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24 de outubro de 2026

As invisíveis – histórias sobre o trabalho de limpeza

       









Autor: Rita Pereira de Carvalho
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 96
Editora: Fundação Francisco Manuel 
dos Santos (e-book)
Ano: 2022

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A maioria das “senhoras da limpeza” entram cedo e saem tarde, e viajam enquanto a cidade dorme. A magia acontece quando ninguém está a ver.

São trabalhadoras essenciais, e não há um edifício comercial que dispense o seu trabalho.

Em As invisíveis – histórias sobre o trabalho de limpeza, a jornalista Rita Pereira de Carvalho dá voz aos assalariados das limpezas industriais. São histórias de vida distintas, ligadas a uma função que pede robustez e competência para limpar o que os outros sujam.

Com excepção do último testemunho, todas as histórias são de mulheres, a quem, quase sempre, associamos esta profissão. Há diferenças entre elas, mas convergem nos horários exigentes, no esforço físico e na falta de reconhecimento. Há ainda uma invisibilidade que, com o tempo, parece tornar-se parte da profissão.

Talvez seja essa uma das constatações mais inquietantes deste livro: a capacidade de nos habituarmos ao que não deveria ser normal: habituamo-nos a não ser vistos, e habituamo-nos a não ver.

O chão que brilha de lavado, o lixo que desaparece, as casas de banho impecáveis. A limpeza é indispensável à vida colectiva, mas quem a assegura permanece à margem da nossa atenção. E só notamos quando deixa de ser feita.

A invisibilidade não é apenas uma questão de olhar, mas também uma questão de estatuto e de reconhecimento. Há profissões essenciais ao funcionamento da sociedade que continuam a ocupar lugares menos valorizados. Dependemos delas, mas raramente pensamos em quem as exerce.

Ler As invisíveis – histórias sobre o trabalho de limpeza é olhar para quem habitualmente não vemos. É lembrar que, por detrás dos espaços limpos que encontramos todos os dias, há pessoas, esforço e tempo. E que nada disso acontece por magia.

****
(bom)

22 de setembro de 2026

Girl on Girl

       









Autor: Sophie Gilbert
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 344
Editora: Penguin (e-book)
Ano: 2026

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Em Girl on Girl – como a cultura pop levou uma geração de mulheres a voltarem-se contra si próprias, Sophie Gilbert revisita a música, a televisão, a moda e a cultura das celebridades dos anos 1990 e 2000 para mostrar como a cultura popular moldou a nossa visão das mulheres e do feminismo.

Um dos argumentos centrais é que o progresso das mulheres não foi linear. Ideias inicialmente associadas à emancipação foram apropriadas pela indústria e transformadas em produtos. É o caso do «Girl Power», que nasceu no movimento punk riot grrrl como uma afirmação de resistência e acabou popularizado pelas Spice Girls como uma forma de empoderamento ligada ao consumo e à aparência.

Gilbert analisa também figuras como Madonna e Janet Jackson, cuja sexualidade procurava afirmar o controlo sobre o próprio corpo e imagem, mas que coexistia com uma indústria mediática que continuava a reduzir as mulheres à aparência e ao apelo sexual. Pode uma escolha ser considerada emancipadora quando a indústria a controla e beneficia dela?

O livro disseca ainda a cultura das celebridades na viragem do milénio: paparazzi, reality shows, imprensa sensacionalista e blogues (como o de Perez Hilton) transformaram a exposição e a humilhação de mulheres (como Paris Hilton e Britney Spears) em entretenimento. A internet ampliou esse fenómeno, normalizando uma cultura de julgamento e crueldade que ainda hoje deixa marcas.

Girl on Girl é também uma crítica à nostalgia: canções, filmes, programas de televisão e revistas que recordamos com afecto podem, vistos hoje, revelar uma cultura profundamente marcada pela objectificação feminina. Sophie Gilbert não propõe rejeitar esses objectos culturais, mas reconsiderá-los à luz do contexto em que surgiram.

Bem escrito e muito bem pesquisado (no e-book, o formato que li, a grande maioria dos links para revistas, artigos e entrevistas continuam activos), o livro mostra que o feminismo não avançou simplesmente de uma década para a seguinte. Entre conquistas e recuos, a cultura popular moldou a ideia de liberdade feminina de formas que estão longe de ser libertadoras.

«Este livro está longe de ser completo. Deixei de fora muito mais do que consegui incluir, sobretudo porque queria estabelecer ligações e compreender padrões. (…) Trata-se apenas de uma pequena parte de um projeto de reavaliação mais amplo. Analisar a história em conjunto é, antes de mais, uma manifestação de esperança: procuramos entender os caminhos que falharam para então concebermos uma via mais forte rumo ao futuro.»

*****
(muito bom)

31 de maio de 2026

O tanto que grita este silêncio — porque se abstêm os portugueses?

      








Autor: Nelson Nunes
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 111
Editora: Fundação Francisco Manuel 
dos Santos (e-book)
Ano: 2025

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O voto é um elemento essencial da vida democrática, e participar nas eleições é uma das formas mais importantes de exercer a cidadania.

Em Portugal, uma parte significativa da população escolhe repetidamente não exercer esse direito.

No livro O tanto que grita este silêncio: porque se abstêm os portugueses?, Nelson Nunes dedica-se a compreender o que leva tantos cidadãos a afastarem-se das urnas.

Através de testemunhos, análises e reflexões, revela um conjunto de motivações que inclui desconfiança nas instituições, desencanto com os partidos políticos, sentimento de impotência perante as decisões do poder, e uma forma deliberada de protesto.

Cada abstencionista representa uma história individual e uma relação particular com a democracia.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é que o autor não procura convencer o leitor de que a abstenção é correcta ou incorrecta; o seu objectivo é compreender as causas de um comportamento que tem vindo a marcar a realidade portuguesa e que levanta questões importantes sobre representação, participação e confiança pública.

Num contexto em que a distância entre eleitores e instituições parece aumentar em várias democracias ocidentais, este ensaio é uma leitura pertinente.

Pessoalmente, acho importante participar nas eleições. Mesmo quando nenhum partido convence, creio que votar em branco ou nulo é preferível à abstenção. O livro surpreendeu-me pela consistência e racionalidade de muitos dos argumentos apresentados pelos abstencionistas. Ainda assim, não vejo por que razão essas mesmas posições não poderiam ser expressas através de um voto em branco.

Por outro lado, a obra chama a atenção para um aspecto interessante: os meios de comunicação tendem a analisar e discutir a abstenção, mas raramente dedicam a mesma atenção aos votos brancos e nulos. Isso cria uma diferença relevante. Quem se abstém como forma de protesto acaba por gerar debate público e visibilidade para a sua posição, enquanto quem se desloca às urnas para votar em branco ou nulo vê, muitas vezes, essa escolha passar despercebida.

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(muito bom)

11 de maio de 2026

A Idade da Pele

     






Autor: Dubravka Ugrešić
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 200
Editora: Cavalo de Ferro
Ano: 2023
Título original: Doba ko
že
Tradução do Inglês: Rita Costa 

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Dubravka Ugrešic (1949-2023) nasceu na ex-Jugoslávia, na actual Croácia. 

Académica de Literatura Russa, as suas declarações contra a guerra nos Balcãs, em 1991, tornaram-na alvo de ódio nacionalista por parte de jornalistas, políticos e escritores, e levaram-na a abandonar o seu país natal e a exilar-se na Holanda.

Autora de ensaios e romances, traduzidos em mais de 20 línguas, venceu vários prémios literários — em 2016, a sua obra foi distinguida com o prémio Neustadt de Literatura. 

A idade da pele é um conjunto de ensaios escritos entre 2014 e 2018.
 Ugrešić escreve sobre a cultura contemporânea dominada pela imagem, pelo corpo e pela superficialidade, assente na ideia central de que vivemos numa era em que a pele — enquanto superfície — substituiu a profundidade, numa lógica cuja violência se torna mais evidente quando lida à luz dos crimes de guerra e da fragmentação jugoslava.
 

A autora, cujo estatuto de exilada atravessa todo o livro, é especialmente sensível às dinâmicas de pertença, trazendo uma perspectiva incisiva sobre o que significa existir num mundo onde tudo é visível, mas pouco é realmente compreendido, onde as emoções complexas são reduzidas a likes, emojis e slogans.

A idade da pele é um livro seco e intelectualmente rigoroso. A autora não oferece soluções nem consolo, e o tom irónico e humorístico não esconde a sua tristeza da perda irreversível que resultou na mentalidade que, crê, a guerra normalizou e persistiu.

Mais do que uma sequência de conflitos, a queda da Jugoslávia é, para Dubravka Ugrešić, a vitória da superfície sobre a complexidade.

«Graças aos media, a estupidez tornou-se global. (…) A sua principal tarefa não é tanto a desinformação, ou a informação parcial, mas a trivialização da informação. Os consumidores da informação, no momento em que ficam saciados, têm a forte sensação de que o tempo deixou de fluir, de que se encontram num buraco atemporal, deslocado, desligado e desorientado.»

«A misoginia é uma reacção instintiva nos pequenos países dos Balcãs. É tão comum, tão profundamente arreigada, tão omnipresente e tão flagrante que ninguém — nem quem a dissemina, nem as vítimas — dá conta. (…) E surge muitas vezes camuflada, atrás de uma máscara, nos lugares mais inesperados, como nos sonhos eróticos ou nas fantasias de jovens inocentes com uma parceira ideal, muda...»

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(bom)

10 de abril de 2026

A Hora dos Predadores

     







Autor: Giuliano da Empoli
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 128
Editora: Gradiva (e-book)
Ano: 2025
Título original: L'heure des prédateurs
Tradução: Jorge Pereirinha Pires

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Giuliano da Empoli é um politólogo, professor e escritor com cidadania italiana e suíça. Foi conselheiro político do primeiro-ministro Matteo Renzi.

The Wizard of the Kremlin / O Mago do Kremlin foi o seu primeiro romance (o meu apontamento sobre o livro aqui), multipremiado e adaptado ao cinema (idem sobre o filme).

N’A Hora dos Predadores, Empoli foca-se no poder contemporâneo e no palco onde as regras deixaram de ser claras, e onde florescem os mais agressivos, oportunistas e amorais — os predadores do título, apelidados também de borgianos (entrada do Wikipédia sobre César Bórgia).

Um dos aspetos mais interessantes deste ensaio é a aproximação entre política e performance. Os novos protagonistas do poder são estrategas e performers — não há uma palavra equivalente em português que capte o sentido de performance/performer; prefiro manter o anglicismo.

A Hora dos Predadores não é tanto um livro pessimista como é lúcido. É sensato da parte do autor recusar simplificações, e expor o leitor à complexidade e ambiguidade do que nos conta, como um dos episódios da subida ao poder de MBS (o príncipe herdeiro da Arábia Saudita), os bastidores da ONU durante uma das suas assembleias, ou a forma de comunicação dos pais da inteligência artificial (IA) moderna (Hinton, LeCun e Bengio).

É uma leitura necessária para compreender as regras (ou a ausência delas) que estruturam o poder moderno.

«Ao longo das últimas três décadas, os responsáveis políticos das democracias ocidentais comportaram-se, face aos conquistadores da tecnologia, exactamente como os astecas do século XVI; confrontados com o raio e trovão da Internet, com as redes sociais e com a IA, submeteram-se na esperança de que ressaltassem sobre eles alguns salpicos de pó de fadas.»

«O poder da IA não tem nada de democrático, nem de transparente. Mais do que artificial, a IA é uma forma de inteligência autoritária, que centraliza os dados e os transforma em poder. Tudo isso na mais total opacidade, sob o controlo de um punhado de empreendedores e de cientistas que cavalgam o tigre na esperança de não virem a ser devorados.»

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(muito bom)

13 de setembro de 2025

All About Love: New Visions

 



Autor: bell hooks
Género:
Ensaio, Contemporâneo
Idioma: Inglês

Páginas: 238

Editora: William Morrow

Ano: 2023 (edição lida)

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All About Love: New Visions, de bell hooks, foi-me emprestado. Não conhecia a autora, uma académica e activista norte-americana falecida em 2021.

O livro, saído em 1999, é considerado um clássico moderno, referido como leitura essencial sobre o tema do amor na vida contemporânea.

A ideia central de hooks — de que o amor não é apenas um sentimento, mas uma prática activa enraizada no cuidado, na honestidade e na responsabilidade — ressoa.

Capítulo a capítulo, somos desafiados a ir além dos clichés românticos e a encarar o amor como uma deontologia que molda a forma como nos relacionamos com a família/parceiros/a sociedade/connosco mesmos.

Achei interessante a maneira como ela liga as relações privadas a sistemas mais vastos, como o patriarcado e a cultura de consumo/consumismo.

Achei também o livro repetitivo e vago, com algumas partes apoiadas apenas em definições e teorias, sem exemplos concretos. Esses capítulos saem do registo do ensaio pessoal, e destoam do resto da narrativa mais envolvente.

Isto é fácil de notar porque a escrita de hooks é, por vezes, bastante doméstica, e nestes momentos torna-se irregular, saindo da reflexão íntima para a generalização abstracta.

All About Love: New Visions é um livro estimulante, com boas questões e reflexões. Recomendo-o a quem queira (re)pensar o amor como algo maior do que o romance individual, e a colocá-lo sobre o holofote da honestidade, do cuidado e da ligação.

Eu li-o na língua original, mas o livro está traduzido em Portugal, pela Orfeu Negro, com o título Tudo do Amor.

«Every day thousands of children in our culture are verbally and physically abused, starved, tortured, and murdered. They are the true victims of intimate terrorism in that they have no collective voice and no rights. They remain the property of parenting adults to do with as they will. There can be no love without justice. Until we live in a culture that not only respects but also upholds basic civil rights for children, most children will not know love. In our culture the private family dwelling is the one institutionalized sphere of power that can easily be autocratic and fascistic. As absolute rulers, parents can usually decide without any intervention what is best for their children. If children’s rights are taken away in any domestic household, they have no legal recourse. Unlike women who can organize to protest sexist domination, demanding both equal rights and justice, children can only rely on well-meaning adults to assist them if they are being exploited and oppressed in the home.»

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(bom)