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3 de abril de 2022

What really happened in Wuhan

 

Autor: Sharri Markson
Género: Política

Idioma: Inglês
Duração: 16h e 28m

Editora: Harper Audio
 Ano: 2021

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À data deste texto, vivemos ainda sob o efeito da pandemia causada por um vírus que ceifou milhões de vidas e alterou milhares de milhões de outras, causando um abrandamento mundial.

Desde Março de 2020, altura em que foram adoptadas as primeiras medidas sanitárias no continente europeu, vivemos confinamentos e recolheres obrigatórios, tornando-se habitual o uso continuado de máscaras e debates acesos sobre a eficácia/obrigatoriedade/efeitos da vacinação e dos passes vacinais. Da China, ainda chegam notícias de novas infeccções, de uma nova variante (demicron) e novos confinamentos. As notícias ainda existem, mas a tragédia que se abateu sobre a Ucrânia abre agora, com toda a legitimidade, os telejornais.

Sharri Markson, a autora de What really happened in Wuhan, é uma jornalista australiana premiada. Neste livro, defende a teoria de que o vírus do covid-19 terá sido geneticamente criado pelo Instituto de Virologia de Wuhan e libertado no mundo após uma fuga acidental («lab-leak theory»), contrariando a teoria de que a origem terá sido natural, com origem num mercado local de animais (semelhante à hipótese de 2000, aquando da epidemia de SARS, entre 2002 e 2004). 
 
É um tema polarizador, sem dúvida, e a teoria da fuga do laboratório chinês contém nuances que fazem as delícias dos críticos mais vocais, que a classificam como uma elaborada "teoria da conspiração". Quem pega neste livro estará desde já aberto a ouvir os argumentos que fundamentam esta hipótese. A sua robustez é subjectiva, o que não equivale a dizer que quem lê este livro, vai ficar convencido. Mas alguns ficarão. É assim que funciona.

Misturando factos (há um departamento no Instituto de Virologia de Wuhan que estuda e manipula coronavírus; foi publicado em 2018 um estudo norte-americano que denunciava incumprimentos dos protocolos de segurança, e alertava para deficiências na segurança ligadas a alegadas faltas de pessoal técnico especializado nesse mesmo instituto), testemunhos directos (citações de cientistas, políticos, investigadores, cidadãos comuns nos media e em relatórios entretantos publicados) e indirectos (fontes jornalísticas e denunciantes, cuja identidade é protegida), em What really happened in Wuhan, a autora constrói uma cronologia minuciosa, atravessando vários continentes e envolvendo diferentes actores.

Vai sendo traçada uma cadeia de eventos que envolve alegadas ocultações de informação, pressões políticas e interesses económicos, onde diversos agentes governamentais chineses e norte-americanos (assim como os seus colaboradores espalhados pelo mundo) têm os papéis principais. Tudo "atado" e referenciado como está, este livro lê-se quase como um thriller, ao que ajuda ter tanto de plausível como de fantástico.
 
É possível que um cientista do Instituto se tenha esquecido de um passo no protocolo de segurança? 
 
É possível que as autoridades chinesas tenham tentado encobrir a gravidade da situação, aquando da escalada do número de casos, no final de 2019? Por que é que essas mesmas autoridades terão levado meses a permitir o acesso a uma equipa de peritos da Organização Mundial de Saúde ao mercado de animais de Wuhan e ao Instituto de Virologia?
 
É plausível que vários cientistas internacionais tenham hesitado em aprofundar e/ou defender uma teoria que implicaria a perda de fundos chineses para as suas pesquisas? Por quê o ataque aos cientistas que o fizeram, quando a base de qualquer método científico passa por questionar, formular hipóteses e testá-las através da discussão e da aplicação desse mesmo método?

Não hesitaria em ler um livro que defendesse a teoria oposta, a de que o vírus terá sido transmitido por um animal (morcego ou pangolim) a uma pessoa, no mercado de Wuhan. Teria de ser um livro com uma linguagem acessível a leigos, pois a sustentação dessa hipótese é maioritariamente baseada em factos estudados na biologia, zoologia, virologia, e epidemiologia, entre outras.
 
O título deste livro é directo mas poderá ser visto como sensacionalista (marketing?), afastando potenciais leitores que privilegiem uma abordagem mais neutra.

À semelhança de outros títulos de não-ficção, esta versão audiolivro poderia ter beneficiado de um (PDF) anexo com mapas, glossários e/ou indíces bibliográficos, o que teria facilitado a escuta.
 
What really happened in Wuhan é um livro bem escrito e bem organizado, denso em informação e cross-references. A classificação de "bom" não se prende tanto com a minha inclinação em aceitar a teoria da lab-leak mas pela forma consistente como a teoria é construída, assente numa cronologia extensiva, citando nomes de pessoas vivas, mortas e desaparecidas (estas últimas na China, contando-se vários médicos, advogados e jornalistas); junta-se a isso o facto de, numa pesquisa rápida online, não ter encontrado nenhuma referência a um eventual processo judicial iniciado contra a autora ou a editora deste livro por difamação, algo que não me surpreenderia encontrar. 
 
Nas últimas décadas, a forma como o governo chinês se posiciona no mercado e adopta medidas económicas e sociais dentro das suas fronteiras (e até fora delas), dá azo a que se levantem muitas questões... 
 
No entanto, o próprio livro falha em apresentar vários elementos probatórios, talvez por razões válidas ou não, o que dá azo a especular acerca da veracidade de algumas alegações. Alguma vez se saberá a verdade? Estarão, agora, cientistas a atestar da robustez da hipótese defendida neste livro? Se sim, as suas conclusões alguma vez serão tornadas públicas? O tempo dirá.
 
Se, no final, não ficarmos inclinados a aceitar a teoria defendida, ao menos poderemos dar o tempo por bem empregue se considerarmos a leitura como um thriller ou, por que não?, como tema de conversa entre amigos.

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(bom)

7 de maio de 2021

Blowout - corrupted Democracy, rogue state Russia and the richest, most destructive industry on Earth




Autor: Rachel Maddow
Género: Política

Idioma: Inglês
Duração: 15h e 33m

Editora: Random House Audio
 Ano: 2019

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Não conheço o programa de Rachel Maddow - The Rachel Maddow Show - mas todos os artigos que li sobre ela mencionam a sua marca registada: um discurso informado sem papas na língua pontuado por humor negro e sarcástico.

No livro Blowout, Maddow, que é doutorada em Ciência Política pela universidade de Oxford, explica como o petróleo é o maior influenciador do mundo em que vivemos actualmente, não apenas económica como geopoliticamente, plasmado na forma como as petrolíferas influenciam as potências mundiais e contribuem para a opressão dos países em desenvolvimento.

Nos primeiros dois capítulos, é claro que o tom do livro tem tanto de divertido como de assustador.

É explicado como a indústria de petróleo e gás – que gerou corporações bilionárias como a ExxonMobil, a Chevron e a BP - enfraqueceu democracias em países desenvolvidos e em desenvolvimento, poluiu massas de água e financiou ditadores. Há capítulos dedicados a como Yeltsin entregou a presidência russa a Putin, e como Putin usou a indústria do petróleo para afirmar e manter o seu poder – ajudado ainda pelo recurso à chantagem, à intimidação e ao assassinato de vários adversários políticos.

Dos EUA à Rússia, passando pela Sibéria e pela Guiné Equatorial, percebemos como o petróleo e os poluentes brutos da perfuração intensiva exauram o solo causando danos irreversíveis ao ambiente e como as empresas do ramo nunca são sancionadas, contornando leis e pagando generosamente para escapar às punições legalmente previstas.

Blowout leva-nos numa viagem à volta do mundo, expondo a influência e o poder das indústrias do petróleo e do gás natural (o “Big Oil and Gas”) rematando sobre o “como” e o “porquê” do governo russo ter interferido nas presidenciais americanas de 2016.

No final, Maddow apela aos activistas, jornalistas e eleitores que preservem e protejam as democracias dos seus países da influência destas indústrias nocivas, mas depois de tanto "podre", as soluções mencionadas são poucas e desanimadoras.

É um livro muito bem pesquisado e muito bem narrado... e igualmente deprimente. Alguns parágrafos precisam de ser relidos/rebobinados e ouvidos porque as frases são longas e contêm tanta informação - nomes, datas, locais, estatísticas - que é fácil deixar escapar alguns pormenores. Recorri ao Google várias vezes para associar caras a nomes e ler algumas biografias. É um livro que exige tempo e atenção e que não se lê de enfiada.

Esta versão audiolivro, narrado pela autora, ganhou o Grammy de Best Spoken Word Album de 2019.

*****
(muito bom)

 


17 de novembro de 2020

Ten lessons for a post-pandemic world

Autor: Fareed Zakaria
Género: Comentário social, Política

Idioma: Inglês
Páginas: 320
Editora: W.W. Norton Company (ebook)
Ano: 2020

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Fareed Zakaria é um escritor e jornalista norte-americano de origem indiana, especializado em relações políticas internacionais. No seu currículo conta com colaborações escritas no Washington Post e na Newsweek e programas na CNN, PBS e ABC.

Em Ten lessons for a post-pandemic world, Zakaria propõe encarar a pandemia como uma oportunidade para readaptar a economia mundial e tornar as nações mais prósperas.

O livro menciona várias fontes e adivinha uma pesquisa profunda. Várias reflexões são bastante lúcidas, analisando a corrida pré-confinamento às prateleiras dos supermercados e a uma vacina, comparando o passado e o presente e prevendo o futuro económico-social da Europa e dos EUA, embora com maior enfoque na América do Norte.

O autor defende um combate activo ao individualismo e para que os países não se fechem sobre si mesmos e apostem na entreajuda. O futuro não é unidimensional e demonizar a globalização é um passo largo para um isolamento que poderá alimentar regimes autoritários e nacionalistas. 

Não há que concordar com tudo o que Zakaria escreve, mas devemos pensar nas questões levantadas e na hipótese de reescrever o futuro.

Ten lessons for a post-pandemic world é uma lufada de ar fresco, equilibrando lições de economia e filosofia com os vários possíveis cenários de mudança da situação geopolítica e da ordem mundial.

Índice do livro
Introduction: The bat effect
01 - Buckle up
02 - What matters is not the quantity of government but the quality
03 - Markets are not enough
04 - People should listen to the experts and experts should listen to the people
05 - Life is digital
06 - Aristotle was right: we are social animals
07 - Inequality will get worse
08 - Globalization is not dead
09 - The world is becoming bipolar
10 - Sometimes the greatest realists are the idealists
Conclusion: Nothing is written

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(muito bom)