10 de abril de 2026

A Hora dos Predadores

     







Autor: Giuliano da Empoli
Género: Ensaio
Idioma: Português
Páginas: 128
Editora: Gradiva (e-book)
Ano: 2025
Título original: L'heure des prédateurs
Tradução: Jorge Pereirinha Pires

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Giuliano da Empoli é um politólogo, professor e escritor com cidadania italiana e suíça. Foi conselheiro político do primeiro-ministro Matteo Renzi.

The Wizard of the Kremlin / O Mago do Kremlin foi o seu primeiro romance (o meu apontamento sobre o livro aqui), multipremiado e adaptado ao cinema (idem sobre o filme).

N’A Hora dos Predadores, Empoli foca-se no poder contemporâneo e no palco onde as regras deixaram de ser claras, e onde florescem os mais agressivos, oportunistas e amorais — os predadores do título, apelidados também de borgianos (entrada do Wikipédia sobre César Bórgia).

Um dos aspetos mais interessantes deste ensaio é a aproximação entre política e performance. Os novos protagonistas do poder são estrategas e performers — não há uma palavra equivalente em português que capte o sentido de performance/performer; prefiro manter o anglicismo.

A Hora dos Predadores não é tanto um livro pessimista como é lúcido. É sensato da parte do autor recusar simplificações, e expor o leitor à complexidade e ambiguidade do que nos conta, como um dos episódios da subida ao poder de MBS (o príncipe herdeiro da Arábia Saudita), os bastidores da ONU durante uma das suas assembleias, ou a forma de comunicação dos pais da inteligência artificial (IA) moderna (Hinton, LeCun e Bengio).

É uma leitura necessária para compreender as regras (ou a ausência delas) que estruturam o poder moderno.

«Ao longo das últimas três décadas, os responsáveis políticos das democracias ocidentais comportaram-se, face aos conquistadores da tecnologia, exactamente como os astecas do século XVI; confrontados com o raio e trovão da Internet, com as redes sociais e com a IA, submeteram-se na esperança de que ressaltassem sobre eles alguns salpicos de pó de fadas.»

«O poder da IA não tem nada de democrático, nem de transparente. Mais do que artificial, a IA é uma forma de inteligência autoritária, que centraliza os dados e os transforma em poder. Tudo isso na mais total opacidade, sob o controlo de um punhado de empreendedores e de cientistas que cavalgam o tigre na esperança de não virem a ser devorados.»

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(muito bom)

31 de março de 2026

Uma família feliz

     








Autor: Raphael Montes
Género: Thriller
Idioma: Português
Páginas: 367
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2024

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Ouvi falar de Raphael Montes há alguns meses. Montes é um autor brasileiro de thrillers que tem vindo a ganhar cada vez mais visibilidade.

Em Uma Família Feliz, acompanhamos Eva, casada com um advogado em ascensão e mãe de gémeas. A sua vida parece ideal: tem sucesso online com a arte reborn — bonecos hiper-realistas que imitam bebés — e vive com a família num condomínio de luxo, o Blue Paradise.

Tudo parece controlado até Eva descobrir que está grávida. A partir daí, começam a surgir pequenos sinais: comportamentos estranhos, tensões e segredos.

O livro joga muito com a dúvida. Desconfiamos de tudo e de todos, e as personagens nunca são totalmente estáveis. Há várias reviravoltas, o que mantém o ritmo e prende a leitura.

A escrita de Raphael Montes é simples e directa, com capítulos curtos. Não traz nada de novo para quem já está habituado ao género — é um thriller clássico, bem executado.

No final, ficam algumas pontas soltas, sobretudo em relação a pistas secundárias que não são totalmente desenvolvidas.

O livro foi adaptado ao cinema, com realização de José Eduardo Belmonte, sendo que o próprio autor escreveu o argumento para o filme.

«Fico observando os frequentadores do shopping. (...) para os homens, queixo quadrado, barba desenhada, topete discreto e músculos (...); para as mulheres, lábios grossos, maçãs do rosto fartas e um vestido colado ao corpo, marcando bem a bunda e os peitos. Um casal passa por mim e, minutos depois,  outro casal idêntico vem no sentido contrário — parece que são as mesmas pessoas, com roupas diferentes. É como um grande exército de Barbies e Kens, todos com a mesma harmonização facial.»

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(bom)

26 de março de 2026

O adeus a Mário Zambujal aos 90 anos (1936-2026)

 

Fonte: Imagens Google

Mário Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 em Moura, no Alentejo.

Construiu uma carreira de 45 anos dedicada às palavras, passando pela imprensa, rádio, televisão, teatro e literatura. Trabalhou em vários jornais, como A Bola, O Século, Diário de Notícias e Record; foi ainda director do semanário Se7e e presidiu ao Clube de Jornalistas durante 14 anos.

Na televisão, destacou-se como apresentador de programas desportivos da RTP, como Grande Encontro e Domingo Desportivo, e participou também em rádio e na escrita de séries de comédia televisiva (Lá em casa tudo bem; Nós os Ricos; Os Imparáveis).

Autor de cerca de vinte livros, tornou-se especialmente conhecido com Crónica dos Bons Malandros (1980), romance picaresco que alcançou grande popularidade e foi adaptado ao cinema e à televisão. 

A sua obra caracteriza-se pelo humor, pelo olhar atento sobre a sociedade portuguesa e por personagens marginais retratadas com ironia e humanidade.
 

Fonte: Imagens Google

Distinguido ao longo da vida com várias homenagens — entre elas a Medalha de Mérito Cultural de Lisboa e o Prémio Gazeta de Mérito — publicou o seu último romance, O Último a Sair, em 2025. Foi amplamente reconhecido como um dos grandes contadores de histórias do jornalismo e da literatura portugueses contemporâneos.

Numa entrevista ao Expresso, a Dezembro de 2009, disse à entrevistadora, Cândida Santos Silva: «Nunca fui malandro, nem sou. É uma palavra excessiva para caracterizar uma pessoa como eu. Gosto de brincar, de rir, de viver intensamente. Por vezes há alguma malícia nas minhas piadas. Gosto da sensualidade das coisas. Não sou um tipo que guarde rancor. Não tenho paciência para estar zangado com ninguém. Nem estou zangado com a vida.»

Mário Zambujal morreu a 12 de março de 2026, uma semana após celebrar 90 anos.

Fontes: Observador e Wikipédia

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Fonte: Imagens Google

12 de março de 2026

Olive Kitteridge

    





Autor: Elizabeth Strout
Género: Literatura
Idioma: Português
Páginas: 352
Editora: Alfaguara
Ano: 2008
Tradução: Tânia Ganho 

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Olive Kitteridge é um romance de 2008, composto por histórias interligadas, passadas numa pequena cidade costeira (fictícia) do Maine.

Em vez de uma narrativa linear, o livro reúne 13 contos ligados entre si (A Farmácia, Maré Enchente, A Pianista, Uma Pequena Alegria, etc.), cada um centrado em habitantes da comunidade. A Olive do título — uma professora de matemática reformada — é a protagonista em algumas histórias e mencionada de passagem noutras.

Olive é uma figura carismática que percebe de sentimentos, mas não os sabe expressar de uma forma que não magoe ou afaste os outros. É retratada como uma pessoa difícil, directa e antipática. O avançar da acção revela-a ao leitor de uma forma diferente, sem sentimentalismos.

Apesar do cenário soalheiro e ritmo de vida pacato onde tudo se desenrola, os temas de Olive Kitteridge estão longe de serem "solares": isolamento emocional, ambiguidade moral, remorso, envelhecimento, desilusão.

O livro venceu o Pulitzer para Ficção, e foi adaptado para mini-série pela HBO, com Frances McDormand no papel de Olive — a adaptação recebeu vários Emmy.

O livro destaca-se pela forma como transforma pequenas cenas do quotidiano em momentos de reconhecimento moral e empatia. Ao acompanharmos os habitantes, reconhecemos-lhes a sua humanidade.

O resultado é uma leitura calma e reflexiva. 

Há um segundo livro com Olive K. como protagonista, editado em 2019, intitulado A segunda vida de Olive Kitteridge, que acompanha a fase tardia da sua vida — conto lê-lo este ano.
«— Estão ambos a fazer terapia. — Hesitou e olhou em volta.  Não te preocupes com isso, Henry. Na terapia, a culpa é sempre da mãe. Tenho a certeza que sais de lá incólume e a cheirar a água de rosas. — Olive tamborilou os dedos na máquina de lavar. — Tenho de desligar, ela está a fazer uma máquina de roupa aqui em baixo. Eu estou bem, Henry. Volto daqui a uma semana.»

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(muito bom)

8 de março de 2026

O adeus a António Lobo Antunes aos 83 anos (1942-2026)

 

Fonte: Imagens Google

Nascido em Lisboa em 1942, António Lobo Antunes formou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda.

A experiência como médico militar na Guerra Colonial em Angola marcou decisivamente a sua escrita. Dessa vivência nasceram alguns dos seus primeiros romances, como Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979) e Conhecimento do Inferno (1980), obras que o afirmaram como uma das vozes mais fortes da ficção portuguesa do pós-25 de Abril.

Ao longo de mais de quatro décadas publicou cerca de quarenta livros e construiu uma escrita singular, centrada na memória e na exploração da experiência humana.

Entre as suas obras mais conhecidas estão
Manual dos Inquisidores, Auto dos Danados, Exortação aos Crocodilos e Eu Hei-de Amar uma Pedra.

Fonte: Imagens Google

Amplamente traduzido e distinguido com vários prémios, incluindo o Prémio Jerusalém em 2005 e o Prémio Camões em 2007, foi frequentemente apontado como candidato ao Nobel da Literatura — distinção que nunca recebeu e à qual dizia não dar grande importância. 

Mais do que prémios, interessava-lhe o trabalho literário em si: escrevia à mão, sem planos prévios. Dizia viver “em guerra civil” consigo mesmo e descrevia a escrita como um processo intenso e quase físico, comparando o fim de um livro à convalescença de uma doença.

Nos últimos anos afastara-se da vida pública e doara o seu espólio literário à cidade de Lisboa. A sua morte marca o desaparecimento de uma das vozes mais influentes da literatura em língua portuguesa.

A Dom Quixote anunciou que tem previsto, para Abril de 2026, o lançamento do livro «Poemas», reunindo poesia inédita escrita pelo escritor ao longo da vida. 

António Lobo Antunes morreu a 5 de Março de 2026, vítima de doença oncológica.

Fontes: Expresso e Wikipédia

Fonte: Imagens Google