24 de maio de 2012

As Serviçais


Autor: Kathryn Stockett
Género:
Romance

Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 464
Preço: € 17
ISBN:  978-9-89-637254-5
Título original: The help

Avaliação: ***** (muito bom)


Finalmente li As Serviçais; já o tinha há mais de um ano na estante à espera, mas outros livros passavam-lhe à frente. Excelente leitura, valeu bem a pena a espera.

O cenário é Jackson, Mississippi, onde, na década de 60, ainda não chegou a modernidade. Quer dizer, o vestuário, os penteados e a maquilhagem em voga são seguidos e copiados, mas os direitos humanos ficaram pelo caminho. Em Jackson, ser negro é ser menos que ser branco, é não ter voz; caso alguém discorde do curso "natural" das coisas, não há quem hesite em recorrer à violência, saldando-se casas incendiadas, membros partidos e até homicídios.
Os activistas que ali vivem, independentemente da cor da pele, são compreensivelmente discretos e em número reduzido.

Ao longo das 400 e muitas páginas, temos 3 narradoras: as criadas Minny e Aibeleen e a aspirante a escritora Skeeter. Juntas decidem tentar mudar mentalidades, contando o outro lado da história: o lado dos oprimidos. Skeeter tem noção que o seu valor como ser humano se deve à educação que recebeu da criada da família, Constantine. Aibee e Minny pertencem a gerações distintas mas são as melhores amigas e amparam-se em tudo, servindo senhoras diferentes.

«A Minny é praticamente a melhor cozinheira de Hinds County, talvez de todo o Mississípi. A festa de beneficência da Liga Júnior é todos os outonos e pedem-lhe que faça dez bolos de caramelo para leiloar. Devia ser a criada mais procurada de todo o estado. O problema é que a Minny tem boca. É sempre respondona. Um dia é com o gerente branco do armazém Jitney Jungle, no dia seguinte é com o marido e todos os dias é com a senhora branca para quem trabalha. Se está com a senhora Walters há tanto tempo é por ela ser surda como uma porta.»

Aibee é uma mulher mais velha, sensata e sensível. É uma mulher maternal, que se dedica intensamente ao seu trabalho e às crianças brancas de que cuida. Já Minny é uma espalha-brasas, constantemente enrascada por ser respondona e inoportuna, o que traz problemas acrescidos quando se é negra. Skeeter é branca mas atinge o limite quando é ostracizada por não alinhar pela opinião comum. Este trio complementa-se e, pela sua voz, conhecemos uma realidade que hoje é impensável.

O livro tem momentos comoventes e alterna entre acontecimentos felizes e negros, inerentes à condição humana, numa
história inesquecível cheia de humor, esperança e tristeza, mas com muita força. A autora contou numa entrevista que o livro foi rejeitado 60 (!) vezes antes de ser editado; ainda bem que alguém lhe reconheceu potencial pois é uma história inspiradora e inspirada.

Há um excerto do livro disponível aqui. O realizador Tate Taylor adaptou-o ao cinema em 2011 e eu já botei faladura sobre ele no bué de fitas)
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7 de maio de 2012

A casa secreta

Autor: Nicci French
Género: Policial/Thriller
Idioma: Português
Editora: Quetzal
Páginas: 324
Preço: (aprox.) € 7
ISBN:  978-9-72-564483-6
Título original: The safe house

Avaliação: *** (mediano)

Nicci French é o pseudónimo do casal de autores Nicci Gerrard e Sean French, que se especializaram na escrita de policiais e thrillers. Em Portugal, têm vários dos seus livros traduzidos; depois d'O mundo dos vivos, este é o segundo que leio deles.

Em A casa secreta, seguimos a vida de Samantha Laschen, uma médica especialista em perturbações de stress pós-traumático. Farta do rebuliço londrino, Sam muda-se com a filha, Elsie, para a região costeira de Essex. Porém, a sua nova casa está longe de ser o esperado refúgio. Justamente por ser isolada, torna-se o local escolhido pela polícia para refugiar Fiona Mackenzie, uma jovem que sobreviveu a um ataque brutal que vitimou os pais. Assim matar-se-iam dois coelhos de uma só cajadada: esconder Fiona dos jornalistas e reabilitá-la pelo trauma que sofreu com a ajuda de uma especialista na área.

A história é interessante de seguir, embora os capítulos iniciais relatem mais a perspectiva da polícia do que a da Dr.ª Sam Laschen, que ocupa o grosso do livro. Assim que as circunstâncias do ataque a Fiona é descrito a fundo, focamo-nos na sua relação com Sam e a filha Elsie, que aprendem a viver como uma família na casa de Essex. Há mais sub-enredos na história, além da relação entre Sam e Fiona; aliás, há coisas a mais para pouco mais de 300 páginas, na minha opinião: a relação amorosa turbulenta entre Sam e Danny, a forma insultuosa como a investigação policial é conduzida, com as autoridades a espelharem uma apatia e incompetência gritantes e os problemas da protagonista com o seu novo chefe; é muita coisa ao mesmo tempo.

O que acontece nos capítulos finais, é que a acção passa à velocidade de cruzeiro, com a revelação do autor do crime contra Fiona e os pais assim como de muitos pormenores sobre várias personagens, alguns menos previsíveis, o que é bom. Mas o que mais desilude é o final aberto, feito para deixar um sentimento de inquietação mas que me deixou desapontada (sou uma fã de agatha Christie, gosto de tudo arrematado no final)
, o que é uma pena, visto que A casa secreta tem todos os ingredientes para ser um thriller excelente... não tivesse ficado pendente na resolução.

21 de abril de 2012

Visto do céu

Autor: Alice Sebold
Género: Romance
Idioma: Português
Editora: Casa das Letras
Páginas: 264
Preço: € 15
ISBN:  978-9-72-461947-7
Título original: The lovely bones

Avaliação: ***** (muito bom)

O meu apelido era Salmon e o nome próprio Susie. Tinha 14 anos quando fui assassinada, no dia 6 de Dezembro de 1973. (...) Quando as pessoas ainda pensavam que coisas dessas não aconteciam.
Visto do céu foi o romance de estreia de Alice Sebold e resultou num sucesso literário; ganhou os prémios maiores do meio literário e uma adaptação ao cinema pela mão de Peter Jackson (mais conhecido pela trilogia cinematográfica d'O Senhor dos Anéis).

Logo nas primeiras páginas, a nossa narradora, Susie, revela-nos que foi violentamente assassinada, quem a matou e quais os efeitos da sua morte na comunidade e seio familiar, numa década de 70 imersa em flower power e pouco habituada a homicídios infanto-juvenis. Revoltada com o seu destino, Susie continua a seguir os acontecimentos da família e amigos, a partir do seu céu.
Pelos seus olhos e voz, vemos os pais a tentar lidar com a morte da primogénita, o crescimento dos seus 2 irmãos mais novos e até os movimentos do seu assassino.

Poderosíssimo na forma como aborda os temas de perda, amor e morte e uma escrita hipnotizante, é um livro de leitura, muitas vezes, melancólica e até incómoda, deixando-nos desconfortáveis na descrição da execução homicida e perante as diferentes manifestações da fragilidade humana.

O curioso é que a história me envolveu completamente apesar de eu não acreditar na vida além da morte nem em aparições fantasmagóricas; o livro é tão bom como isso, com a sua prosa simultaneamente crua e delicada, personagens complexas e descrições realistas. Susie é uma narradora deliciosa e, acima de tudo, genuína na sua inocência e frescura adolescentes
, o que torna o relato mais doloroso de ler, pois desde o início que sabemos que a sua morte é definitiva e por mais acontecimentos paranormais que aconteçam, isso nunca se irá alterar. Susie Salmon está morta, não vai casar, ter filhos nem viver a história de amor que deixou em suspenso na terra. E isso é triste. Mesmo assim, Alice Sebold conseguiu imprimir esperança numa narrativa muitas vezes sombria, o que é um feito assinalável. 

Podem ler o primeiro capitulo do livro aqui. Peter Jackson adaptou-o ao cinema em 2009 (escrevi a minha opinião do filme no blog bué de fitas)
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