O
aniversário assinala a estreia de Andrea Bajani em Portugal.
Este escritor italiano, nascido em 1975, é autor de vários
romances premiados e traduzidos internacionalmente.
O
aniversário é o testemunho de um homem que corta todos os laços com a família de origem, decidido a sobreviver a um ambiente dominado por um pai autoritário e uma mãe anulada.
Num discurso sem floreados, o narrador
analisa com precisão clínica a violência psicológica onde
cresceu. O monólogo interior explica a emancipação em várias situações, e como a fuga se tornou o único gesto possível de libertação.
A escrita de Bajani é seca e cirúrgica, expondo
um inferno familiar feito de silêncios, manipulação e
dependência emocional. Apesar de curta, é uma
leitura pesada.
A intensidade e a lucidez do texto trazem uma frieza
que tornam difícil um envolvimento emocional profundo. Mas sentimos sempre a ideia de uma ferida que não cicatrizou no narrador, e que
a sua libertação, apesar de necessária, foi incompleta.
É um livro que provoca alguma, ou muita, angústia, dependendo da sensibilidade do leitor.
«[A minha mãe] voltou ao fogão para cozinhar como antes e para ficar em silêncio, sem que o rosto traísse qualquer dissidência ou mau humor quando o meu pai, depois de nos pedir que disséssemos se o que tínhamos acabado de tirar da travessa era bom, dizia então que tinha sido ideia dele, que ele era a mente e a nossa mãe, apenas o braço.»
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(bom)


