesse sentido) mas nunca avança uma ideia concreta. É tudo demasiado abstracto para mim, o que se traduziu em alguns bocejos.

Não o recomendo nem deixo de recomendar... foi uma leitura morna que não me deu norte.

***
(mediano/razoável)

4 de maio de 2014

A persistência da memória


Autor: Daniel Oliveira
Género:
Romance
Idioma: Português
Editora:
Oficina do Livro

ISBN: 978-989-7411076
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A persistência da memória marca a estreia de Daniel Oliveira nos romances.

Gosto do programa Alta Definição e tento ler autores portugueses sempre que possível, por isso quando uma colega de trabalho me emprestou o livro, não hesitei.

Camila Vaz é uma apresentadora de televisão com uma vida desafogada. O seu traço mais distinto é a memória, pois Camila tem o síndrome de memória superior, o que lhe confere a capacidade de se recordar ao pormenor de todos os acontecimentos da sua vida, tenham sido bons ou não.

Só o Rio de Janeiro me faria esquecer os pedaços de mim que não vieram. Deixei em Lisboa aquela Camila que não quero ser. Todas as outras que sou vieram comigo.

Pela voz da narradora, vamos passeando pela cosmopolita Nova Iorque e pelo escaldante Rio de Janeiro, assistimos a cenas de cama e de cumplicidade com amantes diversos e a episódios traumáticos envolvendo familiares e estranhos.

Os capítulos iniciais são promissores. Acho destemido o autor que tenta escrever pela voz do sexo oposto e estava receptiva. Não me identifiquei com a protagonista nem revi mulheres que conheço na mesma, mas entendi a mulher que Camila é.
 
Sempre me senti uma máquina de viver, cuja consequência foi criar tantas sensações quantas estivesse disposta a fruir.
 
Apesar de estar bem escrito e conter algumas reflexões bastante lúcidas e profundas, é um livro que acaba por se perder na mensagem. Gostei das notas sobre Fernando Pessoa e Salvador Dalí, embora a maioria estivesse presente na metade do livro que achei mais fraca. 

É bom ler em português, mesmo quando as expectativas saem goradas. A persistência da memória é uma estreia ambiciosa da qual esperava mais direcção e menos divagação.

***
(mediano/razoável)

10 de dezembro de 2013

Os Trinta - Nada é como sonhámos



Autor: Filipa Fonseca Silva
Género:
Romance
Idioma: Português

Páginas: 172
Editora:
Oficina do Livro
ISBN:  978-989-5557-23-3
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Filipa Fonseca Silva conseguiu, com a tradução em inglês de Os Trinta - Nada é como sonhámos (Thirty Something – Nothing’s how we dreamed it would be) um feito histórico: tornar-se a primeira escritora portuguesa no Top 100 da Amazon.

Fiquei curiosa (e contente) com esta excelente notícia, mas como o orçamento não dá para tudo, fui meter o nariz na biblioteca municipal, et voilá!, tinham o livro.

Publicitado como «uma espécie de "Os Amigos de Alex" do século XXI», segue três trintões que integram o mesmo grupo de amigos: Filipe, mulherengo «coleccionador de relações falhadas»; Maria, deixada pelo noivo uns meses antes do casamento; e Joana, uma falsa moralista que casou por interesse.

O livro segue o dia (e a noite) em que o grupo se encontra na casa de Joana, para um jantar de convívio cuja frequência se tornou cada vez mais rara. Pela voz das três personagens, vamos seguindo a forma como vêem aqueles que foram amigos próximos ou conhecidos, questionando e comentando escolhas e formas de ser e de estar. 

«Quando é que os amigos deixam de ser aquelas pessoas a quem podemos contar tudo, para se tornarem pessoas com quem temos medo de falar? (...) Lembro-me de poder falar de tudo, descrever sentimentos, chorar ao telefone com as minhas amigas (...) Agora não. Está sempre tudo muito bem, obrigada.»

A escrita da autora é muito visual e a linguagem é actual e moderna. Algumas expressões usadas são tipicamente americanas (traduzidas literalmente para português), e fáceis de identificar para quem conhece a língua do Tio Sam. As personagens têm vozes distintas mas são algo estereotipadas, o que torna difícil a empatia com o leitor mas que facilita a compreensão e o seguimento da acção. A história é previsível mas algumas passagens são boas, principalmente as reflexões mais lúcidas das personagens.

 «(...) se eu saísse com o meu eu de agora e com o meu eu de há quinze anos, tenho a certeza de que o puto ganhava. Na altura, lia muitos livros e de autores muito mais interessantes. Escrevia poemas, músicas, cartas de amor para mulheres imaginárias. Via cinema de verdade (...). Tinha uma cultura geral tão boa para um miúdo da minha idade que até chegava a impressionar os amigos dos meus pais, o que na altura me parecia um feito extraordinário. Hoje (...), percebo que não era assim tão difícil impressioná-los.»

Os Trinta - Nada é como sonhámos foi uma boa surpresa mas gostava que tivesse sido mais desenvolvido; assim, foi uma leitura light q.b., que me deixou com uma impressão positiva da nossa primeira autora no top mundial da Amazon, que espero que tenha muito mais sucessos futuros. Cá estarei para a ler. 


avaliação: *** (mediano)

8 de janeiro de 2013

Mentiras e condomínios



Autor:
 Filipa Múrias
Género:
 Romance
Editora: Oficina do Livro
ISBN:  978-9-72-857964-7
Páginas: 180
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Faço questão de ler todos os géneros literários. Privilegio alguns porque tenho preferências mas não descrimino. Compro a maioria dos meus livros mas também recorro à biblioteca municipal, onde se encontram títulos mais antigos. Foi lá que encontrei o colorido Mentiras e Condomínios. A sinopse não era aliciante mas adoro enredos femininos e começar 2013 com um autor português foi excelente... mas não sinónimo de uma leitura memorável.

Caetana volta a Portugal depois de um divórcio tempestuoso e sete anos a viver o american lifestyle. De volta à casa dos pais em Cascais, pretende recuperar a serenidade e a estabilidade emocionais perdidas com as escolhas passadas. O reencontro com as duas melhores amigas e um emprego como assistente de realização parecem um começo auspicioso, mas Caetana é apanhada num mundo de aparências e muita ambição.

O livro divide-se em capítulos curtos, de 5 a 10 páginas, com muito diálogo e descrições breves. O tom é leve. A protagonista, Caetana, está a meio de uma crise existencial onde questiona tudo o que fez até então, nomeadamente a nível de amor e carreira. Não chega a cair na choraminguice mas a forma superficial como é descrita não desperta grande simpatia no leitor, o que se estende à restante galeria de personagens. Acho que essa é a razão principal porque não gostei do livro: parece ter sido escrito à pressa, não desenvolvendo verdadeiramente as personagens e as situações.


Para quem gosta de literatura light, Mentiras e Condomínios é um título a experimentar; eu achei que poderia ter sido melhor explorado e uma leitura mais proveitosa.

avaliação: ** fraco

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