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12 de novembro de 2014

Em busca da identidade - o desnorte


Autor: José Gil
Género:
Ensaio
Idioma: Português

Páginas: 64
Editora:
Relógio d'Água

Ano:
2009
ISBN: 978-989-6410834
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José Gil, catedrático em Filosofia, considerado por um seminário francês um dos 25 grandes pensadores do mundo, incendiou vários discursos há uns anos aquando da publicação de Portugal Hoje - o medo de existir

Nunca li o livro, mas lembro-me da agitação causada pelo mesmo, onde José Gil indignou muita gente (que se expressou de uma forma mais ou menos douta) ao falar sobre o pessimismo e a mentalidade reinantes no nosso país, apontando dedos ao período do Salazarismo como causador dos principais traços negativos dos portugueses: somos invejosos, corruptos, chico-espertos, medrosos.

Isso foi noutro livro, mas quando tive a oportunidade de ler este Em busca da identidade - o desnorte, achei que era uma boa oportunidade de ler um autor que já andava a adiar há algum tempo.

O autor considera que «fizemos da identidade o território da subjectividade» e «esforçamo-nos por resistir ao "fora" que aí vem, do exterior ou do interior, que ameaça destruir as nossas velhas subjectividades». Assim, diz José Gil, a única maneira de remover o obstáculo da «identidade» é «deixarmos de ser primeiro portugueses para poder existir primeiro como homens».

A primeira ideia é que este não é um livro para todos. Porquê? Porque as ideias-chave são baseadas em ideias de dois filósofos, Foucault e Ferenczi, cujas possibilidades de terem sido estudados por alguém exterior ao estudo da Filosofia são mínimas (pessoalmente, tenho uma ideia muito vaga de Foucault, tão vaga que não reconheci algumas das ideias que lhe são atribuídas no livro), colocando o leitor numa corda bamba, incerto de como avançar. José Gil explica os conceitos em que apoia o seu discurso, mas isso não torna o que tem para dizer mais interessante (ou claro).

«Há qualquer coisa na sociedade portuguesa que se volta contra os próprios portugueses. (…) O comum do espírito português é pequenamente pragmático – o dia-a-dia. (…) Apenas sei que traz consequências muito nefastas para o trabalho, para o enraizamento de uma certa cultura de elite em Portugal. (…) Gostamos do lazer, o que é bom porque não sofremos do stress do trabalho. Mas porque é que os portugueses gostam de continuar na inércia? É o pequeno gozo das coisas, aquilo que chamo chico-espertismo. Trata-se de uma forma de fuga ao trabalho e, paradoxalmente, de afirmação. Por essência o português não é preguiçoso – quando emigra é dos melhores trabalhadores. Mas cá ainda vivemos numa espécie de ninho, onde o lazer está na ordem das preferências.»

Como leiga no assunto tratado (partindo de conceitos de Foucault e Ferenczi), não consegui extrair muita coisa do livro; li-o atentamente, percebi a maioria do que foi dito mas não lhe achei grande relevância. Do meu ponto de vista, isso atribui-se a dois aspectos de igual importância: 1) não sou o público-alvo deste livro, e 2) o enfoque do livro no chico-espertismo português não foi tratado de uma forma que me interessasse e surpreendesse. O autor questiona mas não dá sugestões de mudança, fala da incompetência política e de como o apelo às massas se baseia numa estratégia da imagem e do discurso (o ex-primeiro-ministro José Sócrates é mencionado nesse sentido) mas nunca avança uma ideia concreta. É tudo demasiado abstracto para mim, o que se traduziu em alguns bocejos.

Não o recomendo nem deixo de recomendar... foi uma leitura morna que não me deu norte.

***
(mediano/razoável)

29 de abril de 2011

A sombra de Foucault

Autor: Patricia Duncker
Género:
Romance

Idioma: Português
Editora: Gradiva
Páginas: 152
Preço: € 10
ISBN:  978-9-72-662599-5
Título original: Hallucinating Foucault

Avaliação: **** (bom)

De vez em quando aventuro-me pela literatura contemporânea, com resultados menos bons. Há excepções. A sombra de Foucault é um desses exemplos. Romance de estreia de Patricia Duncker, editado em 1996, ganhou o prémio Dillon’s First Fiction.

É um livro que se lê bem, pela linguagem acessível e parágrafos resumidos; tem
um tom poético (e até musical)  envolvente. A narrativa trata das relações pessoais, do "peso"  dos textos literários, da loucura e das questões existenciais.

O texto é, a cada linha, uma homenagem ao movimento estruturalista, cujo principal representante foi o filósofo francês Michel Foucault, que, nos seus escritos, apelava ao desenvolvimento de uma ética individual de resistência ao poder; a sua obra encontra-se dividida em 3 estudos distintos: a loucura no mundo ocidental, as articulações entre o saber e o poder, e o triângulo poder/prisões/sexualidade.

«Quem és tu, ponto de interrogação?, eu questiono-me muito. No teu hábito de gala pareces um magistrado. És o mais feliz dos sinais de pontuação porque pelo menos obténs respostas.»

Por esta altura já estarão a pensar que o livro é uma seca, que só interessará e será perceptível a quem conheça ou admire o trabalho de Foucault, mas isso não acontece.

Esta é uma obra de ficção e a figura do filósofo (e consequentemente os seus estudos) apenas servem de base à acção propriamente dita, na medida em que inspiram as personagens no seu quotidiano e na maneira como encaram a vida e o ser humano.

Em todo o livro, o verdadeiro enfoque é na relação que se desenvolve entre um autor famoso, Paul Michel, e um seu fã estudante (e nosso narrador), que tem por ele e pelas suas ideias uma admiração imensa.

A forma como a autora explora a ligação entre escritor e leitor é muito bem ilustrada e quando o nosso narrador, impelido a visitar o instável Paul Michel, internado num hospício, tem o primeiro contacto com o seu ídolo, assistimos a um desconcertante diálogo, onde se espelham cogitações e amarguras. E a narrativa flui, agradável e sem pretensões intelectuais, com o leitor rendido à inteligência e acutilância de Paul Michel.


«Escrevo com o brilho desempoeirado do soalho dum salão de baile. Escrevo para idiotas.»

É um livro difícil de encontrar nas livrarias, mas garantidamente que o encontram no alfarrabista ou nas bancas de livros usados.

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