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23 de agosto de 2026

Le chef-d'oeuvre inconnu

       









Autor: Honoré de Balzac
Género: Novela
Idioma: Francês
Páginas: 65
Editora: ePoints (Kindle)
Ano: 2015

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Li Le chef-d’œuvre inconnu (A obra-prima desconhecida), de Balzac, porque foi o livro votado pelo meu clube de leitura.

E ainda bem que assim foi: a última vez que lera Balzac foi no liceu e, tendo em conta a minha pilha de próximas leituras, não sei quando voltaria a este escritor.

Publicada originalmente em 1831, esta novela com menos de cem páginas, gira em torno da criação artística e da obsessão pela perfeição. Balzac tinha 32 anos e estava a iniciar o que viria a transformar-se na La Comédie humaine.

A história passa-se em Paris, no início do século XVII, e acompanha o jovem Nicolas Poussin, ainda longe do pintor célebre que viria a ser, num encontro que tem com os (fictícios) mestres Porbus e Frenhofer.

Frenhofer trabalha há dez anos numa pintura. Quando finalmente a revela, os outros veem um caos de cores, enquanto Frenhofer vê a sua obra-prima.

Há ainda um aspecto sombrio: Gillette, a lindíssima amante de Poussin, fora “oferecida” por ele a Frenhofer para posar, exposta em nome da arte. É uma passagem do conto muito interessante. Nenhum dos homens é capaz de reconhecer que a procura da perfeição deixou de ser criação e passou a ser obsessão.

É um bom texto, actual, com excelentes questões para reflectir e discutir; foi o que descobrimos nessa sessão do clube de leitura.

Li Le chef-d’œuvre inconnu em francês, mas a novela está traduzida em Portugal pela Documenta e, por estar no domínio público, também pode ser facilmente encontrada online, em inglês e noutras línguas.

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(bom)

18 de abril de 2026

Symposium / O Banquete

     






Autor: Platão
Género: Clássicos
Idioma: Inglês
Páginas: 130
Ano: 2012 

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Platão terá nascido em 428 a.C., em Atenas, cidade onde também morreu, aos 81 anos.

Uma das figuras-chave do período clássico da Grécia Antiga, foi filósofo e matemático, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental.

Juntamente com o seu mentor, Sócrates, e o seu discípulo, Aristóteles, Platão lançou os alicerces da filosofia ocidental. 

Entre as suas obras mais relevantes, além d
’O Banquete, contam-se República, Fédon, Górgias, Íon e a Apologia de Sócrates.

Symposium / O Banquete, redigido por volta de 384 a.C., é geralmente considerado o primeiro texto literário-filosófico de um ciclo centrado na reflexão à mesa — neste caso, um banquete entre amigos.

Estudei vários textos de Platão na escola, mas não este — a oportunidade surgiu quando o livro foi o mais votado no clube de leitura a que pertenço.

N’O Banquete, Sócrates, Xenofonte, e Aristodemo, entre outros, alternam entre conversas triviais e discussões de maior alcance, que passam por Homero, a pólis e, sobretudo, o amor.

O texto é um conjunto de ideias sobre o desejo — não apenas como impulso carnal, mas como força estruturante das relações sociais, da produção intelectual e da ambição política. 

A famosa “escada do amor”, apresentada por Sócrates através de Diotima, pode ser lida como uma tentativa de sistematizar o modo como transformamos a atracção em significado — do corpo à ideia, do particular ao universal/
transcendente.

Ao mesmo tempo, há algo moderno na forma como o texto expõe o discurso enquanto encenação de si mesmo: cada interveniente fala tanto sobre o amor quanto sobre si próprio, revelando inseguranças e propósitos. Nesse sentido, o banquete não é apenas um espaço de pensamento, mas também de performance.

Talvez por isso o texto continue a ser lido: não tanto pelas respostas que oferece, mas pela forma como organiza perguntas que ainda hoje são relevantes.

Eu li a tradução inglesa que faz parte do domínio público; a obra está traduzida em Portugal pela helenista Maria Mafalda Viana, com o título O Banquete, via Tinta da China.

«Human nature was originally one and we were a whole, and the pursuit of the whole is called love.»

«
There is no sameness of existence, but the new mortality is always taking the place of the old. This is the reason why parents love their children — for the sake of immortality; and this is why men love the immortality of fame. For the creative soul creates not children, but conceptions of wisdom and virtue, such as poets and other creators have invented.»

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(muito bom)

2 de agosto de 2025

A noite do Professor Andersen

  


Autor: Dag Solstad
Género: Contemporâneo
Idioma: Português
Páginas: 160
Editora: Cavalo de Ferro
Ano: 2018
Título original: Professor Andersens natt 
Tradução: João Reis
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Dag Solstad nasceu em 1941, na cidade costeira de Sandefjord. É um dos escritores noruegueses mais conceituados.

À data deste apontamento, Solstad faleceu há cinco meses, com 83 anos; este é o primeiro livro que leio dele.

Gosto de policiais e de mistérios, e a sinopse d’A noite do Professor Andersen descreve um thriller com contornos hitchcockianos, o que me interessaria.  Mas não me lembro de alguma vez ter folheado nada deste autor, e não fosse este livro ter sido o mais votado no clube de leitura a que pertenço, não sei se o teria lido.

Mas vamos ao que importa: em Oslo, na noite de consoada, Pal Andersen, professor de literatura especializado na obra de Henrik Ibsen – considerado por alguns críticos como o maior dramaturgo desde Shakespeare; escreveu, entre outras peças, Peer Gynt e Hedda Gabler  –, testemunha, da janela do seu apartamento, uma mulher a ser estrangulada no prédio em frente.

O professor, de 55 anos, é divorciado e vive sozinho. Apesar de surpreso, a sua reacção é não fazer nada. Não telefona para a polícia nem comenta o que viu com ninguém.

Os dias passam e o professor sente-se cada vez mais paralisado pela sua indecisão. Retoma os planos de visitar alguns amigos, mas volta sempre ao que assistiu, e à sua apatia.

Este silêncio torna-se o centro do romance. Andersen é inerte, e a espiral de introspecção, culpa e reflexão sobre o sentido da vida e os códigos morais da sociedade moderna, não mudam isso. Ele vê-se como um intelectual moderno: culto, informado, sem coragem para agir.

E quando vê novamente o assassino, num restaurante, surpreende-se como este é um homem banal, "normal".

Para alguns leitores, o autismo social de Pal Andersen será um motivo para abandonar a leitura após alguns capítulos – este é um homem solitário, sem laços afectivos e com amizades superficiais. A escrita foca-se no estado mental do protagonista, e muito menos na acção. E estarmos dentro da cabeça dele resulta numa leitura desconfortável.

A noite do Professor Andersen pode ser lido como um retrato (sombrio) da decadência moral da sociedade moderna.

A escolha deste livro resultou numa discussão apaixonante. Alguns membros do clube interromperam a leitura de vez porque viram o protagonista como alguém desprezível a quem não queriam dar atenção, mas as questões que o livro levanta são valiosas. 

«”Tenho de telefonar à polícia”, pensou. Encaminhou-se para o telefone, mas não lhe tocou. “ Foi um homicídio, tenho de ligar à polícia”, pensou, mas continuou a não pegar no aparelho. (…) “Que devo dizer? Que vi um homicídio? Sim, é o que devo dizer. E então vão rir-se de mim e dizer-me para me ir deitar, e voltar a ligar quando estiver sóbrio”(…)»

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(bom)