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12 de julho de 2026

O surpreendente silêncio dos homens

       









Autor: Rita Ferro
Género: Romance
Idioma: Português
Páginas: 224
Editora: Dom Quixote
Ano: 2025

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O surpreendente silêncio dos homens, de Rita Ferro (1955–), foi publicado em 2025.

A escritora e cronista portuguesa estreou-se na literatura em 1990, e é autora de uma vasta obra que inclui romances, crónicas e livros de não-ficção. A sua escrita aborda frequentemente as relações humanas, a condição feminina, a família e temas sociais. 

Maria da Graça, narradora da história, cresce sob a influência do aviso que é preciso desconfiar dos homens. Ao longo do livro, conta-nos episódios da infância até à idade adulta, pontuados por manifestações de violência masculina. O romance aponta a forma como muitas mulheres são educadas para antecipar o perigo, moldando comportamentos e escolhas para se protegerem.

Ao longo das páginas, reparei que o tom se situou entre o romance introspectivo e o ensaio social, com Rita Ferro a abordar temas como o medo transmitido entre gerações e o silêncio dos homens perante comportamentos abusivos (de outros homens).

O "silêncio" do título estende-se aos homens que optam por não agir e/ou não censurar os comportamentos contra as mulheres, preferindo, ao invés, a passividade.

A escrita de Rita Ferro é directa e provocadora, e a narrativa interrompe para introduzir reflexões, estatísticas e comentários sobre a violência de género. Ao início, esta mudança de tom surpreendeu-me, mas acabou por se integrar naturalmente no romance.

Mais do que pela história que conta, O surpreendente silêncio dos homens destaca-se pelas questões que levanta, e pelo convite a uma reflexão necessária sobre as mesmas.

É importante evitar generalizações simplistas sobre homens ou mulheres, mas não devemos ignorar os factos e os números. A violência de género é uma realidade documentada e merece ser discutida sem preconceitos, sem se desvalorizar a dimensão do problema. 

«Os homens descobriram quase tudo, ninguém desmente. Depois da roda a escrita, o vidro, a lâmpada, o avião, a pólvora, o telefone, a televisão, a internet, o GPS. Mas não o melhor da vida: as mulheres. Não o seu corpo, as suas almas! Não pelo sexo, a reprodução, ou a família, mas por tudo quanto lhes damos, se merecem. E mesmo se não merecem.» 

«Deve-se ao homem a maior parte dos grandes feitos, sim senhor, porque até ao século XIX não nos deixaram sonhar, criar, arriscar. (...) lascaram a pedra, descobriram novos mundos, chegaram à Lua e a Marte, separaram siameses, transplantaram fígados e corações. Mas ainda não encontraram uma forma de nos poupar aos abusos, aos espancamentos, às violações? (...) E como conciliar a mesma mão que afaga e ampara, com a que brutaliza, sequestra, estupra?»

****
(bom)

13 de setembro de 2025

All About Love: New Visions

 



Autor: bell hooks
Género:
Ensaio, Contemporâneo
Idioma: Inglês

Páginas: 238

Editora: William Morrow

Ano: 2023 (edição lida)

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All About Love: New Visions, de bell hooks, foi-me emprestado. Não conhecia a autora, uma académica e activista norte-americana falecida em 2021.

O livro, saído em 1999, é considerado um clássico moderno, referido como leitura essencial sobre o tema do amor na vida contemporânea.

A ideia central de hooks — de que o amor não é apenas um sentimento, mas uma prática activa enraizada no cuidado, na honestidade e na responsabilidade — ressoa.

Capítulo a capítulo, somos desafiados a ir além dos clichés românticos e a encarar o amor como uma deontologia que molda a forma como nos relacionamos com a família/parceiros/a sociedade/connosco mesmos.

Achei interessante a maneira como ela liga as relações privadas a sistemas mais vastos, como o patriarcado e a cultura de consumo/consumismo.

Achei também o livro repetitivo e vago, com algumas partes apoiadas apenas em definições e teorias, sem exemplos concretos. Esses capítulos saem do registo do ensaio pessoal, e destoam do resto da narrativa mais envolvente.

Isto é fácil de notar porque a escrita de hooks é, por vezes, bastante doméstica, e nestes momentos torna-se irregular, saindo da reflexão íntima para a generalização abstracta.

All About Love: New Visions é um livro estimulante, com boas questões e reflexões. Recomendo-o a quem queira (re)pensar o amor como algo maior do que o romance individual, e a colocá-lo sobre o holofote da honestidade, do cuidado e da ligação.

Eu li-o na língua original, mas o livro está traduzido em Portugal, pela Orfeu Negro, com o título Tudo do Amor.

«Every day thousands of children in our culture are verbally and physically abused, starved, tortured, and murdered. They are the true victims of intimate terrorism in that they have no collective voice and no rights. They remain the property of parenting adults to do with as they will. There can be no love without justice. Until we live in a culture that not only respects but also upholds basic civil rights for children, most children will not know love. In our culture the private family dwelling is the one institutionalized sphere of power that can easily be autocratic and fascistic. As absolute rulers, parents can usually decide without any intervention what is best for their children. If children’s rights are taken away in any domestic household, they have no legal recourse. Unlike women who can organize to protest sexist domination, demanding both equal rights and justice, children can only rely on well-meaning adults to assist them if they are being exploited and oppressed in the home.»

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(bom)